A Gaivota Farragulha

    segunda-feira, março 01, 2010

    Dia 5 - Sexta-feira a noite em Beirute

    Sexta-feira à noite é altura para conhecer a face mais parda de Beirute. A nossa aventura começou por um passeio pelo bairro de Daheya (literalmente, ‘subúrbio’), uma área shiita que foi o principal alvo dos bombardeamentos israelitas durante o Verão de 2006. Apesar do evidente esforço reconstructivo - maioritariamente financiado pelo Hezbollah - sao ainda bem visíveis as cicatrizes do conflito, quer nos escombros de edifícios, quer nas imagens de ‘mártires’ que adornam os postos de electricidade, quer no ambiente austero das ruas do bairro. 
    Daqui, partimos para o Barometra, um restaurante/bar em Beirute oriental, onde, reza a lenda, Yasser Arafat costumava encontrar os seus camaradas (embora nao consumisse álcool) nos dias em que a liderança da Organização para a Libertação da Palestina (OLP, em inglês, PLO) emanava da cidade. Ao jantar, a conversa rondou o mundo muçulmano, e em particular, o terrorismo. Foi interessante ouvir um ex-correspondente do The Guardian, britânico de origem iemenita, argumentar que a presença de organizações terroristas no Iemen foi salientada para obscurecer o facto de que o jovem nigeriano que tentou explodir um avião no passado dia 25 de Dezembro foi, na realidade, radicalizado em Londres. Findo o jantar, o Deen quis consolidar a nossa opinião sobre o cosmopolitismo de Beirute e levou-nos a beber um copo num bar gay, o Bardo. Na verdade, podíamos ter estado em Soho, Le Marais ou a cidade velha de Ibiza, pois todos os elementos identificadores de tais estabelecimentos estavam presentes: as bandeiras coloridas, a Lady Gaga nos amplificadores, vídeos da Madonna na televisão e, claro, um ratio de 50 homens por cada mulher. Um milhão de pessoas, tantos estilos de vida e a noite ainda estava a começar. 
    Daqui, partimos para o bairro de Gemmayze, na zona ocidental da cidade (predominantemente, crista maronita) e que recentemente se tornou no coração da movida beirutiana. Descemos ate a cave de um bar, onde um grupo multi-etnico (constituido, por um europeu, dois africanos, dois libaneses e um asiatico) se prepara para começar uma sessão de rap em arabe. A coisa anima, outros musicos sobem ao palco e , a certa altura, ja nao se toca rap mas sim reagge. A multidão de miudas em saltos altos e rapazes de camisolas de capuz atinge o climax durante a performance de um reputado talento local, um sueco com voz de trombone.

    Mais tarde, a festa, nos e tantos outros, segue para casa do Deen. Sento-me ao lado de Karim, um muçulmano sunita filho de pai libanes e mae inglesa. Karim tem 24 anos e ate aos 14 viveu em Beirute, o que, por outras palavras, significa que cresceu durante o final da guerra civil libanesa. Karim diz-me que o pai dele nao quis abandonar o pais, como tantos outros. Que o ex-Primeiro Ministro Rafik Hariri roubou os libaneses, nomeadamente a familia dele, atraves da apropriação de terra para construir o novo centro de Beirute. E tarde, vou-me deitar.

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