A Gaivota Farragulha

    terça-feira, junho 30, 2009

    A morte do Rei


    (Michael Jackson visto pelo artista norte-americano Jeff Koons. Uma retrospectiva do artista será inaugurada amanha na Serpentine Gallery em Londres)


    Michael Jackson morreu na semana passada aos 50 anos de idade. Autor, produtor, actor, cantor e sobretudo dançarino, Jackson foi o Rei da Pop mas será também para sempre o retrato mais bizarro do 'American Dream'.

    Nascido em 1958 nos subúrbios industriais de Chicago, Jackson actuou pela primeira vez em público com apenas cinco anos num recital de Natal. Desde de então, nas produções familiares do pai - os Jackson Brothers, os Jackson Five e The Jacksons - ou a solo, Jackson nunca mais abandonou a esfera pública. Observando antigas gravações do Ed Sullivan Show é impossível não ficar cativado por aquele menino simpático, de olhos vivos e sorriso gigante, que gira sobre si próprio como um pião, estica braços e pernas como se fossem de plasticina e canta com a genuidade e harmonia que escasseiam em muitas estrelas adultas.






    Mais tarde, quando quis cortar os laços com o pai, figura aterradora ao longo dos primeiros anos de vida, para criar uma carreira à sua medida, Jackson inspirou-se na única certeza que porventura detinha sobre si próprio - a sua singularidade. Criou então a imagem de ser supra-natural. Primeiro foi a participação no filme E.T., depois o vídeo Thriller em que se transformava num monstro, os passos de dança que desafiavam a gravidade (o mais conhecido, apropriadamente intitulado 'moonwalk'), as sucessivas cirurgias plásticas, a amizade com macacos e crianças, o embranquecimento da sua pele, os rumores de que dormia numa câmara de oxigénio, a extravagância do rancho de Neverland, as cada vez mais fugazes e misteriosas aparições públicas.

    Os dois primeiros discos, Off the Wall e Thriller, lançados em 1979 e 1982 respectivamente, fizeram história musical. O som de Jackson, elaborado em parceria com o lendário produtor Quincy Jones, correspondia a uma mescla entre o passado, o presente e o futuro (como mais tarde ele apelidou um dos seus álbuns), entre o R&B, o Disco e o Rock, entre a música negra e a branca. Na medida em que fundiu estas tendências num só estilo e tornou-o acessível ao público em geral, Michael Jackson popularizou a MTV e transformou a música Pop para sempre.

    Porém, o âmago do mediatismo de Jackson, a particularidade que cultivava para sua si próprio, seria também a origem da sua decadência. Nos anos 90, Jackson foi acusado de abuso sexual de um menor e hoje diz-se que deverá ter sido por volta desta altura que começou a tomar comprimidos. A este caso sucedeu-se o casamento um tanto ou quanto opaco com a filha do outro Rei, Lisa Marie Presley. Pouco depois, Jackson apanhou todos de surpresa ao anunciar a gravidez da dermatologista e enfermeira Deborah Rowe. Juntos tiveram dois filhos: Michael Joseph Jackson Jr. e Paris Michael Katherine Jackson. Aos poucos, o Peter Pan dos anos 80 tornava-se no 'Wacko Jacko' da segunda metade dos anos 90.







    Em 2001, Jackson lançou o seu último álbum, Invincible, e o seu último single 'You Rock My World' não alcançou o sucesso esperado. Jackson parecia incapaz de transformar a sua imagem e adaptá-la ao público do novo milénio. Na primeira década do novo século, sucederam-se os eventos bizarros como quando baloiçou o terceiro filho (Prince Michael Jackson II) da varanda de um hotel em Berlim ou o documentário com Martin Bashir, Living with Michael Jackson. Por fim, veio a desastrosa segunda acusação de abuso sexual de um menor. Forçado a comparecer em tribunal, Jackson demonstrava-se cada vez mais excêntrico e débil. Absolvido, Jackson continuou a ocupar os escaparates dos jornais e revistas internacionais, sobretudo devido aos seus problemas económicos. Em 2006, foi forçado a fechar o rancho de Neverland. Recentemente, preparava-se para fazer um antecipado retorno aos palcos, com uma agenda marcada para 50 concertos sucessivos em Londres.

