Fomos visitar os chamados 'Castelos do Deserto', a este de Amman, na estrada em direccao ao Iraque e a Arabia Saudita. Houve tres motivos que me despertaram interesses nestes castelos. O primeiro foi o facto de estarem ainda fora do percurso turistico da Jordania. Segundo, a oportunidade de apreciar construcoes arabes autenticas e originais, algo novo nesta viagem. Com efeito, numa regiao maioritariamente habitada por nomadas do deserto, a construcao de estruturas permanentes tende a ser uma raridade. Para alem do mais, a maior parte dos edificios da antiguidade que visitamos no Libano e na Siria pertencem, em natureza e disposicao, a outros povos e civilizacoes (egipcios, persas, gregos, romanos, bizantinos, etc). Por ultimo, o motivo da minha curiosidade por estes castelos deve-se a sua contemporaneadade com a invasao moura de Portugal. Por outras palavras, nestes castelos viveram os senhores que planearam e governaram quinhentos anos de historia arabe portuguesa. Curiosamente, num dos castelos encontramos uma inscricao datada de Novembro de 710 - ou seja, alguns meses antes da invasao comandada por Tarik ibn Ziyad.
Porem, com tanto tempo de viagem atraves do meu querido deserto (por incrivel que pareca, o deserto ou mar sao os meus espacos predilectos), os meus pensamentos tiveram horizonte para regressar ate a imagem do dia anterior nas margens do rio Jordao. Pensava eu sobre o conflito entre Israel e os Arabes, que a medida que nos aproximamos do olho do furacao se torna mais visivel. Numa tentativa de sistematizar as ideias sobre o problema e de estabelecer um ponto de partida, estabeleci entao uma dicotomia sobre o assunto. Existem, na minha opiniao, duas formas de, sensatamente, pensar o conflito Israelo-arabe.
A primeira, que gostaria de chamar historica, funda-se na ideia de que as ocupacoes, as conquistas e os conflitos fazem parte da historia. Neste sentido, o conflito israelo-arabe prova a falacia da teoria de Fukuyama sobre o fim da historia - a historia nao acaba com o fim da Guerra Fria porque pertence a natureza dos homens cobicar o espaco, o poder ou os recursos de outros. A historia faz-se dessa cobica. O facto de Israel ter conquistado e ocupado a Palestina na segunda metade do seculo XX faz parte da historia da humanidade. O facto de os zionistas conseguirem esse territorio deve-se a sua superioridade, ao seu esforco e sacrificio e tambem isto e um facto da historia. Talvez um dia, voltarao a perder este territorio (pela terceira vez) e tambem ai sera um facto da historia. Mas enquanto a Palestina pertencer ao Israelitas temos que o aceitar como uma realidade porque eles a criaram. Por exemplo, os colonos britanicos expulsaram e ocuparam os territorios dos indios e dos aborigines, respectivamente, na America do Norte e na Australia. Embora esses povos tenham conseguido reenvidicar alguns direitos em tempos recentes, a colonizacao desses territorios por alienigenas e hoje aceite como um facto historico. Do mesmo modo, a expulsao dos arabes da Palestina e a ocupacao deste por israelitas, por muito tragica e brutal que foi, merece ser aceite como parte da historia. Afinal, que paises nao resultaram de episodios como este?
Por outro lado, existe uma perspectiva que se prende com o contexto especifico da criacao de Israel que gostaria de chamar perspectiva humanista. O Estado de Israel, tal como existe hoje, nao e fruto de uma epoca em que a violencia e a morte eram aceites como meios legitimos para chegar a um fim, como era por exemplo no tempo de Alexandre ou na Idade Media. O Estado de Israel foi criado numa epoca em que existiam ja os 'Direitos Humanos' e o 'Direito Internacional'. Porem, desde da sua fundacao, o Estado de Israel tem agido em violacao de ambos. A evolucao humana, para a qual o povo judeu muito tem contribuido, nao nos permite aceitar a expulsao sistematica de individuos baseados na sua identidade etnica e religiosa (muculmanos e cristaos) da palestina, nao nos permite aceitar as intervencoes unilaterais e desastrosas de Israel nos paises vizinhos (nomeadamente, no Libano) e nao nos permite aceitar as actuais condicoes de vida nos territorios ocupados da Cisjordania e da Faixa de Gaza. A criacao do Estado de Israel nao e indissociavel do tempo em que vivemos e, principalmente, do momento historicos que levou a sua concretizacao. Falo, em particular, do nacionalismo na Europa nos finais do seculo XIX e inicios do seculo XX - da ideia de que cada povo teria direito a um territorio nacional. A experiencia demonstrou-nos que tal visao nao e benefica ao futuro dos homens. Por este motivo, hoje na Europa, embora com alguma dificuldade, tentamos procurar um caminho comunitario onde nos podemos encontrar para alem da nossa religiao, raca ou qualquer que seja a nossa identidade. A capacidade dos homens em encontrar solucoes para paradoxos complexos e ver os beneficios a longo prazo e precisamente o que nos distingue dos animais. Por isso, a insistencia de Israel em manter um estado nacional numa era em que caminhamos para a internacionalizacao dos povos parece um passo em sentido contrario em relacao a evolucao. Acima de tudo, e uma brutal violacao do que foi conquistado nos ultimos seculos pelo movimento em defesa da dignidade humana.
Sao estas, de um modo geral, as duas perspectivas sobre o conflito. Confesso que, eu proprio, estou um pouco dividido entre elas e nao espero encontrar uma solucao que torne o assunto preto e branco. Mas talvez descubra uma terceira via. Como que um oasis no meio do deserto.