A Gaivota Farragulha

    segunda-feira, abril 06, 2009

    G20: Para além das palavras bonitas

    (Obama cultiva velhos e novos amigos. Kirsty Wigglesworth/Associated Press)


    O script da cimeira dos G20 em Londres poderia ter sido escrito há algumas semanas atrás. Para ser mais preciso, pela altura da reunião dos Ministros da Economia dos G20 no sul de Inglaterra. A declaração assinada pelos líderes mundiais e tornada pública na passada quinta-feira como a grande conclusão da cimeira, estava já escrita há algum tempo. O próprio The Guardian da semana anterior tinha publicado as seis resoluções da cimeira: a rejeição do proteccionismo; a concessão de maiores fundos para o FMI; a rejeição dos paraísos fiscais; a concordância vaga no estabelecimento de um sistema de maior regulamentação das instituições financeiras; a promessa de investimento numa economia verde - 'o Green New Deal'; e a restauração da confiança, crescimento e emprego mundiais através de planos de estímulo económico. Para alguns, talvez com maiores expectativas, como por exemplo o The New York Times, a cimeira foi por isso uma desilusão. Para outros, como o investidor George Soros, a cimeira 'delivered': fez exactamente o que era esperado dela e em dias de incerteza como estes, isso é, por si só, um êxito retumbante.

    No fundo, a verdade é que os líderes mundiais não precisavam de virar Londres de pernas para o ar para assinar uma declaração que já estava acordada - mesmo que à última da hora o Presidente Sarkozy tenha ainda tentado fingir que não, com ameaças melodramáticas. Os líderes foram a Londres por outro motivo que não consta de nenhuma resolução ou declaração comum mas que ficou bem patente para aqueles que seguiram o programa de festas de perto. Com efeito, a cimeira dos G20 em Londres marca, na teoria e na prática, o dealbar de uma nova ordem mundial. Uma ordem mundial em que os Estados Unidos não são a maior potência indiscutível; em que o Presidente Americano procura alianças com outros países para além da sua base tradicional; em que a China, o Brasil e a Índia se sentam à mesa de negociações com uma confiança e conforto desconhecidos; em que a Europa pouco mais pode do que desempenhar o papel do lobbista de uma qualquer moralidade. Entramos na era multipolar.

    Nesse sentido, e no meu ponto de vista, a Cimeira em Londres foi um sucesso. Ao contrário do que seria de esperar do antigo Presidente Norte-americano, Obama, com a sua propensão natural para a diplomacia e o consenso, tem permitido que esta transição decorra de forma suave e pacífica. A sua postura demonstra uma postura pragmática, que enerva os sectores mais conservadores da sociedade norte-americana que insistem na superioridade ('eleição divina') do seu povo, perante a admissão do declínio inevitável dos EUA. Simultaneamente, a sua estratégia permite aos EUA não só manter o estatuto como primus inter pares, mas também promover um sistema de relações internacionais, para além do enquadramento das Nações Unidas, baseado na igualdade entre as partes (pelo menos, entre aqueles que se sentam à mesa de negociações), no diálogo e na cooperação global. Em suma, um pequeno passo que poderá significar muito para nós e as gerações futuras.

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