    Muito já se escreveu sobre a morte de Michael Jackson: que foi vítima do sensacionalismo da imprensa; que foi vítima dos abusos que sofreu enquanto criança; que foi vítima do seu próprio sucesso. A meu ver, Jackson personificou como ninguém os anseios das massas na segunda metade do século XX: ele estimulou a nossa fome, ou pelo menos a nossa curiosidade moderna, pelo híbrido: entre o Homem e a Mulher; entre o Preto e o Branco; e, acima de tudo, entre o Humano e o Extraterrestre. Michael Jackson não queria apenas ser o Rei da Pop; ele ambicionava tornar-se num Deus. Fez tudo, ou quase tudo, para atingir esse fim. Porém, os Deuses (ou outros!) tinham uma última rasteira reservada para ele quando o mataram aos 50 anos com um ataque cardíaco fulminante em casa. Imagino que essa seria a última morte que quereria para si. No final, Michael Jackson não foi Deus, mas apenas o Rei da Pop. Adeus!



    END

    terça-feira, junho 23, 2009

    Uma perspectiva histórica sobre as manifestacoes no Irao

    Video muito interessante do New York Times sobre as possíveis semelhancas entre as manifestacoes actuais e o movimento que levou à revolucao de 1979.

    segunda-feira, junho 22, 2009

    Sobre o silêncio de Obama face à situacao no Irao



    Pelo menos no que diz respeito à política externa, a administração Obama definiu-se, desde logo, pela ruptura com as linhas seguidas pela administração anterior. Onde George W. Bush concebia blocos distintos ('o eixo do mal' e o 'confronto de civilizações'), Obama concebe um mundo de relações complexas, plurais e dinâmicas (como apresentado na última cimeira dos G-20 em Londres); onde Bush via a necessidade de reafirmar a supremacia unilateral da América num mundo de suseranos e vassalos, Obama vê a necessidade de apresentar a vertente diplomática e cooperativista dos EUA; onde Bush aceitava o recurso a instrumentos e tácticas ilegais, Obama privilegia a promoção dos EUA num plano de ética e justiça internacional; onde Bush ignorava e desprezava os limites da intervenção militar, Obama prefere optar por discretas soluções políticas; onde Bush professava uma dedicação religiosa à democracia, Obama pratica um pragmaticismo meticuloso.

    A erupção de violência pós-eleitoral no Irão colocou abruptamente estas duas linhas em rota de colisão. A questão é a seguinte: depois das palavras de amizade de Obama no Cairo, ninguém desejava ver os EUA de novo envolvido na política interna de um país no Médio Oriente; acima de tudo, a administração Obama já teria optado pelo diálogo como a via mais eficaz para a detenção do programa nuclear do Irão. Porém, para atingir esse fim, os EUA deveriam adoptar uma atitude mais tolerante face ao regime de Terão. Ora, como foi argumentado por diversos jornalistas e comentadores na semana passada, as suspeitas sobre o resultado eleitoral no Irão, a emergência de um movimento popular liderado por um político moderado e a repressão violenta levada a cabo por brigadas à paisana (as Milícias Basij), não poderiam ter colocado a administração Obama numa situação mais delicada. Se por um lado os EUA deveriam manter-se alheados da questão para prosseguir os seus objectivos de política externa no Médio Oriente; por outro, o empenho e dedicação aos ideais de justiça e liberdade forçava-os a condenar o governo Iraniano. Na dúvida, Obama optou pelo silêncio. Apenas ontem, sete dias depois do começo da violência, Obama veio timidamente afirmar que 'o mundo estava atento ao que se estava a passar no Irão'.

    Julgo que foi um erro - talvez o primeiro que verdadeiramente podemos chamar como tal desde que Barack Obama chegou à Casa Branca. O mundo inteiro teve tempo suficiente para reconhecer a tragédia (e a incrível coragem) do povo Iraniano, assim como a brutalidade do regime teocrático em Terão, antes do Presidente dos EUA fazer qualquer tipo de comentário sobre estes em público. Esta demora suscita dúvidas não só em relação ao empenho de Obama em cumprir uma das promessas do seus discurso de investimento ('And so, to all other peoples and governments who are watching us today, from the grandest capitals to the small village where my father was born: know that America is a friend of each nation and every man, woman or child who seeks a future of peace and dignity, we are ready to lead once more.'), mas também em relação à eficácia da sua estratégia para o Médio Oriente.

