A Gaivota Farragulha

    quarta-feira, julho 21, 2010

    Uma espécie de final


    (Saiba-se que o norte da Síria foi onde um dos locais mais bonitos onde o autor já esteve. IndigoeoMar)

    Caros leitores,

    Como os poucos que visitam este blog terão eventualmente reparado, o ritmo de publicação tem vindo a abrandar nos últimos tempos, sendo que, desde a morte de José Saramago, nada mais foi publicado neste blog. Na realidade, estava a adiar o momento em que vos teria de dizer, mas sobretudo reconhecer para mim próprio, que o percurso de vida deste blog, o Indigo e o Mar, chegara ao fim.

    Vários motivos me levam a tomar esta decisão. Em primeiro lugar, a temática condutora a que os textos sempre regressavam - a situação política em Portugal - entrou numa fase de auto-repetição que serve mal de inspiração a quem escreve por gosto e missão auto-imposta. No fundo, e apesar das tristes transformações que hoje que se dão no nosso país, muito pouco se poderia acrescentar ao que já foi escrito sobre o actual Primeiro-ministro, o Governo, os partidos da oposição e a sociedade civil. Infelizmente, não consegui atingir o meu objectivo de usar esta plataforma para incitar a um debate fruitivo sobre a direcção estratégica do país. No melhor dos casos, as minhas palavras causaram algumas reacções vitriólicas que pouco ou nada contribuíram para o diálogo essencial que deveríamos ter.


    Por outro lado, a minha vida está também prestes a sofrer uma grande mudança, pelo que decido romper com aquilo que foi até agora. Como alguns de vocês sabem, vou começar uma nova vida ‘across the pond’, como os ingleses gostam de se familiarizar com o Atlântico, que certamente implicará uma adaptação a novos modos de pensar, ser e estar. Não vos pretendo entediar, como fiz outrora, com histórias da minha experiência numa nova sociedade; acima de tudo, porque este blog nunca foi sobre mim e sobre a minha vida, mas sobre o mundo e, de vez em quando, sobre as minhas ideias sobre ele. Por isso, deixo para mim próprio ou para aqueles que mantiverem o contacto comigo sobre a minha vida nos próximos meses.


    Por fim, e porque temos de ser sinceros, abandono este blog por não conseguir construir a base de leitores que ambicionava. Não raramente, sentia que apenas eu me lia a mim próprio. Inicialmente, não levantou objecções de consciência, mas à medida que os textos se foram tornando mais ambiciosos fui sentindo que o meu tempo era cada vez mais desperdiçado neste blog. Em nome de que fim, escrever sobre a política e as mudanças que deveriam ser tomadas se ninguém nos lê, e se ninguém nos contrapõe – para tal, guardo as ideias na segurança do meu pensamento que assim sempre as conjuro melhor para uso futuro. Reconheço que o problema seria meu: o estilo dos textos, o vocabulário empregado, o design do blog, se calhar até, a falta de uma linha objectiva e definidora do blog no seu todo. O Indigo e o Mar era um blog que se propunha publicar sobre a vida contemporânea mas que talvez se devesse dedicar em exclusivo a uma das suas várias facetas.


    Em suma, são estes os pontos de reflexão neste momento. São conclusões de um final, mas quem sabe talvez também ideias para um começo. A fonte não secou. Continua aqui, bem vivo, o desejo de escrever sobre nós e o mundo e de partilhar com todos vós os meus pensamentos. Simplesmente, hoje reconheço a necessidade de encontrar um veículo melhor para as minhas ambições. E é disso que se trata este adeus. De um período de avaliação e regeneração.

    Obrigado por me acompanharem!

    Indigo

    terça-feira, junho 22, 2010

    Retrato de um português enquanto escritor



    (Simplesmente, José Saramago. Miopia)


    José Saramago, escritor maior da língua portuguesa, morreu sexta-feira passada aos 87 anos na sua casa em Lanzarote.

