'The most dangerous place in the world': as palavras de Barack Obama denunciam a sua inquietação face ao crescente envolvimento norte-americano no Afeganistão e no Paquistão - o conflicto já inscrito nos anais das história como a Guerra em AfPak. Obama tem boas razoes para estar receoso: AfPak tem todos os elementos para se tornar na sua Baía dos Porcos, Vietname ou Iraque.
Na semana em que as tropas americanas iniciam a transição do Iraque para o Afeganistão, Barack Obama certamente não poderá contar com o aconchego dos livros de história. Com efeito, num artigo publicado na edição de Novembro/Dezembro de 2001 do jornal Foreign Affairs, Milton Bearden, director da delegação da CIA no Paquistão entre 1986 e 1989, chama ao Afeganistão 'o cemitério de Impérios'. Foi aqui que o jovem Alexandre de 25 anos, após conquistar a Magna Grécia, o Egipto, o Levante, a Bactria, a Mesopotâmia e o Império Persa, foi ferido quase mortalmente por um arqueiro, marcando o início do final da sua campanha oriental. Foi também nesta região que Genghis Khan, depois de construir o maior império da História, se viu forcado a estabelecer alianças com os autóctones de forma a atravessar as suas estradas. Foi exactamente neste território que, como de resto já foi escrito no último capítulo da série 'Compreender o Paquistão', o avanço do Império Britânico pela Ásia do Sul foi detido no século XIX. Dos 16,500 soldados e civis que participaram da retirada britânica de Kabul em 1842, apenas um sobrevivente chegou ao seu destino (embora alguns dos capturados pelos Pashtuns tenham sido mais tarde libertados).
Contudo, não são apenas os relatos históricos que nos suscitam cepticismo em relação ao envolvimento norte-americano em AfPak. O primeiro elemento a saber sobre a situação actual é que os americanos enfrentam, pelo menos, dois inimigos: os Taliban e a Al-Qaeda (ou os outros grupos terroristas que operam na região). Embora escasso e ambíguo, o nosso conhecimento sobre estes dois inimigos leva-nos a crer que eles têm objectivos díspares: os Talibans são constituídos pelo povo local, os Pashtuns, e pretendem reconquistar o poder no Afeganistão e talvez reforçar a sua posição dentro do Paquistão; pelo contrário, a Al-Qaeda, constituída em sentido lato por combatentes estrangeiros (maioritariamente provenientes da Arábia Saudita), pretendem usar o conflicto para atear a luta global pelo Pan-Islamismo e, mais especificamente, obter a bomba nuclear através do controlo do Paquistão.
À partida, a administração Obama demonstra-se inclinada a estabelecer pactos com os Talibans no Paquistão e a combater ferozmente a Al-Qaeda no Afeganistão e Paquistão. No entanto, como demonstra o falhanço recente desta estratégia na Província da Fronteira Noroeste Paquistanesa, ninguém sabe ao certo qual a natureza das ligações entre estes dois grupos; por outras palavras, talvez será impossível dissociar um do outro no campo de batalha. Isto sem tomar em consideracao o autêntico pântano que é hoje o Paquistão, onde os Americanos continuam num quarto às escuras como que à procura da corda da persiana (por outras palavras, as faccoes em que podem confiar). Mormente, a necessária reversão de políticas humanistas - como a promoção dos direitos das mulheres - para a negociação com os Talibans, poderá acarretar avultadas consequências para o moral das tropas ocidentais na região ('afinal, estamos a lutar por quem e o quê?'), assim como dissolver uma das justificações fundamentais para o público americano: a missão dos EUA de promover os direitos humanos a nível global. Por último, e no momento em que comecam a chegar as primeiras imagens dos custos civis da intervencao norte-americana, podemos apenas imaginar o impacto interno e global para um Presidente como Barack Obama que baseou a sua campanha eleitoral na denúncia do militarismo republicano.
Já este mês, na Foreign Affairs, John Mueller, Professor de Ciência Política da Universidade de Ohio, compara os motivos para a guerra de Obama com a procura de armas de destruição maciça no Iraque por George W. Bush. Na opinião do professor, a missão humanitária dos EUA em AfPak é mesmo a única justificação viável para a intervenção americana, uma vez que: primeiro, a chegada dos Talibans ao poder em Kabul é talvez inevitável (os próprios americanos encaram-na como uma solução provável); mesmo que os Talibans cheguem ao poder, existem bons motivos para acreditar que não irão resultar consequências de maior para os EUA, uma vez que estes estão mais preocupados com a administração internas do que questões de dimensão global; e, por fim, a Al-Qaeda, caso seja tão eficaz como os serviços de informação nos querem fazer crer (Mueller dúvida), é uma rede de agentes internacionais que comunicam entre si através da internet - daí, ser uma falácia a ideia de que a chegada dos Talibans a Kabul significará o restabelecimento de campos da Al-Qaeda no AfPak. No fundo, na opinião de Mueller, a Guerra em AfPak tem custos demasiados altos (nomeadamente, os 'knowns-unknowns' e os 'unknowns-unkowns' de uma possível derrota) para a sua justificação pública e os objectivos que se dispõe a cumprir.
Sobre tudo isto penso que será importante recordar a velha máxima de que não devemos abandonar o desafio em sede da sua dificuldade. Pelo contrário, é nos momentos de maior pressão que os homens, assim como os Impérios podem provar a sua resiliência e adquirir eternidade. Do ponto vista moral e humanitário, AkPak é a guerra certa - a guerra que os EUA precisam travar para recuperar a sua dignidade enquanto povo e Império. Porém, exactamente pelo enorme peso desta expectativa, a Guerra em AfPak poderá também ser a queda da cadeira do senhor fechado na sala oval. Esperemos que esteja ciente deste facto.
FIM

1 comentário:
com que entao "desejo de eternidade" ;) ... mas sim deve ser isso!
os americanos sao humanos,
os humanos desejam ser eternos,
americanos desejam ser /sao eternos!
o porblema é a que preco e a que custo!!!
Enviar um comentário