Beirute é uma cidade urgente.
A emergência enceta a manha ao timbre de persistentes buzinadas e pesadas marteladas. Pouco em breve, a sucessão de instrumentos cria empolgante cacofonia em anúncio de gente e vida. Dir-se-ia que tal urgência pertence aos grandes centros cosmopolitas do século XXI, como Londres, Nova Iorque, Tóquio ou o Rio. Porém, nesta cidade de um milhão de habitantes, alcovitada numa peninsula prazenteira do Mediterrâneo Oriental, a emergência suspeita-se.
La fora, a cidade entra em plena ebulição. Os guindaste disputam os céus numa fúria edificadora, os carros de alta cilindrada desafiam-se entre semáforos e nas principais vias comerciais, muçulmanos singelas arrastam o olhar nas católicas destapadas. Sao como veias tensas estas ruas, povoadas por uma massa frenética de gente que entre e sai de lojas de marca, que negoceia múltiplos sacos de compras entre as mãos, que berra ao telemovel para se sobrepor aos rádios dos carros, que rema contra as filas de carros em cima de uma lambreta instável, que pára o transito para cumprimentar um amigo dentro de uma loja. Nas pequenas coisas como nas maiores, Beirute denuncia a sua vontade de viver aqui e agora.
Ao almoço, o nosso anfitrião, Deen, ajuda-nos a compreender a alma da cidade. ‘In Beirut, everything can change from one moment to the next.’ Por outras palavras, a urgência de viver em Beirute é memória fresca de um terrível passado, recordada pela manutenção de edifícios esventrados pela guerra, mas sobretudo temor de um futuro sombrio. Nesta cidade, a emergência não é um estilo de vida; é um contigente de circunstancias extraordinárias. E, segundo o Deen, esse medo tem fundamento real nos rumores que correm a cidade sobre uma próxima batalha final entre Israel e o Hezbollah.
Por tudo isto e porventura por muito mais que se esconde para lá dos vidros fumados dos jipes que atravessam as avenidas, Beirute e uma cidade com a urgência de quem um encontro marcado com o destino. Todavia, e principalmente no luxo explosivo da sua nova baixa urbana, encontra-se também uma heroína trágica, eternamente entregue às suas próprias ambições. Assim se descobre que, tanto quanto perseguida pelo seu destino, Beirute persegue também a glória. Desavergonhadamente e a todo o custo. Mesmo que dure apenas um dia.
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