    Curiosamente, não é a obra do homem que mais nos ocupa neste momento da sua morte. São os prémios que alcançou, as controvérsias que protagonizou, a longa e tumultuosa vida que levou e, agora até, as personalidades que ao seu funeral acudiram. Por minha parte, preferiria recordar Saramago sem Nobel nem polémicas - ambos apenas o vulgarizaram nas bocas do mundo – mas reconheço que não existe opção. Saramago será sempre os livros mas também o Nobel, o exílio de Portugal, o comunismo, o ateísmo, o anticlericalismo, o iberismo e outros ismos que foram afixando a cada palavra sua. Para os outros talvez possa ser apenas o escritor, mas não para nós, portugueses, falantes da língua que enalteceu com luzidias palavras - Saramago será sempre obra e vida.

    Da excelência dos seus escritos, pouco resta dizer. Para mim, Saramago seria menos ‘operário da palavra’, como tanto gostava de se definir, do que trapezista da trama, cada livro seu tão surpreendente como intrincado na elaboração de universos equidistantes habitados por personagens aparentemente vulgares e certamente familiares ao leitor português. Quem acusava, e ainda acusa o escritor de ‘não gostar do seu país’, ignora com certeza o carinho com que apontava o carácter nacional: esta afectividade langorosa entre homens, mulheres e animais, esta honestidade singela, estes renitentes usos, costumes e tradições. Insistiam em situá-lo na escola sul-americana do realismo mágico, na tradição de Gabriel García Marquéz, Jorge Amado e Jorge Luis Borges; porém, Saramago distinguia-se. A miscigenação entre fantástico e terreno nos seus livros ia além do estritamente harmonioso e bolinava a rajadas bruscas entre o surrealismo ibérico e a lusitana propensão para o trágico. Sentia-se seguro, consciencioso, simples e escrevia por longas alíneas que espavoriam leitores, não sabendo que esta é voz de quem desafia a idade, uma espécie de chave mística para uma espécie de longevidade. Por transbordar sabedoria humana em avassaladoras composições, Saramago detinha singularidade no mundo da literatura mundial e merece a nossa adoração, com ou sem Nobel.

    Sobre a sua vida enquanto homem público é-me mais difícil qualificar. Por dois motivos: primeiro, porque não vivi, nem sofro forte emoção, sobre o período mais conturbado da sua existência, ou seja, o período pós-revolucionário; segundo, porque nunca tive oportunidade de conhecer o homem em causa. Ainda este ano, por altura da homenagem a Agustina Bessa-Luís na Fundação Fernando Pessoa, pensei em ir a Lisboa para ouvir ao vivo o melhor escritor português contemporâneo falar sobre a melhor escritora portuguesa de sempre. Saramago estava já muito doente e não compareceu. Será sempre uma pena minha ter perdido todas as oportunidades de o ver e ouvir em pessoa. Mas segui com atenção as suas comunicações públicas na televisão, na imprensa e no seu blog, O Carderno de Saramago. Destas ficou a impressão de um homem marcado pelos revezes do início da sua vida, revoltado contra a homogeneidade do senso comum e de um guerreiro indefectível por uma moralidade pessoal que professava religiosamente. Aliás, só um homem profundamente convicto numa qualquer fé poderia ter dedicado tanto tempo e papel a rejeitar uma outra religião, neste caso a Igreja Católica. Nesta luta de titãs existia tanto ódio que só poderia haver uma sombra de amor olvidada no passado. Seja como for, impõe-se demandar se numa sociedade dita religiosamente livre, não haveria lugar no dealbar do século XXI para um crítico da Igreja? Não é essa tolerância que, afinal, nos distingue dos 'fundamentalistas árabes'?

    Não posso oferecer a resposta, mas acho que Saramago gostava que pensassemos sobre estas questões. Pois, acima de tudo, Saramago gostava de provocar e, diz quem o conheceu, adorava discutir. Sempre que aparecia em público vinha armado de uma frase cirurgicamente manobrada para despoletar a indignação nacional. Infelizmente, Portugal não aprecia provocações. Obriga-o a pensar, a explicar aspectos da sua existência que considera melhor arrumados no fundo armário da memória nacional, por baixo de todos os grandes êxitos e delitos menores. E, em todas as grandes controversas que protagonizou, sejam elas sobre a religião, a sobrevivência do Estado ou a direcção política do país, Saramago foi retaliado com acusações e insultos mas apenas raramente com argumentos. Acredito que sofresse com esta nossa natureza, mas também que se divertisse. Fazia-o parte de nós. Uma parte hostil, distante, mas, ainda assim, um parceiro incontornável do debate português. Saramago era, afinal, um irmão difícil que, se não em vida, abraçaremos em morte. Até sempre.

    sexta-feira, junho 11, 2010

    Insustentável!?! Eu!?!


