A Gaivota Farragulha

    terça-feira, julho 14, 2009

    Balochistão - o conflicto invisível


    (O Baluquistao é o ponto de ligacao entre o Paquistao, o Irao e o Afeganistao. Al Jazeera)

    Em 1962, numa visita oficial ao Paquistão, Henry Kissinger, quando questionado sobre a rebelião armada no Balochistão respondeu: 'I wouldn't recognize the Balochistan problem, (even) if it hit me in the face.'

    Hoje, essas palavras reclamam desforra. A questão do Balochistão ainda não atingiu os EUA directamente na face, mas está cada vez mais perto disso, tendo já, por diversas vezes, tido oportunidade de deferir golpes indirectos sobre a política da região. Como foi referido anteriormente neste blog, o povo do Baluchistão, os Baloches, identificam-se como um grupo étnico (na sua larga maioria, Sunis Muçulmanos), que demanda, no mínimo, um estatuto especial dentro do República Islâmica do Paquistão e, no máximo, um território nacional autónomo. O sentimento generalizado da população face ao estado central foi resumido nas palavras de um dos líderes históricos do movimento, Nawab Akbar Bugti Khan: 'I have been a Baloch for several centuries. I have been a Muslim for 1,400 years. I have been a Pakistani for just over fifty.'

    Na verdade, os Baluches nunca quiseram fazer parte do Paquistão. Assim, desde a criação do estado paquistanês, os Baluches organizaram já cinco rebeliões armadas contra este: 1948 (logo a seguir à fundação do Paquistão); 1958-59; 1963-69; 1973-77; 2004-até hoje. Existem diversos factores que alimentam o nacionalismo Baluch: a homogeneidade linguística, o sistema tribal elaborado, a extrema pobreza da população mesmo em comparação com o resto do Paquistão (por exemplo, apenas 20% da população tem acesso a água potável contra 86% a nível nacional) e, curiosamente, uma enorme riqueza em minérios. Especialistas acreditam que no Balochistão se situam as maiores reservas mundiais de cobre (matéria-prima para maquinaria militar) e o estado é também rico em gás natural e ouro.

    Hoje, porém, a disputa adquire novos contornos de acrescida importância para a política externa dos EUA naquela que é uma das regiões mais explosivas do mundo. Em primeiro lugar, o Baluchistão fica a meio caminho entre o coração do Paquistão; o problemático sul do Afeganistão; e o este do Irão. Instabilidade dentro do Balochistão significa também instabilidade em qualquer um destes países, o que em alguns casos pode até ser bem-vindo (Irão), mas noutros (Paquistão e Afeganistão) é absolutamente indesejável. A rebelião Baloches tem tentáculos em todos estes países, e ontem mesmo, foram executados no Irão 12 membros de um suposto grupo terrorista Baloche. Em segundo lugar, é exactamente na província do Baluchistão que se situa hoje a maior população de refugiados do mundo, Afegãos, na sua maioria Pashtuns. Esta situação tem vindo a contribuir não só para a deterioração dos problemas sociais e económicos da província, mas também para gerar um conflito de natureza étnica entre Baluches e Pashtuns - inquietante, no contexto fragmentado do Paquistão. Por fim, existe também o projecto de 2 biliões de dólares financiados por capital chinês no porto de Gwadar, estrategicamente situado no mar Arábico, que envolve também a construção de uma auto-estrada até o hub comercial do Paquistao, Karachi. Para além de ser foco de instabilidade entre a população Baloche (que vê a sua riqueza escoada para as províncias mais ricas do Paquistão, o Sindh e o Punjab), o projecto demonstra que os Chineses têm interesses no Baluchistão.

    Não, o problema do Baluchistão ainda não embateu na face dos EUA, mas tudo se encaminha para que um dia o faça.


    * O problema Baluchistão é tao remoto que foi impossível descobrir a forma correcta do nome da província em português. Em inglês, é Baluchistan. Em português, deveria ser Baluquistao. Todavia, os únicos hits que tive quando fiz uma procura no google.pt foi com o nome Baluchistao, portanto decidi usar essa terminologia. Caso conhecam a forma correcta de escrever este nome nao deixem de a partilhar. Obrigado!


    1 comentário:

    j8859 disse...

    O Alberto João leu a tua crónica e já está a preparar a revolução.