As ilhas Mayotte pertencem ao arquipélago dos Comodoros, ancorado entre o norte de Moçambique e a ilha de Madagáscar. Nos guias turísticos assim como nas fotografias encontradas pela net, Mayotte bem poderia ser o paraíso na terra. Composto por uma ilha principal (Grand Terre ou Mahoré), uma mais pequena (Petit-Terre ou Pamanzi) e vários ilhéus em torno destas, Mayotte tem um clima tropical, um terreno rico de origem vulcânica e uma fauna e flora diversa. Porém, a sua beleza não se resume a aspectos estéticos e naturais. Mayotte atravessou a história da humanidade como um importante interposto comercial no Oceano Indico. Desta convergência de gentes e culturas resultou uma sociedade miscigenada entre povos Europeus (onde também deverá correr sangue português), Árabes, Africanos e Asiáticos.
Após anos de letargia e esquecimento, Mayotte regressa este fim-de-semana aos anais da história. A questão remonta ao fim do domínio francês sobre as ilhas Comodoro (entre 1833-1974), em que os habitantes da ilha optaram, em referendo, por manter as ligações institucionais com a Franca ao revés da inclusão no território nacional das ilhas Comodoro. O resultado foi repudiado pelo recém-formado governo das Comodoro e, em 1976, uma resolução das Nações Unidas, apoiada por 11 dos 15 membros do Conselho de Segurança, reconheceu a soberania de facto da União das Ilhas Comodoro sobre o território. No entanto, a Franca, como membro permanente, vetou a resolução e o destino das ilhas permaneceu no limbo durante as próximas décadas.
A disputa poderá todavia ficar resolvida este fim-de-semana com o referendo sobre a integração das ilhas no território ultramarino Francês. De acordo com as últimas sondagens, 70% da população irá votar a favor da proposta. A ideia parece-me desde logo uma forma mais sofisticada ('dare I say, afrancesada') de colonialismo. Ao contrário da experiência passada, o colonialismo do séc. XXI baseia-se nos princípios de sufrágio universal, liberdade de opção e democracia - por cá, não me importaria nada de ver Cabo Verde reintegrado no território português por referendo. Porém, resta saber se os resultados serão muito diferentes dos do passado (os habitantes de Guadalupe teriam certamente alguns conselhos a dar aos seus futuros compatriotas Mayottes).
Acima de tudo, o que está aqui em jogo é muito mais do que o direito dos Mayottes adquirirem ou não o passaporte francês, ou da instalação de mais um Club Med, mas sim uma importante demarcação estratégica do Estado Francês. O que está em jogo é a partilha do Índico. Na edição do mês passado da revista Foreign Affairs, o jornalista americano Robert D. Kaplan (por acaso, casado com uma portuguesa, Maria Cabral) escrevia que o Oceano Índico será o palco do século XXI. Lá estão as áreas de influência geográfica dos poderes emergentes, a China e a Índia, as maiores reservas do cada-vez-mais-escasso petróleo (na península Arábica, no Irão, no Kuwait e no Iraque); lá estão os grupos terroristas mais activos em todo o mundo e as disputas territoriais mais importantes do planeta - à excepção do conflito israelo-árabe; lá estao alguns dos centros económicos mais importantes do novo mundo, como Mumbai; e por lá passa a maior parte do comércio mundial.
O referendo vem trinta anos depois da independência, mas apenas um mês depois do Presidente Iraniano Mahmoud Ahmadinejad visitar o arquipélago (conseguem imaginar o Senhor Ahmadinejad a passear de chinelos na mão, debaixo dos coqueiros?). A crescente influência iraniana sobre a região é notória na quantidade de escolas e mesquitas financiadas por capitais iranianos e pelo facto de o próprio presidente do país, Ahmed Abdallah Mohamed Sambi, ter estudado no Irão. Portanto, e para parafrasear alguém com propensão natural para repetir clichés, não há coincidências...

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