    (No Portugal do século XXI, até o Camões se tornaria adepto da selecção. Os Minorcas de V.V. de Rodão)


    Apenas alguns excertos de uma notícia publicada no Público ontem, dia 10 de Junho de 2010, no mesmo dia em que se abriu uma polémica porque o Presidente da República disse que a situação do país era 'insustentável':

    "Numa altura em que cada vez mais se discute se Portugal deveria recorrer ao pacote de ajuda financeira da UE-FMI, o instituto que gere a dívida portuguesa, o IGCP, realizou ontem uma emissão de Obrigações do Tesouro a 10 anos em que a taxa de juro obtida foi de 5,225 por cento, a mais alta desde, pelo menos, 2006 e possívelmente desde a criação do euro. A taxa exigida à Grécia, no pacote de ajuda que conta com dinheiro português, é de cinco por cento. Esta poderia ser também a taxa exigida a Portugal, caso fosse requerido pelo Governo o acesso ao mesmo tipo de fundo."
    (...)
    "O leilão a 10 anos, no montante de 816 milhões de euros, teve uma procura 1,8 vezes superior à oferta, e a taxa de juro a pagar, de 5,225 por cento, ficou 0,702 pontos acima dos 4,523 por cento do último leilão, realizado a 13 de Maio. Por causa desta subida de taxa, a emissão a dez anos feita ontem vai ficar 57 milhões de euros mais cara para Portugal, durante os próximos dez anos."
    (...)
    "Apesar da subida das taxas, a emissão de dívida de ontem foi vista pelo Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças, Carlos Pina, como exemplo da confiança dos investidores em Portugal, afastando, assim, a necessidade de o país recorrer ao pacote de ajuda financeira da UE e do Fundo Monetário Internacional. "Está fora das nossas hipóteses de trabalho", declarou à Reuters."
    "Estas declarações surgem depois de Teresa Ter-Minassian, que liderou a equipa do FMI que em 1983 esteve em Portugal, ter defendido, em entrevista ao Jornal de Negócios, que seria melhor Portugal recorrer já ao pacote de ajuda da UE-FMI."

    Triste mesmo é que notícias como esta saiem todos os dias nas páginas dos jornais portugueses. E todos os dias se extinguem num aterro qualquer, como se não dissessem respeito a ninguém. Mas a mim, dizem-me. E tenho a dizer ao Senhor Presidente da República, com o devido respeito, que está na altura de demitir este executivo. As notícias que vêem hoje a público (sobre as quais muitos de nós já tinhamos graves suspeitas), vêem apenas acrescentar à incapacidade deste Governo para liderar o países neste momento difícil. Basta!

    quarta-feira, junho 09, 2010

    Quem tramou Helen Thomas?




    Quem seguiu as notícias nos últimos dias terá certamente notado o alarido sobre a reforma de uma correspondente da Casa Branca de 89 anos, chamada Helen Thomas. Expectável? Para os que conhecem a carreira desta intrépida jornalista que, desde os tempos de JF Kennedy, detinha lugar cativo na primeira fila das conferências de imprensa na Casa Branca a notícia é pelo menos desconcertante. Helen Thomas estava tão perto do Olimpo quanto será alguma vez permitido a um vulgar jornalista estar (mais informação e fotografias sobre o percurso de Helen Thomas no site do The New York Times). O seu afastamento foi especialmente perturbador pelas condições em que teve lugar.

    Helen Thomas foi traída por um meio que não sendo da sua época, ela fez seu contemporâneo: o vídeo instantâneo. Há algumas semanas atrás, o rabbi David Nesenoff de Long Island e o seu filho visitaram a Casa Branca por motivo de um evento de comemoração da história Judia. Nos jardins do local, deparam-se de súbito com a legendária correspondente e o rabbi decidiu colocar-lhe uma pergunta para a câmara: que conselho daria aos Israelitas? A resposta de Thomas, que poderão observar acima, foi prolificamente difundida na internet, gerando uma onda de condenação que acabaria por forçar o seu afastamento. E, assim, acabaria a carreira da mulher que desafiou todos os estereótipos do meio em que se movia e que até Fidel Castro fez tremer.

