A Gaivota Farragulha

    quinta-feira, fevereiro 26, 2009

    O Caozinho Feio

    Lembro-me de pensar que o Cao de Água Português era sinceramente feio. Logo à primeira vista, o animal tinha uma embaracosa parecenca com o Caniche, Poodle ou ainda Rei dos Caes Tenebrosamente Horríveis Adquiridos por Pessoas de Gosto Dúvidoso com Ambicoes Sociais Optimistas - agora destronado pelo Chihuhuahua (a ideia deixou de ser: 'a minha casa é tao linda que ate tem uma sanita de mármore com um belíssimo assento de pelúcia', para ser: 'estar acompanhado de um animal tao feio, faz-me parecer bonito(a)'. Antes fosse que esse tipo de projeccoes influenciasse a forma as mulheres escolhem um homem do que um cao... mas enfim, representacoes do animal enquanto extensao capilar das próprias donas prejudicou fatalmente a minha opiniao sobre o dito bicho. Mais a mais, essa semelhanca física nao era suficientemente próxima para revelar algum digno grau de parentesco entre as duas racas, de modo que o Cao de Água Português se apresentava quase sempre como a versao rasca do segundo, como o primo mal-vestido e mal-educado, filho DAQUELA tia que se infiltrou na família, e que geralmente fica sentado a um canto nos casamentos. Acima de tudo, o Cao de Água Português sofria dessa grande mal que era ser Português, facto que, para pior dos males, nao podia esconder visto constar do seu próprio nome, e que o tornava indesejável aos olhos de muitas boas e nobres famílias.
    Porém, tudo isso mudou esta manha quando foi finalmente revelado que o First Dog escolhido por 'Sasha e Malia' era nada mais, nada menos, do que Cao de Água Português. Aos poucos, enquanto lia as descricoes do bichinho no site BBC News, no New York Times e no El País (a notícia foi dada pela Primeira Dama numa entrevista à revista People e saí hoje na capa), comecei a descubrir a sua beleza salgada. Aparentemente, o animal tem um espírito determinado, é corajoso e incansável e até Ted Kennedy, o último bastiao dessa dinastia de bom gosto e rectidao moral, tem dois. Bem, no final disto tudo, já achava o cao um animal brilhante e, devo confessar, queria um também. Nao o preto, mas um de cor diferente, talvez houvesse já uma mutacao em cor de vinho proveniente de um lugar qualquer no Canadá. Em Portugal, estou já a imaginar as manchetes dos jornais da tarde na televisao: 'Sasha e Malia já escolheram e o Primeiro Cao vai mesmo ser Português (exclui-se a parte 'Cao de Água')', seguindo depois a reportagem com o criador nos Azores que teve uma ninhada e vai enviar um deles para o Presidente dentro de uma garrafa , e depois uma entrevista com duas meninas na Covilha que também têm um cao da mesma raca e que o baptizaram de 'Obama', mas que é mais conhecido na rua como o 'Preto'.

    Moral desta digressao aparentemente lunática sobre um tema absolutamente supérfluo: hoje é o Cao de Água, ontem foi o Ronaldo, o Mourinho, o Pedro Pinto, a Paula Rego, o vinho do Porto - os portugueses ainda precisam da aceitacao exterior para aprovar e admirar o que é seu. Apenas porque foi votado ao abandono, é que o Cao de Água Português, um animal que carrega o legado da cultura pescatória portuguesa, se tornou no objecto de mau gosto de pessoas em outros locais do mundo. Pessoas essas que, apesar de tudo, o amaram e preservaram a raca. É por isso que sinto uma certa revolta quando os meios de comunicacao Portugueses se vanglorizam agora com o facto do Cao de Água Português ser o First Dog da era Obama.

    segunda-feira, fevereiro 23, 2009

    Taking the Slum out of 'Slumdog'


    Agora que o filme foi finalmente consagrado com oito (!) Oscars, podemos concentrarmos-nos na temática e controvérsia gerada em torno do mesmo. Neste artigo, publicado ontem no The New York Times, Matias Echanove and Rahul Srivastava, membros da organizacao 'Partners for Urban Knowledge Action and Research', escrevem sobre o que entendem ser uma perspectiva ocidental sobre uma realidade intrinsicamente oriental. Na verdade, mais do que representar uma tragédia humana como muitos ocidentais insistem, os 'subúrbios' de Bombaim sao, para muitos Indianos (e falo de experiência própria pois, já em 2005 quando estive na India, ouvi estas ideias) exemplos da 'Indian Beauty'. Talvez será mais fácil compreender esta ideia se nos lembrarmos das divertidas descricoes de Jorge Amado sobre as favelas do Brasil, tao repletas de vida como geniais do ponto de vista urbano. Ou como canta Seu Jorge: 'A favela, nunca foi reduto de marginal':


