(© Sophie Bassouls/CORBIS SYGMA)Entretanto, aterraram na mesinha da nossa sala estar em Bruxelas umas quantas edições atrasadas da New Yorker, cuja anualidade a minha namorada teve o bom espírito de me oferecer este Natal. Para quem, como eu, é leitor assíduo da ‘melhor revista do mundo’ - as palavras são minhas mas poderiam certamente pertencer a muitos outros - as semanas pautam-se pelos mágicos momentos em que desvendamos o cartoon imortalizado na capa da última New Yorker para depois devorar o seu recheio. Desta feita, deparando-me com a abundância do recurso outrora escasso, comecei então por ‘julgar as revistas, pelas capas’ e recuperar a leitura em atraso na seguinte ordem: das capas mais interessantes para as menos interessantes.
Porém, sempre que regressava à mesinha da sala para repescar uma nova edição, havia uma capa que me saltava à vista pela sua total e completa falta de originalidade, imperfeições que nunca tinha atribuído à minha revista predilecta. Apresentava pois retratado na capa, de forma muito cabal e aparentemente insípida, nada mais, nada menos do que o próprio símbolo da New Yorker: um cavalheiro oitocentista elegantemente vestido, completo com cartola e monóculo, espiando uma borboleta passageira; em suma, o arquétipo do intelectual. A capa suscitou-me tal desinteresse que a edição de 9 a 16 de Fevereiro de 2009 acabou por ficar para última na fila de espera. Apenas na semana passada consegui chegar até ela.
Já tinha ouvido falar de John Updike. Sabia que era um escritor americano, que tinha publicado recentemente um livro – já traduzido em português – e, julgava-o de algum modo afiliado ao ínfimo movimento socialista norte-americano (estava errado). Logo nas primeiras linhas do primeiro artigo da secção ‘Talk of the Town,’ paragem inaugural da revista, fiquei a saber que Updike tinha morrido este ano (1932-2009) e que a sua relação de quase 60 anos com a New Yorker tinha sido, nas suas próprias palavras, 'the ecstatic event of his professional life.' Ao longo deste e de outro artigo, ambos escritos por dois antigos companheiros da revista, aprendi sobre as origens deste homem brilhante que nasceu numa quinta na Pennsylvania e que manteve até à velhice a humildade que herdou dos pais: segundo um dos colaboradores, Updike era o sonho de qualquer editor, sugerindo pacientemente melhores alternativas sintáxicas para uma frase, não hesitando em perguntar: 'Which one sounds better, do you think?'
Li também sobre um escritor inspirado por Proust e Nabokov, mas também Borges e Henry Green, fascinado pelas coisas mundanas da vida ('uma mulher a correr para o eléctrico; a hibridação dos sotaques Americanos; a forma como o ar frio do compartimento das bagagens nos porões dos aviões pode parecer um segredo quando desfazemos as malas'). Um homem simpático, dotado de um humor honesto que temia aceitar o seu próprio medo pela velhice e pela morte.
Mais à frente, na parte central da revista, publicam-se excertos de algumas das mais 800 contribuições de John Updike para a New Yorker, a primeira das quais na edição de 14 de Agosto de 1954. Que melhor forma de prestar homenagem a alguém que admiramos senão exibir a obra fantástica que esse indivíduo construiu em vida? E que obra a de Updike! No texto 'Museums and Women' de 1967, identificamos não só os contornos do Guggenheim como também alguns dos cenários mais carismáticos dos filmes de Woody Allen:
Porém, sempre que regressava à mesinha da sala para repescar uma nova edição, havia uma capa que me saltava à vista pela sua total e completa falta de originalidade, imperfeições que nunca tinha atribuído à minha revista predilecta. Apresentava pois retratado na capa, de forma muito cabal e aparentemente insípida, nada mais, nada menos do que o próprio símbolo da New Yorker: um cavalheiro oitocentista elegantemente vestido, completo com cartola e monóculo, espiando uma borboleta passageira; em suma, o arquétipo do intelectual. A capa suscitou-me tal desinteresse que a edição de 9 a 16 de Fevereiro de 2009 acabou por ficar para última na fila de espera. Apenas na semana passada consegui chegar até ela.
