A Gaivota Farragulha

    quinta-feira, fevereiro 25, 2010

    Dia 2 - Rumo a Sul


    Seguimos para sul na auto-estrada que acompanha a orla marítima. Na berma da estrada, cartazes do Hezbollah rivalizam com anúncios de grandes empreendimentos turísticos. A estrada é surpreendentemente boa, o que tende a aliciar a velocidades pouco indicadas para o estilo imprevisível de condução libanesa.
    Após breve incursão pelo interior montanhoso para visitar o belo palácio druze de Beitedinne (literalmente, a ‘casa do destino’ ou a ‘casa de Deen), seguimos rumo a Saida (Sidon). A cidade reputada como o local de nascença do omnipresente ex-Primeiro Ministro Rafik Hariri, abriga hoje um dos maiores e mais violentos campos de refugiados palestinianos do Líbano, Ain el Helwe. O nosso anfitrião, Deen, diz que ainda na semana passada, facções opositoras dentro do campo arremessaram RPGs (rocket-propelled-granades) entre si. Nao precisaríamos de tanta informação para sentir o clima de tensão que se vive em Saida. Para alem de inúmeros postos de controlo na estrada - onde somos forcados a abrandar e a retirar os óculos escuros para mostrar a cara aos soldados libaneses - existe também um forte contingente militar na cidade. O campo propriamente dito assemelha-se a um gueto, cercado por altos muros de cimento e  arame farpado, isolado do resto do mundo na sua própria miséria e violência. 

    Continuamos para sul em direccao a cidade portuaria de Tir na mesma estrada, atraves de plantacoes de bananeiras., que mais tarde, descobririamos camuflaram militantes do Hezbollah durante a ultima guerra com Israel (segundo o Deen, os militantes escondiam-se entre as palmeiras para lancar misseis contra Israel e aqueciam-nas para nao serem detectados pelos radares de calor dos avioes israelitas). A medida que avancamos para Sul, a evidencia de dois conflictos torna-se cada vez mais clara: os Palestinianos Sunnis dentro dos campos e os Libaneses Shiitas fora deles. Os posters de Hassan Nasrallah (lider do Hezbollah) e de outros lideres Shiitas como o ja falecido Ayatollah Khomeyni, sucedem-se, assim como os postos de controlo militares e os tanques da UNIFIL (Forca Interina das Nacoes no Libano), da qual integra um contigente portugues.

    Tir, no entanto, revela-se uma pituresca, pequena cidade de pescadores. Somos os unicos no restaurante Le Petit Phoenician (a estrela da restauracao local), debrucado sobre o pequeno porto de pedra amarela, e o dono, um tipico habitante das margens do mediterraneo, serve-nos um manjar de saladas, humous e dourada. Deleitando da beleza e tranquilidade em nosso redor, o cliche e enfim inevitavel: a guerra nao assenta bem a este idilico local.  


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