A Gaivota Farragulha

    terça-feira, junho 30, 2009

    A morte do Rei


    (Michael Jackson visto pelo artista norte-americano Jeff Koons. Uma retrospectiva do artista será inaugurada amanha na Serpentine Gallery em Londres)


    Michael Jackson morreu na semana passada aos 50 anos de idade. Autor, produtor, actor, cantor e sobretudo dançarino, Jackson foi o Rei da Pop mas será também para sempre o retrato mais bizarro do 'American Dream'.

    Nascido em 1958 nos subúrbios industriais de Chicago, Jackson actuou pela primeira vez em público com apenas cinco anos num recital de Natal. Desde de então, nas produções familiares do pai - os Jackson Brothers, os Jackson Five e The Jacksons - ou a solo, Jackson nunca mais abandonou a esfera pública. Observando antigas gravações do Ed Sullivan Show é impossível não ficar cativado por aquele menino simpático, de olhos vivos e sorriso gigante, que gira sobre si próprio como um pião, estica braços e pernas como se fossem de plasticina e canta com a genuidade e harmonia que escasseiam em muitas estrelas adultas.






    Mais tarde, quando quis cortar os laços com o pai, figura aterradora ao longo dos primeiros anos de vida, para criar uma carreira à sua medida, Jackson inspirou-se na única certeza que porventura detinha sobre si próprio - a sua singularidade. Criou então a imagem de ser supra-natural. Primeiro foi a participação no filme E.T., depois o vídeo Thriller em que se transformava num monstro, os passos de dança que desafiavam a gravidade (o mais conhecido, apropriadamente intitulado 'moonwalk'), as sucessivas cirurgias plásticas, a amizade com macacos e crianças, o embranquecimento da sua pele, os rumores de que dormia numa câmara de oxigénio, a extravagância do rancho de Neverland, as cada vez mais fugazes e misteriosas aparições públicas.

    Os dois primeiros discos, Off the Wall e Thriller, lançados em 1979 e 1982 respectivamente, fizeram história musical. O som de Jackson, elaborado em parceria com o lendário produtor Quincy Jones, correspondia a uma mescla entre o passado, o presente e o futuro (como mais tarde ele apelidou um dos seus álbuns), entre o R&B, o Disco e o Rock, entre a música negra e a branca. Na medida em que fundiu estas tendências num só estilo e tornou-o acessível ao público em geral, Michael Jackson popularizou a MTV e transformou a música Pop para sempre.

    Porém, o âmago do mediatismo de Jackson, a particularidade que cultivava para sua si próprio, seria também a origem da sua decadência. Nos anos 90, Jackson foi acusado de abuso sexual de um menor e hoje diz-se que deverá ter sido por volta desta altura que começou a tomar comprimidos. A este caso sucedeu-se o casamento um tanto ou quanto opaco com a filha do outro Rei, Lisa Marie Presley. Pouco depois, Jackson apanhou todos de surpresa ao anunciar a gravidez da dermatologista e enfermeira Deborah Rowe. Juntos tiveram dois filhos: Michael Joseph Jackson Jr. e Paris Michael Katherine Jackson. Aos poucos, o Peter Pan dos anos 80 tornava-se no 'Wacko Jacko' da segunda metade dos anos 90.







    Em 2001, Jackson lançou o seu último álbum, Invincible, e o seu último single 'You Rock My World' não alcançou o sucesso esperado. Jackson parecia incapaz de transformar a sua imagem e adaptá-la ao público do novo milénio. Na primeira década do novo século, sucederam-se os eventos bizarros como quando baloiçou o terceiro filho (Prince Michael Jackson II) da varanda de um hotel em Berlim ou o documentário com Martin Bashir, Living with Michael Jackson. Por fim, veio a desastrosa segunda acusação de abuso sexual de um menor. Forçado a comparecer em tribunal, Jackson demonstrava-se cada vez mais excêntrico e débil. Absolvido, Jackson continuou a ocupar os escaparates dos jornais e revistas internacionais, sobretudo devido aos seus problemas económicos. Em 2006, foi forçado a fechar o rancho de Neverland. Recentemente, preparava-se para fazer um antecipado retorno aos palcos, com uma agenda marcada para 50 concertos sucessivos em Londres.