    As declarações de Helen Thomas são, de facto, reprováveis. Vários colegas da senhora acorreram a lembrar que os seus pais eram Libaneses e que, no fundo, Helen nunca conseguiu ultrapassar o ressentimento familiar contra os Israelitas. Mais concretamente, insinuar que a Palestina não é ‘a casa’ dos Israelitas é uma declaração incendiária e até insultuosa que ignora os muitos judeus que sempre viveram na região. Para além do mais, Thomas negligência também o facto de os judeus terem sido forçados, através de actos brutais e inenarráveis, a abandonar as supostas ‘casas’ na Alemanha e na Polónia. De novo, este tipo de retórica não contribui para que ambos os lados, Israelitas e Palestinianos, possam confiar nas intenções um do outro e para que assim possam chegar a um consenso sobre a terra que ambos ocupam.

    Por outro lado, a reacção que o vídeo provocou assim como a consequência que causou - a reforma de Helen Thomas - parecem desproporcionais à gravidade do delito. Todos os dias, jornalistas, comentadores e políticos americanos proferem afrontas à dignidade e condição do povo árabe. Chama-lhes ‘atrasados’, ‘sanguinários’, ‘desonestos’, amalgamam-nos numa só categoria, confundindo-os uns com os outros, desejam o seu declínio e conspiram publicamente para alcançar esse fim. Porém, nenhum deste é forçado a pedir a demissão ou a reforma. Esse ponto de vista, infelizmente, é aceite na América dos dias de hoje. Mais a mais, Helen Thomas não ocupa nenhum cargo de Estado e não frustrou as expectativas que um grupo de eleitores depositou nela. Helen Thomas é uma jornalista, aliás comentadora era o seu título oficial, que foi interpelada na rua para dar uma opinião pessoal sobre um tema. Proferi-la não representa nenhum crime. Pelo contrário, forçar a sua reforma como consequência da sua opinião, representa um grave atentado à liberdade de expressão.

    segunda-feira, junho 07, 2010

    Da mudança


    (O inegualável faro político de Banksy. The Bomberopoulos Report)

    Um dia destes, nos anais de terminologia política surgirá, em frente à definição de ‘mudança’, o nome e quiçá a fotografia de um homem pesaroso e cinzento, trajando um vestígio farfalhudo e fossilizado de um bigode, chamado David Axelrod. Porém, enquanto principal estrategista político de Barack, o candidato, e de Obama, o presidente, Axelrod revolucionou a forma como a América e o Mundo fazem política. Foi Axelrod quem um dia olhou para este jovem-aspirante-a-cargo-político-de-destaque e reviu nele a personificação da poderosa ideia política de ‘mudança’. Afinal, quem melhor poderia representar a ‘mudança’ na política americana do que um homem preto, fruto de um lar desfeito, educado pelo quatro cantos do mundo e chamado Barack Hussein Obama? A ideia de ‘mudança’ provou-se tão eficaz que, em breve, não só dominaria as eleições presidenciais americanas, como seria presença incontornável em discursos políticos por todo o mundo, de todas as facções e em todos os contextos. O mundo, ficou a saber-se, queria mudar. Mas para o quê?

    Olhando para trás, a ideia de ‘mudança’ como ferramenta política parece um desenvolvimento natural. A ‘mudança’ existiu desde que o homem é homem e a mulher, mulher, e a comprová-lo está o magnânimo processo de transformação humana que hoje referimos vulgarmente como ‘evolução’. Seria talvez então mais acertado dizer: mudo, logo sou humano – pois pensar e existir são tarefas que muitos outros animais, como o cão, o macaco e o golfinho, também exercem. Existe, na realidade, uma dimensão mística na palavra ‘mudança’ que mobiliza os seres humanos e que desde cedo foi reconhecida pelas religiões. Os hindus e os budistas reconheceram-no nas sucessivas reincarnações dos seres vivos, os egípcios e os maias nos gigantescos templos que ergueram aos deuses do sol, da lua e das estrelas, Sócrates e Platão nos seus diálogos sobre ‘o devir da vida’, os romanos na sua suprema batalha contra a lei da morte, enfim os judeus, os católicos e os muçulmanos na convicção de a fé os ajudaria a melhorar de dia para dia. À excepção de alguns períodos, considerados os menos felizes da nossa história colectiva, a ideia de que a vida muda, o mundo muda e os homens também podem mudar, prevaleceu sobre a vida terrena das gentes. A ‘mudança’ é pois o reino da oportunidade, do optimismo e da força proclamadora do futuro. Neste sentido, parece então estranho que a mudança apareça como pulmão de retórica política apenas no dealbar do século XXI.