    IT does not take much to galvanize protest against a movie in India, but few thought the word “slumdog” would cause so much anger — especially as hundreds of Bollywood titles translate into much worse slurs. We had to pay attention, though, when friends from Mumbai’s sprawling Dharavi area joined hands with those demonstrating against the Oscar-nominated film “Slumdog Millionaire.” The Indian media widely reported that the outrage was over the word “dog.” But what we heard from Manju Keny, a college student living in Dharavi, was something else. She was upset at the word “slum.” We could not agree more.
    In truth, the movie never claims to be a portrait of Dharavi, though some of the most spectacular scenes were shot there, including depictions of the anti-Muslim riots of 1992. The director, Danny Boyle, constructs a cinematic slum out of many pockets around Mumbai. The opening sequence has children playing near the airport, being chased by policemen and ending up — in a moment of pure Hollywood magic — a few miles away in Dharavi.
    The imagery represents what most middle-class residents of Mumbai (and now all over the world) imagine Dharavi to be. The urban legend of its squalor has taken root because few Mumbaikers have ever been there — just as most Manhattanites still avoid stepping anywhere near Bedford-Stuyvesant, that beautiful neighborhood in Brooklyn. Times may have changed since the mid-’70s, when the community worker Barry Stein described Bed-Stuy as the “largest ghetto in the country,” but prejudices die hard, in New York and India.
    Its depiction as a slum does little justice to the reality of Dharavi. Well over a million “eyes on the street,” to use Jane Jacobs’s phrase, keep Dharavi perhaps safer than most American cities. Yet Dharavi’s extreme population density doesn’t translate into oppressiveness. The crowd is efficiently absorbed by the thousands of tiny streets branching off bustling commercial arteries. Also, you won’t be chased by beggars or see hopeless people loitering — Dharavi is probably the most active and lively part of an incredibly industrious city. People have learned to respond in creative ways to the indifference of the state — including having set up a highly functional recycling industry that serves the whole city.
    Dharavi is all about such resourcefulness. Over 60 years ago, it started off as a small village in the marshlands and grew, with no government support, to become a million-dollar economic miracle providing food to Mumbai and exporting crafts and manufactured goods to places as far away as Sweden.
    No master plan, urban design, zoning ordinance, construction law or expert knowledge can claim any stake in the prosperity of Dharavi. It was built entirely by successive waves of immigrants fleeing rural poverty, political oppression and natural disasters. They have created a place that is far from perfect but has proved to be amazingly resilient and able to upgrade itself. In the words of Bhau Korde, a social worker who lives there, “Dharavi is an economic success story that the world must pay attention to during these times of global depression.”
    Understanding such a place solely by the generic term “slum” ignores its complexity and dynamism. Dharavi’s messy appearance is nothing but an expression of intense social and economic processes at work. Most homes double as work spaces: when morning comes, mattresses are folded, and tens of thousands of units form a decentralized production network rivaling the most ruthless of Chinese sweatshops in efficiency. Mixed-use habitats have often shaped urban histories. Look at large parts of Tokyo. Its low-rise, high-density mixed-use cityscape and intricate street network have emerged through a similar Dharaviesque logic. The only difference is that people’s involvement in local development in Tokyo was seen as legitimate.
    Building on what exists, rather than clearing it for redevelopment, may preserve not only the character of a place but also its economic vibrancy. In Dharavi, it would allow all residents to leverage their most precious asset: a place to live and work. Slum-rehabilitation projects in Mumbai often end up creating new slums elsewhere as they increase real-estate value in the places they redevelop.
    In the movie, when the protagonists return to their childhood haunts, they find that multistoried apartments have replaced the old decrepit structures, giving the impression of urban mobility and transformation. What the camera doesn’t reveal are the enormous shantytowns hidden behind those glistening towers, waiting to be redeveloped all over again.
    In many ways, Dharavi is the ultimate user-generated city. Each of its 80-plus neighborhoods has been incrementally developed by generations of residents updating their shelters and businesses according to needs and means. As Ramesh Misra, a lawyer and lifelong resident, puts it: “We have always improved Dharavi by ourselves. All we want is permission and support to keep doing it. Is that asking for too much?”




    Publicado Por:

    terça-feira, fevereiro 17, 2009

    Afogar as mágoas japanese-way

    O ministro da economia japonês foi hoje forcado a apresentar a demissao apos a suspeita de que estaria bebado na conferência de imprensa da reuniao do G7. Embora Shoichi Nakagawa tivesse admitido que o seu estado fosse improprio para a ocasiao, manteve que nao se deveu ao consumo de alcool. Segundo o propio, terao sido os varios comprimidos que consumiu nessa manha os responsaveis pela 'oura'. De uma maneira ou de outra, ficamos com uma ideia bem tremida do que terao sido as discussoes sobre a crise economica...

    domingo, fevereiro 15, 2009

    (Nearly) nothing to fear but fear itself, por Olivier Blanchard

    Num artigo publicado há duas semanas na revista The Economist, o distinguido professor de macro-economia do MIT e economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, oferece-nos um visão clara e pertinente sobre a presente crise económica:


    CRISES feed uncertainty. And uncertainty affects behaviour, which feeds the crisis. Were a magic wand to remove uncertainty, the next few quarters would still be tough (some of the damage cannot be undone), but the crisis would largely go away.


    From the Vix index of stockmarket volatility (see chart), to the dispersion of growth forecasts, even to the frequency of the word “uncertain” in the press, all the indicators of uncertainty are at or near all-time highs. What is at work is not only objective, but also subjective uncertainty, or what economists, following Chicago economist Frank Knight’s early 20th-century work, call “Knightian uncertainty”. Objective uncertainty is about what Donald Rumsfeld (in a different context) referred to as the “known unknowns”. Subjective uncertainty is about the “unknown unknowns”. When, as today, the unknown unknowns dominate, and the economic environment is so complex as to appear nearly incomprehensible, the result is extreme prudence, if not outright paralysis, on the part of investors, consumers and firms. And this behaviour, in turn, feeds the crisis.

    It affects portfolio decisions. It has led to a dramatic shift away from risky assets to riskless assets, or at least assets perceived as riskless. It sometimes looks as if investors around the world only want to hold American Treasury bills. Why? At the start was the realisation that many of the new complex assets were in fact much riskier than they had seemed. This realisation has now morphed into a general worry about nearly all risky assets, and about the balance-sheets of the institutions that hold them. “Better safe than sorry” is the motto. Unfortunately, while the motto may make sense for individual investors, it is having catastrophic macroeconomic consequences for the world. It is triggering enormous spreads on risky assets, a credit crunch in advanced economies, and major capital outflows from emerging countries.


    It affects consumption and investment decisions, and is largely behind the dramatic collapse in demand we have observed over the last three months. Sure, consumers have lost a good part of their wealth, and this is reason enough for them to retrench. But there is more at work. If you think that another Depression might be around the corner, better to be careful and save more. Better to wait and see how things turn out. Buying a new house, a new car or a new laptop can surely be delayed a few months. The same goes for firms: given the uncertainty, why build a new plant or introduce a new product now? Better to pause until the smoke clears. This is perfectly understandable behaviour on the part of consumers and firms—but behaviour which has led to a collapse of demand, a collapse of output and the deep recession we are now in.