    Muito já se escreveu sobre a morte de Michael Jackson: que foi vítima do sensacionalismo da imprensa; que foi vítima dos abusos que sofreu enquanto criança; que foi vítima do seu próprio sucesso. A meu ver, Jackson personificou como ninguém os anseios das massas na segunda metade do século XX: ele estimulou a nossa fome, ou pelo menos a nossa curiosidade moderna, pelo híbrido: entre o Homem e a Mulher; entre o Preto e o Branco; e, acima de tudo, entre o Humano e o Extraterrestre. Michael Jackson não queria apenas ser o Rei da Pop; ele ambicionava tornar-se num Deus. Fez tudo, ou quase tudo, para atingir esse fim. Porém, os Deuses (ou outros!) tinham uma última rasteira reservada para ele quando o mataram aos 50 anos com um ataque cardíaco fulminante em casa. Imagino que essa seria a última morte que quereria para si. No final, Michael Jackson não foi Deus, mas apenas o Rei da Pop. Adeus!



    END

    terça-feira, junho 23, 2009

    Uma perspectiva histórica sobre as manifestacoes no Irao

    Video muito interessante do New York Times sobre as possíveis semelhancas entre as manifestacoes actuais e o movimento que levou à revolucao de 1979.

    segunda-feira, junho 22, 2009

    Sobre o silêncio de Obama face à situacao no Irao



    Pelo menos no que diz respeito à política externa, a administração Obama definiu-se, desde logo, pela ruptura com as linhas seguidas pela administração anterior. Onde George W. Bush concebia blocos distintos ('o eixo do mal' e o 'confronto de civilizações'), Obama concebe um mundo de relações complexas, plurais e dinâmicas (como apresentado na última cimeira dos G-20 em Londres); onde Bush via a necessidade de reafirmar a supremacia unilateral da América num mundo de suseranos e vassalos, Obama vê a necessidade de apresentar a vertente diplomática e cooperativista dos EUA; onde Bush aceitava o recurso a instrumentos e tácticas ilegais, Obama privilegia a promoção dos EUA num plano de ética e justiça internacional; onde Bush ignorava e desprezava os limites da intervenção militar, Obama prefere optar por discretas soluções políticas; onde Bush professava uma dedicação religiosa à democracia, Obama pratica um pragmaticismo meticuloso.

    A erupção de violência pós-eleitoral no Irão colocou abruptamente estas duas linhas em rota de colisão. A questão é a seguinte: depois das palavras de amizade de Obama no Cairo, ninguém desejava ver os EUA de novo envolvido na política interna de um país no Médio Oriente; acima de tudo, a administração Obama já teria optado pelo diálogo como a via mais eficaz para a detenção do programa nuclear do Irão. Porém, para atingir esse fim, os EUA deveriam adoptar uma atitude mais tolerante face ao regime de Terão. Ora, como foi argumentado por diversos jornalistas e comentadores na semana passada, as suspeitas sobre o resultado eleitoral no Irão, a emergência de um movimento popular liderado por um político moderado e a repressão violenta levada a cabo por brigadas à paisana (as Milícias Basij), não poderiam ter colocado a administração Obama numa situação mais delicada. Se por um lado os EUA deveriam manter-se alheados da questão para prosseguir os seus objectivos de política externa no Médio Oriente; por outro, o empenho e dedicação aos ideais de justiça e liberdade forçava-os a condenar o governo Iraniano. Na dúvida, Obama optou pelo silêncio. Apenas ontem, sete dias depois do começo da violência, Obama veio timidamente afirmar que 'o mundo estava atento ao que se estava a passar no Irão'.

