Em dez pontos vou tentar dar alguma ideia das minhas primeiras impressoes do Yemen, uma terra surreal:
10 - Qat: O vicio nacional. O qat e uma planta que se masca (tipo folha de coca) e que nao tem efeitos "psico-tropicos," nem provoca dependencia. Resulta meramente como um estimulante leve que pode tambem ajudar a suprimir a fome. A grande maioria dos yemenitas comeca logo a mascar a meio da tarde, alguns logo a seguir ao almoco - nao se celebram negocios sem mascar qat. Ao longo do dia e da noite, vao formando um residuo das folhas mascadas numa bochecha, que vai crescendo ate formar uma enorme bola de um dos lados da cara. Por volta das 10 da noite, as ruas estao cheias de qat porque os yemenitas apenas mascam as folhas mais jovens, e deitam tudo o resto fora.
9 - Trafico urbano. Sinceramente, ja estive na India, em Cabo Verde, no Brasil, mas nunca vi nada assim. Logo na primeira semana vi pelo menos tres acidentes. Os carros sao podres, mas os condutores sao pessimos. Os piores sao os tipos das motos (ja vi 4 numa so moto) que conseguem fazer tudo ao mesmo tempo que conduzem. Julgo que este aspecto esta relacionado com o ponto anterior, uma vez que quase todos os condutores tem uma grande bola de qat. Para alem do mais, nao e fora de vulgar ver um rapaz de 12 anos a conduzir um carro. Mas para ver o verdadeiro espectaculo e preciso ir ate a praca principal, Al-Tahrir Square ("Praca da Libertacao", dos colonialistas, julgo eu...), onde criancas de qualquer idade (ou seja desde que tenham os bracos suficientemente grandes para chegar ao volante) podem alugar uma scooter e, muito literalmente, desbundar o alcatrao!

8 - O Museu Militar de Sanaa e o mais sangrento que alguma vez ja vi. Para alem de uma coleccao fabulosa de kalashnikovs, metralhadoras, canhoes, espingardas e pistolas de todas as nacionalidades e idades, o museu narra graficamente todas as guerras (civis!) em que o Yemen esteve envolvido durante este seculo. Portanto, na sala dedicada a repressao da ditadura podemos ver varios exemplos de execucoes publicas, algumas por decapitacao, desde o momento em que o martir chega ate ao climax, quando o carrasco agarra na cabeca decapitada e espeta-a num pau de madeira para todos poderem observar. O highlight do museu sao os dois Caddilacs blindados do Iman que foram atacados por rebeldes e por isso pejados de balas e artilharia mais forte.

7 - Ramadao. Cheguei mesmo no culminar do Ramadao, o que dificultou bastante minha vida, visto ser absolutamente proibido comer, beber, fumar ou fazer qualquer outra coisa para alem de dormir entre as 4 da manha e as 6 da tarde. Portanto, vive-se a noite, o que e extremamente confuso para quem tem que ir trabalhar durante o dia (a ONU nao altera o horario) e procurar casa, comprar cartao de telemovel, etc de noite. Senti-me sempre ao contrario do resto da cidade, e mesmo agora ainda n acertei muito bem com os horarios yemenitas. Como ocidental, tenho direito a alguns excepcoes a estas regras - como por exemplo, poder beber e comer no hotel durante as horas proibidas, e mesmo assim recebi alguns olhares reprovadores. Para alem do mais, como Sanaa nao e a cidade mais fresca do mundo, custa bastante andar na rua, sem poder tirar a garrafa de agua da mochila para aliviar a sede.

6 - Carros de incendio alemaes. Nao deixa de ser bizarro deparar com o sinal Feurwerk no meio da cidade antiga...

5 - A comida yemenita baseia-se nos feijoes, na carne estufada com feijoes, na galinha/cordeiro cozido com um condimento amarelo e no pao tipo naan - o melhor de tudo. No entanto, e apesar de Sanaa estar rodeada pelo deserto por todos os lados, a grande especialidade local e o peixe grelhado.! Nos restaurantes, os talheres sao apenas servidos por pedido a toalha e um pedaco de plastico.

4 - Esta terca-feira celebrou-se o Eid que e uma especie de Natal para os muculmanos. Tal como na tradicao crista, tambem neste dia se entregam presentes as criancas. Como entretanto me mudei para um hostel na cidade antiga, onde a ausencia de carros permite as brincadeiras nas rua, tive oportunidade de observar em primeira mao a euforia dos dias seguintes. A surpresa nao foi a quantidade de criancas nas ruas, mas sim as escolhados dos presentes: quase todos os meninos tiveram uma pistola, ou metralhadora, ou espingarda e os poucos que nao tiveram, receberam espadas e catanas! As raparigas receberam disfarces, na sua grande maioria, trajes de sevilhanas...
3 - As imagens do Presidente, o mesmo desde o final da ultima grande guerra civil, ha 30 anos atras, estao por todo o lado: nos postes das ruas, nas paredes das casas, colados em todos os cantos possiveis, em bandas na rua. Cheguei a ver uma casa para alugar que tinha pelo menos um retrato do Presidente em todas as divisoes.

