A minha resposta é não, mas sim.
Aqueles que defendem o direito à adopção referem geralmente o contraste entre a vida num orfanato do Malawi e a existência desafogada em casa da Rainha do Pop. Em nome de que princípio ou de quem, dizem estes, se impede a criança de escapar a uma vida precária e miserável no Malawi para aceder aos mais extraordinários cuidados e privilégios? Ser adoptado por Madonna é afinal uma virtude que muitos e simpáticos mortais aqui neste canto do mundo trocariam pelo seu próprio destino. Porém, creio que esta visão cai no erro de assumir que o conforto material, o privilégio, a fama, o acesso a meios vedados à maior parte de nós podem ser única e simplesmente responsabilizados pela felicidade do indivíduo. Mera ilusão.
Todas as crianças e pais têm o direito, o dever e a obrigação à família. Idealmente, essa família seria constituída pelos seus parentes mais próximos, os pais biológicos e os irmãos. Mas no caso de esses não estarem vivos, existem então os avós, primos e tios para dar apoio e carinho à criança. De acordo com a organização Save the Children (uma das NGOs que melhor funciona), só em casos de última instância, quando os parentes da criança não conseguem corresponder às necessidades da criança, ou quando a criança está realmente sozinha no mundo, se deverá avaliar a hipótese de adopção. Este não é o caso da pequena Mercy que Madonna quer adoptar, assim como também não foi o caso do menino malawi que Madonna adoptou há três anos atrás. Mercy, de quatro anos, perdeu a mãe pouco depois de chegar ao mundo, mas o seu pai e avós continuam vivos e mantiveram, pelo menos até agora, contacto com ela. De acordo as reportagens que li, as condições do orfanato onde Mercy residia eram boas e daí, aliás, a opção da família em mantê-la lá. Mercy não era, de modo algum, uma criança em sério risco de abandono ou de vida que estaria recomendada para um processo adopção internacional. Ela foi, pelo contrário, a criança que Madonna mais gostou como quem escolhe o cachorro mais giro no canil.
Por este motivo, parece-me que retirar Mercy do seu ambiente original, afastá-la daqueles que constituem a sua família e levá-la para um mundo de contos de fado é uma solução demasiado violenta para resolver uma situação menos feliz. Se a intenção de Madonna fosse realmente melhorar as condições de vida de Mercy, e de outros órfãos no Malawi, poderia então criar um projecto de formação, saúde e desenvolvimento sustentável para a comunidade em que Mercy e a sua família estão actualmente inseridas. Poderia fundar uma escola de raparigas como fez Oprah Winfrey na África do Sul. Poderia apoiar projectos que promovam o planeamento familiar, o conhecimento sobre a sexualidade e o vírus da Sida e informação sobre conceitos básicos de higiene para evitar que mais crianças sejam colocadas na posição vulnerável em que ficaram David e Mercy. Enfim, haveria uma multiplicidade de ideias e projectos que Madonna poderia ter promovido para ajudar Mercy e a sua comunidade em vez de procurar a adopção.
A estes argumentos, não é acessório, é claro, o facto de Madonna ser uma estrela internacional, detentora de um poder mediático incomparável. Na sociedade do ready-made, do consumo e do descartável, a adopção por Madonna de duas crianças africanas transmite a mensagem de que esta é a maneira de lidarmos com os problemas dos países em desenvolvimento: nós, os ocidentais, vivemos confortávelmente, enriquecemos, engordamos, e quando nos cansamos de tudo, decidimos ir buscar uma criança ‘engraçadinha’ a África para mostrar ao mundo que afinal temos escrúpulos. Mesmo que não seja este o estado de espírito de Madonna, e acredito que esteja bem intencionada, o problema principal é como o público vai interpretar as suas acções. Tratando-se de vidas humanos, o risco parece-me demasiado elevado para tolerarmos esta situação. Acima de tudo, no cerne da questão está a expansão e proliferação de redes de adopção ilegais em África, hoje já estabelecidas em alguns países, como no Gana ou na Nigéria, como verdadeiras indústrias de bebés. Por isso, ao olharmos para esta questão temos que pensar nos benefícios a longo termo para as crianças e as suas comunidades e não na obtenção de uma felicidade fugaz na perspectiva de alguns de nós.
Porém, e depois de pensar algum tempo sobre a questão, cheguei à conclusão que a adopção de Mercy por Madonna é agora uma inevitabilidade. Como seria cruel para a criança, depois de toda a agitação que se gerou à sua volta, toda a expectativa, fazê-la regressar à sua situação original no orfanato. Como seria cruel e frustrante para ela, viver o resto da vida no Malawi sabendo que poderia ter tido uma vida privilegiada com Madonna. Agora que o processo está iniciado e foi tornado público, talvez o melhor para a menina seja levá-lo até ao fim – o que provavelmente acabará por acontecer. Mas, em princípio e como regra geral, estou contra.