    So what are policymakers to do? First and foremost, reduce uncertainty. Do so by removing tail risks, and the perception of tail risks. On the portfolio side, establish a price, or at least a floor on the price, of the troubled assets. Ring-fence them or take them off bank balance-sheets. On the consumption side, commit to do whatever it will take to avoid a Depression, from fiscal stimulus to quantitative easing. Commit to do more in the future if necessary. Above all, adopt clear policies and act decisively. Do too much rather than too little. Delays in financial packages have cost a lot already. Further rounds of debate will stoke uncertainty and make things worse.



    Second, undo the effects of uncertainty on the portfolio side, and help recycle the funds towards risky assets. The standard advice here is to return the private financial sector to health through recapitalisation. That is absolutely right, but easier said than done. And, while damage is slowly repaired, it makes sense for states to recycle part of the funds themselves. To caricature: if the world loves American Treasury bills but the funds would be more useful elsewhere, then the government should issue the bills, and use the proceeds to channel the funds where they are needed. It should buy some of the riskier assets, and return some of these funds back to emerging-market countries to offset capital outflows. This is indeed close to what America’s Federal Reserve is now doing with quantitative easing at home and swap lines to foreign central banks. The only difference is that the Fed issues money rather than treasury bills in exchange for its purchases. It would make more sense for the Treasury to be involved, and to separate more clearly the role of fiscal and monetary policy, but, in the current state of play, this is a minor wrinkle. Either will do.



    Retail therapy
    Third, undo the effects of the wait-and-see attitudes of consumers and firms on the demand side. Get them to spend more, and have the state do some of the spending itself. Offer incentives to buy now rather than later; for example, temporary subsidies to consumers who turn in a clunker and buy a new car, a measure adopted in France. Increase spending on public infrastructure, a central component of President Barack Obama’s programme. Both types of measures are indeed present in the fiscal programmes more and more countries are putting in place. If tailored and communicated well, these programmes cannot only stimulate and replace private demand, but also convince consumers and firms that they are not in for another Depression. This will ensure that they stop waiting and start spending again.



    Coherent financial, fiscal and monetary measures are all needed. All three will have direct effects on demand. But, as importantly, they will help reduce uncertainty, lower risk spreads, and get consumers and firms spending again. If policymakers act decisively, private demand will recover sooner rather than later. And, within a year or less, we can be on the path to recovery.
    Publicado por:

    quarta-feira, fevereiro 11, 2009

    Ou a Paz pela Guerra (Segunda Parte)

    Este artigo, que sucede o post publicado em Janeiro sobre a ofensiva Israelita sobre Gaza (pode ser encontrado nos arquivos), foi escrito há mais de duas semanas atrás. Hoje, quando os primeiros resultados (ainda não totalmente certos) dão a vitória a Tzipi Livni nas urnas Israelitas, parece-me mais actual do que nunca uma leitura do conflicto israelo-árabe sobre o prisma político.




    Segunda Parte:


    Sobre a luz desta teoria, podemos agora olhar com maior claridade para a história da região nos últimos meses. Na verdade, o presente conflito tem mais que ver com a evolução da política interna em Israel e nos Territórios Palestinianos do que com considerações geopolíticas do século XXI. Comecemos então com Israel. Em Julho do ano passado, após a revelação pública do envolvimento de Ehud Olmert, actual Primeiro-Ministro, num processo de corrupção, são convocadas novas eleições para a liderança do partido centrista Kadima. Em Setembro de 2008, a Ministra dos Negócios Estrangeiros, Tzipi Livni ganha as eleições internas do Kadima por uns meros 431 votos (1%) e começa negociações tendo em vista a renovação da coligação de governo. Porém, os partidos mais conservadores, nomeadamente o Shas, Meretz-Yachad e o Judaísmo Unido da Torah, decidem abandonar a coligação e alinhar com o Likud, agora liderado por Benjamin Netanyahu. Deparando-se então com um impasse político, o Presidente do Estado de Israel, Shimon Peres, convoca eleições legislativas para Fevereiro de 2009.


    Nas semanas seguintes, as sondagens revelam a sucessiva perda de popularidade de Livni face à ascensão de Netanyahu, descortinando uma eventual reviravolta nas altas esferas políticas de Israel. As consequências desse desfecho para o processo de paz adivinhavam-se catastróficas. Com efeito, não é a primeira vez que tal cenário se apresenta. Entre 1996 e 1999, Benjamin Netanyahu foi Primeiro-Ministro de Israel, sendo hoje considerado como o mais conservador que alguma vez ocupou o cargo. A sua posição face aos Palestinianos ficou conhecida como a postura dos “três nãos: não à retirada dos Montes Golans; não às negociações sobre Jerusalém; e não às negociações com pré-condições.” Nas memórias de Dennis Ross, o assessor de Bill Clinton para o Médio Oriente, Netanyahu surge não só como uma personagem ‘intratável’, mas como o grande culpado pelo impasse em que caíram as negociações no final dos anos 90. A provável reeleição de Netanyahu como Primeiro-Ministro em Fevereiro de 2009 certamente acarretaria consigo semelhantes, ou porventura piores, efeitos para o processo. Isto porque já não estamos nos anos 90 e a conjuntura internacional, nomeadamente no Médio Oriente, sofreu uma grave deterioração.


