A Gaivota Farragulha

    quinta-feira, março 19, 2009

    O Papa e os Preservativos

    (BBC News)

    Tivessem sido dirigidas à Europa, as palavras do Papa Bento XVI sobre o uso de preservativos como forma de prevenção para o HIV teriam talvez despertado escárnio das gerações mais novas e comentadores da actualidade. No entanto, as afirmações chegaram no dia anterior ao início do périplo africano do sumo pontífice e, por esse motivo, revestem-se de uma gravidade acrescida. Basta olhar para algumas estatísticas para perceber a questão:

    Segundo a UNaids, dos 33 milhões de pessoas no mundo infectadas com o vírus da sida em 2007, 22 milhões habitam na África subsaariana. Destes, 12 milhões são mulheres com mais de 15 anos e 1 800 000 são crianças. Mormente, três quartos dos dois milhões de pessoas que morreram de doenças associadas ao vírus da sida em 2007 viviam na África subsaariana. Ontem, a agência da ONU voltou a afirmar que os preservativos são uma parte importante do combate contra o HIV, que infecta diariamente mais de 7000 pessoas.

    Conseguiríamos porventura compreender as declarações do Papa, se habitássemos um mundo ideal em que todos tivéssemos acesso às mesmas condições de educação, serviços de saúde e fossemos mesmo capazes de conter os nossos impulsos mais instintivos. Mas, felizmente ou infelizmente, o nosso mundo é tremendamente imperfeito. Principalmente em África, onde o uso do preservativo é uma questão de vida ou morte. Por isso, as palavras do Papa suscitam dúvidas se ele partilha da mesma realidade ou reside numa redoma de perfeição em que a pobreza, a ignorância e a injustiça são meros conceitos. Manter-se nessa última posicao, prejudica nao só o Papado e a Igreja Católica, mas todos aqueles que se mantém fiéis à sua doutrina. Sendo líder espíritual de uma comunidade de crentes, o Papa deveria mostrar-se mais a par da realidade humana quando desejar intervir em assuntos materiais.


    P.S.: Numa nota mais light, escolhi esta fotografia porque nela aparece a Primeira-dama dos Camarões, Chantal Byia, conhecida pelos seus elaborados penteados como bem ilustra a fotografia. Não deixa de ser irónico que critiquemos o Papa sem criticar também aqueles que fazem do poder em África um veículo de extravagâncias.

    1 comentário:

    Anónimo disse...

    Será que a igreja devia começar a adoptar referendos? Será que evitaria estas vergonhas? Quero ACREDITAR que se esta questão fosse a referendo, esta imbecilidade não passaria por “voz de Deus”. Vivemos numa era em que glorificamos a democracia, certo? Partindo do princípio que Deus gosta de nós, também ele gostará da democracia. Talvez esta ideia deveria começar a ser alargada na sua tão amada igreja e não no seu tão odiado clero que pode votar no “tom de voz em que Deus fala”.
    Nos tempos que correm, tenho FÉ em Deus ter mudado de estratégia (sinal e inteligência). Em vez de se deixar representar por um só corpo, sempre chamado Papa, pode ter escolhido falar pelas cabeças de jovens que não alinham em milagres. Todas as jovens sabem que não emagrecem rezando, mas sim ficando sem comer para rezar. REALIDADE é que ninguém deixa de comer, pois mesmo rezando se tem FOME! A seguir a fome ainda há um problema maior: estas mesmas jovens e seus amigos deixam de ir a missa (porque não adianta), e deixam de se chamar católicos (porque tem vergonha). Por isso se houver um referendo quem é que VOTA?