A Gaivota Farragulha

    quinta-feira, maio 14, 2009

    Aterragem no Porto


    (Fotografia igrigorik via Flickr)


    O capitão anuncia que estamos a sobrevoar as Astúrias, que o tempo no Porto está bom, que chegaremos antes da hora prevista. As crianças na terceira fila ainda nem tiveram tempo de amainar e já estamos a dez minutos do final da viagem. Na fila de trás, o senhor do chapéu já fez tudo o que havia para fazer: já avaliou a Miss Ryanair na revista da companhia (deve ter gostado porque à saída do avião trás a cópia enfiada debaixo do braço), já pediu, pagou e engoliu uma ciabatta de proscciuto, já foi duas vezes à casa de banho, já esticou um olho até às fotografias da Princesa Letizia na Hola! da vizinha do lado, já comprou um perfume qualquer de mulher no serviço de vendas e já tentou a sua sorte ('With Ryanair, you can be a Millionaire') na raspadinha mais descarada do mundo.

    A hospedeira loirinha que percorre o corredor em pesadas passadas que estremecem os bancos mais do que as próprias rajadas do Golfo de Biscaia, apaga pequenos fogos com a determinação orgulhosa de quem atribui maior importância ao seu trabalho do que o comum dos mortais. A senhora da linha da frente, sentada no lugar do corredor, sacode as últimas migalhas das páginas virgens de um romance policial situado algures na América Latina. Aqui ao lado, numa das primeiras filas do avião – onde me sento sempre por acreditar piamente que na parte da frente faz menos turbulência – mãe e filho alternam entre o português e o francês. Ela fala mais português do que ele, quem se demonstra desinteressado por tudo, mesmo nas primeiras nesgas do verde Minho, para além dos confins de uma revista flamenga sobre engenharia.

    O avião socalca de nuvem em nuvem até alcançar as margens do rio Douro. Cruza-o algures entre o Freixo e a Ponte de Don Luís I, proporcionando aos passageiros do lado direito uma fabulosa perspectiva da cidade, e sobretudo, da mítica etapa derradeira deste rio. No ar, a tripulação agita-se em antecipação da aterragem, recolhendo lixos, distribuindo ordens ('Return to your seats!'; 'Remain seated!'; 'Turn off ALL your electronic devises!' e, mais recentemente, 'Take off your headphones!') e, de modo geral, movimentando-se de forma mais brusca e embrutecida. Detenho-me a pensar quando as hospedeiras deixaram de parecer meninas da meteorologia para adoptarem a subtileza dos seguranças que resolvem tudo ao empurrão. Giramos agora sobre o Monte da Virgem, a Antena da RTP mirando-nos como um punhal afiado, e, por instantes, o avião parece estagnar dos céus. Depois, retomamos a posição original e seguimos em linha recta para o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, cruzando de novo o rio Douro já perto da Ponte da Arrábida. Uma voz chama: 'Captain, crew; Captain, crew: five minutes for landing.'

    Afundo-me do banco. O medo, o pavor tremendo de que tudo poderá correr mal no último momento, é apaziguado pelo reencontro com os marcos do meu Porto: a orla branca do mar, a avenida do Brasil ceifando a massa urbana, os cargueiros no porto de Leixões, as torres vermelhas e brancas da Sacor. O avião desafia a pista, acelera, trava, resvala de um lado para o outro, mantém a marcha de descida até aos picos dos pinheiros. O rubor da multidão silencia-se, a respiração suspende-se em previsão do impacto, as mentes encontram-se numa só vontade. Vemos a pista, a pista e o avião ainda não poisa no pavimento, será demasiado tarde?

    De súbito, o avião assenta na pista, rolando violenta, mas confiantemente sobre o alcatrão. Nenhuma voz resiste dentro da cabine. De súbito, a mulher sentada ao meu lado, exclama em português: 'Então, não batem palmas? ' Como que planeado, a multidão irrompe então num clamor de palmas. O filho da mulher ao meu lado rola os olhos nas órbitas, a senhora que vai no outro lado do corredor faz-me um sorriso cúmplice de condescendência e a excursão atrás de mim urra em regozijo. Fazem chacota dos velhos, dos que ainda não estão habituados a andar de avião, dos que temem aterrar no nosso pequeno e pacato Porto. Julgam-os parolos, pacóvios, pobres provincianos portugueses. Eu, contudo, compreendo bem aqueles que têm medo de aterrar no nosso Porto. Não é por falta de hábito nas lides aéreas, mas sim por júbilo e satisfação de regressar são e salvo a casa que eles batem palmas. As palmas são condição 'sine qua non' do sentimento de retorno ao nosso lar. Mas até isso, a sociedade do 'querer bem-parecer', da vergonha mesquinha, da condenação do humilde e do sincero, quer obliterar.

    Por isso, quando abandonei o avião, em último porque os meus companheiros entretanto tinham-se atropelado uns aos outros à saída (sabe lá o motivo de urgência), decidi bater as palmas da próxima vez que aterrar no Porto. Terá que assim ser, até porque, ninguém bate palmas na viagem de regresso.


    2 comentários:

    blá blá bá disse...

    Bem-vindo. :)

    Pauito disse...

    Tou cheio de inveja!

    Mas em Berlin tb tá um grande tempo finalmente acordou para um verao que promete ser de arromba!