A Gaivota Farragulha

    quarta-feira, janeiro 27, 2010

    O futuro da Al-Qaeda - parte II



    (O 'Dunkerke' da Guerra contra o Terrorismo. Chris Hondros / Getty Images: Newsweek)


    Os atentados de 11 de Setembro de 2001 revolucionaram o terrorismo internacional. Em primeiro lugar, os ataques demonstraram que as novas tecnologias poderiam ser utilizadas com sucesso para conseguir comunicar com operacionais ocultos e distantes (no caso da Al-Qaeda, através da Al-Sahab, a sua equipa de produção multimédia); segundo, os atentados levaram a violência ao interior do ‘território inimigo’ como se se tratasse do ataque de um estado soberano sobre outro; e, por último, os ataques expuseram o poder corrosivo do mediatismo quando colocado ao serviço do terrorismo. Por estes três motivos, e tendo em conta a anterior decadência da organização, os ataques representaram um sucesso retumbante para a Al-Qaeda. Sem dúvidas, os atentados reivindicaram sentimentos que prevaleciam entre a população muçulmana nos últimos cinquenta anos - em primeiríssimo lugar, frutos da ‘nakba’ (catástrofe) palestiniana, mas também da criação de uma elite corrupta e fútil nos países do Golfo, do apoio conferido a regimes oligárquicos e autoritários através do contingente militar americano na região, e, de uma forma geral, da forma descartável e condescendente como os ocidentais trataram os povos árabes e os seus recursos naturais.


    Porém, como ficou provado por várias sondagens, a maioria muçulmana continuou a repudiar a Al-Qaeda e os seus métodos. Em particular, as sondagens demonstram que a vasta maioria dos muçulmanos despreza o assassínio indiscriminado de civis, seja qual for a religião das vítimas, seja qual for a causa (ver relatório de Fev. de 2009).  Muitos especialistas apontam tal rejeição como o principal motivo pela queda abrupta da popularidade do líder da Al-Qaeda, Osama Bin-Laden, no seio da comunidade muçulmana mundial. Em suma, os atentados de 11 de Setembro tiveram um maior impacto sobre os métodos praticados pelo terrorismo internacional (replicados por militantes de todo o mundo, desde da Chechenya ao Sri Lanka), do que sobre os aderentes à versão jihadista da Al-Qaeda.


    Acresce a esta situação, o facto da ofensiva americana no Afeganistão em 2001 ter limitado as linhas de contacto entre a liderança da Al-Qaeada e a sua nova base de apoio. Poucos meses após os atentados, os quadros da organização estavam entrincheirados nas montanhas de Tora Bora, presos numa luta mortal com as forças da operação ‘Enduring Freedom’ (OEF), privados de qualquer contacto com o mundo exterior. Enquanto Bin Laden e outros fiéis seguidores ficaram para trás, alguns operativos atravessaram a fronteira para o vizinho Paquistão na expectativa de mobilizar forças para novos ataques. A maior parte desses operativos, tal como o kuweitiano Khalid Sheikh Mohammed (referido como o alegado ‘arquitecto’ do 11 de Setembro), acabaram por ser capturados pelos Serviços Secretos Paquistaneses (ISI). O fim da Al-Qaeda parecia próximo. No seu testamento, entretanto encontrado pelos americanos, Bin Laden escreveu: ‘Allah ordenou-nos que, na hora da morte, façamos uma doação aos nossos pais e parentes e aos muçulmanos, em geral.’ No entanto, por motivos que uma Comissão do Senado Americano (‘Tora Bora Revisited: How We Failed to Get Bin Laden and Why It Matters Today’) não conseguiu descortinar, os generais americanos decidiram não investir com as forças terrestres, deixando assim Bin Laden escapar para as zonas tribais do Waziristão (Norte do Paquistão). É aqui, segundo as fontes mais fiáveis, que hoje permanece, juntamente com Ayman al-Zawihiri e duas dezenas de discíplicos.

    quinta-feira, janeiro 21, 2010

    A vitória da carrinha pick-up



    (Ele é o Scott e conduz uma pick-up. Huffington Post)