Já tinha ouvido falar de John Updike. Sabia que era um escritor americano, que tinha publicado recentemente um livro – já traduzido em português – e, julgava-o de algum modo afiliado ao ínfimo movimento socialista norte-americano (estava errado). Logo nas primeiras linhas do primeiro artigo da secção ‘Talk of the Town,’ paragem inaugural da revista, fiquei a saber que Updike tinha morrido este ano (1932-2009) e que a sua relação de quase 60 anos com a New Yorker tinha sido, nas suas próprias palavras, 'the ecstatic event of his professional life.' Ao longo deste e de outro artigo, ambos escritos por dois antigos companheiros da revista, aprendi sobre as origens deste homem brilhante que nasceu numa quinta na Pennsylvania e que manteve até à velhice a humildade que herdou dos pais: segundo um dos colaboradores, Updike era o sonho de qualquer editor, sugerindo pacientemente melhores alternativas sintáxicas para uma frase, não hesitando em perguntar: 'Which one sounds better, do you think?'
Li também sobre um escritor inspirado por Proust e Nabokov, mas também Borges e Henry Green, fascinado pelas coisas mundanas da vida ('uma mulher a correr para o eléctrico; a hibridação dos sotaques Americanos; a forma como o ar frio do compartimento das bagagens nos porões dos aviões pode parecer um segredo quando desfazemos as malas'). Um homem simpático, dotado de um humor honesto que temia aceitar o seu próprio medo pela velhice e pela morte.
Mais à frente, na parte central da revista, publicam-se excertos de algumas das mais 800 contribuições de John Updike para a New Yorker, a primeira das quais na edição de 14 de Agosto de 1954. Que melhor forma de prestar homenagem a alguém que admiramos senão exibir a obra fantástica que esse indivíduo construiu em vida? E que obra a de Updike! No texto 'Museums and Women' de 1967, identificamos não só os contornos do Guggenheim como também alguns dos cenários mais carismáticos dos filmes de Woody Allen:
'She was the friend of a friend, and she and I, having had lunch with the mutual friend, bade him goodbye and, both being loose in New York for the afternoon, went to a museum together. It was a new one, recently completed after the plan of a recently dead American wizard. It was shaped like a truncated top and its floor was a continuous spiral around an over-weening core of empty vertical space. (...) Suddenly, as she lurched backward from one especially explosive painting, her high heels were tricked by the slope, and she fell against me and squeezed my arm. (...) She righted herself but did not let go of my arm. Pointing my eyes ahead, inhaling the presence of perfume, feeling like a cliff-climber whose companion has panicked on the sheerest part of the face, I accomodated my arm to her grip and, thus secured, we carefully descended the remained of the museum. Not until our feet touched the safety of the street level were we released. Our bodies separated and did not touch again.'
Noutro artigo, sobre o último jogo em casa (no Fenway Park dos Red Soks em Boston) do seu ídolo de basebol da adolescência, Ted Williams, Updike descreve como após marcar um fabuloso home-run, Williams remete-se para a escuridão do banco de suplementes sem demonstrar qualquer tipo de reconhecimento pelo êxtase provocado no multidão que grita o seu nome. Na opinião da maior parte dos comentadores, Williams teria sido arrogante; porém, para Updike, Williams tinha agido de acordo com a sua condição: 'Gods do not answer letters.'
Foi neste ponto que percebi o motivo da capa da edição. Os editores escolheram o símbolo da New Yorker para homenagear o homem que personificava talvez melhor do que ninguém o próprio intelectual nova-iorquino do século vinte. Updike é a New Yorker. Foi isso que inspirou este meu artigo e que me levou também a confirmar de novo que não se deve julgar nada, nem sequer mesmo uma revista, pela capa.
Foi neste ponto que percebi o motivo da capa da edição. Os editores escolheram o símbolo da New Yorker para homenagear o homem que personificava talvez melhor do que ninguém o próprio intelectual nova-iorquino do século vinte. Updike é a New Yorker. Foi isso que inspirou este meu artigo e que me levou também a confirmar de novo que não se deve julgar nada, nem sequer mesmo uma revista, pela capa.
FIM
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