    Com efeito, na opinião de vários comentadores, sobretudo no campo Republicano, Obama perdeu uma oportunidade para construir apoio internacional contra o regime de Terão. Aqui, deve ficar bem entendido que tal frente não teria como objectivo uma intervenção directa dentro do Irão, mas simplesmente uma forma de condenação da brutalidade do regime e de, assim, acelerar o seu isolamento na esfera internacional. Esse entendimento global sobre a questão do Irão, para o qual esta situação proporcionou condições únicas, poderia revelar-se fundamental nos acontecimentos que certamente acabarão por tomar lugar no Irão. Pelo contrário, ao manter-se silencioso, Obama deixou o espaço aberto para que, no futuro, governos e regimes mais cínicos do que o seu possam suster o regime em Terão (nomeadamente, em troca de negócios favoráveis em petróleo).

    segunda-feira, junho 15, 2009

    A internet como arma revolucionária


    (A polícia patrulhou as ruas de Terao ao longo da noite. Photograph: Ahmed Jadallah/Reuters)


    Ao ler os media internacionais sobre as eleicoes iranianas, há pelo menos um aspecto transversal a todos os relatos: ninguém sabe ao certo o que se está a passar no Irao. Á partida todos pensavam que Ahmadinejad nao enfrentaria dificuldades na re-eleicao, depois acreditavam que um dos candidatos, Hossein Mousavi, teria mais apoio do que inicialmente pensado, mais tarde criou-se a expectativa de que este iria ganhar (baseando-se em projeccoes que ninguém percebia de onde vinham), depois ninguém acompanhou de perto o desenrolar das eleicoes propriamente ditas, e, quando os resultados saíram, ninguém sabia o que pensar: teriamos sido demasiado optimistas ou as eleicoes foram realmente adulteradas? No momento em que o país caía numa espiral de violencia pós-eleitoral, comentadores fora do país ainda tentavam ultrapassar a estupefacao perante o resultado.

    Neste espaco opaco que ocupou a distancia entre o que se estava a passar no país e o que estava a ser relatado cá fora (expandido pela decisao do governo iraniano de fechar temporariamente um canal de televisao e limitar a actividade de jornalistas estrangeiros no país), a internet afirmou-se como o meio de informacao mais eficaz para trocar informacoes. Em particular, achei fascinante o uso do Twitter para enviar notícias em tempo real sobre as experiencias pessoais de indíviduos no Irao. Ao ler no blog de Andrew Sullivan, The Atlantic, alguns dos twits que têm sido enviados, achei que nos dao uma melhor impressao daquilo que se está a passar e decidi copiá-los para o meu blog. É claro que devemos tomar estas frases com uma pitada de sal pois nao sabemos quem os escreve e de onde vêm. Mas caso acreditemos naquilo que se pode ler abaixo, podemos ter pelo menos outra certeza sobre os eventos pós-eleitorais no Irao - foram feios, muito feios.


    "just received news about forging department students captured 2 Ansar troopers and moving them to another building!


    unlike Masood and others I really don't think capturing them can help us in any way.


    Hospitals around Tehran are surrounded by security forces who refuse to let those with injuries pass, humanity at its worst


    Friend: 17 y/o killed infront of me couldn't get to him in time guards beating us up went to hospital but he stopped moving


    problem w/ site pinpointed: webmaster says the Iranian govt is overloading us with requests to disable our site: "denial of service attack"


    My Father has a truck load of ballot boxes that were to be burned in the back of his truck.


    i eats some pills and wanna sleep and i scared that if they can find me ...i going...thx for your supports....



    typing as fastest as I can in bth English&Farsi,Still we need outside help,I really don't want to be captured by Ansar



    Once again I thank everyone in the world. No matter if Ahmadi stays or not, I'm proud to have clasped such supportive hands.




    URGENT JUST IN, there r TANKS in front of the interior ministry of tehran in valiasr st. & fatemi CAREFUL




    I can't find my friends on streets.



    Rasht, glass splinters on the streets, riot police not hesitating to beat men, women and even kids



    From Enghelab Sq friend just call me, Police & unknown forces beating everybody for no apparent reason!



    Correction, no bus burned, but three cars.



    dawn is breaking. can hear prayers from mosques.



    cousin in tehran is traumatized by the club and baton beatings on tehran streets. eyewitness report of a girl beaten to death.