    Esta é uma estória americana. Scott conduz uma carrinha GMC Canyon da General Motors. Martha conduz um Jipe Nissan XTerra produzido no Japão. A carrinha de Scott tem 200,000 milhas no conta-quilómetros. No seu vídeo de campanha, Scott apresenta-se assim: ‘I’m Scott Brown. I’m from Wrentham. I drive a truck. And I’m nobody’s senator but yours.’ Martha começa o seu anúncio com as seguintes palavras: ‘One of the things I’ve learnt as District Attorney is problem solving. A good Attorney General needs to spot problems down the road, not wait until they end up on her desk.’ Scott distribuiu panfletos à porta do estádio dos Red Sox (equipa de baseball de Boston), em Fenway Park. Martha confundiu um dos mais lendários jogadores do clube, Curt Schilling, com um adepto dos New York Yankees (mais coisa menos coisa, como dizer que o João ‘prognósticos-só-no-fim’ Pinto é adepto do Benfica). Mais tarde, quando questionada sobre se estava a fazer tudo o que estava ao seu alcance pela vitória, Martha respondeu: ‘As opposed to standing outside Fenway Park? In the cold? Shaking hands?’ Quando andava na faculdade, Scott ganhou $1000 por posar à lá José Cid para a secção ‘America’s Sexiest Man’ da revista feminina Cosmopolitan. Martha gradou cum laude em Direito da elitista Williams College, eleita pelo ranking do U.S. News como a melhor escola de artes liberais da América. Scott contou ao longo da campanha com o apoio de duas celebridades: a mulher, Gail, pivot de uma rede televisiva local; e a filha, Ayla, semi-finalista da edição norte-americana dos Ídolos. Martha teve o apoio do Presidente dos Estados Unidos da América que, incidentalmente, é também o Prémio Nobel da Paz deste ano e uma das caras mais reconhecidas em todo o mundo. Nas acções de campanha, a mulher e as filhas de Scott clamaram: ‘He has truck’. Em defesa de Martha, Barack disse que ‘anyone can buy a truck’, e que os eleitores deveriam olhar por debaixo do capot. Logo de imediato, Scott rispostou: ‘Mr President, unfortunately in this economy, not everybody can buy a truck.’


    Ontem à noite, já informado sobre a sua vitória, Scott deferiu o golpe fatal sobre Barack, Martha e o seu Jipe Nissan: ‘I didn't mind when President Obama came here and criticized me - that happens in campaigns. But when he criticized my truck, that's where I draw the line.’ Esqueçam a reforma do sistema de saúde. A vitória do partido republicano em Massachusetts foi a vitória da carrinha pick-up americana. Uma miragem do que o movimento Tea Party terá para oferecer.


    sábado, janeiro 16, 2010

    O futuro da Al-Qaeda - parte I



    (Retrato de um homem solitário. DebateItOut)


    É talvez irónico que a geração que cresceu à procura de uma rapaz franzino, de óculos redondos e t-shirt às riscas vermelhas e brancas em livrinhos, seja também a que coincidirá no tempo com a persecução verídica de um homem franzino, de barbas triangulares e turbante branco chamado Osama Bin Laden. Com efeito, e apesar de entrar agora no seu nono ano (sendo já mais longa do que a Primeira ou a Segunda Guerra Mundial), a ‘guerra contra o terrorismo’ parece caminhar para um longo encore. Como ilustrado pela recente tentativa do nigeriano Umar Farouk Abdulmutalab, o terrorismo internacional permanece activo e com capacidade para esgueirar-se das mais apertadas medidas de segurança. No entanto, parece-me difícil estabelecer uma corrente de ligação entre Umar Farouk, o Iémen e a Al-Qaeda, tal como foi amplamente difundida pelos meios de comunicação mundiais. Sabemos apenas que Umar Farouk agiu sozinho; que visitou o Iémen poucos meses antes do ataque (curiosamente, para aprender árabe na escola que ficava na rua da minha casa); que Osama Bin Laden tem laços fortes com o país, uma vez que ambos o seu pai e a sua primeira mulher são iemenitas; e que o primeiro ataque atribuído à organização terrorista teve lugar em 1992, em Aden, nos Hotéis Movenpick e Gold Mohur (actual Sheraton Aden, onde, no ano passado, passei uma belíssima tarde). Porém, tais elementos não representam provas irrefutáveis de uma eventual trama transfronteiriça contra o Ocidente com sede no Iémen. Pelo contrário, eles sugerem que tal analogia tenha mais que ver com a nossa pueril atracção por grandes fugitivos.