    Entretanto, o Hamas, envolto na velha contenda com a Fatah pelos ‘hearts and minds’ dos palestinianos, decide não renovar o cessar-fogo celebrado com Israel em Junho de 2008. Deste modo, o Hamas pretende alcançar dois objectivos. Por um lado, declara o final do mandato de Mahmoud Abbas e reclama a convocação imediata de eleições nos territórios palestinianos, acreditando que poderá tomar o governo não só na faixa de Gaza, mas também na Cisjordânia. A chegada do Hamas ao poder significaria, desde logo, um regresso do processo de paz ao ponto inicial. Com efeito, o movimento não subscreve a Declaração de Princípios de 1993, na qual Arafat (Fatah) reconheceu o direito de Israel existir no território. Pelo contrário, o Hamas define-se pela reclamação do estado Palestiniano em todo o espaço hoje ocupado por ambos Israel e pela Autoridade Palestiniana.



    Porém, e acima de tudo, o lançamento sucessivo de rockets e mísseis contra o sul de Israel destinaram-se a enfraquecer a posição da recém-eleita Livni e do ‘campo de paz’ no país vizinho. O sucesso da estratégia é ilustrado pela mobilização da opinião pública israelita contra a tolerância do governo face ao ‘terrorismo’ palestiniano e a um processo de paz errático. Ao mesmo tempo, a táctica do Hamas fortalece a posição de Netanyahu nas sondagens e aproxima o final do processo de paz. É certo que não passou também despercebido ao Hamas o final de mandato de George W. Bush, o grande promotor desta iniciativa de paz. A chegada à Casa Branca de um novo líder que prometia um ‘mudança’ na forma da América se relacionar com o mundo (leia-se, uma transformação nas relações com o Irão e possivelmente também com o Hamas) incitava à antecipação da rotura com o actual processo de paz e a uma reformulação das posições no Médio Oriente.


    Perante esta conjuntura, restam apenas duas alternativas a Tzipi Livni: tentar renegociar com o Hamas o cessar-fogo, sobre elevadas probabilidades de falhar e eventualmente perder as eleições em Israel; ou fazer uma demonstração de forças em Gaza para provar ao Hamas (e também aos Iranianos) que está atenta, mas sobretudo para reconquistar a confiança do povo Israelita. Entre as duas, optou pela última. Desde de então, os eventos desenrolaram-se perante nós com uma cadência dramática que, julgo eu, apanhou de surpresa Palestinianos e Israelitas. Nos jornais e nas televisões, comentaristas das mais diversas origens denunciaram Israel, acusaram o Hamas e dissertaram sobre a ‘insolvência do problema’. Até porque, em larga medida, a estratégia jogou contra os interesses dos que defendem o processo de paz: a opinião pública mundial tornou-se contra Israel e a sua cara mais visível, Tzipi Livni; o Hamas não foi exterminado, mas pelo contrário, afirmou-se como o genuíno defensor da causa palestiniana; e um re-enegrecimento das relações entre as populações da faixa de Israel, Gaza e da Cisjordânia.


    Porém, no objectivo a que se propôs atingir, a estratégia está perto de alcançar sucesso. Foi esse o propósito de manter o Kadima no poder e assim salvar o processo de paz. Uma sondagem realizada recentemente mostra que Netanyahu mantém a liderança nas sondagens (com 29 lugares dos 120 no Parlamento Israelita), mas demonstra que Livni está agora mais perto da vitória (25 lugares). De qualquer forma, uma margem pequena entre os dois partidos possibilita não só a entrada de um partido mais conciliatório numa eventual coligação de governo, como também a formação de uma maioria governante pelo Kadima e porventura os Trabalhistas. Logo, as próximas duas semanas, as últimas antes das eleições, serão decisivas para o futuro do Médio Oriente. Contudo, em última análise, queda a pergunta se os fins, mesmo para alcançar um bem tão prezado como a Paz, justificam os meios, nomeadamente a morte de inocentes. Eu prefiro pensar que não, mas compreendo os que pensam que sim.


    Texto e fotografia: Diogo Lemos

    segunda-feira, fevereiro 09, 2009

    F.C.Porto 1 - 1 Benfica: Portistas seguram liderança com um penálti falso

    O título não é meu. É do 'Público online' às 21:37 de ontem, pouco depois do final da partida (presumivelmente estará hoje na edição impressa do jornal). O autor do artigo, publicado como 'notícia', é o jornalista Bruno Prata, que pouco deixa a adivinhar sobre a sua afiliação clubística: desde 'Pedro Proença (o árbitro) não fez jus ao antigo cartão de sócio', ao 'símbolo do Benfica demasiado pequeno e desproporcionado' nos ecrãs do estádio que não teve correspondência no campo, até à 'facilidade insultante' com que o Benfica controlou o jogo. É verdade, não percebo muito de futebol; mas posso afirmar com confiança que este relatório não ilustra o jogo que vi na televisão. Acima de tudo, parece incrível que um jornal que se refere 'de qualidade' tenha a prepotência ou a falta de bom-senso para publicar um artigo incrivelmente parcial. Por esse motivo, deixei o meu comentário no site do jornal, convido-os a fazer o mesmo:

    quinta-feira, fevereiro 05, 2009

    A Natureza como Arte

    ('The Loss of the Lisbon Rhinoceros', 2008, Walton Ford)

    O New Yorker da semana passada apresenta o pintor Walton Ford, a nova coqueluche da arte Norte-Americana. Segundo o artigo, o tríptico acima exibido, entitulado 'The Loss of the Lisbon Rhinoceros', terá sido o centro das atenções da sua última exposição, na Paul Kasmin Gallery de Chelsea. O quadro inspira-se em relatos da viagem em 1915 da embaixada do Rei Don Manuel II de Portugal ao Papa Leão X. Reza a história que uma das naus, onde incidentalmente seguia este animal, o primeiro rinoceronte visto em toda a Europa desde o tempo dos Romanos, naufragou ao largo de Genova. Ford ilustra a tragédia do ponto de vista do animal que ergue a cabeça para desvendar os primeiros contornos de terra firme, sabendo que não a poderá alcançar pois está agrilhoado ao mastro do navio. No fundo, e como nos leva a crer o New Yorker, toda a obra de Ford se concentra no sofrimento provocado pela acção do Homem sobre a natureza. A técnica usada é a aguarela, seguindo a tradição dos gravuristas da vida animal, nomeadamente John James Audubon, o primeiro a contextualizar os sujeitos com uma narrativa:

