Era precisamente a hora do lusco-fusco quando aterramos nos bancos de tras de uma carrinha Toyata com destino a Aleppo. Estavamos 60km a sul de casa e, no entanto, tendo em vista a jornada aventurada que agora terminava, sentia-me practicamente em casa. Aconcheguei a mochila entre as pernas, encostei-me para tras e fiquei a espera que a auto-estrada me desse o biberon que necessitava.
Confesso portanto que vi a minha vida andar para tras quando o conductor gira subitamente a esquerda para uma estrada de cascalho que nao dirigia a tal auto-estrada. Um homem aparece do nada, troca meia duzia de palavras com o conductor e parte em corrida para um emaranhado habitacional, a camioneta e nos no seu encalco. O homem entra dentro de predio de betao armado, deixa a porta escancarada, e ali ficamos nos no escuro a espera que algo aconteca. Minutos passam ate que uma familia inteira – um menino, uma menina, uma mulher com um bebe ao colo e o tal homem – saltem para fora do predio, para dentro da camioneta e para a ultima fila de bancos. Vinham afundados em roupas, com ar de quem ia para a cidade e traziam uma merenda para o caminho. Quando se aproximaram do autocarro, os outros passageiros levantaram-se para os ajudar a entrar, pegando nas criancas e arrumando os sacos. Pouco depois, rolavamos finalmente na auto-estrada, porem o meu sono tardava em chegar.
Na minha cabeca, os passos do dia desenrolavam-se em flashback: o homem que nos arranjou uma boleia ate a paragem dos autocarros; as criancas que pararam de jogar futebol para nos mostrar onde ficavam as piramides bizantinas; os dois homens que nos resgataram de uma longa caminhada pelo campo, e nao descansaram ate descobrirem o local que pretendiamos ir; os pastores que desviaram as ovelhas para nos deixar passar; a boleia numa camioneta verde sempre em festa; o condutor do autocarro de Aleppo para Marat An-Nouman, que veio a mostrar as fotografias da filha o caminho inteiro; o universitario que nos levou a estacao certa de autocarros em Aleppo; o motorista que me chamou para devolver o dinheiro dos bilhetes quando lhe expliquei que, por erro meu, tinhamos entrado no autocarro errado; e o merceeiro que nos ofereceu as bolachas que nao quissemos comprar por considera-las demasiado caras. Enquanto parte do chamado mundo livre, a generosidade dos sirios teve um efeito demolidor sobre mim. Afinal, quem sao os humanistas?
A noite, estirado em frente de uma cerveja no Hotel Baron, casa de TE Lawrence nos seus tempos em Aleppo, chega-me a ideia de que esse humanismo nao e apanagio dos arabes. Simplesmente, o humanismo europeu sofre de uma lenta estrangulacao pelas rudes maos do desejo material. E ha cada vez menos, capazes de reconhecer que, talvez ai tambem, resida a origem da nossa vulnerabilidade.
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