Pela quarta vez consecutiva, acordamos antes das seis horas da matina. Tomamos o pequeno-almoco numa rocha com vista para os tres desertos (rosa, branco e amarelo) e partimos de camelo, agora sim, para a aldeia de Wadi Rum. Devo dizer que a experiencia ficou aquem das nossas expectativas e, sobre ela, nao restaria memoria nao fosse por um caricato incidente. Estamos a meio do caminho quando uma companheira francesa se comecou a queixar que a sela escorregava pela traseira do camelo. Perante a iminencia do desastre, o guia, um sudanes chamado Mohammed, saltou da sua arisca camela e acorreu ao camelo da francesa, chegando mesmo a tempo de a amparar na queda. Porem, assustada com esta agitacao, a camela do sudanes desatou a galopar pelo deserto, levando atras os outros camelos e nos em cima deles. Uma cena! Felizmente, nao foi muito longe e em poucos minutos o nosso Mohammed conseguiu por tudo em ordem e de volta ao caminho.
Da aldeia de Wadi Rum seguimos para Aqaba num taxi partilhado com um casal suis generis: ele, suico de origem argelina, vive agora em Beirute; ela, turca, mas de educacao suica, trabalha no Suica. Em Aqaba estivemos apenas o tempo necessario para cumprir tres urgencias: fazer uma muito ansiada visita a casa de banho (as do deserto desafiavam definicoes); almocar; cortar o cabelo e fazer a barba (o objectivo era parecer 'menos arabe'). Findas estas tarefas e sem tempo a perder, enfiamos as mochilas na mala de um taxi e gritamos ao motorista: 'To the Israeli border!' Devia ser por volta da uma da tarde e fazia um calor de desfalecer. Foi pelo menos essa a sensacao que tivemos enquanto atravessamos a 'no man's land' entre a Jordania e Israel.
Do outro lado, fomos recebidos por uma rapariga de uniforme que verificou os nossos passaportes e nos enviou para uma especie de pre-fabricado imaculadamente branco. Entrar aqui foi como que entrar num laboratorio da NASA instalado no meio do deserto. As portas deslizantes automaticas abriram-se e revelaram uma sala climatizada, adornado com uma fotobiografia de Yitzhak Rabin (Primeiro Ministro Israelita assassina em 1995 por um radical judeu oposto ao processo de paz). A guarda fronteirica era inteiramente constituida por raparigas e por momentos julguei-me perante um exercito de belas amazonas. Depositamos as malas na maquina de raio-x e avancamos para um detector de metais. Aqui, enquanto esperava para passar, uma das amazonas pegou no meu telemovel e analisou-o cuidadosamente como se procurasse algo. As mochilas passaram sem problemas no raio-x mas a maquina fotografica, os livros e os papeis (nao faco minima ideia porque) regressaram tres vezes a maquina.
Passamos ao seguinte nivel de seguranca: controlo de passaportes. Primeiro, entrevistaram os dois: perguntaram-nos pela primeira vez em que ano tinhamos estado no Libano e na Siria, o que tinhamos feito la e o que vinhamos fazer a Israel. Depois disto, mandaram-nos sentar num banquinho e levaram os nossos passaportes para dentro. Pouco depois, chamaram-me apenas a mim e fui de novo entrevistado. Perguntaram em que ano tinha estado no Libano e na Siria, o que tinha feito la e o que vinha fazer a Israel. Perguntaram-me tambem em que ano conheci a minha namorada, se conhecia alguem no Libano ou na Siria e pediram-me para escrever num papel o meu nome completo, o primeiro nome do meu pai, o primeiro nome do meu avo paterno, o nome do meu amigo no Libano, o meu numero de telefone de casa, o meu numero de telemovel e o meu e-mail. Mandaram-me sentar de novo. Cinco minutos depois, entregavam o passaporte a minha namorada.
A partir dai, nunca mais ouvimos nada sobre o meu passaporte. Passaram varios grupos de australianos, americanos e alemaes e nada sobre o meu passaporte. Passou um grupo de pessoas que acampou connosco no deserto e que naquela manha fez um tour em Wadi Rum e nada sobre o meu passaporte. Finalmente, cerca de duas horas depois (e sem que mais ninguem tivesse ficado a espera, o que quer dizer que estiveram completamente ocupados com os meus dados), entregaram-me o passaporte: 'You can go now.' Pelo menos, nao me colocaram as duas perguntas que mais temia: se tinha estado em mais algum pais arabe, ao que teria de responder que sim e que tinha passado quase quatro meses no Iemen; e o que la tinha estado a fazer, ao que teria de responder que tinha estado a fazer um estagio na ONU e a aprender arabe (duas ocupacoes que nao caiem bem a Mossad). Tambem nao me pediram para ver as fotografias da maquina fotografica, onde teriam reparado que eu tinha acabado de mudar o meu visual para entrar em Israel. Tambem nao abriram as nossas mochilas e descobriram o iman do Hassan Nasrallah (lider do Hezbollah) que comprei no Libano como souvenir da viagem. Enfim, bem vistas as coisas, a travessia desta fronteira nem correu mal.
Chegamos a Eilat (do outro lado da baia de Aqaba) mesmo a tempo de saber que tinhamos conseguido um local para ficar em Jerusalem (um couch surfing no centro moderno da cidade) e apanhar o autocarro para la. Seguiram-se cinco horas ao longo do deserto do Negev (que nao conseguimos ver porque entretanto anoiteceu) mais uma viagem de taxi ate ao centro de Jerusalem. Por fim, encontramos o nosso anfitriao e aterramos estafados, imundos e algo confusos na cama. Tinhamos chegado a Jerusalem.
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