    ('Pinned Grous', J.J. Audubon)

    O resultado final de Ford, e a sua contribuição para a História da Arte, é alcançado através da harmonização destas gravuras com o dramatismo operático do pintor neo-clássico françês, Theodore Géricault:

    ('The Raft of the Medusa', Theodore Géricault)

    O resultado parece-me muito interessante, não só pela contemporâneadade do tema mas sobretudo pelo meu próprio fascínio pela vida animal. Tal como Ford que passou a infância a observar as gravuras de Audubon, também eu passei a minha acompanhado do Fábulas de La Fontaine que o meu avô me ofereceu. Esse fascínio pela magia da natureza reencontra-se agora com estas imagens.

    segunda-feira, fevereiro 02, 2009

    As melhores notícias 'não-essenciais' desta segunda-feira

    (More than 1000 people lined up in Miami to apply for 35 open firefighter positions - 'NYTimes')

    'Children paying price for adults' pursuit of success, report says', The Guardian:
    http://www.guardian.co.uk/society/2009/feb/02/children-wellbeing-success

    'Telmo Moreira ganha prémio do público no Prix de Lausanne', Público:
    http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1358378

    'In Bolivia, a tight grip on the next big resource', New York Times:
    http://www.nytimes.com/2009/02/03/world/americas/03lithium.html?_r=1&hp

    'Sonntag: The Precocious Years', New York Times:
    http://www.nytimes.com/2009/02/01/books/review/Sante-t.html

    'A distania Reuters acabou, mas a agência continua a dar notícias, incluindo esta', Público:
    http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1358449

    quarta-feira, janeiro 28, 2009

    Velocidade global


    Ainda ontem publiquei um post sobre a reestruturação da política externa dos EUA por Barack Obama, nomeadamente através da abertura ao diálogo no Médio Oriente, e hoje chegam já os primeiros resultados. A impressão que fica é de resultados mistos: por um lado, a Russia anunciou a suspensão do plano para colocar mísseis no seu enclave de Kaliningrad, entre a Lituânia e a Polónia, face à boa vontade da nova administração em Washington; por outro lado, o Presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, aproveitou para fazer um rol de acusações contra os EUA e exigir um pedido oficial de desculpas pelos 'crimes' cometidos contra o povo iraniano. O correspondente da BBC em Teerão descreveu o discurso como um dos mais duros alguma vez proferidos pelo Presidente contra os EUA. No entanto, Ahmadinejad mostrou-se esperançoso com a possibilidade de mudança em Washington. Por isso, fica a dúvida se o discurso é realmente uma posição de forças em Teerão ou um mero espectáculo para agradar ao eleitorado iraniano que irá a eleições em Junho. Ficaremos atentos.

    terça-feira, janeiro 20, 2009

    Um dia na história


    Prince Estabrook era um escravo que no dia 19 de Abril de 1775 se tornou no primeiro homem negro à lutar pela independência americana. Tirei esta fotografia na pequena cidade de Lexinton, perto de Boston, em Massachusetts, onde exactamente começou a revolta das colónias norte-americanas contra o Império Britânico. No dia em que Barak Obama se torna no primeiro Presidente negro dos EUA, não posso deixar de pensar em todos aqueles que contribuíram para que se chegasse a este momento histórico. Mais do que encetar um novo começo, a 'inauguração' de Obama reinvindica a história. Porventura seja isso que mais nos inspira neste dia na história.

    terça-feira, janeiro 13, 2009

    A Guerra pela Paz

    Numa das últimas aulas que tive na LSE sobre o conflito israelo-árabe, o professor Sumantra Bose, director do departamento de Governo e autor de inúmeros livros sobre resolução de conflitos, disse-nos que o fracasso de processos de paz no Médio Oriente invariavelmente preconizava uma nova escalada de violência. Segundo essa lógica, o esgotamento da esperança na diplomacia abriria espaço para aqueles que promulgavam apenas a solução militar para o conflicto, ou até mesmo tiravam partido da manutenção do status quo para alcançar posições de comando em ambos os lados do conflito. Foi assim em 2001, quando Ariel Sharon aproveitou a quebra das negociações entre Yasser Arafat e Ehud Barak em Camp David para visitar o Monte do Templo em Jerusalém, epicentro do conflicto, incitando o início da segunda Intifada e conseguindo a sua eleição meses mais tarde como Primeiro-Ministro pelo partido da direita israelita, Likud.

    Hoje, enquanto a ofensiva israelita prossegue sobre a cidade de Gaza e o número de mortos palestinianos se encavalita sobre o milhar, parece-me que a memória desse fracasso está mais viva do que nunca entre o dito 'campo de paz'. Se é certo que a presente operação é descendente directa da guerra fria entre Tel Aviv (e Washington) e Terão e da desastrosa invasão do Líbano em 2006, é também indiscutível que a ofensiva de Gaza representa uma última tentativa de evitar o fracasso de mais um processo de paz. Lançada em 2007 na conferência de Annapolis por George W. Bush e Condolezza Rice, a iniciativa de paz tinha como objectivo a concretização da 'two-state solution' para o território: aos Palestinianos caberia a responsabilidade de respeitar o direito de Israel existir, ao passo que os Israelitas deveriam criar as condições necessárias para o estabelecimento de um Estado viável na Cisjordânia ('West Bank') e na Faixa de Gaza. Apesar das óbvias reticências de ambas as partes em relação ao plano, nomeadamente a dificuldade em imaginar a viabilidade de um estado palestiniano dividido em dois e cercado por um forte aparato militar, os desejos de alcançar a paz ou de transformar positivamente a tão antiga disputa, inspirava alguma esperança. Porém, o processo de paz padecia de uma fragilidade maior, na altura salientada por alguns comentadores e especialistas na região, nomeadamente pelo meu professor.