    Parte da justificação poderá originar do facto de a democracia ou a alternância de elites administrativas ser coisa recente na história dos homens. Em mil anos de história, Portugal viveu 900 sobre monarquia e as breves e repentinas mudanças resultaram da intervenção de forças externas ou de restituições à situação original. Quem, nos tempos do Império Romano, andava a pregar ‘a religião da mudança’ às massas? Nessa altura, como outrora mais tarde, a ‘mudança’ era essencialmente uma questão de vida ou morte entre os dignitários dos cargos políticos. No entanto, apesar de válida, tal explicação não poderá justificar a relutância em trazer a ‘mudança’ para o primeiro plano mesmo nos momentos em que a competição entre elites poderia decorrer sem violência, como nos últimos duzentos anos. A ‘mudança’ estava presente, mas não era identificada pelo seu nome próprio – falava-se em ‘novas’ políticas e em ‘novos’ intervenientes.

    O problema da ‘mudança’ é que exige, ou pelo menos exigia, uma acção em conformidade; e esta traduzia-se geralmente numa redefinição do papel, do desempenho e da avaliação das classes políticas face à sociedade. ‘Mudar’ era, antes de mais, retirar privilégios e autonomia aos políticos e partilhá-los com o povo, onde, segundo as ideias de contracto social que estão na base do sistema de democracia liberal, reside a soberania. A ‘mudança’ requeria também líderes carismáticos e dotados da palavra que conseguissem reunir consenso entre populações, ou seja, explicar-lhes porque esta ou aquela medida seria boa e necessária para elas. Também neste sentido, Obama foi o emissário certo da mensagem da ‘mudança’. No entanto, resistem dúvidas quanto aos dotes de outros advogados da ‘mudança’, de Gordon Brown a David Cameron, de José Sócrates a Pedro Passos Coelho, para fazer vigar os desafios inerentes a esta mensagem. Acima de tudo, sobram hesitações sobre o verdadeiro empenho dos políticos, e, na realidade, das populações, na ‘mudança’, para além de um recurso estilístico de arrebatamento eleitoral. Conhecendo o potencial místico da palavra ‘mudança’ assim como a sua infindável amplitude semântica, podemos senão franzir o sobrolho perante o seu uso difuso.

    ‘Mudança’ pela ‘mudança’, apenas como parceira destacada de slogan político, preenche zero e engloba nada. É nada mais do que a última grande ideia populista dirigida a um eleitorado eternamente disposto a acreditar em alterações no comportamento de outrem que poderão ter efeitos positivos na sua vidinha pessoal, limpas de suor ou sangue, que os enlevam encantados até às urnas para depois lhes servir o vil veneno: a ‘mudança’ na existe, toda a política é igual. Mas não é verdade: a ‘mudança’ existe e nem toda a igual equivale ao mesmo.

    Existem, isso sim, elementos que validam a ‘retórica de mudança’. Elementos que devemos exigir sine qua non para acreditar na ‘mudança’. Elementos que, nos dias em que vivemos de extrema incerteza e preocupante desvario, deveria advertir-nos e aconselhar-nos contra percursos menos ajuizados. Assim, e porque cada vez mais nos aproximamos de um momento de transformação na sociedade portuguesa e europeia, termino esta minha digressão sobre a ‘mudança’ com a enumeração dos três elementos que considero fundamentais para que possamos acreditar num qualquer projecto de ‘mudança’:

    1º - Para haver ‘mudança’ deve existir primeiro a consciência do estado presente. Como pretender mudar, se não sabemos em que situação se está? Por exemplo, se eu pretendo emagrecer devo descobrir primeiro se estou gordo e qual a melhor dieta para mim. Achar, não basta. Caso decida emagrecer e não precise, posso chegar a situações perigosas (do género, anorexia ou bulimia) ou posso andar a perder tempo e energia com uma decisão que não resolve o meu verdadeiro problema (por exemplo, um problema psicológico). Assim, a ‘mudança’ exige primeiro diagnóstico e depois o conhecimento geral dessa situação.

