(Antes de ser Presidente, Obama foi captado pelo fantástico fotógrafo (pornógrafo?) Terry 'T-bone' Richardson. Mais aqui.)Em primeiro lugar uma palavra de contrição a todos os leitores pela falta de comentários nos últimos dias. A verdade é que tenho andado muito ocupado com as candidaturas ao doutoramento e a actividade de bloggista ocupa mais tempo e disponibilidade das que posso sensatamente despender neste momento. Deverei continuar neste ritmo até ao início de Novembro, pelo que poderão contar com uma terrível escassez de comentários. Não me esqueci também da segunda parte do artigo sobre o 'caso das escutas': já está quase escrito, só preciso de limar algumas arestas. Acontece que, por vezes, a vida pública quotidiana toma caminhos inesperados que nos resgatam da apatia e nos atiram para a frente do ecrã do computador cliquando sofregamente em letra após letra.
A atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2009 a Barack Obama é um desses momentos. Parece-me precipitado. Não duvido que Obama o merecesse: a sua chegada à Presidência dos EUA representa uma retumbante vitória na longa caminhada do movimento dos direitos civis dos afro-americanos que não pode ser dissociada do homem que a concretizou; o discurso de Barack Obama na Universidade do Cairo assim como as várias entrevistas e declarações que tem concedido a televisões árabes tem contribuído incomensuravelmente para apaziguar as tensões interculturais que marcaram a primeira década do século XXI; e, por fim, a sua insistência no papel da ONU e em especial num enquadramento mais inclusivo das relações internacionais são passos no sentido certo que certamente terão efeitos frutivos no futuro. No entanto, a nível concreto na política externa, Barack Obama ainda não atingiu nada de substancial: o exército dos EUA continua envolvido em duas operações militares (se uma continua no mesmo estado em que estava quando Bush abandonou a Presidência, a outra está cada vez pior); a prisão de Guantanamo ainda não foi totalmente desmantelada; o Irão e a Coreia do Norte continuam a procurar armas nucleares, deitando por terra o argumento de que Barack Obama tem impulsionado o movimento anti-nuclear (já diz o ditado que ‘de boas intenções, está o inferno cheio’); e o acordo de paz no Médio Oriente parece cada vez mais distante. A verdade é que ao longo do primeiro ano da sua Presidência, Obama concentrou-se, e bem, em encontrar uma solução para a crise económica americana e global. Está portanto ainda por avaliar, com pleno conhecimento dos seus sucessos e fracassos, a forma como Obama conduzirá a política externa americana: até por que a guerra em AfPak ameaça tornar-se num novo Vietname (não sou eu que o digo, é o próprio Richard Holbrooke, representante especial de Obama para a região). Curiosamente, Obama é já o quarto Presidente Americano a ganhar o Nobel da Paz, embora o menos 'accomplished' no momento da atribuição: o primeiro foi Ted Roosevelt em 1906 pela celebração do acordo de paz entre a Russia e o Japão; o segundo foi Woodrow Wilson pelo esforço de paz no final da primeira Guerra Mundial; e o terceiro foi Jimmy Carter em 2002, já depois de ter abandonado o cargo, pelo empenho pessoal na solução de conflitos internacionais e nas causas da democracia e dos direitos humanos.
Poderia também ser dito que a Comité Norueguês decidiu premiar o povo americano pela escolha de um Presidente mais ajuizado do que o seu antecessor. Porém, ser melhor Presidente dos EUA do que George W. Bush não justifica em si só a atribuição do Prémio Nobel da Paz (gostaria de saber o que pensa Bill Clinton, agora Gore e Obama são ambos Prémios Nobeís). Em última análise, temo que a atribuição do Prémio Nobel ao Presidente Obama no primeiro ano de mandato possa ser mais prejudicial do que benéfico: por um lado, reacende expectativas exageradas sobre o possível papel do Presidente dos EUA para ‘fazer o bem como um messias’ – prendendo-as ao imperativo de justificar o Nobel, o que poderá desequilibrar artificialmente o status quo em favor da parte mais forte (ou seja, a posição dos EUA no Iraque, no Irão, na Coreia, no Afeganistão, no Paquistão, na Palestina, em Israel, etc); e, por outro lado, poderá dar azo a leituras conspirativas sobre a fantástica ascensão de Obama no palco mundial (aliadas a alguma inveja, é certo) que poderão minorar, na percepção pública, os sucessos da actual administração americana assim como o próprio Prémio Nobel da Paz.
A atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2009 a Barack Obama é um desses momentos. Parece-me precipitado. Não duvido que Obama o merecesse: a sua chegada à Presidência dos EUA representa uma retumbante vitória na longa caminhada do movimento dos direitos civis dos afro-americanos que não pode ser dissociada do homem que a concretizou; o discurso de Barack Obama na Universidade do Cairo assim como as várias entrevistas e declarações que tem concedido a televisões árabes tem contribuído incomensuravelmente para apaziguar as tensões interculturais que marcaram a primeira década do século XXI; e, por fim, a sua insistência no papel da ONU e em especial num enquadramento mais inclusivo das relações internacionais são passos no sentido certo que certamente terão efeitos frutivos no futuro. No entanto, a nível concreto na política externa, Barack Obama ainda não atingiu nada de substancial: o exército dos EUA continua envolvido em duas operações militares (se uma continua no mesmo estado em que estava quando Bush abandonou a Presidência, a outra está cada vez pior); a prisão de Guantanamo ainda não foi totalmente desmantelada; o Irão e a Coreia do Norte continuam a procurar armas nucleares, deitando por terra o argumento de que Barack Obama tem impulsionado o movimento anti-nuclear (já diz o ditado que ‘de boas intenções, está o inferno cheio’); e o acordo de paz no Médio Oriente parece cada vez mais distante. A verdade é que ao longo do primeiro ano da sua Presidência, Obama concentrou-se, e bem, em encontrar uma solução para a crise económica americana e global. Está portanto ainda por avaliar, com pleno conhecimento dos seus sucessos e fracassos, a forma como Obama conduzirá a política externa americana: até por que a guerra em AfPak ameaça tornar-se num novo Vietname (não sou eu que o digo, é o próprio Richard Holbrooke, representante especial de Obama para a região). Curiosamente, Obama é já o quarto Presidente Americano a ganhar o Nobel da Paz, embora o menos 'accomplished' no momento da atribuição: o primeiro foi Ted Roosevelt em 1906 pela celebração do acordo de paz entre a Russia e o Japão; o segundo foi Woodrow Wilson pelo esforço de paz no final da primeira Guerra Mundial; e o terceiro foi Jimmy Carter em 2002, já depois de ter abandonado o cargo, pelo empenho pessoal na solução de conflitos internacionais e nas causas da democracia e dos direitos humanos.
Poderia também ser dito que a Comité Norueguês decidiu premiar o povo americano pela escolha de um Presidente mais ajuizado do que o seu antecessor. Porém, ser melhor Presidente dos EUA do que George W. Bush não justifica em si só a atribuição do Prémio Nobel da Paz (gostaria de saber o que pensa Bill Clinton, agora Gore e Obama são ambos Prémios Nobeís). Em última análise, temo que a atribuição do Prémio Nobel ao Presidente Obama no primeiro ano de mandato possa ser mais prejudicial do que benéfico: por um lado, reacende expectativas exageradas sobre o possível papel do Presidente dos EUA para ‘fazer o bem como um messias’ – prendendo-as ao imperativo de justificar o Nobel, o que poderá desequilibrar artificialmente o status quo em favor da parte mais forte (ou seja, a posição dos EUA no Iraque, no Irão, na Coreia, no Afeganistão, no Paquistão, na Palestina, em Israel, etc); e, por outro lado, poderá dar azo a leituras conspirativas sobre a fantástica ascensão de Obama no palco mundial (aliadas a alguma inveja, é certo) que poderão minorar, na percepção pública, os sucessos da actual administração americana assim como o próprio Prémio Nobel da Paz.
2 comentários:
Mahatma Gandhi foi nomeado diversas vezes para prémio Nobel da Paz mas nunca ficou com o prémio.
Por outro lado Hitler (estou mesmo a falar do Adolf), foi nomeado em 1939 para o prémio Nobel da Paz (sendo que essa nomeação foi pouco depois cancelada).
E esta hein ?
Ver mais aqui..
http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/articles/
P.
Para compor o ramalhete do comentário anterior...
"Joseph Stalin, the Secretary General of the Communist Party of the Soviet Union (1922-1953), was nominated for the Nobel Peace Prize in 1945 and 1948 for his efforts to end World War II."
Fonte: http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/shortfacts.html
Julgo que conhecerão os outros grandes feitos do Stalin...
As maiores felicidades para a candidatura ao doutoramento.
P.
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