A Gaivota Farragulha

    quinta-feira, abril 01, 2010

    Dia 24 - Valsa com Bashir



    (Soldados em Akko, no norte de Israel. IndigoeoMar) 


    ‘Which place did you like the most, so far?’ Noutra situação, a pergunta marcaria o inicio de um pacífico serão. Porém aqui, sentado da sala de estar de três militares israelitas que conhecemos dois dias antes através do site couchsurfing.com, a pergunta soa-me a convite para passear num campo de minas*. Optamos pela sinceridade: ‘Balbeek, in Lebanon.’ Pedem-nos para explicar. ‘Oh, it’s amazing! The size of the temples, the state of conservation and the atmosphere, it’s really special. It’s in a valley, surrounded by huge mountains and the peaks are still covered in snow. Shame we couldn’t stay for longer because it became dark and we had to leave.’

    ‘I was in Balbeek once,’ diz o Doron, o nosso contacto do couchsurfing. ‘It was dark too and there was a lot of fireworks. And I was shitting myself.’ Afinal, a conversa sempre era um campo de minas.

    A partir deste ponto, o nosso interlocutor transforma-se: desapareceu o jovem vibrante, criado num kibbutz no norte do país, voraz defensor dos ideais comunistas e surgiu um adulto ansioso, tremulo de mãos e de cara, e possuidor de olhar frio e lancinante. Diz-nos que o exército israelita decide, com base em exames físicos e psicologias, em que divisão cada jovem do sexo masculino cumpre os três anos do serviço militar obrigatório. No caso dele, coube-lhe uma divisão de elite. ‘I’m a good shooter. What can I do?’ Diz-nos também que tinha 18 anos e fez o que lhe pediram porque tinha medo – não pretende falar sobre o que fez (eu sei, eu perguntei). Diz-nos que duas vezes por ano é chamado para treinar no exército, para se manter em forma, e que, em caso de guerra, como em 2006 com o Líbano, deve apresentar-se ao serviço. Mais tarde, e já em forma de desabafo, diz-nos: ‘So much fighting for land! They want the land, they can take it!’ Pensei com os meus botões: passa-se qualquer coisa de errado.

    No dia seguinte, estávamos de novo reunidos na sala - eu, a minha namorada, o Leor e um amigo deste, o Aviv. Mal a minha namorada se retirou para o quarto, o Aviv disparou na minha direcção: ‘What do they say about Israel in Lebanon and Syria? What do they think about us?’ Era a pergunta que eu mais temia. Porém, tal como na noite anterior, quem começou a tremer foi o meu interlocutor. Da minha resposta pouco quis ouvir. Olhando com os olhos mais sérios com que jamais me olharam, e para os quais não encontro outra associação senão os da testemunha de acontecimentos tremendos, disse-me qe não estava a favor daquilo que os israelitas faziam com os povos árabes. Mas logo depois disse que considerava estranho que os palestinianos na Jordânia não gostassem de Israel (contei-lhe a conversa com um motorista), tendo em conta os acontecimentos de Setembro de 1970 – quando o Rei Hussein da Jordânia esmagou brutalmente a resistência palestiniana e obrigou-os a partir para o Líbano. Pediu-me, várias vezes, para o confirmar na Internet, até que lhe prometi que o veria amanhã (aqui está). A sua obstinação lembrou-me a indeferença dos loucos perante o que os outros pensam e dizem – ele projectava em mim próprio um julgamento moral sobre aquilo que ele e o país dele fazem (mesmo depois de lhe ter dito que tinha partido nesta viagem de mente aberta sobre o conflito e por isso tinha visitado estes países).

    Lembrou-me também o filme israelita ‘Valsa com Bashir’, nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira no ano passado (se ainda não viram, recomendo). Curiosamente, quando estávamos no Líbano, o filme veio à baila. Os meus amigos que lá vivem disseram que não apreciaram o filme por o achar condescendente com os soldados israelitas. Discordei na altura, e depois destas duas últimas noites, discordo com ainda mais convicção. Os soldados israelitas podem ser a mão que segura a pistola mas não são o cérebro que decide disparar. É necessário e humano reconhecer que também para eles, tão novos e tão manobrados, a guerra é uma violência. Negá-lo é outra forma de extremismo.




    * Acresce a este aspecto, o facto de os Israelitas não poderem viajar para a Síria e para o Líbano, sendo por isso compreensível a sua curiosidade por estes países.

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