    Diriam estes que a paz não será alcançada sem o envolvimento de todas as partes, entre as quais se destacam as facções mais violentas e radicais do conflito, os ditos ‘terroristas’, nas negociações. Subentende-se, é claro, o respeito por alguns critérios mínimos para que esses grupos possam participar das negociações. Porém, a sua inclusão é essencial para o sucesso do processo, como nos demonstra o caso do IRA nas negociações de paz na Irlanda do Norte. Na teoria, esta posição tem por base três argumentos. Em primeiro lugar, salienta-se que o processo de paz visa geralmente a extinção das actividades dos chamados grupos ‘terroristas’ e não as das facções mais moderadas de cada lado. Por exemplo, no caso do conflito israelo-árabe, o processo de paz visa o fim dos ataques protagonizados pelos grupos mais radicais em Gaza e na Cisjordânia, nomeadamente pelo Hamas, e não daqueles que já aceitaram os princípios básicos de negociação – Fatah, vulgo ‘Autoridade Palestiniana.’ Em segundo lugar, a exclusão destes grupos do processo de paz irá apenas reforçar a sua motivação para continuar ou intensificar esses ataques como forma de retaliação. O já famoso desvio de fundos internacionais pelos dirigentes da Fatah justifica por si só, para a população em geral e para os excluídos em particular, a rejeição do processo. E por fim, no caso de delicados e prolongados processos de paz como é o caso do conflito israelo-árabe, de Caxemira ou do Sri-Lanka, grupos externos às negociações tendem a beneficiar, em termos de apoio popular, com o fracasso dos participantes nas negociações. Ora, estando o roteiro de paz repleto de momentos de vulnerabilidade, grupos externos irão certamente certificar-se de reduzir as hipóteses de sucesso do processo em cada um desses momentos.
    Fim da Primeira Parte
    Texto e Fotografia: Diogo Lemos

    quarta-feira, dezembro 10, 2008

    O Elogio da Memória

    Por vezes é fácil esquecer os grandes processos de transformação da história em revés de momentos explosivos, aparentemente herméticos no tempo e quase sempre estéreis de justificação em si só. Os Eventos, quantitativamente em ascensão na nossa era, carecem de apêndices complexos, de digressões por estórias obscuras e, frequentemente, incómodas, de vácuos expostos à interpretação. São evidências indiscutíveis, presenciadas identicamente por homens e mulheres em redor do planeta como se todos possuíssem livres de trânsito para o polémico espectáculo da matinée ou da soirée – dependendo do meridiano em que cada qual se encontra. Ignorando a história e desprezando o futuro, a audiência regozija com a tremenda honra de presenciar o evento, de fazer parte da própria história, de, ouvir-se-ia entre a multidão no final da sessão, ‘ver aquilo com os próprios olhos.’ Na altura, consolam-se muito com o sentimento extremo que o acontecimento desperta neles, porém daí a uns dias, por obra de uns artistas criativos, a sua atenção é capturada pela nova atracção no cartaz. Do Evento resta então apenas uma lápide fria, onde jaze esculpida uma data e um título, no estilo do lembrete que se deixa de um dia para o outro na porta do frigorífico, fazendo sombra no deserto gélido da memória humana.

    quarta-feira, dezembro 03, 2008

    There were five German bombers in the air...

    Estas imagens são fantásticas mesmo sem comentários. Mas acompanhadas de duas preciosas informações são ainda mais engrançadas. Em primeiro lugar, é preciso mencionar que este foi um jogo 'amigável' entre políticos britânicos e alemães. E em segundo que o tractor de cabeça loira é o actual e controverso Mayor de Londres, Boris Johnson. Porventura pouco conhecido para além das praias da Grã Bretanha, Johnson é membro do partido conservador, ex-editor da revista ultra-conservadora 'The Spectator'. Mais recentemente, Johnson atraiu atenções por dizer que o povo britânico tinha-se tornado demasiado sentimentalista na sequência de demonstrações públicas de solidariedade com um refém no Iraque. 'Nothing like the good ol' days of the blitz, hein!?!'

    domingo, novembro 30, 2008

    Il Buffone

    É caso para dizer: No Coment.

    sexta-feira, novembro 28, 2008

    Toma!

    Vi este video no site do Publico e achei hilariante. Acho demais a forma meia desfarçada como ela entorna o copo...e ele também não perde tempo em responder. Isto passou-se na Roménia. Vai daí tive a ideia de publicar aqui no blog as imagens mais engraçadas da política. Portanto, mais virao.

    segunda-feira, novembro 17, 2008

    Bem-vindos ao Inferno!

    Reportagem da viagem de hoje ao campo de refugiados:

    No caminho, o deserto, o Oceano Indico e a nossa escolta militar...
    Chegada ao inferno.
    Novos blocos, ainda por habitar.

    Area dos recém-chegados.





    Pós altercamento. Não dá para ver na fotografia mas há um homem deitado no chão. Quando nós chegamos, ele estava no portão (assim como muitos outros) a tentar entrar no complexo para se queixar de um mal de saúde. Aparentemente, depois do nosso jipe ter entrado, houve uma discussão entre os polícias e a multidão e este homem acabou por ser socado, incitando uma luta entre todos que tive oportunidade de assistir deste lado das sebes e grades. No momento aqui retratado, os oficiais do campo começaram a perceber que algo estava mesmo mal com este homem pois ele não se levantava. Acabaram por chamar uma ambulância para leva-lo ao hospital. O resto já não sei...

    quarta-feira, outubro 29, 2008

    As eleições por um binóculo


    A cinco dias das eleições americanas, parece quase certo que Barack Obama será o vencedor. Felizmente, tenho televisao em casa porque de outra forma não teria forma de acompanhar a recta final destas alucinantes eleições. Lembro-me da primeira vez que ouvi de Barack Obama, estava a começar o meu mestrado na LSE: li um artigo no The Guardian sobre um jovem senador com grandes aspirações políticas. Na altura, fiquei imediatamente captivado pelo seu perfil pessoal, pela sua carreira como activista social e político mas sobretudo pela sua posição em relação à Guerra do Iraque. Tal era a importância da questão para mim, que ainda antes de ouvir qualquer um dos seus brilhantes discursos, ainda antes de ele anunciar a sua candidatura, escolhi Barack Obama como o meu candidato. Desde aí, segui com interesse cada um dos seus passos, visitei a sua página no 'Facebook' para ler updates, e cheguei mesmo ao ponto de (quem passou por minha casa em Londres nesse ano, porventura lembrar-se-á) colar uma fotografia sua na parede do corredor - era o início do Obama 'superstar'.