2 - Ja sabia que o Yemen era um pais conservador mas nunca imaginei o quanto. E extremamente conservador. Este aspecto e bastante aparente na situacao das mulheres. Desde que ca cheguei ainda n vi nenhuma mulher na rua com a cabeca destapada; 90% das mulheres anda completamente vestida de preto, tendo apenas os olhos a mostra; e os outros 10%, andam igualmente vestidas de preto dos pes a cabeca, mas trazem a cara destapada. A grande maioria das nao pode sair de casa sem estar acompanhada pelo marido ou por uma familiar mais velha; na rua, elas andam quase sempre atras dos homens, e seguem-nos do autocarro para o passeio, dos taxis para as lojas, sem trocarem palavra ou se sentar um ao lado do outro. Em geral, as mulheres nao podem comer em restaurantes - seria impossivel comer em publico c um lenco a tapar a boca. Apenas nos restaurantes melhores se podem ver mulheres e, nestes casos, estao separadas do resto da sala por biombos de tecido, tal como nos hospitais de campanha.

1 - Por ultimo, e na sequencia do ultimo ponto, a grande maioria das mulheres n pode trabalhar fora de casa. Por isso, a maior parte dos empregos que estamos habituados a identificar com tarefas femininas, sao, fora de casa, desempenhados por homens. E o caso dos empregados de limpeza nos hoteis, nos restaurantes e no meu emprego; e tambem dos cozinheiros em quase todos os sitios. Por exemplo, se quissesse contratar alguem para lavar a minha roupa, ir as compras, cozinhar o jantar e limpar a casa contratava um 'empregado'. Felizmente, este rapaz ja aprendeu a fazer as actividades acima descritas e nao precisa de nenhum empregado!
Texto e fotografias minhas.
3 comentários:
Diogo li com atenção o teu post.
Gostei. Mas quero saber mais.
Algumas perguntas:
Não és chateado por tirar fotografias? Pela polícia ou mesmo pelos cidadãos?
A cidade parece relativamente limpinha. Tens de colocar mais fotos.. do tal Qat.. e outras para se compreender melhor a cidade. As que tens aí, faz-me lembrar um bocado o "faroeste"!
Há muitos ocidentais? Com que te estás a relacionar? Que é que fazes nos tempos livres?
E por último.
Qual é mesmo a tua missão em Sanaa?
Abraço
Entao rui? Ta td? Desculpa n ter respondido mais cedo mas n tenho mto acesso a internet e tenho estado bastante ocupado. Vou tentar responder as tuas perguntas sucintamente. Em relacao as fotos, eu keria por mais mas ainda n tive oportunidade...
Em relacao as fotografias: tenho tirado fotografias e ate agora ainda n tive problemas. Em alguns casos, pergunto se posso tirar fotografias e as vezes dizem q n. De qq maneira, esta semana no emprego tivemos uma reuniao sobre a situacao de seguranca e fomos desaconselhados a tirar fotografias pq ja tem havido sarilho c ocidentais.
A cidade nao e mesmo nada limpa. Tenho q por mais fotos pa mostrar a confusao q isto e. N e o faroeste mas e mto, mto roots. Por outras palavras, Sanaa e mais uma grande aldeia do q uma pequena cidade. O qat e outro problema pq a maior parte das pessoas n ker ser fotografada c o qat na boca.
Ha poucos ocidentais, embora o numero tenha aumentado dps do final do ramadao. Para ja tenho-me dado mais c o pessoal do trab (dois ingleses, um gajo do togo, alguns italianos, checos, pessoal do iraq, syria, etc) e c um grupo de outro dependencia da Onu (egipcios, libios, etc). O pessoal do yemen e mto porreiro e se andares na rua, no mercado, as pessoas falam ctg.
A minha missao e escrever um relatorio sobre o impacto dos conflictos inter e intra-clans na Somalia na integracao dos refugiados no Yemen. Isto e, se existem episodios de discriminacao, violencia ou exploracao aqui no Yemen como resultado de vingancas pelo a guerra civil na Somalia. Hoje comecei c as entrevistas e ja deu pra ver q isto vai ser complicado pq a mesma pessoa diz uma coisa e passado 5 mins diz outra...
E por ai? Td bem?
Grande ab,
Diogo
Gostei muito!!! Boa sorte camarada!!!
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