A Gaivota Farragulha

    terça-feira, julho 07, 2009

    E se Ronaldo nao fosse Português...

    A apresentação de Cristiano Ronaldo no Real Madrid levou 80,000 adeptos ao Estádio de Santiago Bernadeu. Em Portugal, segundo li hoje no Público, os canais de televisão aproveitaram para dar uma injecção de Ronaldo ao público, o que lhes mereceu uma nota negativa do jornal. A verdade é que muitos Portugueses estão já pelos cabelos com o Cristiano, as suas 'Cristianitas' e o exército de discípulos com brinquinho na orelha e boné na cabeça. Recentemente, num jantar de portugueses e estrangeiros, a conversar adoptou um tom subitamente sério quando me perguntaram se gostava do Ronaldo: eu sentia que não, mas queria dizer que sim e, ao mesmo tempo, sentia que sim, mas queria dizer que não. Enfim, como diria o próprio Ronaldo no seu português nasalado: 'Não há palavras para explicar....' Vai daí, e perante a 'nossa' dificuldade em aceitar aquele que é de momento, o português mais reconhecido em todo o mundo, decidi fazer um exercício em transmutação de identidade e imaginar como reagiriam os outros povos caso o Ronaldo fosse um deles.


    Se Ronaldo fosse Inglês: A sua apresentação ontem no Real Madrid teria aberto o noticiário da ITV, do Channel 4 e prefiguraria num lugar de destaque no noticiário da BBC; o 'The Sun' traria hoje estampado na capa uma fotografia dele a fugir dos adeptos que invadiram o relvado, sobre o título: 'Get your hands off our boy'; o 'The Guardian' dedicaria grande parte da secção do desporto ao percurso do futebolista e contaria com uma coluna de Kevin McCarra ('Ronaldo may well be the best player in the world, but he still has a lot to learn') e de Russell Brand ('Ronaldo's departure to Spain means more ladies for me!').

    Se Ronaldo fosse Espanhol: Os Reis de Espanha estariam presentes ontem no Estádio de Santiago Bernabéu; a revista Hola! apresentaria na capa uma entrevista com a irmã de Ronaldo, por essa altura já estrela de pop consolidada no mercado nacional e na América Latina, com o título: 'Liliana Cátia, 'La Ronalda', muy ilusionada con el regresso de su hermano'; nas ruas de Barcelona, queimar-se-iam imagens de Ronaldo e mais tarde haveriam confrontos entre adeptos de futebol e as forcas policiais; no programa Aquí hay tomate da Telecinco uma 'amiga pessoal' do jogador revelaria em directo que ele a teria pedido em casamento na noite de domingo.

    Se Ronaldo fosse Brasileiro: o Estádio de Santiago Bernadeu estaria vestido de verde e amarelo e haveria tambores em vez de cornetas; Ronaldo acabaria o discurso a agradecer a Jesus, Yemenjá e a Alá; o Ministro brasileiro da cultura seria ofuscado pela rapariga loira sentada ao seu lado; nos meios de comunicação internacionais, a notícia seria alternada com imagens da infância pobre do menino numa favela do Rio de Janeiro, flashes de sambistas e lances de futebol; Dunga causaria apreensão ao afirmar que o lugar de Ronaldo na próxima 'Copa do Mundo' não estaria assegurado'; uma miúda de sete anos no Estado de São Paulo teria batido o recorde do Guiness ao cozer a maior camisola de futebol, com o número de Ronaldo no Real Madrid, feita inteiramente de trapos.

    Se Ronaldo fosse Marroquino: a entrada no Estádio estaria interdita a não-sócios; nos subúrbios a norte de Paris começaria uma guerrilha urbana; por todo o Médio Oriente colar-se-iam imagens de Ronaldo nos vidros dos carros, nas entradas dos restaurantes, hotéis e lojas, nos postes de electricidade e nas paredes das casas; as Nações Unidas fariam dele um Embaixador da Boa Vontade para o mundo de expressão árabe; os mullahs no Afeganistão pronunciariam uma fatwa sobre o jogador acusando-o de participar num jogo blasfemo, de estar rodeado por infiéis e de ser um mau exemplo para a juventude; Ronaldo já estaria casado e teria cinco filhos.

    Se Ronaldo fosse Alemao: ninguém em Espanha iria ao Estádio e ninguém na Alemanha ligaria muito à notícia - para além dos portugueses, isto é!

    1 comentário:

    7ico disse...

    Muito bom, gostei do teu point of view my friend. O fenómeno seria idêntico, em maior ou menor escala, worldwide, quer se goste ou não.