A Gaivota Farragulha

    segunda-feira, outubro 26, 2009

    O debate que incendiou a Inglaterra



    O programa Question Time da BBC é o Prós e Contras dos britânicos. Ou melhor, o Prós e Contras é o Question Time dos portugueses, uma vez que o programa britânico existe há mais de 20 anos (ilustrando bem o atraso do nosso país nestas andanças da democracia; até porque na versão britânica a própria audiência interpela os convidados, ao passo que em Portugal, a audiência, em casa e no auditório, continua sujeita à perspicácia e omnipotência de Fátima Campos Correia). Enquando estive em Inglaterra, o Question Time era uma presença incontornável das noites de quinta-feira. Admirava o jeito objectivo de David Dimbleby - o apresentador -, a diversidade da audiência, a genuinidade das perguntas, mas no fundo sabia que muitos poucos, cada vez menos, pensavam da mesma forma que eu. O programa encaminhava-se lentamente para a sessão derradeira, em que a política séria, das causas e das pessoas comuns daria lugar à política espectáculo.

    Na semana passada, enquanto andava às voltas com raízes cúbicas e geometria, tive a percepção de que algo de muito grave teria, ou estaria para se passar, no Question Time. Subitamente, o Question Time tornou-se o tema de TODOS os meios de comunicação britânicos, desde o The Sun ao The Guardian, e transbordou para alguns media internacionais. Em Portugal, os jornais fizeram apenas referência ao caso, geralmente divorciadas de qualquer clarificação sobre o programa, os intervenientes ou sobre o caso em si. Tratou-se do convite do programa a Nick Griffin, Presidente do British National Party (BNP). Para quem não conhece esta aberração política, o BNP é um partido que restringe a militânicia a membros dos grupos étnicos indígenas ao Reino Unido; acredita que existem diferenças biológicas entre raças que determinam as suas características e o seu comportamento, que a preferência e o orgulho pelo grupo étnico de cada um faz parte da natureza humana; defende que devem ser dados incentivos 'firmes' aos imigrantes e seus descendentes para que regressem 'a casa' e que assim se possa reconstruir a génese essencialmente 'branca' da sociedade britânica, tal como existia até 1948. A estes preceitos absurdos, o partido acumula um historial de abuso verbal e incitamento à violência contra as minorias que não fica em nada aquém das propostas de Hitler ou de Mussulini antes de chegarem ao poder.

    Julgar-se-ia que nos dias que correm, e depois dos brutais acontecimentos da história recente (dos quais o Reino Unido, principalmente o mais nacionalista e etnocêntrico, tanto se orgulho em ter participado), ninguém se sentiria atraído por tais ideias. Puro romantismo. Nicolau Maquiaveli acertou no centro nevrálgico da teoria política quando escreveu que 'o medo triunfa sobre todas as outras forças.' A ascenção do BNP na cena política britânica está-se a tornar num caso paradigmático. Deparando-se com uma crise económica voraz, um mal-estar social generalizado e uma classe política descredibilizada (ainda se lembram do escândalo dos gastos dos deputados na House of Commons? Não foi assim há tanto tempo...), os eleitores britânicos viraram à direita. À extrema-direita. Nas eleições europeias, o BNP elegeu dois deputados ao Parlamento Europeu (um dos quais é este senhor). Já em Setembro, Griffin gabou-se publicamente de o BNP ter, numa só noite, recrutado 3000 novos membros, um recorde histórico para o partido.

    Foi neste contexto que o Question Time anunciou a participação de Griffin no programa da semana passada. Os sectores mais liberais consideraram o convite como uma oportunidade para Griffin pregar a sua distorcida ideologia a uma audiência maior (pelos vistos, foi depois de uma aparição televisiva que Jean Marie Le Pen conseguiu destacar-se) e organizaram-se. Destacados membros do governo Trabalhista, como Lord Mandelson e Jack Straw, que participou no programa, alistaram-se contra o BNP - tendo em vista os seus próprios dividendos eleitorais, claro está. Mas não foram os únicos. Judeus, muçulmanos, gays e religiosos juntaram-se por uma única e inédita vez numa só voz contra Nick Griffin. Os resultados estão bem evidentes nestes dois vídeos: no primeiro, Griffin é distroçado em directo pelo paínel, pela audiência (o discurso do tipo que fala é espectacular) e até pelo próprio Dimblebly ('Are you laughing?'); no segundo, os manisfestantes anti-BNP geram o caos nos estúdios da BBC (quando foi a última vez que os portugueses tentaram invadir a televisão pública?). No entanto, e apesar desta onda de contestação contra o BNP, sondagens levadas a cabo após a emissão do programa revelaram que não só o número de pessoas que declara a intenção de voto no BNP é maior do que antes (3%), o número de eleitores que considera votar no BNP aumentou para 22%.

    Dados arrepiantes que denunciam que os temas que julgavamos estar mortos, e aos quais a história não regressaria jamais, estão vivos e revigorados. O pior é saber que pela transparência e o sensacionalismo do Reino Unido, que tende a repiscar e exponenciar todas as controvérsias públicas, este caso representa apenas a ponta do iceberg. A verdadeira ameaça está na Europa continental, onde Geert Wilders e outros avançam a passos largos para se afirmar. Preparem-se!

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