    Mais tarde, já depois de Hillary e Obama anunciarem publicamente as suas candidaturas, tive oportunidade de expor a minha convicção a uma figura da politica portuguesa, tendo recebido em troca apenas a condescendência pelo meu 'idealismo e ingenuidade.' A vitória era de Clinton, dizia-se. Finalmente, na noite de 3 de Janeiro de 2008 assisti em directo à vitória inesperada de Obama no caucos de Iowa. Cinco dias mais tarde, também em directo, quase perdi a esperança perante o discurso triunfante de Clinton nas primárias de New Hampshire. Estava sentado sozinho em frente do televisor, a curar as mágoas como um gato lambe as feridas após a escaramuça, quando Obama subiu ao palanque e proferiu as palavras que entretanto foram inscritas nos anais da História: "Yes, we can!" Naquele momento, tal como milhões de espectadores na América e no mundo, soube que estava perante não só o melhor candidato, como também o futuro vencedor das eleições.



    Ao longo dos meses seguintes, descobri muito mais sobre este candidato e sobre as suas propostas, por vezes surprendendo-me pela negativa, outras pela positiva. Porém, mantive sempre as minhas duas convicções originais: que Obama era o melhor candidato; e que seria o vencedor. Hoje, mesmo reconhecendo a possibilidade de surpresas de última hora, sinto as minhas opções reinvindicadas, quer pela vantagem considerável apontada por todas as sondagens, quer pelos apoios que Obama conseguiu reunir - o último dos quais pelo The Economist. Obama é já o vencedor para todos aqueles que, como eu, acreditaram que a America estava preparada para abandonar os políticos e as estrátegias do passado e voltar a face para uma nova era. Obama é já o vencedor porque, pese embora as eventuais limitações prácticas da mensagem de mudança na Casa Branca, ela já aconteceu por todo o país - como diria o próprio, "something is happening in America." Por isso, na próxima terça-feira, em vez de estar sentado em frente ao televisor a roer as unhas, vou dormir tranquilamente com a confiança de estar num mundo um bocadinho melhor.
    Texto e Imagem: Meus

    quinta-feira, outubro 16, 2008

    Mais algumas fotos...













    terça-feira, outubro 14, 2008

    Shibam, Thula e Kawkakan

    Ola a todos!

    Desculpem a interregno mas infelizmente n tenho tido mto tempo para vir a internet cafes fazer uploads. Para alem disso, n e facil tirar fotos. Ontem, recebemos a noticia de que todos os departamentos da ONU no Yemen passaram ao nivel 3 de seguranca (por ordem directa do secretario-geral Ban Kin-Moon, assinada no passado domingo) o q quer dizer q todo o pessoal deve manter o mais low-profile possivel - logo, NO PICTURES! Os meus companheiros la no emprego estao a bater um bocado mal c esta noticia, especialmente pq o nivel 3 implica o evacoamento do pessoal dito 'nao-essencial' e das familias dos funcionarios da ONU...no meio disto, estou eu, que nao n tenho seguro da ONU, nem serei evacoado por eles caso haja sarilho - o q acaba por ser bom pq ninguem se importa q eu fique no Yemen e q va ao escritorio todos os dias. De qualquer maneira, na minha perspectiva, e na de outras pessoas melhor informadas, n ha motivos para alarme. Parece q a ONU esta a tomar esta medida de precaucao devido ao trauma do atentado as instalacoes da ONU em Algiers em Janeiro de 2008. De resto, a minha pesquisa esta a correr bem, embora lentamente, e ja comecei c as aulas de Arabe. Queria tb por algumas fotos da minha casa (ou melhor, palacio), mas esta pen que comprei no Yemen n e de mto boa qualidade e estraga as fotos....
    Aqui ficam algumas fotos de um passeio q fiz a algumas aldeias a volta de Sana'a:


    Plantacao de Qat:

    Bem, queria por mt mais fotografias aqui mas a net e mesmo lenta e n consgui. Mas entretanto, devido a situacao de seguranca, decidi trabalhar em casa e vou arranjar net em casa portanto pode ser q consiga qlq coisa mais rapida. Logo que puder, ponho mais fotos. Ate breve!


    quinta-feira, outubro 02, 2008

    Yemen Surreal

    Em dez pontos vou tentar dar alguma ideia das minhas primeiras impressoes do Yemen, uma terra surreal:

    10 - Qat: O vicio nacional. O qat e uma planta que se masca (tipo folha de coca) e que nao tem efeitos "psico-tropicos," nem provoca dependencia. Resulta meramente como um estimulante leve que pode tambem ajudar a suprimir a fome. A grande maioria dos yemenitas comeca logo a mascar a meio da tarde, alguns logo a seguir ao almoco - nao se celebram negocios sem mascar qat. Ao longo do dia e da noite, vao formando um residuo das folhas mascadas numa bochecha, que vai crescendo ate formar uma enorme bola de um dos lados da cara. Por volta das 10 da noite, as ruas estao cheias de qat porque os yemenitas apenas mascam as folhas mais jovens, e deitam tudo o resto fora.



