A Gaivota Farragulha

    domingo, abril 12, 2009

    Conversas com Somalis sobre americanos...



    (Um grupo de líderes tribais Somalis. Reuters/Shabelle Media)


    Já na parte final da minha estadia no Iémen estabeleci contacto com um rapaz em Safia, o subúrbio de Sana’a onde se concentra a comunidade de refugiados da Somália, que me marcava entrevista com líderes tribais Somalis. Abdulgader, era esse seu nome, não deveria ter 30 anos e na primeira vez que o conheci, vestiu-se a rigor com sapatos pretos engraxados, calças pretas de tecido fino e camisa de fato, azul e impecavelmente passada a ferro. O seu aprumo sofreu um forte desleixo do primeiro para o segundo encontro (que atribuí ao facto de me ter considerado ‘um jovem’) e foi descaindo consistentemente até ao dia em que me recebeu descalço, com o lenço de usar por casa enrolado à cinta e uma t-shirt vermelha que fazia sobressair ainda mais o seu tom de pele escura.

    Havia dias em que chegava a sua casa no preciso momento em que decorria uma das cinco orações diárias que cumpre a todos os muçulmanos observar. Nesses momentos, deixava-se entrar dentro de casa, um rés-do-chão de portas abertas para a poeira amarela da rua, tirava os sapatos sem fazer barulho e atravessava o quarto em bicos de pés até ao lugar para mim reservado na cama (que, para além da mesinha de televisão, dos tapetes e dos cortinados que serviam de portas, constituía a única peça de mobiliário e decoração). A cama era um assento de distinção que, como os sapatos, as calças e a camisa de Abdulgader, vinham ao encontro das expectativas geradas pela presença de um homem branco em casa de um refugiado em Safia.

    Abdulgader nunca me esperava sozinho e, nos instantes em que tinha oportunidade de vislumbrar a sua experiência religiosa, não era invulgar encontrar uma linha inteira de homens prostrados ao seu lado. Um ou outro estavam lá para ser entrevistados, outros vinham acompanhar o entrevistado, outros vinham ver do que se tratava e, por fim, outros eram meros ‘amigos’ de Abdulgader que vinham contar o seu infortúnio ao estrangeiro. As entrevistas começam geralmente lacónicas e improdutivas, mas acabavam sempre por se tornar em debates a muitas vozes, entre as quais tinha que me sobrepor para não perder a tradução de Somali para Inglês de Abdulgader. Era nessa altura, quando o grupo finalmente se desprendia das circunstâncias em que nos encontrávamos, que então acedia ao chá com leite de cabra que me serviam num serviço pequenino de plástico a imitar porcelana.

    Foi durante uma dessas discussões, já não me recordo exactamente, talvez falássemos do abandono dos Somalis pela comunidade internacional, que me veio à cabeça o episódio dos dois helicópteros americanos abatidos nos céus de Mogadishu. Nos livros de história esse episódio ficou eternizado como a Batalha de Mogadishu; na consciência popular, ficou irremediavelmente associado ao filme prosaico de Ridley Scott ‘Black Hawn Down.' Sabendo-me na presença de alguns refugiados de Mogadishu, perguntei então se alguém se lembrava dos eventos desse dia de Outubro de 1993.

    As respostas foram vigorosas. Mesmo entre aqueles que não estavam em Mogadishu, a memória daquele dia estava ainda bem viva. Para aqueles que estavam em Mogadishu naquele dia, o episódio tinha sido um momento inesquecível das suas vidas mal aventuradas. Contaram-me que, assim que souberam da notícia da queda dos dois helicópteros americanos, acorreram ao local para ver os corpos dos soldados americanos, ensanguentados e nus, serem arrastados pelas ruas da cidade. Alguns, relataram-me com orgulho e entusiasmo, que tinham mesmo tido oportunidade de atirar pedras aos corpos sem-vida dos soldados. ‘That day was a great day for us’, disse-me o coro de homens sentados à minha volta, ‘that day we show the world that they shouldn’t mess with Somalis.’

    Devo confessar que as réplicas suscitaram-me desconforto. De repente, tomei consciência de que era o único homem branco no meio de tantos que tinham como motivo de regozijo a execução popular de ‘outros como eu.’ A associação não era só fruto da minha imaginação fértil, mas também patente em todo o nosso relacionamento, desde a roupa de Abdulgader, ao meu lugar na cama, às perguntas sobre a minha opinião dos políticos ocidentais. Foi a ilusão de que a minha presença ali passava despercebida que ruiu por terra. No fundo, a vertigem de desconforto despertou-me para a minha vulnarabilidade naquele quarto, naquela casa diluída no labirinto urbano, naquela cidade tão remota e incompreensível, naquele país miserável e sem lei.


    (Veronique de Viguerie/Getty Images via The Guardian)


    Como é óbvio, ninguém naquele quarto desejava assassinar-me. Mormente, a ideia de que os presentes tinham o à-vontade para falar abertamente sobre o tema comigo acalentava-me o espírito de que afinal as diferenças entre nós poderiam ser encurtadas.

    Assim, o desconforto acabou por dar lugar à surpresa pelas reacções dos reunidos. Na verdade, o furor que o episódio despertava nos homens ali presentes não me fazia qualquer sentido. A Batalha de Mogadishu não lhes trouxe qualquer benefício; pelo contrário, tinha piorado as suas condições de subsistência. As imagens dos soldados americanos arrastados pelas ruas de Mogadishu foram de tal forma traumatizantes para a consciência popular que, na sequência da batalha, o contingente americano bateu retirada, efectivamente abandonando o povo Somali à brutal mercê dos 'Reis da Guerra' locais. O episódio cometeu assim a Somália ao desprezo e esquecimento por parte dos grandes poderes internacionais e proporcionou um livre de trânsito para a realização de alguns dos mais cruéis e generalizados abusos dos Direitos Humanos da era moderna. Acima de tudo, as imagens são inevitavelmente repescadas sempre que alguém tenta explicar a reticência dos poderes internacionais em intervir no Darfur: a Batalha de Mogadishu consolidou a convicção de que o Corno de África é demasiado perigoso, e insuficientemente precioso, para merecer o risco. As subsequentes tragédias humanas na Somália, na Etiópia, na Eritreia e no Darfur são, infelizmente, provas cabais desse argumento.

    Em última análise, e julgo que foi esta foi a maior lição que aprendi na minha experiência com os refugiados, a guerra para os Somalis é muito mais do que um jogo estratégico, do que a conquista de uma posição ou mesmo de uma questão de vida e morte. A guerra é uma questão de honra que ultrapassa os limites da própria existência individual, como que uma herança inextinguível que passa de país para filhos e que tem uma importância maior do que alguns aspectos mais mundanos da existência terrestre. A guerra para os Somalis é um modo de vida, mas também uma tradição que define o estatuto e ocupação das tribos Somalis, estruturas fundamentais numa sociedade sem estado.

    Por isso, quando ao longo do fim-de-semana, assisti à forma como Barack Obama e a forca da NATO (em que está incluída uma fragata portuguesa, como uma prova do interesse estratégico de Portugal na região) planeiam lidar com o tema da pirataria Somali no Golfo de Aden, não posso deixar de considerá-la um erro gigantesco. Há alguns povos, como os Pashtuns na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, os Tamils no Sri Lanka, ou os Palestinos, que, por muito inferiores e agastados que estejam, nunca irão abandonar o campo de batalha. A sua própria estrutura, enquanto indivíduos e sociedade, não lhes permite. Talvez através de conversas regadas a chá com leite de cabra tivéssemos mais sucesso. E essas, por incrível que pareça, são as mais raras.




    END


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