Aqueles que defendem o direito à adopção referem geralmente o contraste entre a vida num orfanato do Malawi e a existência desafogada em casa da Rainha do Pop. Em nome de que princípio ou de quem, dizem estes, se impede a criança de escapar a uma vida precária e miserável no Malawi para aceder aos mais extraordinários cuidados e privilégios? Ser adoptado por Madonna é afinal uma virtude que muitos e simpáticos mortais aqui neste canto do mundo trocariam pelo seu próprio destino. Porém, creio que esta visão cai no erro de assumir que o conforto material, o privilégio, a fama, o acesso a meios vedados à maior parte de nós podem ser única e simplesmente responsabilizados pela felicidade do indivíduo. Mera ilusão.
Todas as crianças e pais têm o direito, o dever e a obrigação à família. Idealmente, essa família seria constituída pelos seus parentes mais próximos, os pais biológicos e os irmãos. Mas no caso de esses não estarem vivos, existem então os avós, primos e tios para dar apoio e carinho à criança. De acordo com a organização Save the Children (uma das NGOs que melhor funciona), só em casos de última instância, quando os parentes da criança não conseguem corresponder às necessidades da criança, ou quando a criança está realmente sozinha no mundo, se deverá avaliar a hipótese de adopção. Este não é o caso da pequena Mercy que Madonna quer adoptar, assim como também não foi o caso do menino malawi que Madonna adoptou há três anos atrás. Mercy, de quatro anos, perdeu a mãe pouco depois de chegar ao mundo, mas o seu pai e avós continuam vivos e mantiveram, pelo menos até agora, contacto com ela. De acordo as reportagens que li, as condições do orfanato onde Mercy residia eram boas e daí, aliás, a opção da família em mantê-la lá. Mercy não era, de modo algum, uma criança em sério risco de abandono ou de vida que estaria recomendada para um processo adopção internacional. Ela foi, pelo contrário, a criança que Madonna mais gostou como quem escolhe o cachorro mais giro no canil.
Por este motivo, parece-me que retirar Mercy do seu ambiente original, afastá-la daqueles que constituem a sua família e levá-la para um mundo de contos de fado é uma solução demasiado violenta para resolver uma situação menos feliz. Se a intenção de Madonna fosse realmente melhorar as condições de vida de Mercy, e de outros órfãos no Malawi, poderia então criar um projecto de formação, saúde e desenvolvimento sustentável para a comunidade em que Mercy e a sua família estão actualmente inseridas. Poderia fundar uma escola de raparigas como fez Oprah Winfrey na África do Sul. Poderia apoiar projectos que promovam o planeamento familiar, o conhecimento sobre a sexualidade e o vírus da Sida e informação sobre conceitos básicos de higiene para evitar que mais crianças sejam colocadas na posição vulnerável em que ficaram David e Mercy. Enfim, haveria uma multiplicidade de ideias e projectos que Madonna poderia ter promovido para ajudar Mercy e a sua comunidade em vez de procurar a adopção.
A estes argumentos, não é acessório, é claro, o facto de Madonna ser uma estrela internacional, detentora de um poder mediático incomparável. Na sociedade do ready-made, do consumo e do descartável, a adopção por Madonna de duas crianças africanas transmite a mensagem de que esta é a maneira de lidarmos com os problemas dos países em desenvolvimento: nós, os ocidentais, vivemos confortávelmente, enriquecemos, engordamos, e quando nos cansamos de tudo, decidimos ir buscar uma criança ‘engraçadinha’ a África para mostrar ao mundo que afinal temos escrúpulos. Mesmo que não seja este o estado de espírito de Madonna, e acredito que esteja bem intencionada, o problema principal é como o público vai interpretar as suas acções. Tratando-se de vidas humanos, o risco parece-me demasiado elevado para tolerarmos esta situação. Acima de tudo, no cerne da questão está a expansão e proliferação de redes de adopção ilegais em África, hoje já estabelecidas em alguns países, como no Gana ou na Nigéria, como verdadeiras indústrias de bebés. Por isso, ao olharmos para esta questão temos que pensar nos benefícios a longo termo para as crianças e as suas comunidades e não na obtenção de uma felicidade fugaz na perspectiva de alguns de nós.
Porém, e depois de pensar algum tempo sobre a questão, cheguei à conclusão que a adopção de Mercy por Madonna é agora uma inevitabilidade. Como seria cruel para a criança, depois de toda a agitação que se gerou à sua volta, toda a expectativa, fazê-la regressar à sua situação original no orfanato. Como seria cruel e frustrante para ela, viver o resto da vida no Malawi sabendo que poderia ter tido uma vida privilegiada com Madonna. Agora que o processo está iniciado e foi tornado público, talvez o melhor para a menina seja levá-lo até ao fim – o que provavelmente acabará por acontecer. Mas, em princípio e como regra geral, estou contra.

1 comentário:
olá.
Em certos aspectos, concordo contigo, quando dizes que a crinça não devia ser afastada dos pais. Mas ao que parece, estes também não se importam muito com o futuro da menina, caso contrário, estariam contra a adopção, e ficariam com a menina.
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