O dia de hoje, 12 de Março de 2008, fica marcado por dois polémicos pedidos de demissão: o de Eliot Spitzer, Governador do Estado de Nova Iorque, na sequência de um escândalo envolvendo a contratação de prostitutas de luxo; e o do Admiral William Fallon, comandante das forças armadas norte-americanas no Médio Oriente e no Sul Asiático, pouco dias após ter completado apenas um ano no cargo. Embora o primeiro seja notóriamente o mais mediático, como qualquer um poderá comprovar caso tenha a oportunidade de ligar a CNN, a BBC, ou a SKY durante o dia ou até de comprar a Revista do Expresso no próximo sábado, o segundo parece-me incomensurávelmente mais relevante. Isto porque os motivos que levaram ao pedido de cessação de funções do Adm. Fallon, apelidado de “a raposa,” prende-se com questões que, se não mais cativantes, são certamente mais importantes para o futuro dos E.U.A. e do mundo. Voltemo-nos então para estas.O motivo concreto do pedido de demissão de “Jimmy” Fallon centra-se na entrevista concedida por este à revista Esquire de Abril 2008. Nesse artigo, Fallon rejeita a hipótese de intervenção militar americana no Irão para controlar um alegado programa de desenvolvimento de armas nucleares. De acordo com a publicação, o Admiral representava “the strongest man standing between the Bush administration and a war with Iran.” Porém, hoje, no seu pedido público de demissão, o Adm. Fallon referia que não acreditava existirem divergências de opinião entre ele e a Casa Branca quanto aos objectivos a atingir no Médio Oriente, mas que “the simple perception that there is makes it difficult for me to effectively serve America’s interests there.” Em seguida, o Secretário da Defesa norte-americano Robert Gates repediou as referidas alegações sobre planos de guerra como “ridículas” e, apesar de aceitar a decisão de Fallon com “reluctância e pena,” considerou-a “a opção mais acertada.” Do outro lado do espectro, a Senadora Hillary Clinton apelou a George W. Bush para perseguir a via diplomática em vez da intervenção militar, e homenageou o admiral como uma “voice of reason in an administration which has used inflamatory rhetoric against Iran.”
De um modo ou outro, tendo em conta as cartadas políticas que estão em jogo em Washington, não podemos deixar de considerar a demissão de Fallon como um mau presságio para os poucos meses que restam à administração Bush. Com efeito, não foi esta a primeira vez que o Adm. Jimmy Fallon se manisfestou contra uma possível intervenção no Irão. Em Janeiro de 2007, Fallon afirmou no Senado que os E.U.A. deveriam perseguir exaustivamente todas as opções diplomáticas nas suas disputas com a República Iraniana. No mesmo ano, Fallon disse à estação Al-Jazeera que “esperava que não houvesse guerra contra o Irão.” Na opinião de alguns observadores internacionais e “insiders” em Washington, não existem dúvidas que os comentários de Fallon tinham gerado desconforto entre a Casa Branca e os escalões mais altos das Forças Armadas. Como nota de roda-pé, a imprensa menciona que os comentários foram considerados “inaceitáveis” numa altura em que a administração Bush está a trabalhar em várias frentes para aumentar a pressão no Irão. E, acima de tudo, os comentadores temem que a eventual intervenção norte-americana no Irão seja usada como última alternativa para manter um Republicano na Casa Branca. Parece-me que já vi este filme...
3 comentários:
Tenho pena que muitos jornais, muitos de qualidade mundial, tenham preferido escrever sobre Eliot Spitzer e as prostitutas de luxo (andei à procura de fotos mas nao encontrei nenhuma) do que sobre o Admiral William Fallon.
