
Pelo menos no que diz respeito à política externa, a administração Obama definiu-se, desde logo, pela ruptura com as linhas seguidas pela administração anterior. Onde George W. Bush concebia blocos distintos ('o eixo do mal' e o 'confronto de civilizações'), Obama concebe um mundo de relações complexas, plurais e dinâmicas (como apresentado na última cimeira dos G-20 em Londres); onde Bush via a necessidade de reafirmar a supremacia unilateral da América num mundo de suseranos e vassalos, Obama vê a necessidade de apresentar a vertente diplomática e cooperativista dos EUA; onde Bush aceitava o recurso a instrumentos e tácticas ilegais, Obama privilegia a promoção dos EUA num plano de ética e justiça internacional; onde Bush ignorava e desprezava os limites da intervenção militar, Obama prefere optar por discretas soluções políticas; onde Bush professava uma dedicação religiosa à democracia, Obama pratica um pragmaticismo meticuloso.
A erupção de violência pós-eleitoral no Irão colocou abruptamente estas duas linhas em rota de colisão. A questão é a seguinte: depois das palavras de amizade de Obama no Cairo, ninguém desejava ver os EUA de novo envolvido na política interna de um país no Médio Oriente; acima de tudo, a administração Obama já teria optado pelo diálogo como a via mais eficaz para a detenção do programa nuclear do Irão. Porém, para atingir esse fim, os EUA deveriam adoptar uma atitude mais tolerante face ao regime de Terão. Ora, como foi argumentado por diversos jornalistas e comentadores na semana passada, as suspeitas sobre o resultado eleitoral no Irão, a emergência de um movimento popular liderado por um político moderado e a repressão violenta levada a cabo por brigadas à paisana (as Milícias Basij), não poderiam ter colocado a administração Obama numa situação mais delicada. Se por um lado os EUA deveriam manter-se alheados da questão para prosseguir os seus objectivos de política externa no Médio Oriente; por outro, o empenho e dedicação aos ideais de justiça e liberdade forçava-os a condenar o governo Iraniano. Na dúvida, Obama optou pelo silêncio. Apenas ontem, sete dias depois do começo da violência, Obama veio timidamente afirmar que 'o mundo estava atento ao que se estava a passar no Irão'.
Julgo que foi um erro - talvez o primeiro que verdadeiramente podemos chamar como tal desde que Barack Obama chegou à Casa Branca. O mundo inteiro teve tempo suficiente para reconhecer a tragédia (e a incrível coragem) do povo Iraniano, assim como a brutalidade do regime teocrático em Terão, antes do Presidente dos EUA fazer qualquer tipo de comentário sobre estes em público. Esta demora suscita dúvidas não só em relação ao empenho de Obama em cumprir uma das promessas do seus discurso de investimento ('And so, to all other peoples and governments who are watching us today, from the grandest capitals to the small village where my father was born: know that America is a friend of each nation and every man, woman or child who seeks a future of peace and dignity, we are ready to lead once more.'), mas também em relação à eficácia da sua estratégia para o Médio Oriente.
Com efeito, na opinião de vários comentadores, sobretudo no campo Republicano, Obama perdeu uma oportunidade para construir apoio internacional contra o regime de Terão. Aqui, deve ficar bem entendido que tal frente não teria como objectivo uma intervenção directa dentro do Irão, mas simplesmente uma forma de condenação da brutalidade do regime e de, assim, acelerar o seu isolamento na esfera internacional. Esse entendimento global sobre a questão do Irão, para o qual esta situação proporcionou condições únicas, poderia revelar-se fundamental nos acontecimentos que certamente acabarão por tomar lugar no Irão. Pelo contrário, ao manter-se silencioso, Obama deixou o espaço aberto para que, no futuro, governos e regimes mais cínicos do que o seu possam suster o regime em Terão (nomeadamente, em troca de negócios favoráveis em petróleo).
Julgo que foi um erro - talvez o primeiro que verdadeiramente podemos chamar como tal desde que Barack Obama chegou à Casa Branca. O mundo inteiro teve tempo suficiente para reconhecer a tragédia (e a incrível coragem) do povo Iraniano, assim como a brutalidade do regime teocrático em Terão, antes do Presidente dos EUA fazer qualquer tipo de comentário sobre estes em público. Esta demora suscita dúvidas não só em relação ao empenho de Obama em cumprir uma das promessas do seus discurso de investimento ('And so, to all other peoples and governments who are watching us today, from the grandest capitals to the small village where my father was born: know that America is a friend of each nation and every man, woman or child who seeks a future of peace and dignity, we are ready to lead once more.'), mas também em relação à eficácia da sua estratégia para o Médio Oriente.
Com efeito, na opinião de vários comentadores, sobretudo no campo Republicano, Obama perdeu uma oportunidade para construir apoio internacional contra o regime de Terão. Aqui, deve ficar bem entendido que tal frente não teria como objectivo uma intervenção directa dentro do Irão, mas simplesmente uma forma de condenação da brutalidade do regime e de, assim, acelerar o seu isolamento na esfera internacional. Esse entendimento global sobre a questão do Irão, para o qual esta situação proporcionou condições únicas, poderia revelar-se fundamental nos acontecimentos que certamente acabarão por tomar lugar no Irão. Pelo contrário, ao manter-se silencioso, Obama deixou o espaço aberto para que, no futuro, governos e regimes mais cínicos do que o seu possam suster o regime em Terão (nomeadamente, em troca de negócios favoráveis em petróleo).
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