    9 - Trafico urbano. Sinceramente, ja estive na India, em Cabo Verde, no Brasil, mas nunca vi nada assim. Logo na primeira semana vi pelo menos tres acidentes. Os carros sao podres, mas os condutores sao pessimos. Os piores sao os tipos das motos (ja vi 4 numa so moto) que conseguem fazer tudo ao mesmo tempo que conduzem. Julgo que este aspecto esta relacionado com o ponto anterior, uma vez que quase todos os condutores tem uma grande bola de qat. Para alem do mais, nao e fora de vulgar ver um rapaz de 12 anos a conduzir um carro. Mas para ver o verdadeiro espectaculo e preciso ir ate a praca principal, Al-Tahrir Square ("Praca da Libertacao", dos colonialistas, julgo eu...), onde criancas de qualquer idade (ou seja desde que tenham os bracos suficientemente grandes para chegar ao volante) podem alugar uma scooter e, muito literalmente, desbundar o alcatrao!


    8 - O Museu Militar de Sanaa e o mais sangrento que alguma vez ja vi. Para alem de uma coleccao fabulosa de kalashnikovs, metralhadoras, canhoes, espingardas e pistolas de todas as nacionalidades e idades, o museu narra graficamente todas as guerras (civis!) em que o Yemen esteve envolvido durante este seculo. Portanto, na sala dedicada a repressao da ditadura podemos ver varios exemplos de execucoes publicas, algumas por decapitacao, desde o momento em que o martir chega ate ao climax, quando o carrasco agarra na cabeca decapitada e espeta-a num pau de madeira para todos poderem observar. O highlight do museu sao os dois Caddilacs blindados do Iman que foram atacados por rebeldes e por isso pejados de balas e artilharia mais forte.


    7 - Ramadao. Cheguei mesmo no culminar do Ramadao, o que dificultou bastante minha vida, visto ser absolutamente proibido comer, beber, fumar ou fazer qualquer outra coisa para alem de dormir entre as 4 da manha e as 6 da tarde. Portanto, vive-se a noite, o que e extremamente confuso para quem tem que ir trabalhar durante o dia (a ONU nao altera o horario) e procurar casa, comprar cartao de telemovel, etc de noite. Senti-me sempre ao contrario do resto da cidade, e mesmo agora ainda n acertei muito bem com os horarios yemenitas. Como ocidental, tenho direito a alguns excepcoes a estas regras - como por exemplo, poder beber e comer no hotel durante as horas proibidas, e mesmo assim recebi alguns olhares reprovadores. Para alem do mais, como Sanaa nao e a cidade mais fresca do mundo, custa bastante andar na rua, sem poder tirar a garrafa de agua da mochila para aliviar a sede.


    6 - Carros de incendio alemaes. Nao deixa de ser bizarro deparar com o sinal Feurwerk no meio da cidade antiga...


    5 - A comida yemenita baseia-se nos feijoes, na carne estufada com feijoes, na galinha/cordeiro cozido com um condimento amarelo e no pao tipo naan - o melhor de tudo. No entanto, e apesar de Sanaa estar rodeada pelo deserto por todos os lados, a grande especialidade local e o peixe grelhado.! Nos restaurantes, os talheres sao apenas servidos por pedido a toalha e um pedaco de plastico.


    4 - Esta terca-feira celebrou-se o Eid que e uma especie de Natal para os muculmanos. Tal como na tradicao crista, tambem neste dia se entregam presentes as criancas. Como entretanto me mudei para um hostel na cidade antiga, onde a ausencia de carros permite as brincadeiras nas rua, tive oportunidade de observar em primeira mao a euforia dos dias seguintes. A surpresa nao foi a quantidade de criancas nas ruas, mas sim as escolhados dos presentes: quase todos os meninos tiveram uma pistola, ou metralhadora, ou espingarda e os poucos que nao tiveram, receberam espadas e catanas! As raparigas receberam disfarces, na sua grande maioria, trajes de sevilhanas...


    3 - As imagens do Presidente, o mesmo desde o final da ultima grande guerra civil, ha 30 anos atras, estao por todo o lado: nos postes das ruas, nas paredes das casas, colados em todos os cantos possiveis, em bandas na rua. Cheguei a ver uma casa para alugar que tinha pelo menos um retrato do Presidente em todas as divisoes.


    2 - Ja sabia que o Yemen era um pais conservador mas nunca imaginei o quanto. E extremamente conservador. Este aspecto e bastante aparente na situacao das mulheres. Desde que ca cheguei ainda n vi nenhuma mulher na rua com a cabeca destapada; 90% das mulheres anda completamente vestida de preto, tendo apenas os olhos a mostra; e os outros 10%, andam igualmente vestidas de preto dos pes a cabeca, mas trazem a cara destapada. A grande maioria das nao pode sair de casa sem estar acompanhada pelo marido ou por uma familiar mais velha; na rua, elas andam quase sempre atras dos homens, e seguem-nos do autocarro para o passeio, dos taxis para as lojas, sem trocarem palavra ou se sentar um ao lado do outro. Em geral, as mulheres nao podem comer em restaurantes - seria impossivel comer em publico c um lenco a tapar a boca. Apenas nos restaurantes melhores se podem ver mulheres e, nestes casos, estao separadas do resto da sala por biombos de tecido, tal como nos hospitais de campanha.


    1 - Por ultimo, e na sequencia do ultimo ponto, a grande maioria das mulheres n pode trabalhar fora de casa. Por isso, a maior parte dos empregos que estamos habituados a identificar com tarefas femininas, sao, fora de casa, desempenhados por homens. E o caso dos empregados de limpeza nos hoteis, nos restaurantes e no meu emprego; e tambem dos cozinheiros em quase todos os sitios. Por exemplo, se quissesse contratar alguem para lavar a minha roupa, ir as compras, cozinhar o jantar e limpar a casa contratava um 'empregado'. Felizmente, este rapaz ja aprendeu a fazer as actividades acima descritas e nao precisa de nenhum empregado!
    Texto e fotografias minhas.