(Michael Jackson visto pelo artista norte-americano Jeff Koons. Uma retrospectiva do artista será inaugurada amanha na Serpentine Gallery em Londres)Michael Jackson morreu na semana passada aos 50 anos de idade. Autor, produtor, actor, cantor e sobretudo dançarino, Jackson foi o Rei da Pop mas será também para sempre o retrato mais bizarro do 'American Dream'.
Nascido em 1958 nos subúrbios industriais de Chicago, Jackson actuou pela primeira vez em público com apenas cinco anos num recital de Natal. Desde de então, nas produções familiares do pai - os Jackson Brothers, os Jackson Five e The Jacksons - ou a solo, Jackson nunca mais abandonou a esfera pública. Observando antigas gravações do Ed Sullivan Show é impossível não ficar cativado por aquele menino simpático, de olhos vivos e sorriso gigante, que gira sobre si próprio como um pião, estica braços e pernas como se fossem de plasticina e canta com a genuidade e harmonia que escasseiam em muitas estrelas adultas.
Mais tarde, quando quis cortar os laços com o pai, figura aterradora ao longo dos primeiros anos de vida, para criar uma carreira à sua medida, Jackson inspirou-se na única certeza que porventura detinha sobre si próprio - a sua singularidade. Criou então a imagem de ser supra-natural. Primeiro foi a participação no filme E.T., depois o vídeo Thriller em que se transformava num monstro, os passos de dança que desafiavam a gravidade (o mais conhecido, apropriadamente intitulado 'moonwalk'), as sucessivas cirurgias plásticas, a amizade com macacos e crianças, o embranquecimento da sua pele, os rumores de que dormia numa câmara de oxigénio, a extravagância do rancho de Neverland, as cada vez mais fugazes e misteriosas aparições públicas.
Os dois primeiros discos, Off the Wall e Thriller, lançados em 1979 e 1982 respectivamente, fizeram história musical. O som de Jackson, elaborado em parceria com o lendário produtor Quincy Jones, correspondia a uma mescla entre o passado, o presente e o futuro (como mais tarde ele apelidou um dos seus álbuns), entre o R&B, o Disco e o Rock, entre a música negra e a branca. Na medida em que fundiu estas tendências num só estilo e tornou-o acessível ao público em geral, Michael Jackson popularizou a MTV e transformou a música Pop para sempre.
Porém, o âmago do mediatismo de Jackson, a particularidade que cultivava para sua si próprio, seria também a origem da sua decadência. Nos anos 90, Jackson foi acusado de abuso sexual de um menor e hoje diz-se que deverá ter sido por volta desta altura que começou a tomar comprimidos. A este caso sucedeu-se o casamento um tanto ou quanto opaco com a filha do outro Rei, Lisa Marie Presley. Pouco depois, Jackson apanhou todos de surpresa ao anunciar a gravidez da dermatologista e enfermeira Deborah Rowe. Juntos tiveram dois filhos: Michael Joseph Jackson Jr. e Paris Michael Katherine Jackson. Aos poucos, o Peter Pan dos anos 80 tornava-se no 'Wacko Jacko' da segunda metade dos anos 90.
Em 2001, Jackson lançou o seu último álbum, Invincible, e o seu último single 'You Rock My World' não alcançou o sucesso esperado. Jackson parecia incapaz de transformar a sua imagem e adaptá-la ao público do novo milénio. Na primeira década do novo século, sucederam-se os eventos bizarros como quando baloiçou o terceiro filho (Prince Michael Jackson II) da varanda de um hotel em Berlim ou o documentário com Martin Bashir, Living with Michael Jackson. Por fim, veio a desastrosa segunda acusação de abuso sexual de um menor. Forçado a comparecer em tribunal, Jackson demonstrava-se cada vez mais excêntrico e débil. Absolvido, Jackson continuou a ocupar os escaparates dos jornais e revistas internacionais, sobretudo devido aos seus problemas económicos. Em 2006, foi forçado a fechar o rancho de Neverland. Recentemente, preparava-se para fazer um antecipado retorno aos palcos, com uma agenda marcada para 50 concertos sucessivos em Londres.
Muito já se escreveu sobre a morte de Michael Jackson: que foi vítima do sensacionalismo da imprensa; que foi vítima dos abusos que sofreu enquanto criança; que foi vítima do seu próprio sucesso. A meu ver, Jackson personificou como ninguém os anseios das massas na segunda metade do século XX: ele estimulou a nossa fome, ou pelo menos a nossa curiosidade moderna, pelo híbrido: entre o Homem e a Mulher; entre o Preto e o Branco; e, acima de tudo, entre o Humano e o Extraterrestre. Michael Jackson não queria apenas ser o Rei da Pop; ele ambicionava tornar-se num Deus. Fez tudo, ou quase tudo, para atingir esse fim. Porém, os Deuses (ou outros!) tinham uma última rasteira reservada para ele quando o mataram aos 50 anos com um ataque cardíaco fulminante em casa. Imagino que essa seria a última morte que quereria para si. No final, Michael Jackson não foi Deus, mas apenas o Rei da Pop. Adeus!