    Importa remontar às origens da Al-Qaeda e definir o que entendemos hoje por Al-Qaeda para perceber a questão. Pensa-se que a organização terá sido fundada em 1988 por um grupo de militantes internacionais no Paquistão com o objectivo de unificar as centenas de brigadas que combatiam a invasão Soviética do Afeganistão. A liderança do grupo era constituída por cerca de 20 ou 30 combatentes, entre os quais o saudita Osama Bin Laden (o financiador), o cirurgião egípcio Ayman Al-Zawahiri (considerado por muitos o ‘cérebro’ das operações e, reputadamente, o actual líder da organização), o iraquiano Abu Ayoub al-Iraqi (o primeiro chefe de operações da organização), os egípcios Abdullah Azzam, Abu Ubaidah al-Banshiri, Mohammed Atef, Saif al-Adel e Sayeed al-Masri (todos eles sucessivos líderes da organização). Desde então, esse grupo foi sofrendo sucessivas baixas e divisões até que no final dos anos 90 a Al-Qaeda tinha exausto os seus recursos financeiros e estava perto da dissolução, tendo falhado o seu objectivo inicial de centralizar a liderança dos militantes sunitas. Nesse mesmo período, outros grupos, nomeadamente o paquistanês Lashkar-e-Taiba e o palestiniano Hamas, tinham assumido uma posição de destaque junto da população muçulmana. Confrontrado com este panorâma, Osama Bin Laden – por agora, já perseguido e refugiado Afeganistão – assumiu o comando da organização. Porém, a Al-Qaeda estava longe de ser o portento dentro e fora do Afeganistão que um dia os seus líderes sonharam fundar. Por outro lado, ele próprio não era a figura popular e influente que outros escolheriam para a liderar o movimento jihadista internacional. Porém, Bin Laden tinha em mente uma estratégia para reverter as fortunas da Al-Qaeda.




    terça-feira, janeiro 12, 2010

    Sem inspiração



    (Acontece aos melhores... We Blog Cartoons)



    Pois é, meus caros, ando sem inspiração. Acho que deixei de escrever de português há suficiente tempo para lhe esquecer o travo. Há que retomar, que reavivar a chama – disso tenho eu a certeza, mas não consigo encontrar tema. Do Sócrates, do PSD e do país já disse tudo o que poderia dizer e, de qualquer forma, a minha opinião poderia resumir-se a duas simples palavras – estou frustrado. Da vida, dos dias que se seguem uns aos outros com a monotonia da inevitabilidade, pouco mais há que falar do que do tempo: do vento, da chuva, da neve. Podia dizer-vos que todos os dias me apoquento pela sobrevivência das azáleas que alcovitei na terra em Outubro, que gostaria de convencer alguém que existe um elo directo entre as nossas desnecessárias deslocações de automóvel e os temporais dos últimos dias, que fiquei indignado quando um Secretário de Estado da Segurança Interna afirmou que a culpa das pessoas que ficaram presas durante horas nas estradas geladas de Portugal era delas próprias. Afinal, estamos no país, onde a culpa é uma solteirona irremediável. Pensando melhor, está na altura de imiscuir-me no espírito da terra e dizer que, a bem ver, a culpa da falta de inspiração não é minha; é da frugalidade deste Janeiro de 2010. Paciência!

    quarta-feira, janeiro 06, 2010

    A Contra-Revolução Americana



    (Imagem da Tea Party em Washington D.C. este ano. Free Republic)


    Para a sua primeira crónica do ano de 2010, o super-influente colunista do New York Times, David Brooks, escolheu discutir o tema da década que se segue (recomendo vivamente a leitura integral do texto). Segundo ele, os ‘tenies’ serão marcados por um movimento que nasceu em reacção à eleição de Barack Obama para a Casa Branca: o Tea Party Movement.


