(Ilan Halimi assassinado no dia 13 de Fevereiro de 2006. AFP)O caso chocou a França e levou o então Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, a acautelar contra o anti-semitismo na sociedade. Os ‘Bárbaros’ acabaram por ser encontrados e capturados e 27 indivíduos (incluindo um luso-descendente, Jérôme Ribeiro) foram constituídos arguidos. O julgamento chegou ao fim na passada sexta-feira, sendo que o cabecilha do grupo, Youssouf Fofana, foi sentenciado a prisão perpétua, o que em França significa um mínimo de 22 anos de enclausuramento.
Agora, imaginem que tinham acabado de ler esta notícia no site do Público – ela foi publicada nas mesmas linhas que este artigo com o título - França: homem acusado de matar jovem judeu condenado à pena máxima – e o género de reacções que ela causaria em vocês. Choque? Repugnância? Revolta? Pesar?! Ora, depois de ler a notícia, o comentador identificado com o nome Abu da Lixa, decidiu escrever:
“Tantos crimes hediondos cometem os judas e nenhum é condenado!...440 crianças assassinadas na Palestina por esses criminosos/assassinos!!!”
Não lhe terá ocorrido que o ‘judas’ neste caso não era criminoso, nem assassino, muitos menos merecia ser condenado ao destino trágico que teve, mas sim a vítima de um crime hediondo. Ao ler este comentário, o leitor identificado com o nome TNT, predispor-se a vestir a capa de justiceiro:
“NTN Abu: O teu comentario antisemita e racista esta poluir este site.”
Porém, arranjou logo mais um inimigo porque dois minutos mais tarde, às 15h11 de uma pacata tarde de Sábado, o comentador Amadis de Setúbal escreveu:
“TNT, NTN, pá , desde quando clamar por Justiça pela morte de centenas de crianças é anti-semitismo e racista? Tristeza de comentário o teu...não deves ter filhos.”
A partir deste ponto já mais ninguém travou a discussão. O mais interessante é que estas discussões rapidamente adquirem o tom de discussão de café, como se Amadis, TNT e Abu fossem primeiros nomes perfeitamente normais em Portugal, e como se um estivesse atrás do balcão a contar os trocos e o outro estivesse sentado sozinho na mesa do canto, com o jornal de desporto aberto à sua frente. No entanto, temos dúvidas se os comentadores teriam coragem de fazer certas afirmações, caso estivessem confinadas no mesmo espaço e já se conhecessem ‘de ginjeira.’ Assim, às 15h45, a conversa rumou para águas mais agitadas com o seguinte comentário de Amadis:
“o meu caso é clínico mas não cínico. Curem-se, virgens ofendidas. O Abu comentou. Por que motivo lhe chamam nomes? Lá vou ter de vos chamar socialistas-fascistas, não admitem opiniões contrárias, são de uma arrogância extrema ! Não passam de carneiros sem cérebro.”
Entretanto, o nível da conversa estava tão elevado que os outros clientes, que entretanto chegaram ao café-virtual do Público, não resistiram a entrar na discussão. Por exemplo, às 16h58, o Hugo da Terra do(s) Luís(es) – não me perguntem de onde esta gente arranja a criatividade para conceber alcunhas e locais tão engraçados – demonstra perspicácia e acusa:
“Abu eu com esse nome posso bem associar-te ao islão, e se tiver uma mentalidade retrógada como a tua, em que não consiga distinguir atitudes e pessoas, posso dizer que tu és um inimigo do ocidente, que não aceitas o nosso modo de vida e consideras-nos infiés, ao ponto de não te importares de nos matar, pois a nossa vida não vale nada. Se todos fossemos assim tão retrógados, qq muculmano seria morto e perseguido. A tua sorte é que para este exmplo que dei, sabemos que Islãonão é a violência que uns poucos malucos apregoam. É difícil para ti veres o mundo assim, como ele é??Cprs”

(Os caminhos misteriosos da opinião pública... Cartoon de John Doyle)
No ensejo de mediar a contenda, às 18h28, joaorapace chega a duas conclusões fundamentais: o Público não pesquisou bem a notícia e nenhum dos outros comentadores conhece o tema com a seriedade que merece. Decide então, no formato condensado de um comentário, dissertar sobre as falácias do artigo, as origens étnicas do anti-semitismo, o anti-semitismo de Hitler, os motivos do crime, o conflicto israelo-árabe, a identidade judaica contemporânea e ainda lhe resto espaço para fazer uma acusação aos restantes leitores:
“Este artigo tem erros. Youssouf Fofana será árabe ou berber logo se é no primeiro caso não podemos estar a falar de antisemitismo porque também os árabes são descendentes de Sem tal como os judeus. Se é no segundo caso os berberes apesar de não serem ascendentes de Sem nos tempos pré islâmicos foram convertidos ao judaísmo e depois mais tarde converteram-se ao islão. Logo também não podemos falar de antisemitismo. Antisemitismo foi o que fez Hitler e os alemães que não sao povos semitas e aniquilaram como selvagens 6 milhões de inocentes. Quanto à questão palestiniana esta também é complexa e de difícil resolução. A Onu atirou o problema de cá para lá, lavando as mãos. O motivo de Youssouf era dinheiro 450 mil euros tem sentido porque mais uma vez a ideia é quase sempre a mesma, motivos monetários e não razões de crianças palestinianas que eu também lamento, claro. O pessoal que aqui escreve é que leva isto não sei para onde, conjecturando, afirmando quando as razões são tão óbvias. Quanto ao resto parece-me que os judeus ainda hoje são sinónimo de diferentes, quando a única diferença é o facto de serem uma minoria religiosa em relação a outras. Este pessoal inventa...”
