(Retrato de um homem solitário. DebateItOut)
É talvez irónico que a geração que cresceu à procura de uma rapaz franzino, de óculos redondos e t-shirt às riscas vermelhas e brancas em livrinhos, seja também a que coincidirá no tempo com a persecução verídica de um homem franzino, de barbas triangulares e turbante branco chamado Osama Bin Laden. Com efeito, e apesar de entrar agora no seu nono ano (sendo já mais longa do que a Primeira ou a Segunda Guerra Mundial), a ‘guerra contra o terrorismo’ parece caminhar para um longo encore. Como ilustrado pela recente tentativa do nigeriano Umar Farouk Abdulmutalab, o terrorismo internacional permanece activo e com capacidade para esgueirar-se das mais apertadas medidas de segurança. No entanto, parece-me difícil estabelecer uma corrente de ligação entre Umar Farouk, o Iémen e a Al-Qaeda, tal como foi amplamente difundida pelos meios de comunicação mundiais. Sabemos apenas que Umar Farouk agiu sozinho; que visitou o Iémen poucos meses antes do ataque (curiosamente, para aprender árabe na escola que ficava na rua da minha casa); que Osama Bin Laden tem laços fortes com o país, uma vez que ambos o seu pai e a sua primeira mulher são iemenitas; e que o primeiro ataque atribuído à organização terrorista teve lugar em 1992, em Aden, nos Hotéis Movenpick e Gold Mohur (actual Sheraton Aden, onde, no ano passado, passei uma belíssima tarde). Porém, tais elementos não representam provas irrefutáveis de uma eventual trama transfronteiriça contra o Ocidente com sede no Iémen. Pelo contrário, eles sugerem que tal analogia tenha mais que ver com a nossa pueril atracção por grandes fugitivos.
Importa remontar às origens da Al-Qaeda e definir o que entendemos hoje por Al-Qaeda para perceber a questão. Pensa-se que a organização terá sido fundada em 1988 por um grupo de militantes internacionais no Paquistão com o objectivo de unificar as centenas de brigadas que combatiam a invasão Soviética do Afeganistão. A liderança do grupo era constituída por cerca de 20 ou 30 combatentes, entre os quais o saudita Osama Bin Laden (o financiador), o cirurgião egípcio Ayman Al-Zawahiri (considerado por muitos o ‘cérebro’ das operações e, reputadamente, o actual líder da organização), o iraquiano Abu Ayoub al-Iraqi (o primeiro chefe de operações da organização), os egípcios Abdullah Azzam, Abu Ubaidah al-Banshiri, Mohammed Atef, Saif al-Adel e Sayeed al-Masri (todos eles sucessivos líderes da organização). Desde então, esse grupo foi sofrendo sucessivas baixas e divisões até que no final dos anos 90 a Al-Qaeda tinha exausto os seus recursos financeiros e estava perto da dissolução, tendo falhado o seu objectivo inicial de centralizar a liderança dos militantes sunitas. Nesse mesmo período, outros grupos, nomeadamente o paquistanês Lashkar-e-Taiba e o palestiniano Hamas, tinham assumido uma posição de destaque junto da população muçulmana. Confrontrado com este panorâma, Osama Bin Laden – por agora, já perseguido e refugiado Afeganistão – assumiu o comando da organização. Porém, a Al-Qaeda estava longe de ser o portento dentro e fora do Afeganistão que um dia os seus líderes sonharam fundar. Por outro lado, ele próprio não era a figura popular e influente que outros escolheriam para a liderar o movimento jihadista internacional. Porém, Bin Laden tinha em mente uma estratégia para reverter as fortunas da Al-Qaeda.

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