    Como o próprio nome indica, o movimento reclama para as suas origens nada mais, nada menos do que o protesto que marcou o início da cruzada norte-americana pela independência: o Boston Tea Party. No entanto, em comum com os eventos de 1773, o Tea Party Movement contemporâneo tem apenas a essência, não a substância. Ou seja, os Tea Party-goers moderno não se revoltam contra o preço do chá nos supermercados ou nas lojas, mas sim contra a suposta subida dos impostos da administração Obama. Desse modo, o anteriormente objectivo conceito ‘Tea’, transformou-se hoje no slogan T-E-A: ‘Taxed Enough Already’. Para além dos impostos, nas Tea Parties manifesta-se contra o aumento do aparelho de Estado, nomeadamente a reforma do sistema de saúde proposta por Obama; o pacote de estímulo conta a recessão; a político colaboracionista no plano internacional; e o deficit do Governo central norte-americano. As Tea Parties, organizadas através de sites (o mais conhecido Tea Party Express), blogs, contas de Twitter, e grupos no Facebook, ocorrem simultaneamente em várias cidades dos EUA. A mais popular teve lugar no dia 15 de Abril de 2009, planeada para coincidir com o último dia para a entrega das declarações de impostos, e contou com protestos em mais de 750 cidades, e uma alegada adesão de meio milhão de americanos (de acordo com os dados referidos pelo Christian Science Monitor). No dia seguinte, uma sondagem da agência Rasmussen revelou que 51% do povo americano considerava os protestantes ‘favoravelmente.’ E estes valores, note-se, no primeiro ano de actividade do movimento.


    Afinal, quem são os participantes destas Tea Parties? Como refere Brooks, as Tea Parties atraem os americanos que abominam qualquer ideia associada com as ‘classes educadas’: o aquecimento global; uma postura internacionalista; o direito ao aborto; a necessidade de controlar a venda de armas; e outras causas afins. No fundo, estamos de volta ao terreno da velha divisão entre o norte e o sul, entre as costas e o centro, entre o redbelt e o bluebelt norte-americano, entre os que se sentiam acalentados por ver as botas texas de Bush sobre a secretária da sala Oval e os que se sentiam repugnados pelas constantes baboseiras proferidas pelo antigo Presidente dos EUA.


    O tema foi claramente exposto por um artigo recente da revista New Yorker, em que se escrevia que Sarah Palin era a mais apta candidata do Partido Republicano contra Barack Obama por ser a sua mais perfeita nemesis: uma estrela Republicana contra uma estrela Democrática. No entanto, referia a revista, acrescia a esta simetria o facto do star appeal de Palin assentar na simplicidade da sua postura sobre a vida e a história, à sua aparente falta de ‘worldliness’ contra a erudição e o cosmopolitismo de Obama, antigo aluno da escola mais elitista dos EUA, a Harvard University, e professor na distinta Universidade de Chicago. Perguntava a New Yorker: ‘será talvez uma forma de socialismo desejar que um de nós, simples e ignorante cidadão, ocupe os mais altos cargos do Estado?’ Pois é, para choque e desconsolo de muitos Europeus, existe uma grande parte do povo americano (metade, quase poderíamos afirmar) que espera que os seus líderes sejam, ou pelo menos aparentem ser, tão estúpidos e ignorantes como eles.


    Porém, e numa nota final, a ascensão do Tea Party Movement representa um desafio não só para o Partido Democrático, mas também para o Partido Republicano. A verdade é que o próprio partido está dividido entre aqueles que desejam seguir esta via mais radical, e aqueles que pretendiam manter-se num registo mais ponderado – o próprio Brooks, assumidamente Republicano, declara-se preocupado com o movimento. Por todos estes motivos, começam a surgir rumores do aparecimento de uma terceira força política nos EUA. Onde será que já vi este filme?

    Ataque cibernauta ao blog





    Caros leitores,


    Como já puderam comprovar, o meu blog Indigo e o Mar está a ser alvo de um ataque cibernauta que automaticamente dirige os leitores para outro site - Smashing Feeds. Existe uma forma de contornar este programar que é clicar na tecla stop na barra de ferramentas do vosso internet explorer mal entrem no blog. No entanto, esta solução não poderá ser permanente. Vou tentar resolver, ou então esperar alguns dias para ver se o blogger corrige este bug, se não terei que encontrar uma nova casa para o Indigo e o Mar. Mas não vou desaparecer.

    Até à próxima,

    Diogo