Ao decimo-quinto dia, precisamente o meio termo da viagem, comecamos a acusar o desgaste. Ha umas noites atras dei o meu grito de Ipiranga quando, segundo me contou a minha namorada, acordei a protestar com os muezzins (os chamamentos para as rezas). Dizia eu: 'Eu nao acredito! Eu nao acredito! Quero dormir e estes gajos querem rezar! Tu acreditas-te nisto?'
A verdade e que os Arabes (perdoem-me a generalizacao, mas depois de conhecer o Egipto, o Iemen, o Libano, a Siria e a Jordania penso que ja tenho direito a algumas) sao perfeitamente indiferentes a poluicao sonora. Aqui, tudo parece funcionar segundo uma ingovernavel hierarquia do som: no transito como na musica, no mercado como na mesquita, o escalao de importancia parece aumentar com o grau do som. Ha uns dias atras, a minha namorada ficou bastante impressionada quando, num restaurante em Aleppo, os clientes e os musicas permaneceram impavidos com o chiar de um microfone que necessitava de calibracao. Nao pareceu uma anormalidade. Tivemos uma situacao semelhante na ultima noite em Damasco, quando fomos jantar a um restaurante situado no patio de uma antiga casa Otomana. Estava uma noite quente de primavera, pelo que podiamos apreciar as estrelas apenas levantando a cabeca das iguarias sobre a mesa. Enfim, um ambiente ideal para um jantar a dois. Porem, sendo esse tal restaurante popular entre os damascenos, celebravam-se tambem varios aniversarios. Talvez, por esse motivo, e como nota de cortesia, o manager convidou um cantor e um pianista de orgao para entreter os clientes. Foi a desgraca de nos e do nosso jantar. O homem e o acompanhante musical formavam um dueto insurdecedor de sons agudos e metalicos, proximos do heavy metal, que nos impediu de qualquer conversa ao longo do jantar. Este sim, um retumbante fiasco!
De igual modo, na Mesquita Omaida e no Palacio de Azem (governador Otomano da provincia da Siria), principais atraccoes da cidade de Damasco, sentimos-nos defraudados pela quantidade e, acima de tudo, sonoridade, dos nossos companheiros visitantes. E, no minimo, estranho que obrigem as ocidentais (mesmo que usando camisola e lenco na cabeca. Ah, e ja agora, obrigam os turistas a pagar para entrar num local sagrado) a trajar longas vestes, quando no interior nos deparamos com criancas a atravessar o patio em histeria, algumas descalcas, e uma delas ate mesmo, de patins em linha. No harem do Palacio de Azem, um espaco supostamente de tranquilidade, projectado com o fim de proteger a vida familiar do Pasha, tornou-se num campo de batalha, onde criancas e adultos se acotovelam de sala em sala, sem nada ler, nem nada ver, com uma voracidade glutona. Infelizmente, dou por mim a observar os poucos ocidentais que se encontram por perto como seres civilizados numa selva anarquica. Preferia nao pensar assim. Deve ser do cansaco.
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