(Michael Martin simbolizava a ascensao social no Reino Unido moderno, tendo crescido no ambiente indústrial da Escócia dos anos 50. Getty via The Independent)A demissão do Presidente da Câmara dos Comuns do Parlamento Britânico, Michael Martin, irá certamente levantar algumas sobrancelhas para lá das praias do Reino Unido. Martin demite-se não por envolvimento pessoal no escândalo sobre os gastos dos deputados (apesar de existirem dados relativos a viagens de táxi por familiares seus), mas sim pela forma como lidou com o escândalo. Na opinião dos deputados que votaram na moção de censura, diga-se conservadores, liberais e também trabalhistas, Martin merece a pena máxima pela sua reticência em condenar os deputados envolvidos. Por outras palavras, a sua atitude poderá ter indiciado conivência com interesses estabelecidos. E pela mera existência dessa possibilidade, Martin perdeu o lugar.
Aos olhos de grande parte dos comentadores 'continentais', a punição parece por isso desmedida. Porém, é necessário compreender o simbolismo catastrófico do escândalo dos gastos dos deputados para os cidadãos britânicos. Em primeiro lugar, não é de todo acessório à dimensão do escândalo o facto de estarmos hoje a atravessar a maior crise económica desde a Grande Depressão: que autoridade moral pode resistir em políticos que pedem aos eleitores para apertar os cintos e depois gastam o dinheiro público em estrume de cavalo, assentos de retretes e até tampões higiénicos (reclamados por um deputado masculino)? Nenhuma. No entanto, existe um motivo mais profundo no ódio popular que advém da própria relação que os Britânicos têm com os seus representantes políticos: o orgulho no sistema parlamentar bicameral.
O sistema parlamentar bicameral é a contribuição Britânica para a História universal da democracia (veja-se a sua influência sobre organização política das antigas colónias britânicas, sobretudo dos EUA), o indispensável bastião da luta pela justiça e igualdade social nas ilhas britânicas e, acima de tudo, a origem de muita arrogância face a outros sistemas mais inseguros ou falíveis. No fundo, a suposta imaculabilidade da Câmara dos Comuns abriu caminho para que os Britânicos pudessem fazer chacota das inconsistências, ineficiências e espaços cinzentos dos outros sistemas políticos. O que o escândalo trouxe a público foi que tudo isto não passava de uma fantasia: de um para o outro, o sistema político passou de modelo a espectáculo deprimente. Ou, como dizia este fim-de-semana uma jornalista italiana, o escândalo desvendou ao mundo o elemento caracterizador da sociedade britânica: a hipocrisia.
De uma forma ou de outra, os Britânicos sentiram-se desiludidos, traídos e humilhados e olharam para o porta-voz desta instituição em busca de qualquer conforto ou redenção. Porém, tudo o que encontraram foi um homem que não tinha nada a dizer. O Rei estava nu. E, no meio da revolta, das acusações e recriminações, os Britânicos fizeram exactamente o que se esperava deles: arranjaram um bode expiatório que os restituísse à sua posição natural: a de quem aponta o dedo. How predictable!?!
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