A Gaivota Farragulha

    sexta-feira, abril 03, 2009

    Compreender o Paquistao - III


    (O mapa étnico do Paquistão.)

    7 - Os movimentos de auto-determinação e/ou os conflitos étnicos podem ter uma de duas origens: ou germinam da aglomeração de grupos distintos num território nacional criado artificialmente no final do colonialismo (o caso de muitos países africanos, por exemplo); ou da instrumentalização de uma identidade 'percepcionada' como meio de mobilização política (no caso português, temos o exemplo de João Alberto Jardim que dispõe da autonomia madeirense de cada vez que a sua popularidade desce). No Paquistão, os movimentos de auto-determinação resultam da mescla das duas hipóteses. Após a independência, os políticos paquistaneses formaram alianças entre aqueles que lhes eram mais próximos, geralmente indivíduos do mesmo grupo étnico (muitas vezes ligados por laços familiares) e não através de ideologias políticas. Nesta fase inicial, os políticos paquistaneses não dispuseram da retórica étnica como forma de mobilização popular - simplesmente, os partidos foram crescendo como de um ou outro grupo étnico. Desde modo, a prática democrática no país levou a uma fortalecimento das identidades étnicas ao revés de uma verdadeira identidade nacional paquistanesa. Este aspecto foi subsequentemente inflacionado pela colonização do Estado pelos militares, e do exército paquistanês por um grupo particular: os Punjabs.

    Com efeito, já durante a Índia Britânica, os inscritos do Punjab eram considerados excelentes militares e constituíam alguns dos regimentos mais eficientes e especializados. A independência e o conflito em Kashmir, apresentaram uma oportunidade aos nativos do Punjabs para tomar as rédeas do estado. Assim, os dois primeiros ditadores do Paquistão, foram ambos militares e do Punjab. Esta afirmação levou, em retorno, à afirmação das restantes identidades étnicas. Embora existam ainda outros grupos étnicos, os que mais se destacaram foram os Mohajirs (sensivelmente os 7 milhões de imigrantes e descendentes desses vindos da Índia), os Sindhis (de onde vêm os Bhuttos e que assumiram o poder na década de 70 e hoje), os Baluchs (que estão espalhados entre o território paquistanês e iraniano e que têm actualmente um energético movimento de auto-determinação), e o Pashtuns (que habitam o norte do Paquistão e o Afeganistão). O cada vez mais óbvio fracasso do Estado levou eventualmente à instrumentalização da etnicidade como meio político.

    (No tempo em que os Talibans eram recebidos pelo Presidente dos EUA.)


    8 - A nível da política externa do Paquistão, em torno da década de 80 ocorreram dois eventos que alteraram profundamente o curso do país. O primeiro foi a revolução islâmica no Irão em 1979. O impacto da revolução foi sentido a dois níveis: primeiro, o estabelecimento de um estado teocrático no país vizinho inspirou muitos a seguir o mesmo caminho no Paquistão - que o General Zia tentou controlar ao adoptar reformas religiosas; segundo, porque a revolução consistia uma afirmação da corrente Shia do Islão. Na medida em que o Paquistão é um país maioritariamente Sunni, mas com uma substancial e poderosa minoria Shia, rapidamente se tornou em palco de batalha entre Shias e Sunni. Dados concretos revelam que na década de 80 generosos fundos Iranianos (Shias) e Sauditas (Sunnis) foram direccionados para o estabelecimento de madrasahs no Paquistão. Foi aliás nesta veia que praticantes da vertente corrente conservadora Wahabi da Arábia Saudita, como Osama bin Laden, primeiro vieram até ao Paquistão.

    Mas a explosão das madrasahs e de grupos religiosos no país foi principalmente resultado do segundo evento crucial da década de 80: a invasão do Afeganistão pelas forcas Soviéticas. Para quem conhece alguma coisa da política externa americana do século XX, basta dizer que esta foi, de acordo com os registos oficiais, a maior 'covert operation' de sempre da CIA. Em poucos meses, os EUA inundaram o Paquistão com fundos e armas que permitiriam a guerrilhas organizadas ao longo da fronteira com o Afeganistão fazer contra-ataques ao exército Soviético. Todavia, mais do que a gigantesca proporção de armas, treino e dinheiro que os Americanos concederam a estes grupos, o ponto verdadeiramente desastroso da operação foi a forma como a CIA deu esse auxílio. Ao contrário de manter um controlo directo sobre esses recursos, a CIA passou-os aos serviços secretos Paquistaneses, o ISI, que, de um momento para o outro, passaram a controlar uma operação transfronteiriça de vários milhões de dólares. O ISI usou este fabuloso poder não só para criar milícias que combatessem no Afeganistão, mas também que infiltrassem no território indiano para combater em Kashmir (já que a este ponto, era melhor estratégia disponível ao exército paquistanês) e, finalmente, fortalecer o poderia da aliança entre militares e Punjabs no centro do poder, em Islamabad (capital construída de raiz na província de Punjab). Como forma de controlar estes grupos, o ISI dividiu e fragmentou-os de cada vez que cada um deles se demonstrou demasiado poderoso. Esta estratégia acabou por levar ao desgoverno e descontrolo dos grupos militares que operavam dentro do Paquistão que, combinada com o facto de algumas altas patentes militares estarem estreitamente ligadas com estes grupos, levou à situação caótica que vivemos hoje. Por isso, quando ocorre um grande ataque terrorista na região, ninguém sabe muito bem que levou a cabo a operação, quem está por trás e como enfrentá-los.



    FIM DA TERCEIRA PARTE

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