(Guarda na Província da Fronteira Noroeste, primeira frente de batalha na luta contra o terrorismo. Tyler Hicks/The New York Times) O ataque de hoje a uma Academia de Polícia em Lahore, a mais tranquila e liberal das cidades paquistanesas, demonstra bem a gravidade dos desafios enfrentados pelo país e a comunidade internacional. Com efeito, o Paquistão é provavelmente a única região do mundo onde, todos os dias e quase simultaneamente, podem ocorrer ataques terroristas por movimentos nacionais de afirmação territorial e religiosa; operações por inúmeras guerrilhas e células de organizações ilegais internacionais; incursões militares agressivas dos EUA; escaramuças na frente de batalha com a Índia; violência sectária entre Shiitas e Sunitas; guerrilhas urbanas em Karachi e Islamabad; mutins nos campos de refugiados; manobras suspeitas de um exército desobediente na posse da bomba nuclear e demonstrações cabais da ineficácia ou inexistência do Estado. Por todos estes motivos, tem sido tão difícil escrever qualquer coisa sobre o Paquistão, país que verdadeiramente me apaixona. Na tentativa de ilustrar melhor o que se está a passar, decidi então fazer uma listagem de 10 PONTOS fundamentais sobre a história recente do Paquistão que talvez possam ajudar qualquer coisa:
1 - O Paquistão tornou-se independente a 14 de Agosto de 1947. O movimento que levou a esse momento nasceu na Índia no final da década de 1920, aquando das primeiras 'efectivas' discussões sobre a eventual independência da Índia Britânica. Nas províncias em que os muçulmanos estavam em minoria, como no Uttar Pradesh e Maharastra, detinham uma posição social importante, constituíndo, de forma geral, uma burguesia comercial. Por isso, o advento de um regime democrático na Índia, no qual a maioria Hindu decidiria, representava uma afronta ao seu poderia e estatuto na sociedade. No entanto, o Paquistao veio a nascer não nas províncias em que os muculmanos estavam em minoria, mas precisamente naquelas em que os muculmanos estavam em maioria (nomeadamente, no Punjab, Sindh, Baluchistao, nas Províncias Pashtuns a norte e no Bengal Oriental), onde existia apenas apenas um apoio relativo pela criação de um Estado para os Muçulmanos do Sub-continente. Para os muçulmanos das províncias maioritárias, o elo mais importante de relações era a sua identificação étnica (essencialmente, linguística) com os seus vizinhos e não uma ideia vaga e abstracta de nacionalismo indiano-muculmano nascido poucos anos antes.

(Mohamed Ali Jinnah, o 'pai' do Paquistao aparece na capa da revista Time em 1946)
2 - De acordo com o plano de partição apresentado pelo Lord Mountbatten, algumas províncias da Índia Britânica teriam a oportunidade escolher entre a integração no território indiano ou paquistanês. Uma dessas províncias foi o principado de Jammu e Kashmir, governado por um Maharaja hindu, Hari Singh, mas predominantemente populada por muçulmanos (aproximadamente 77%). Inicialmente, o Maharaja inclinou-se para a integração do território com o Paquistão mas perante alguma impaciência e agressividade dos negociadores paquistaneses decidiu optar pela opção indiana. Nessa altura, o exército do recém-formado Paquistão decidiu invadir o território provocando um contra-ataque das forcas indianas que levou à primeira guerra pelo território de Kashmir entre 1947-48. O conflito levou à divisão do território pela chamada 'Line of Control' (LOC), em que aproximadamente um terço da província ficou em posse paquistanesa, e metade permaneceu indiano. O último terço do território, a nordeste, foi entretanto cedido pelos paquistaneses à República Popular da China que tinha vindo a enviar tropas para a região. Em 1948, uma resolução do Conselho de Seguranca da ONU recomendou a convocação de um referendo sobre o futuro de Jammu e Kashmir que até hoje ainda não foi marcado.

(A Linha de Controlo em Kashmir)
3 - A questão de Kashmir marcou tremendamente o futuro do Estado Paquistanês. Acima de tudo, a guerra levou à expansão e enobrecimento das forcas armadas paquistanesas dentro do aparelho de Estado. Logo em 1958, o General Ayub Khan assumiu as rédeas do país num golpe de estado que introduziu o país às ditaduras. Khan governou até 1969, quando foi substituído por outro general, Yahya Khan, que governou também em ditadura. Foi apenas em 1972, após uma viragem na história do país (que falaremos a seguir), que o Paquistao regressou à democracia com o governo de Zulfikar Ali Bhutto, pai de Benazir Bhutto. No entanto, sete anos mais tarde, em 1979, Bhutto foi deposto, condenado à morte e enforcado por um novo golpe de estado militar, desta feita liderado pelo General Zia ul-Haq. Zia governou por quase dez anos até 1988, quando morreu num misterioso acidente de avião. O Paquistão regressou então de novo ao universo das democracias com a eleição da primeira mulher Primeira-Ministra do país, Benazir Bhutto. Dentro e fora do país respirava-se finalmente a esperança de que o Paquistão estava a enveredar no caminho certo. Porém, apenas 20 meses mais tarde, Benazir Bhutto foi deposta sobre suspeitas de corrupção. Nos anos seguintes, o governo paquistanês foi intermitentemente ocupado por ela e pelo maior político da oposição, Nawaz Sharif, embora nunca por mandatos completos. Na verdade, foi durante a década de 90, o maior período contínuo de democracia no Paquistão, que se verificou a maior deterioração da estabilidade política e económica do país. Este período chegou abruptamente ao fim em 1999 com o golpe de estado liderado pelo General Pervez Musharraf. Este governou, também em ditadura, até 2008. Ao todo, desde da independência até hoje, o país passou 30 anos de democracia e 31 de ditadura militar.

(Zulfikar Ali Bhutto cumprimenta Indira Gandhi, a 28 de Junho de 1972, numa tentativa de atenuar as relaccoes entre os dois países vizinhos, na presenca da filha Benazir)
FIM DA PRIMEIRA PARTE
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