    2º - Não existe ‘mudança’ sem vontade. Parece-me que grande parte dos problemas que começam a surgir no plano da ‘mudança’ é que as populações que votaram em favor dela não estão agora dispostas a implementá-la. A ‘mudança’ foi encarada numa perspectiva estritamente individualista do benefício pessoal. Porém, a verdadeira ‘mudança’ exige uma vontade maioritária, determinada e consciente de alterar ou melhorar uma situação anterior.

    3º A ‘mudança’ é um processo delineado com dois pólos definidores: a partida e a chegada. Ou seja, não poderá acontecer a ‘mudança’ se não houver um plano do quê e como se pretende alcançar. Poderá até não se atingir o objectivo inicial, mas, pelo menos, existe uma ideia orientadora da nossa acção. A ‘mudança’ exige uma opção de caminhos, uma definição de estratégia que é fundamental para que se concretize.



    Julgo que estes três preceitos são cruciais para compreender o tempo que vivemos. No plano português, merecem  especial atenção porque, apesar dos diversos programas políticos que se apresentam ‘de mudança’, vemos pouco na direcção destes três elementos. A julgar pelas discrepâncias entre as declarações do governo e dos analistas económicos não existe consciência da situação em que estamos; a julgar pela quantidade de automóveis topo de gama nas auto-estradas portuguesas continua a haver muito pouca vontade de mudar; e, por último, ainda não vi, nem ouvi nenhum plano estratégico para o futuro de Portugal. Portanto, meus amigos, enquanto tais circunstâncias não mudarem, não esperemos a 'mudança' neste país.

    segunda-feira, maio 31, 2010

    Uma grande confusão



    As imagens mostram o momento em que as forças israelitas atacaram um dos barcos que, esta noite, tentava furar o bloqueio israelita de Gaza. Neste momento, ainda pouco se sabe sobre o que passou. Os grupos humanitários reclamam uma operação ilegal do exército israelita, levada a cabo em águas internacionais. Por sua vez, o exército israelita diz que os tripulantes dos navios forçaram a intervenção militar, visto terem disparado armas em direcção aos barcos que escoltavam os navios humanitários. Seja como for, este incidente é já um fiasco de relações públicas para ambas as partes e promete marcar o clima na região durante os próximos tempos. Pior ainda, parece ser a intervenção da Turquia neste conflicto que poderá apenas contribuir para escalar as tensões na região. Para seguir com atenção e preocupação.

    quinta-feira, maio 13, 2010

    Império à Deriva




    Segundo as palavras de Patrick Wilcken, autor do livro Império à Deriva (no original, Empire Adrift), a fuga da corte portuguesa para o Brasil no dia 25 de Novembro de 1807, dificilmente poderia ser mais vexatória e traumática para os intervenientes:

    "A saída do príncipe regente seria discreta, o próprio embarque uma experiência pouco edificante para um soberano habituado a gozar de exuberantes demonstrações de devoção. No porto não houve baldaquinos, colgaduras ou tapetes de flores para o monarca de partida, antes uma passadeira rudimentar - um par de pranchas de madeira, estendidas sobre a lama - que levava da carruagem até à beira do cais. D. João estava visivelmente abatido pela provação e teve de conter as lágrimas quando embarcou no esquife debaixo de chuva torrencial."
    (pg. 39)

    E, no entanto, após leitura livro, que abrange desde a famigerada partida até ao regresso forçado a 4 de Julho de 1821 (e à independência do Brasil no ano seguinte), fica-se com a sensação que este afinal terá sido o momento mais dignificante da conturbada regência e reinado de D. João VI. Pois, se em relação à fuga para o Brasil Wilcken reconhece o mérito da decisão do monarca para a manutenção do império, quanto ao resto da história traça uma imagem atrasada e perversa dos portugueses. Desde “a tão deficiente frota real” (em contraste, com a esquadra britânica que a acompanhou), à “praga de piolhos que se espalhou pelos convés a abarrotar” forçando D. Carlota e as princesas reais a rapar as reais cabeleiras, até às “colunas de ar putrefacto que subiriam através das escotilhas de navios que, em muitos casos, não serviam há anos; as longas filas para usar as ‘cabeças’, uma plataforma fixada ao bojo da ré e deixada suspensa sobre o rasto do navio, que servia de casa de banho ao ar livre”, percebe-se a intenção em concentrar nos aspectos menos honrosos e mais sensacionalistas da história.

