Ha cidades estranhas e ha cidades prazenteiras. Hama pretence a esta ultima categoria.
A caracteristica definidora da cidade e a sua situacao num gancho do rio Orontes. Na margem sul do rio, reside a parte moderna da cidade. A luz do dia, comprova-se que esta area, em contraste com a vasta maioria das cidades no mundo arabe, e airosa e pacata. Continuando a caminhar ao longo do rio, deparamos-nos pela primeira vez com as famossissimas norias de Hama - gigantes moinhos de madeira que datam do seculo XIII. Demoramos-nos estupefactos com a dimensao das estruturas, enquanto os locais se demoram curiosos connosco. Esta sol e a temperatura amena convida a passeios no simpatico parque que delimita a marge norte do rio.
Continuamos na margem sul, no caminho que acompanha a curva do rio ate ao casco antigo da cidade. Num cafe com vista sobre o rio, jovens em idade escolar jogam cartas e bebem cha. Descobrimos mais tarde no guia que esta parte da cidade foi destruida em 1982, quando o governo esmagou uma revolta liderada pela Muslim Brotherhood (mais conhecida por atentados terroristas contras turistas ocidentais no Egipto). Todavia, a cidade reteve o suficiente para se apresentar hoje como um dos mais piturescos enclaves do vale do Orontes. Foi uma manha bem passada.
Por volta da hora do almoco, partimos em direccao a Aleppo, a segunda cidade da Siria e o nosso objectivo principal nesta digressao a norte. A excepcao de algumas mulheres, a camioneta vai repleta de homens demasiado pobres para constituirem uma classe media no sentido europeu da palavra; e demasiado ricos para se confudirem com as duas mulheres e as seis criancas descalcas que varrem o autocarro antes dos passageiros entrarem. Coagito que esta massa que ocupa os bancos forma o middle Middle East - os tais hearts and minds que tantos lideres iluminados do mundo global querem conquistar.
A experiencia de andar de camioneta na Siria tem o seu que de comico: trata-se pois de um autocarro que funciona como um aviao. Ou seja, temos um hospedeiro de bordo que verifica se estamos sentados nos locais certos, que distribui copinhos de plastico, rebucados e agua e que, finalmente, liga o filme na televisao (sim, as cadeiras rotas podem nao denunciar, mas este autocarro e de luxo). Tanto quanto consegui perceber (e nao foi muito), a historia centra-se num professor/director de uma escola para rapazes, cuja filha e uma estrela pop muito estimada pelos alunos. Num instante, entre os gritinhos do professor e as actuacoes da artista em vestimentas reduzidas (quando pergunto ao hospedeiro de que se trata o filme, responde-me somente que a actriz e libanesa), os hearts and minds sao arrebatados pelos ecras. Se ao menos esses senhores da politica mundial andassem mais de autocarro...
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