Por muito que se fale de uma possivel intervencao militar no irao, eu pessoalmente nao acredito nem acho que seja realista uma accao desse genero. Para já o mandato do General Bush está a terminar e se ele nao fugir à regra presidencial, estará mais preocupado em preservar a pouca boa imagem que tem. Em tempo de eleicoes, nao seria muito inteligente da parte do Bush atacar o Irao. Isso levantaria uma explosao de criticas vindo de todos os candidatos que se repercutaria no povo americano. A uniao europeia tem tido um atitude bastante clara qt ao assunto. LEvar as sancoes ao limite... e depois criar novos limites para novas sancoes! Uma accao unilateral dos EUA seria ainda mais fatal para as relacoes transatlanticas. Do ponto de vista economico um ataque só elevaria ainda mais os precos do petroleo e poria as relacoes entre os EUA e a China em maus lencois, pois ainda há meses a China assinou um contrato de exploracao e importacao petrolifera megalomana com o Irao. Dada a fragil situacao económica nos EUA, parece-me improvavel que o Cowboy Bush saque da pistola e de um tiro numa bomba armadilhada.
Em primeiro lugar queria agradecer-te por responderes ao meu post - o objectivo dos blogs é exactamente este, publicar e partilhar ideias, e fico mto contente que o tenhas feito.
Em certa medida, partilho do teu cepticismo em relação à possibilidade de uma guerra no Irão até ao final do mandato Bush (embora c este Presidente acho q nunca podemos excluir totalmente essa hipótese). No entanto, o meu post visou apenas salientar que existem esforços nesse sentido, quer antes ou depois do final do mandato Bush. Quando digo que Bush poderá usar isso como "última medida" n me refiro necessáriamente ao começo da guerra, mas tão só à possibilidade premente de uma. Face à percepção de um candidato democrata com pouca experiencia ou de uma mulher concentrada na reforma do sistema de saúde, o veterano de guerra John McCain poderá capitalizar em votos a congénita necessidade da américa de encontrar inimigos exteriores. A demissão de Fallon pode n demonstrar q a Casa Branca tem planos de guerra com o Irão, mas certamente prova q a administração Bush também n os afastou. Por outro lado, se o Adm. Fallon se demitiu apenas porque havia a "percepção" que estava entre Bush e a guerra, então foi uma intenção gorada, pq essa percepção aumentou exponencialmente no momento da sua despedida.
Por fim, queria apenas deixar uma palavra em relação à posição da UE. Cm infelizmente temos vindo a ver, a UE tem dificuldade em concordar em matéria de assuntos externos. De facto, a posição da Comissão Europeia é a favor de sanções, mas isso n quer dizer que seja a posição de todos os estados membros. O próprio Sarkozy já por diversas vezes se manifestou a favor da intervenção militar e Silvio Berlusconi pode ainda regressar ao poder. Portanto a posição da UE só a saberemos realmente no momento em que ela for tomada.
Sempre que arranjar um tempinho tenho todo o prazer em responder e participar no teu blog. espero com o tempo conseguirmos mais comentarios de outras pessoas.
Qt a (desculpem, mas o teclado ca da universidade nao tem acentos) posicao dos EUA:
Creio que o caso Fallon poe a nu uma estrategia de politica internacional, que tem sido a predominante na relacaoes internacionais do EUA: Sempre fazer acreditar que uma intervencao militar e a qq momento possivel. E isto porque na presente situacao que mais parece o jogo "risco", ainda se esta a jogar com bluffs, ameacas e paleio politico. A posicao dos EUA leva-me a concluir que: 1) eles estao a tentar ganhar tempo, ja que ainda nao tem provas contundentes contra o irao. 2) Qualquer sinal de oposicao pode abrir uma brecha na politica internacional e deixar nu as fragilidades de uma politica oca e vazia, portanto tentam evitar a todo o custo qualquer voz/posicao mais controversa. 3)A ameaca de uma potencial "intervencao" militar deixa os EUA numa posicao estrategica "fictiva" de seguranca e de vantagem.
Deixo-vos uma pequena sabedoria dos manuais de guerra chineses: "SE FORES MAIS FORTE, FINGE SER MAIS FRACO POIS GANHARAS A GUERRA. SE FORES MAIS FRACO, MOSTRA-TE MAIS FORTE E COM SORTE O INIMIGO RENDE-SE ANTES DE TERES DE IR PARA A GUERRA."
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