    IRG's helicopter flying low on yousefabadad Amirabad Gisha right now creating a devastating sound and making windows shake



    sources from Tehran: ppl are killed, ppl are in blood, tehran is hell.



    We witnessed police spraying pepper gas into the eyes of peaceful female protesters



    We are here in the dark, all kinds of rumors fly by; nothing is sure.



    IRIB TV warned people seriously about going to tomorrow's rally, mobile network might be down for tomorrow's rally."

    quinta-feira, junho 11, 2009

    Shell assume mea culpa no assassínio de activistas nigerianos


    (Ken Saro-Wiwa fotografado com os dois filhos.)

    É uma história que poderia servir de guião à sequela ao filme 'O Fiel Jardineiro'. Esta semana, antecipando o início do julgamento em Nova Iorque, a Shell, gigante holandês do sector petrolífero, concordou pagar 15.5 milhões de dólares às famílias de nove activistas nigerianos mortos nos anos 90. O acordo marca o final de uma campanha pessoal de Ken Wiwa Jr., filho de Ken Saro-Wiwa, autor e líder do Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni (MOSOP), enforcado em 1995 pela ditadura militar nigeriana do General Sani Abacha.

    A história remonta a 1958, quando a Shell começou a explorar as reservas de petróleo na terra ancestral do povo Ogoni, a província de Ogoniland, no sul da Nigéria. No início do anos 90, Saro-Wiwa lançou e liderou o MOSOP, um movimento não-violento do povo Ogoni contra a acentuada degradação do meio ambiente, nomeadamente o despojamento de lixos tóxicos na terra e rios da região, provocada pela actividade da Shell. Em 1994, após o assassínio de quatro líderes tribais Ogoni favoráveis à presença da petrolífera na região, Saro-Wiwa e outros oito activistas foram presos e condenados à morte por um tribunal militar. Porém, no dia em que os crimes decorreram, as autoridades nigerianas não tinham permitido a entrada de Saro-Wiwa na província. As execuções geraram repúdio internacional contra o regime e a Shell foi acusada de fornecer veículos militares, barcos de patrulha e munições que foram usadas pelo exército nigeriano contra o povo Ogoni.

    A Shell negou sempre o seu envolvimento na execução de Saro-Wiwa, porém o acordo alcançado esta semana demonstra alguma reticência em submeter-se ao exame jurídico. No seu website, a companhia tenta 'salvar a face' ao afirmar que o acordo corresponde a um gesto humanitário a favor do povo Ogoni, uma vez que, parte do dinheiro (5 milhões), destinar-se-á à criação de um fundo para o desenvolvimento da região. Por sua vez, activistas dos direitos humanos no mundo inteiro celebraram este acordo como um passo importante na concretização da igualdade perante a lei e na implementação da responsabilidade social e ambiental de multinacionais.

    domingo, junho 07, 2009

    Putin põe na linha os oligarcas Russos

    A braços com uma das piores crises económicas mundiais, e as primeiras demonstrações de insatisfação popular, Vladimir Putin não está para brincadeiras. Esta semana, o Primeiro-Ministro Russo foi até à cidade industrial de Pikalevo, onde forçou o oligarca Oleg Deripaska a reiniciar a produção na fábrica. Aqui fica um curioso relato dos eventos desse dia.

    sexta-feira, junho 05, 2009

    A carta de demissao de James Purnell


    Nos dias que correm, as desavenças políticas são já por norma episódios públicos; contudo, raramente adquirem o carácter brutal da disputa que tem marcado a última semana do Governo Trabalhista de Gordon Brown. A publicação hoje (no 'The Times'!) da carta de demissão de James Purnell, Ministro do Trabalho e das Pensões, é um duro golpe no estômago político de qualquer administração: 'I am therefore calling you to stand aside to give our Party a fighting chance of winning. As such, I am resigning from Government.' É difícil perceber o que se está a passar dentro do Partido Trabalhista Britânico porém tudo aponta para que seja a ressurreição da velha contenda entre 'Blairites' e 'Brownites'. Infelizmente, será muito difícil a Brown resistir a mais este desafio.

    quinta-feira, junho 04, 2009

    A missão diplomática de Barack Obama no Médio Oriente




    (O Air Force One do Presidente aterra no Aeroporto Internacional King Khalid em Riade. Pablo Martinez Monsivais/AP)




