A Gaivota Farragulha

    quarta-feira, janeiro 28, 2009

    Velocidade global


    Ainda ontem publiquei um post sobre a reestruturação da política externa dos EUA por Barack Obama, nomeadamente através da abertura ao diálogo no Médio Oriente, e hoje chegam já os primeiros resultados. A impressão que fica é de resultados mistos: por um lado, a Russia anunciou a suspensão do plano para colocar mísseis no seu enclave de Kaliningrad, entre a Lituânia e a Polónia, face à boa vontade da nova administração em Washington; por outro lado, o Presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, aproveitou para fazer um rol de acusações contra os EUA e exigir um pedido oficial de desculpas pelos 'crimes' cometidos contra o povo iraniano. O correspondente da BBC em Teerão descreveu o discurso como um dos mais duros alguma vez proferidos pelo Presidente contra os EUA. No entanto, Ahmadinejad mostrou-se esperançoso com a possibilidade de mudança em Washington. Por isso, fica a dúvida se o discurso é realmente uma posição de forças em Teerão ou um mero espectáculo para agradar ao eleitorado iraniano que irá a eleições em Junho. Ficaremos atentos.

    terça-feira, janeiro 20, 2009

    Um dia na história


    Prince Estabrook era um escravo que no dia 19 de Abril de 1775 se tornou no primeiro homem negro à lutar pela independência americana. Tirei esta fotografia na pequena cidade de Lexinton, perto de Boston, em Massachusetts, onde exactamente começou a revolta das colónias norte-americanas contra o Império Britânico. No dia em que Barak Obama se torna no primeiro Presidente negro dos EUA, não posso deixar de pensar em todos aqueles que contribuíram para que se chegasse a este momento histórico. Mais do que encetar um novo começo, a 'inauguração' de Obama reinvindica a história. Porventura seja isso que mais nos inspira neste dia na história.

    terça-feira, janeiro 13, 2009

    A Guerra pela Paz

    Numa das últimas aulas que tive na LSE sobre o conflito israelo-árabe, o professor Sumantra Bose, director do departamento de Governo e autor de inúmeros livros sobre resolução de conflitos, disse-nos que o fracasso de processos de paz no Médio Oriente invariavelmente preconizava uma nova escalada de violência. Segundo essa lógica, o esgotamento da esperança na diplomacia abriria espaço para aqueles que promulgavam apenas a solução militar para o conflicto, ou até mesmo tiravam partido da manutenção do status quo para alcançar posições de comando em ambos os lados do conflito. Foi assim em 2001, quando Ariel Sharon aproveitou a quebra das negociações entre Yasser Arafat e Ehud Barak em Camp David para visitar o Monte do Templo em Jerusalém, epicentro do conflicto, incitando o início da segunda Intifada e conseguindo a sua eleição meses mais tarde como Primeiro-Ministro pelo partido da direita israelita, Likud.

    Hoje, enquanto a ofensiva israelita prossegue sobre a cidade de Gaza e o número de mortos palestinianos se encavalita sobre o milhar, parece-me que a memória desse fracasso está mais viva do que nunca entre o dito 'campo de paz'. Se é certo que a presente operação é descendente directa da guerra fria entre Tel Aviv (e Washington) e Terão e da desastrosa invasão do Líbano em 2006, é também indiscutível que a ofensiva de Gaza representa uma última tentativa de evitar o fracasso de mais um processo de paz. Lançada em 2007 na conferência de Annapolis por George W. Bush e Condolezza Rice, a iniciativa de paz tinha como objectivo a concretização da 'two-state solution' para o território: aos Palestinianos caberia a responsabilidade de respeitar o direito de Israel existir, ao passo que os Israelitas deveriam criar as condições necessárias para o estabelecimento de um Estado viável na Cisjordânia ('West Bank') e na Faixa de Gaza. Apesar das óbvias reticências de ambas as partes em relação ao plano, nomeadamente a dificuldade em imaginar a viabilidade de um estado palestiniano dividido em dois e cercado por um forte aparato militar, os desejos de alcançar a paz ou de transformar positivamente a tão antiga disputa, inspirava alguma esperança. Porém, o processo de paz padecia de uma fragilidade maior, na altura salientada por alguns comentadores e especialistas na região, nomeadamente pelo meu professor.

    Diriam estes que a paz não será alcançada sem o envolvimento de todas as partes, entre as quais se destacam as facções mais violentas e radicais do conflito, os ditos ‘terroristas’, nas negociações. Subentende-se, é claro, o respeito por alguns critérios mínimos para que esses grupos possam participar das negociações. Porém, a sua inclusão é essencial para o sucesso do processo, como nos demonstra o caso do IRA nas negociações de paz na Irlanda do Norte. Na teoria, esta posição tem por base três argumentos. Em primeiro lugar, salienta-se que o processo de paz visa geralmente a extinção das actividades dos chamados grupos ‘terroristas’ e não as das facções mais moderadas de cada lado. Por exemplo, no caso do conflito israelo-árabe, o processo de paz visa o fim dos ataques protagonizados pelos grupos mais radicais em Gaza e na Cisjordânia, nomeadamente pelo Hamas, e não daqueles que já aceitaram os princípios básicos de negociação – Fatah, vulgo ‘Autoridade Palestiniana.’ Em segundo lugar, a exclusão destes grupos do processo de paz irá apenas reforçar a sua motivação para continuar ou intensificar esses ataques como forma de retaliação. O já famoso desvio de fundos internacionais pelos dirigentes da Fatah justifica por si só, para a população em geral e para os excluídos em particular, a rejeição do processo. E por fim, no caso de delicados e prolongados processos de paz como é o caso do conflito israelo-árabe, de Caxemira ou do Sri-Lanka, grupos externos às negociações tendem a beneficiar, em termos de apoio popular, com o fracasso dos participantes nas negociações. Ora, estando o roteiro de paz repleto de momentos de vulnerabilidade, grupos externos irão certamente certificar-se de reduzir as hipóteses de sucesso do processo em cada um desses momentos.
    Fim da Primeira Parte
    Texto e Fotografia: Diogo Lemos