Pouco depois a Maria de Berlim, acusa o Público de ser pró-Israel, uma ideia tão absurda que era capaz de fazer o Ariel Sharon levantar-se da sua coma:
“O publico é um jornal pro-israel, ou pelo menos o seu director é-o de uma maneira quase doentia (lembro-me bem do tipo de artigos de opinião que escreveu durante a guerra do Libano de 2006 e dos titulos tendenciosos escolhidos para as noticias).”
Ás 18h45, o adr de Amesterdão conclui que os judeus ainda não foram suficientemente condenados e que é preciso abrir os olhos ao pessoal:
“esta malta que esta no estrangeiro falam duma maneira que me da a ideia que nào sabem ainda onde estào.os maiores piratas sào os judeus.ja disse isso varias vezes esperiênçia propria. ......querem tudo so para eles.o hitler sabia o que eles era ou não fosse ele meio judeu imaginem se fosse judeu a 100%.abram os olhos.80%da população mundial esta a ser explorada por judeus.abram os olhos.e a maioria dos imigrantes que falam mal de portugal e dizem que em frança é que e'bom ou alemanha ou holanda ou belgica ou noutro lado qualquer essas pessoas são autenticos escravos.viva portugal.quanto a noticià sem comentarios.viva portugal.subscrevo-me adr.”
Por fim, um leitor identificando-se como o Tono da Merdaleja (pensa-se que terá escolhido este nome de livre e espontânea vontade..) coloca-se do lado do bom-gosto e compara o Público ao jornal da TVI– ninguém lhe terá dito que no resto da Europa o caso tem sido amplamente discutido nos meios de comunicação:
“Fica um bocadinho mal ao Publico escrever uma noticia destas... É que notoriamente so aparece aqui porque o assassiado era judeu. Se nao o fosse ja nao seria noticia. Estas tendências semitas é que poderão criar o anti-semitismo. Para mais quem escreve a noticia não consegue disfarçar a sua "tendencia". Nao consegue nem sequer ser minimamente profissional e escrever uma noticia de opinião neutra. Fez questão de mostrar a sua posição. Mais uma Manuela Moura Guedes... Ja disse e repito. Nao tarda muito e este jornal está pior que o 24horas.”
Quer dizer, fosse isto há um século atrás e estes mesmos comentadores reprovariam a decisão do Público de publicar o caso de Dreyfus (um oficial do exército francês, de origem judia, acusado e injustamente condenado por crime de traição). Também a França se sentia ameaçada e também o anti-semitismo existira antes. Porém, o desagrado que o caso gerou não foi suficiente para travar um dos capítulos mais crúeis da história da Humanidade. Segundo a opinião destes senhores, observariamos impassíveis os sinais do tempo. Acima de tudo, são hipócritas que não têm qualquer tipo de vergonha em exibir imparcialidade quando exigem isso do próprio jornal de onde recebem informação. Enfim…depois de ler estes e outros comentários fica-se com uma imagem muito triste de Portugal.
FINAL
1 comentário:
Sem duvida! Deste-me grande ideia para uma curta ; )
Thks a million
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