    Chegados ao Brasil, os membros da família real “apresentavam-se como caricaturas da realeza europeia da sua época”, uma “família mergulhada na infelicidade, na desconfiança e na frustração.” D. Maria I era louca; D. João VI era fraco e indeciso e possuía o infeliz talento de se rodear de pessoas incompetentes, antiquadas e corruptas (Wilcken levanta também dúvidas quanto à sua orientação sexual, referindo a íntima relação com um dos seus camareiros); D. Carlota era sexual e politicamente promíscua, lançando o terror sobre todos os que cruzavam o seu caminho, nomeadamente o marido; D. Pedro era ignorante e libertino que chocava as cortesãs ao tomar banho nu na praia de Flamengo; e D. Miguel, o favorito de D. Carlota, desenvolveu, pura e simplesmente, uma “personalidade mais sinistra”. Da política e dos assuntos mundanos, fica o relato da teimosia portuguesa sobre a continuação da escravatura, da postura calculista e castradora da corte portuguesa perante o desenvolvimento do Brasil e da administração desastrosa e cruel de D. João VI. Tanto deboche é apresentado sobre o pano de fundo dos corajosos e dedicados biólogos ingleses (os primeiros a estudar a vegetação da terra), dos dinâmicos e espertos comerciantes europeus e, sobretudo, da bela e culta D. Leopoldina, que veio da Áustria para casar com D. Pedro, quem “tinha queda para as estrangeiras”. Não obstante, sobre o primeiro encontro dos prometidos, Wilcken escreve:

    “O que ele viu era inesperado – os olhos azuis, o cabelo loiro aos caracóis e a figura sólida, à alemã, de D. Leopoldina eram pouco habituais aos olhos latinos.”
    (Pg. 237)

    Finalmente, depois de sucessivos fracassos do outro lado do Atlântico, a corte regressa a Portugal. De novo, Wilcken dá-nos um retrato desanimador do retorno dos filhos pródigos a casa:

    “Cortesãos curtidos pelo sol, vestidos com golas de tufos, calções pelo joelho e cabeleiras empoadas andavam pelos convés, com uma aparência mais do século XVIII que do século XIX. A princesa Maria Benedita, agora com setenta e quatro anos, usava um vestido preto bordado a diamantes, parecendo, nas palavras do embaixador francês Hyde de Neuville, “um retrato que saiu da moldura.”
    (pg. 275)

    Em suma: na perspectiva de Patrick Wilcken a passagem da corte portuguesa pelo Brasil foi uma boa oportunidade para vituperar o ridículo do poder. Sem dúvidas, a história portuguesa foi pródiga em elementos pouco dignificantes e lastimáveis como a brutalidade da escravatura, a perseguição da Inquisição e a indiferença do centro cosmopolita às necessidades e tribulações dos coloniais, que merecem maior discussão. Não está em causa a disfuncionalidade dos Bragança da altura, nem a beleza e conhecimento de D. Leopoldina. Mas, é necessário notar que o livro de Wilcken pretere aspectos cruciais, como a adesão da corte à transição para o Brasil, os encontros culturais entre europeus e sul-americanos e as consequências para ambos deste acaso em favor de detalhes ‘picantes’ que pouco acrescentam à história de ambos os países. Por explicar fica sobretudo a tristeza com que os cariocas se despediram da corte portuguesa e a felicidade com que o povo português os recebeu treze anos depois do abandono. Fica por explorar aquela que, a meu ver, é a característica definidora do império colonial português e, sobre o qual, este período histórico pode guardar as pistas mais elusivas: a afinidade afectiva e cultural entre portugueses e sujeitos coloniais. Mas isso, seria provavelmente esperar demais de um sujeito da coroa britânica.

    Li este livro porque o julguei apropriado aos tempos difíceis que atravessamos. Fui à procura de esperança, mas confesso que não a encontrei. Porém, aprendi uma lição que talvez seja mais valiosa: se não formos nós a apreciar os nossos feitos, os outros não o farão por nós. Adiante.