    (Obama e a sua entourage - em que se pode encontrar Rahm Emanuel, o membro da comunidade judia americana mais próximo do Presidente - na corte do Rei Abdullah da Arábia Saudita. NY Times)



    (Bandeiras americanas hasteadas perto do minarete de uma mesquita em Riade. Hassan Ammar/AP)


    (Barack Obama nao acusa os quilómetros que o distanciam do solo americano. REUTERS/Larry Downing)





    (Palestinianos ouvem o discurso de Obama na Universidade do Cairo num café na Cisjordânia. Getty)


    (Cena de um café em Tel Aviv durante o discurso. AP Photo/Ariel Schalit)



    (Alunos da Universidade do Cairo ouvem o discurso. REUTERS/Larry Downing)



    (Obama descalca os sapatos para entrar na Mesquita do Sultao Hassan no Cairo. Pete Souza)



    (Incansáveis vendedores de souvenirs no Cairo nao perdem oportunidade de negócio... AFP/Getty)



    (Activistas Europeus e Americanos manifestam-se hoje no Cairo. Será que Obama os viu? REUTERS/Tarek Mostafa)

    segunda-feira, junho 01, 2009

    As razões do meu cepticismo em relação ao processo de paz no Médio Oriente:


    (A resposta de Netanyahu à proposta dos dois Estados. Steve Bell para The Guardian)



    As três premissas deste processo de paz referidas no post anterior parecem evidentes. Com efeito, a ideia de que a paz entre Israel e a Palestina é urgente, de que os Palestinianos precisam de um Estado e de que os Israelitas estão dispostos a fazer concessões em troca de segurança nacional são aceites por quase todos como dados adquiridos. No entanto, é importante distanciarmo-nos um pouco do conflicto e, sobretudo, da narrativa sobre o conflicto que permeia a grande maioria dos relatos da comunicação social para podermos avaliar o verdadeiro valor destas premissas.

    Sem dúvidas, a paz no Médio Oriente é necessária. Para além dos elevados custos humanos infligidos sobre ambas as partes, o conflicto tem sido o epicentro de vagas de instabilidade que assolaram o planeta nos últimos sessenta anos. Existe também a percepção, no Médio Oriente assim como na Europa e nos Estados Unidos, de que a disputa tem vindo a recrudescer ao longo dos anos e de que, caso não seja resolvida em breve, poderá estar na origem de um novo conflicto à escala mundial. Sem dúvidas, 'the stakes are high' e a paz tarda.

    Porém, a atenção dedicada ao conflicto parece um tanto ou quanto desproporcional quando comparada com outras situações potencialmente catastróficas, nomeadamente o conflicto entre duas potências nucleares em Kashmir (também desde 1947), a atitude militarista da Coreia do Norte (que, na semana passada, testou uma bomba nuclear na fronteira com a Coreia do Sul e lançou vários mísseis sobre o espaço aéreo do Japão) ou a aquisição de uma bomba nuclear pelo Irão (que hoje parece apenas ter relevância no contexto do conflicto Israelo-Árabe e não pelas suas implicações para a Rússia, a Índia, o Paquistão e a Arábia Saudita). Não se trata pois de um problema de quantidade de atenção, mas sim de uma questão do valor que essa atenção tem sobre as sociedades mundiais e, particularmente, sobre o Ocidente. Na realidade, o conflito Israelo-Árabe encontra-se hoje espantosamente politizado, ultrapassando muito além dos limites geográficos envolvidos, mas também além dos próprios tópicos em questão. Por todo o mundo, formaram-se definições sobre o que é estar “a favor de Israel ou da Palestina”, aliando-as frequentemente a preconceitos sobre identificações políticas que dizem mais respeito a realidades autóctones do que à própria disputa, e que têm, quase sempre, por base, um conhecimento medíocre ou inexistente sobre o conflito.

