A Gaivota Farragulha

    quarta-feira, dezembro 10, 2008

    O Elogio da Memória

    Por vezes é fácil esquecer os grandes processos de transformação da história em revés de momentos explosivos, aparentemente herméticos no tempo e quase sempre estéreis de justificação em si só. Os Eventos, quantitativamente em ascensão na nossa era, carecem de apêndices complexos, de digressões por estórias obscuras e, frequentemente, incómodas, de vácuos expostos à interpretação. São evidências indiscutíveis, presenciadas identicamente por homens e mulheres em redor do planeta como se todos possuíssem livres de trânsito para o polémico espectáculo da matinée ou da soirée – dependendo do meridiano em que cada qual se encontra. Ignorando a história e desprezando o futuro, a audiência regozija com a tremenda honra de presenciar o evento, de fazer parte da própria história, de, ouvir-se-ia entre a multidão no final da sessão, ‘ver aquilo com os próprios olhos.’ Na altura, consolam-se muito com o sentimento extremo que o acontecimento desperta neles, porém daí a uns dias, por obra de uns artistas criativos, a sua atenção é capturada pela nova atracção no cartaz. Do Evento resta então apenas uma lápide fria, onde jaze esculpida uma data e um título, no estilo do lembrete que se deixa de um dia para o outro na porta do frigorífico, fazendo sombra no deserto gélido da memória humana.

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