A Gaivota Farragulha

    domingo, agosto 23, 2009

    O país que vai a eleições



    (As demolições sucederam a tragédia na praia Maria Luísa. Região Sul)


    A pouco mais de um mês para as importantes eleições legislativas de 2009, o país continua imerso em marés de água fria e insolação trans-ozonal. Os políticos, os partidos e os programas eleitorais permanecem preocupações distantes, acotovelando espaço nas conversas só depois da temperatura do mar, da pré-temporada futebolística, do último burburinho social e da tragédia da vizinha, quer da de lá de casa ou desta da ‘casa’ de férias. A situação ficou bem à vista com o acidente da Praia Maria Luísa na semana passada. Para quem não está a par da história, cinco pessoas (um casal do Porto e duas filhas assim como uma jovem mulher de Coimbra) morreram soterradas na praia, vítimas da derrocada de um rochedo cénico, daqueles que polvilham os postais do barlavento algarvio. Segundo os jornais, desde de 2007 que especialistas da Universidade do Algarve vinham assinalando o local como ‘de risco muito elevado de derrocada’. De igual modo, o comandante do Porto de Faro declarou que ‘esta era uma das situações mais graves’ na costa algarvia, sendo que ‘havia um risco de derrocada a ponto de levar a Autoridade Marítima a colocar avisos.’ No entanto, as obras de prevenção na praia Maria Luísa não estavam nem sequer contempladas no Plano de Acção do Litoral 2007-2013. Assim, e poucas horas depois da tragédia, o Primeiro-Ministro, José Sócrates, teria a tranquilidade para enviar as suas condolências às famílias das vítimas e afirmar que ‘a situação não tinha sido detectada como perigo eminente.’

    A responsabilidade, claro está, não é o do Primeiro-Ministro. Não lhe competia acompanhar e supervisionar a situação das arribas algarvias, muito menos a reacção dos veraneantes perante os sinais de prevenção. Porém, o que a situação penosamente ilustra é o enraizamento da cultura de irresponsabilidade no país que vai a eleições. Se a culpa não morreu solteira, foi porque virou viúva logo na noite de núpcias.

    No dia seguinte, esperava eu que houvessem perguntas. Porque não estaria a praia Maria Luísa incluída no Plano de Acção do Litoral 2007-2012? Porque não teriam tomado ainda as devidas medidas de precaução, nomeadamente a betonização de arribas e a colocação de fitas de interdição, nesta e noutras praias em situações semelhantes? Seria por medo das consequências para o turismo algarvio ou por falta de fundos? Acima de tudo, a quem cabia a responsabilidade de tomar todas estas decisões e porque não as teria tomado? Contudo, não houve perguntas. Pior, não houve quem as perguntasse. Os jornais da tarde dos canais televisivos, começaram por transmitir em directo da praia Maria Luísa, onde acorreram ‘centenas de banhistas e curiosos para prestar homenagem às vítimas do acidente.’ Como pano de fundo, desenrolava-se o ritual dos tais ‘banhistas e curiosos’ que se aproximavam das rochas – algumas ainda por desabar - armados com os respectivos telemóveis 3G para registrar o local da tragédia. Nos breves minutos em que decorreu o directo, houve até quem alinhasse a criançada junto às pedras para fazer a foto. Na SIC, o directo foi sucedido por uma reportagem gravada na praia ao longo da manhã com os ‘banhistas’ que teimavam em desafiar as leis de Newton e estender as toalhas mesmo por baixo destas arribas, alguns em cima delas. A avó com os netinhos regressava essa manhã ao seu recanto na praia, sombreado por um rochedo a meio do areal, com a fé de que ‘a tragédia não ia acontecer igual em dois dias seguidos’. O pai de família falava com autoridade de geólogo de água doce, afirmando que ‘já tinha estado ali a analisar as rochas e, apesar de uma ou duas fendas, não parecia apresentar perigo. Penso eu!’. O grupo de jovens não estava preocupado. Ponto final.

    Da responsabilidade, do respeito pelo próprio e pelos próximos que deveria impedir as pessoas de se deitar por baixo das arribas (pelo menos depois da derrocada), como também da responsabilidade das autoridades públicas em tomar medidas de precaução, e impor obstáculos à irresponsabilidade das pessoas, nem os primeiros raios. O que interessava, aos ‘banhistas’, às autoridades e aos canais de televisão, era esgotar o tema Tragédia. E assim, mais à frente no jornal da tarde, a correspondente da SIC conseguiu um daqueles instantes preciosos que acontecem raramente e apenas em directo: uma senhora de chapéu e óculos escuros chegou ao pé das rochas, pegou numa pedra e veio embora. A jornalista foi atrás dela e disse-lhe:
    - ‘Boa tarde, estamos em directo para o Jornal da Tarde da SIC, foi ali buscar uma pedra?’
    - ‘Sim, sim.’
    - ‘Mas essa pedra tem algum significado para si?’
    - ‘Sim, é que eu sou de Guimarães e gostava de levar uma coisa p’ra casa para me lembrar do que se passou aqui, para manter estas pessoas sempre perto de mim.’
    - ‘Conhecia alguma das vítimas?’
    - ‘Não, mas agora é como se conhecesse.’

    Só depois, apareceu uma senhora com uma farta de cabeleira castanha e discurso imperceptível, traços que lhe conferiam o ar da autoridade, que recitou algumas frases sobre ‘o andamento dos trabalhos’ (de repente, estava tudo a trabalhar nas arribas algarvias) e visitou a praia para demonstrar o zelo e celeridade com que as autoridades estavam a lidar com a situação. O primeiro-ministro selou o caso com as declarações acima transcritas e que vieram salvaguardar todos aqueles que poderiam ter qualquer responsabilidade na tragédia, de que não haveria culpados. Por outras palavras, foi um acaso infeliz que poderia acontecer a qualquer um de nós, a qualquer hora. A mesma lógica aplica-se ao país que vai a eleições: a crise económica é um acaso infeliz cujos responsáveis são célebres anónimos e distantes (mas ninguém tem interesse em falar sobre a a crise nacional, aquela que antecedeu, acompanhou, e sobreviveu a recessão global) e, no fundo, no fundo, apenas uma minoria está verdadeiramente interessada em descobrir as origens da crise e resolvê-la. Preocupam-se sim com a tragédia da vizinha. Este é o país que vai a eleições.

    2ª Fotografia: Imagem do que restava da rocha depois da derrocada e antes da demolição completa da autoria de José Pedro Castanheira.

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