    Por este motivo, ouvimos tantas vezes dizer, na rua como também em debates de ditos especialistas, tantas incongruências e erros factuais sobre este conflito. O mesmo não se passa em relação a outros conflitos: afinal, julgo que o Bloco Esquerda não tem planeado nenhuma manifestação a favor da integração do Kashmir Indiano no Paquistão. O reverso desta moeda, o que aqui nos diz respeito, é que o empenho, ou pelo menos a declaração de empenho, em estabelecer a paz no Médio Oriente é amiúde um artífice, e não uma verdadeira declaração de intenções. Na realidade, sucessivos políticos têm manobrado esta questão apenas para demonstrar que estão a trabalhar pela paz mundial. Este aspecto está bem patente na história dos processos de paz no Médio Oriente, sobejamente em pomposas declarações e apertos de mão que levaram a pouco, e, acima de tudo, é evidente neste último ímpeto de paz, lançado por George W. Bush em 2007 para lavar as mãos depois do fiasco do Iraque. Sim, a paz é urgente e necessária, mas ela não será alcançada amanhã apenas porque serve ela serve as ambições de políticos externos – e também de alguns internos, diga-se. A paz chegará ou não quando Israelitas e Palestinianos estiverem realmente dispostos a dizer adeus às armas. Como é óbvio, esse momento pode nunca chegar, mas se hoje existe a crença de que a paz é possível no Médio Oriente, ela prende-se fundamentalmente com as premissas do processo de paz e não nos desejos da comunidade internacional.

    Este ponto leva-nos ao argumento central da minha crítica em relação ao presente processo de paz. Para não me alongar muito em explicações vou apenas focar aquela que, a meu ver, é a sua principal falácia: a solução dos dois Estados. Julgo que tais soluções, embora permitam algum desanuviamento na fase inicial, não auguram boas perspectivas no longo prazo. A história oferece-nos bons exemplos nesta linha de argumentação a começar pela divisão da Transjordânia em 1947 – da qual originou o conflito - mas também a fragmentação dos Balcãs após a queda do comunismo e a criação da Índia, do Paquistão e do Bangladesh na segunda metade do século. Acredito que este tipo de soluções visa um cessar rápido das hostilidades, mas não se dirige aos problemas fundamentais que opõem as duas populações que se debatem. Como defendi anteriormente, essas divergências devem ser acomodadas do ponto do Estado de Direito e nao através da segregacao das populacoes em dois Estados.


    (O mapa do Médio Oriente no futuro nao será muito diferente deste aqui apresentado.)

    Acresce a este ponto de vista, um argumento que se prende com as próprias circunstâncias do processo de paz e nomeadamente com a segunda e a terceira premissa referida no post anterior. Em concreto, a proposta de paz em negociação prevê a criação de um Estado Palestiniano que será certamente um Estado inviável: dividido em duas partes, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza; rodeado por um forte aparelho militar Israelita que não aliviará, a longo prazo, o sentimento de claustrofobia das populações Palestinianas; e desprovido de grande parte dos poderes, como o direito ao controlo do Espaço Aéreo, a livre entrada e saída de cidadãos que caracterizam o Estado moderno.

    Na medida que estes elementos levantarao obstáculos ao quotidiano das populações palestinianas, elas terão também consequências sobre o bem-estar de Israel. Com efeito, acredito que após uma fase inicial em que haverá alguma satisfação com a terminação do conflicto 'oficial', existirá um reconhecimento de que a população em Gaza continuará estrangulada entre Israel e o mar, assim como na Cisjordânia sucederá inevitavelmente a desilusão geral com as consequências práticas da paz. A estas eventualidades deverá juntar-se a continuação de actividades ilegais por grupos terroristas como o Hamas contra o presente processo de paz, e consequentemente contra as populações Israelitas e Palestinianas. Deste modo, os Israelitas continuaram a estar vulneráveis a ataques terroristas por parte de grupos radicais Palestinianos. Por outras palavras, nem os Palestinianos terão o Estado que desejam (com a consequência eventual de gerar descrédito pela solução legalista do conflicto), nem os Israelitas terão a segurança nacional que ambicionam (também incitando a atitudes mais agressivas dentro de Israel, nomeadamente a ideia de que Israel deve ocupar por completo a Palestina para sobreviver). No fundo, acredito que, na tentativa de encontrar uma solução rápida para o conflicto que convenha à comunidade internacional, este processo de paz levará ao esvaziamento da margem de entendimento entre Israelitas e Palestinianos e a popularização de posições radicais em ambas as partes. Neste sentido, a solução dos dois Estados tornará ainda mais grave a situação no Médio Oriente.

    Assim, hoje, no dia em que Barack Obama inicia a sua visita ao Médio Oriente, julgo que o reconhecimento desta situação transpira nas declarações feitas por Benjamin Netanyahu e Mahmoud Abbas sobre o processo de paz. Resta saber se Barack Obama tem um coelho para tirar da cartola no último momento.

    END