A Gaivota Farragulha

    quinta-feira, outubro 15, 2009

    Agustina


    (Agustina em 2006 por António Rito. Flickr)


    Faz hoje 87 anos que a melhor escritora portuguesa viva nasceu. Agustina Bessa Luís deu as primeiras bafejadas de ar em Vila Meã, Amarante, num domingo auspicioso de 1922. Ainda jovem, Agustina demonstrou interesse e vocação para a literatura, tendo passado grande parte da sua juventude a retratar o mundo rural do Minho e Douro. Foi, no entanto, por intervenção do marido, Alberto Luís (quem transcreveu à máquina os seus textos, eternamente escritos a letra azul e apertada em folhas de papel) que a sua primeira obra, Mundo Fechado, foi publicada em 1948. Desde então, Agustina - ou a Amarantina, como mais gosta de ser tratada - publicou uma vastíssima obra, ao ritmo de um livro por ano, da qual se destacam a Síbila, Fanny Owen, A Corte do Norte e inúmeros e exímios contos como O Javali. Seria um verdadeiro crime, para Portugal e os Portugueses, não celebrar esta figura incontornável da literatura portuguesa que, perenemente humilde e generosa, atravessou as décadas como uma ilustre desconhecida das artes nacionais. Acredito que é esta a estirpe de artista que mais merece enaltecer com prémios e louros: os que dão a alma sem presunção ou interesse. Por estes motivos mas também por muitos outros conhecidos apenas aos leitores de Agustina, o maior escritor português vivo abandona hoje o seu exílio numa ilha atlântica para lhe fazer uma homenagem pública na Casa Fernando Pessoa em Lisboa, por volta das 18h30. Caso fiquem tão desconsolados como eu por não poder assistir ao evento, deixo-vos então dois prémios de consolação: o primeiro, é um longa homenagem feita este ano pela revista LER a Agustina, com testemunhos de várias personalidades destacadas das artes e vida pública portuguesa como Lídia Jorge, Eduardo Lourenço e Diogo Freitas do Amaral (aqui); e um pequeno texto de Agustina sobre uma visita à Quinta das Lágrimas em Coimbra. Para vosso deleite:


    QUINTA DAS LÁGRIMAS


    Fui há muitos anos à Quinta das Lágrimas, onde se diz que Inês foi morta. Lembro-me que se transpunha o rio atravessando uma ponte de madeira cujas tábuas gemiam e ba­loiçavam. Parecia uma ponte militar, para assédio à cidade.

    A Quinta das Lágrimas esteve para ser comprada pelo meu pai quando ele veio do Brasil e se deixava sugestionar pelas lendaz históricas e coisas famigeradas de glória antiga. Havia uma enorme árvore da cânfora nos arredores da casa, que era como uma estufa, com muitos vidros e caixilhos descascados. Numa caleira de pedra corria a água. sobre um líquen vermelho. Dizia-se que era «o sangue de Inês». Como disse, a moradia era decepcionante, um pouco ao estilo dos chalés de Sintra em que veraneavam os banqueiros do século XIX e os ricos-homens dos cafezais de S. Tomé. Esta­vam na moda os jardins de Inverno, e nesse tipo de casas havia pavilhões envidraçados onde se tomava chá e bebia água de sifão. Mas não posso garantir que na Quinta das Lágrimas fosse assim.

    Era numa tarde muito quente, em Maio. O calor de Maio, em Coimbra, traz no coração o perfume da tília em flor; desde o alto do Jardim da Sereia ele abate-se até ao fundo da cidade como um lenço abafante e suave. É um calor e um perfume que deprimem. Acompanham os estudantes quando eles revêem a matéria, fumando com gesto irritado e deixando o olhar parar nas varandas da frente onde outros estudantes mourejam nas páginas das sebentas.
    Mas, voltando à Quinta, que está num vale sem horizontes, que seriam dantes os fecundos campos de regadio, com manantes a visitar-lhe os muros para roubar capôes e melancias: estranhei-a, de tão deserta. Não havia um só visitante, ou um morador; e não vi também guardião. Só um cãozito sujo, de pêlo em que a lama secara, me lançava de longe alguns ladridos curtos, sem cólera, por simples obrigação.

    A casa não tinha cortinas nem vestígios de ser habitada. Havia, em volta, alguns canteiros onde crescera a beldroega e umas açucenas tão altas que podiam chamar-se o bordão de S. José. Na parede, uma mancha de água que se infiltrara pelo telhado parecia a sombra de uma mulher; uma mulher alta e corpulenta, que risse, os ombros deitados para trás. Ouvi, ou pareceu-me, um arrastar de passas, mas durou pouco; tudo ficou silencioso outra vez. Porém, quando eu já me afastava vi, sentada numa velha cadeira de verga, uma senhora ainda nova, com uns óculos na mão direita e que olhava para mim com uma frieza condescendente. Se era a dona da casa era uma excêntrica, porque estava vestida com uma saia cor de ferrugem, tendo por cima um vestido verde, aberto, e um cinto dourado. Os cabelos usava-os soltos e eram de um belo loiro carregado com reflexos mais claros sobre as orelhas. O rosto era rosado, mas notava-se que usava carmim, muito fino e brilhante. Estendeu as pernas com um movimento preguiçoso; estavam nuas e eram tão brancas como o ventre das trutas. Até certo ponto parecia muito uma lavradeira abastada, dessas do Alto-Minho que se descalçam ao fim das tardes de Verão para ir regar, [...]

    AGUSTINA BESSA LUIS, “Adivinhas de Pedro e Inês”,
    GUIMARÃES & C.a, EDITORES, 1983, pp. 7, 8

    1 comentário:

    DB Lemos disse...

    Li hoje que afinal Saramago não pode ir, mas falou a sua mulher em vez dele. Esperemos que não seja por motivos de doença..