A Gaivota Farragulha

    quinta-feira, junho 12, 2008

    Uma paragem nas Ilhas da Morabeza

    No início, não existia nada. Nem água, nem gente, nem cães, nem vacas, nem porcos, nem galinhas, nem esporádicos postes de electricidade, nem ambíguas construções de pedra, nem improvisados campos de futebol, nem sequer esta estrada de pedra que serpenteia por montanhas e vales estéreis como a superfície lunar. A ilha era deserta. Depois vieram os homens (entenda-se os portugueses), trouxeram outros homens (entenda-se escravos africanos), criaram pequenas cidades portuárias, ergueram alvas igrejas, cultivaram a terra com a escassa água da rara chuva, beberam muita aguardente para aguentar o calor, dormiram uns com os outros para se distrair, geraram uma nova raça, partiram e ficaram, fizeram música boa e viram os dias, não, os anos, passar. Finalmente, há mais de meio século atrás, um homem branco e velho de lá longe, traçou a ilha num mapa com uma estrada tão portuguesa quanto estranha a este lugar, proclamando-a viagem derradeira dos insubordinados do regime antes do desterro no Tarrafal. É aqui que eu sigo.

    De súbito, o carro encosta à direita e pára. Vamos comer. Um bar a meio do caminho, uma casa de pedra pardacenta, uma cabrita de sorriso triste apresentando duas amálgamas: numa tem torresmos, especialidade frita da terra; e noutra desvenda tranches de carne de porco assada. O calor não convida ao repasto. Dois miúdos, demasiado tímidos para se acercarem de nós, debruçam-se sobre o parapeito incompleto do bar, seus olhos descobrindo os botões das nossas camisas, os atacadores dos nossos sapatos, a peculiar fórmula linguística desta gente que desembarca. Aproximo-me para perguntar de que clubes são mas não me respondem. Ainda não falam português, língua que só aprenderão na escola, ou talvez nunca. Por agora falam crioulo mas também a linguagem perceptiva de quem deseja comunicar. O Futebol Clube do Porto não lhes arranca reacção e o Cristiano Ronaldo muito menos, mas lá chegamos à conclusão que gostam mesmo é de jogar Basquete! Prontamente, predispõem-se a mostrar-me essa bola e eu quero, preciso mesmo e pergunto, onde se pode urinar. Casa de banho, não existe. Apontam-me um monte de terra, ali, ali, em frente, de costas para os convivas do bar e de frente para a estrada. Foi ali mesmo.

    No caminho de regresso, venho acossado pelo sol e derivo obliquamente até ao bar, caminhando ingenuamente ao encontro de duas fatalidades: comida e álcool. A Super Bock é quase fresca e prestar-se-ia a refresco não fosse antecedida por outras três nessa manhã. O problema da cerveja, isto depois de escapar ao furor cálido do poderoso ‘Grog’ – a aguardente cabo-verdiana - não reside no acto de ingerir, mas sim em sustentá-la na cabeça e não no cérebro, que é tanto mais difícil aos Europeus, povo habituado a correlacionar todos os aspectos da vida com a esponja encefálica. Em Cabo Verde, ao contrário do que se passa na Europa, onde os alcoólatras têm os seus altos e baixos, as bebedeiras prolongam-se durante o dia inteiro, são constantes, discretas, vulgares e não representam obstáculo à actividade humana, desde da condução ao fazer bebés.


    No que a mim me diz respeito, a estadia no bar poderia ter ficado por aí mesmo, pela Super Bock fresquinha. Porém, esperava-me também as ditas tranches de porco assado, escondidas por baixo de um testo na berma da estrada. O primeiro contacto com a dita carne, mais propriamente com um naco escolhido pela rapariga de olhos grandes, chegou quente e húmido, como se o porco estivesse ainda vivo e transpirasse através do guardanapo de papel para as minhas mãos. Um primeiro exame demonstrava que a pele do bicho era rija e tostada, mas sobretudo pegajosa, roubando-me o papel e os dedos a cada reviravolta. Na boca, a carne era terna e tão gordurosa quanto repulsiva, característica que apenas era entrecortada pelo sabor intenso a uma especiaria picante, algures entre o caril indiano e o ‘jerk’ jamaicano. Um daqueles sabores que fica connosco muito para além da refeição e reside nas prateleiras da memória como um troféu de vida. Comia-se portanto sem equacionar, dentada a dentada alagada a goles de Super Bock, rapidamente e em força até chegar junto ao osso para poder fingir que se apreciou muito. Para sobremesa, escolhi o regaço de outra Super Bock fresquinha que serviu exemplarmente dois fins: limpar os beiços e tranquilizar o palato.



    Só então pude regressar de novo ao universo que me rodeava, da chegada do Presidente do MpD ao bar, aos truques de basquete dos miúdos à minha volta, à rapariga dos olhos grandes e sorriso triste ali sentada. Num instante, o bar encheu-se cheio de som e energia como se os presentes desafiassem a languidez natural da hora do dia. Dir-se-ia que ao primeiro acorde, o povo faria a festa mesmo ali. Na náusea provocada pela fusão do álcool com o calor picante da carne, e de ambos com o ardor da temperatura ambiente, também eu me julguei mais perto daquela gente e quase disposto a esquecer o mundo para além das praias e falésias da ilha de Santiago. No entanto, um comício atrasado esperava-nos e tão depressa quanto chegamos, nos despedimos e partimos pela estrada fora. Em silêncio, não fosse o porco dar sinal de si.

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