A Gaivota Farragulha

    quinta-feira, março 25, 2010

    Dia 21 - Wadi Rum


    Nova madrugada, nova pesarosa peregrinacao. Desta feita, rumamos a sul, em direccao a Wadi Rum, o deserto predilecto de T.E. Lawrence -  e, sobre desertos, ele percebia uma coisa ou outra.

    Devo confessar portanto que esta era, para mim, uma das paragens mais antecipadas da viagem. O acaso ditou, porem, que este dia fosse tambem o primeiro, e ate agora o unico dia, em que me senti indisposto - provavelmente, fruto de uma insolacao apanhada em Petra no dia anterior. Na pratica, este contratempo traduziu-se na subsitituicao do passeio de camelo (no estilo evocativo do El-Awrence) por um safari de jipe pelo deserto. Esta opcao teve, pelo menos, duas significativas vantangens: a primeira a nivel de custo, e a segunda a nivel do que podemos ver num unico dia.

    Como descrever Wadi Rum? Wadi Rum nao e um deserto no sentido classico da palavra. Aqui, a vastidao dos horizontes da lugar a naturais boulevards flaqueados por massicos rochosos entre o beige e o castanho profundo - dependendo da posicao do sol. Cruzando estas amplas avenidas, hoje como no tempo de Lawrencem, um sente-se constantemente observado como se desfilando perante solenes alas de gigantes dignatarios. Trata-se afinal de um Wadi - desfiladeiro formado por um rio extincto - a caracteristica dominante desta regiao (Amman, Petra e Jerusalem cresceram todas em torno de um ou mais wadis).

    A singularidade de Wadi Rum encontra-se na areia que polvilha esses antigos leitos: inicialmente rosa, ela deriva por vezes ate ao branco e o amarelo. Esta harmoniosa paleta em conjunto, e contra a rocha escura, forma um inesquecivel impacto visual que apenas podera sugerir uma obra de inspiracao divina - ou nao estivemos tao perto da terra santa.

    Por esse motivo, ou por qualquer, ao fim da tarde passou-me a indisposicao. Deitamos-nos sobre uma rocha quente, junto do acampamento onde passamos a noite, e despedimos-nos do dia no ritual silencioso do deserto. Pouco depois, o motorista do jipe ligava a bateria do carro a um radio (dai, as constantes dificuldades em ligar o motor ao longo do dia..) e encetava uma noite de saltos e rodopios em volta da fogueira. Mas era demais para nos que so queriamos apreciar os tons de Wadi Rum. Fui para cama pensar (era impossivel dormir) que os Beduinos nao tinham mudado assim tanto desde os tempos do Lawrence. Para o bem e para o mal!

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