4 - O momento definidor da breve história do Paquistão teve lugar em 1971. Após anos de discriminação e negligência, a parte oriental do país (Paquistão Oriental, hoje Bangladesh) inicia uma campanha em direcção à obtenção da independência. A expansão da revolta dentro do território Paquistanês representa para a Índia uma oportunidade fabulosa para dar um golpe fatal no seu fiel inimigo. O apoio militar e financeiro indiano à região oriental do Paquistão permite aos rebeldes ganhar a guerra de independência em 1971 e assim declarar a independência do novo país. As consequências deste desenvolvimento para o futuro do Paquistão não podem ser subestimadas. Em primeiro lugar, a independência do Bangladesh deitou por terra qualquer pretensão do nacionalismo indiano-muçulmano ao efectivamente dividir os muçulmanos do sub-continente em dois países. Ao mesmo tempo, a independência do território oriental serviu de exemplo e motivo de alento para outros grupos secessionistas do Paquistão ocidental, como os Baluchistaneses (que ocupam um território entre o Irão e o Paquistão) e os Sindhis (no sul, na zona de Karachi). Com efeito, nos meses que se seguiram à guerra, o Estado Paquistanês teve que dispor de meios militares para impedir a completa fragmentação do país. Em suma, e como escreveu o académico Tarik Ali, a independência do Bangladesh foi a sentença de morte à espera de ser concretizada que pairou sobre o Paquistão desde 1971.
(Uma família num subúrbio de Rawalpindi, a cidade militar, em 2008. AP)
5 - A deterioração política do Paquistão resultou de e solidificou um sistema de oligarquia económico. Na realidade, os próprios Paquistaneses referem-se ao poderia extraordinário de alguns como as famosas '22 famílias'. O termo foi primeiro empregado em 1968 por Mahbubul Haq, Economista Chefe da Comissão de Planeamento, para descrever a circunstância de 22 famílias Paquistanesas deterem aproximadamente 66% da riqueza industrial do país e 87% das instituições financeiras e seguradoras no país. A estas famílias, nomeadamente os Saigols, Dawoods, Habibs, Adamjees, Bawany, Hashwani, Sharifs de Ittefaq (família de Nawaz Sharif, principal político da oposição actualmente) e os Sheikhs, vieram juntar-se mais tarde os Bhuttos (actualmente entre os mais ricos no país). A expansão do poderio económico, político e militar destas famílias, que amiúde cultivaram casamentos endogâmicos de forma a preservar um círculo fechado, foi directamente proporcional ao empobrecimento da população em geral. A situação foi particularmente manifesta durante a década de 90, durante os governos democráticos de Bhutto e Sharif, em que a riqueza e opulência dos políticos não encontrava qualquer tipo de paralelismo na realidade dura do povo paquistanês. Na verdade, na época, não era invulgar ver homens a pagar fogo a si próprios perante o desespero de não poder sustentar as famílias. Com o dealbar do século XXI, a situação tornou-se ainda pior devido à forte desaceleração da economia paquistanesa.
(Castigo público em Karachi em 1980)
6 - A crise do nacionalismo indiano-muçulmano preconizou a escalada do 'rigorismo' religioso nos anos 70 como uma solução para o vácuo de identidade do Paquistão. Foi o próprio Zulfijar Ali Bhutto que introduziu ao país as primeiras regras jurídicas retiradas da sharia (código islâmico). Todavia, foi durante a ditadura do General Zia ul-Haq na década de 80 que esse processo de islamização viveu os seus dias mais energéticos, antecedendo mesmo a experiência dos talibans no Afeganistão. Para além da já bem conhecida proliferação de escolas islâmicas durante este período (madrasahs), Zia legitimou os tribunais de Sharia, os castigos corporais (como, por exemplo, o apedrejamento pelo crime de adultério ou a amputação da mau direita pelo crime de furto) nos tribunais civis, a proibição total da venda de bebidas alcoólicas, leis contra a blasfémia, e ainda uma compreensiva islamização da economia que incluiu a introdução do pagamento obrigatório da zakat e ushr (contribuições religiosas para os pobres). O processo de islamização teve também fortes contornos externos que discutiremos a seguir. Apesar das grandes reformas efectuadas nesta direcção, no final do regime de Zia, a maior parte da população paquistanesa parecia desgastada com o zelo religioso dos seus líderes. Por este motivo, durante os primeiros governos democráticos dos anos 90, principalmente nos de Benazir Bhutto, foi possível revogar grande parte das cláusulas islâmicas e redireccionar o país no sentido de uma identidade cívica. Porém, a pobreza da população e as graves falhas do Estado Paquistanês permitiram a manutenção e, com efeito, a crescente expansão das madrasahs por todo o território nacional. O sucesso destas instituições residiu no facto de proporcionarem não só educação, mas também alimentação e roupa aos seus estudantes, o que levou muitos pais a enviar os seus filhos para madrasahs. Porém, é importante olhar para as madrasahs com alguma cautela pois não existem valores certos sobre a expansão destas instituições e também devido ao seu carácter diversificado: diferentes vertentes do Islão são ensinadas nas madrasahs paquistanesas; algumas funcionam como escolas a tempo inteiro, outras como ocupação de tempos livres e outras ainda durante períodos do ano.
FIM DA SEGUNDA PARTE

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