    Julgo que foi um erro - talvez o primeiro que verdadeiramente podemos chamar como tal desde que Barack Obama chegou à Casa Branca. O mundo inteiro teve tempo suficiente para reconhecer a tragédia (e a incrível coragem) do povo Iraniano, assim como a brutalidade do regime teocrático em Terão, antes do Presidente dos EUA fazer qualquer tipo de comentário sobre estes em público. Esta demora suscita dúvidas não só em relação ao empenho de Obama em cumprir uma das promessas do seus discurso de investimento ('And so, to all other peoples and governments who are watching us today, from the grandest capitals to the small village where my father was born: know that America is a friend of each nation and every man, woman or child who seeks a future of peace and dignity, we are ready to lead once more.'), mas também em relação à eficácia da sua estratégia para o Médio Oriente.

    Com efeito, na opinião de vários comentadores, sobretudo no campo Republicano, Obama perdeu uma oportunidade para construir apoio internacional contra o regime de Terão. Aqui, deve ficar bem entendido que tal frente não teria como objectivo uma intervenção directa dentro do Irão, mas simplesmente uma forma de condenação da brutalidade do regime e de, assim, acelerar o seu isolamento na esfera internacional. Esse entendimento global sobre a questão do Irão, para o qual esta situação proporcionou condições únicas, poderia revelar-se fundamental nos acontecimentos que certamente acabarão por tomar lugar no Irão. Pelo contrário, ao manter-se silencioso, Obama deixou o espaço aberto para que, no futuro, governos e regimes mais cínicos do que o seu possam suster o regime em Terão (nomeadamente, em troca de negócios favoráveis em petróleo).

    segunda-feira, junho 15, 2009

    A internet como arma revolucionária


    (A polícia patrulhou as ruas de Terao ao longo da noite. Photograph: Ahmed Jadallah/Reuters)


    Ao ler os media internacionais sobre as eleicoes iranianas, há pelo menos um aspecto transversal a todos os relatos: ninguém sabe ao certo o que se está a passar no Irao. Á partida todos pensavam que Ahmadinejad nao enfrentaria dificuldades na re-eleicao, depois acreditavam que um dos candidatos, Hossein Mousavi, teria mais apoio do que inicialmente pensado, mais tarde criou-se a expectativa de que este iria ganhar (baseando-se em projeccoes que ninguém percebia de onde vinham), depois ninguém acompanhou de perto o desenrolar das eleicoes propriamente ditas, e, quando os resultados saíram, ninguém sabia o que pensar: teriamos sido demasiado optimistas ou as eleicoes foram realmente adulteradas? No momento em que o país caía numa espiral de violencia pós-eleitoral, comentadores fora do país ainda tentavam ultrapassar a estupefacao perante o resultado.

    Neste espaco opaco que ocupou a distancia entre o que se estava a passar no país e o que estava a ser relatado cá fora (expandido pela decisao do governo iraniano de fechar temporariamente um canal de televisao e limitar a actividade de jornalistas estrangeiros no país), a internet afirmou-se como o meio de informacao mais eficaz para trocar informacoes. Em particular, achei fascinante o uso do Twitter para enviar notícias em tempo real sobre as experiencias pessoais de indíviduos no Irao. Ao ler no blog de Andrew Sullivan, The Atlantic, alguns dos twits que têm sido enviados, achei que nos dao uma melhor impressao daquilo que se está a passar e decidi copiá-los para o meu blog. É claro que devemos tomar estas frases com uma pitada de sal pois nao sabemos quem os escreve e de onde vêm. Mas caso acreditemos naquilo que se pode ler abaixo, podemos ter pelo menos outra certeza sobre os eventos pós-eleitorais no Irao - foram feios, muito feios.


    "just received news about forging department students captured 2 Ansar troopers and moving them to another building!


    unlike Masood and others I really don't think capturing them can help us in any way.


    Hospitals around Tehran are surrounded by security forces who refuse to let those with injuries pass, humanity at its worst


    Friend: 17 y/o killed infront of me couldn't get to him in time guards beating us up went to hospital but he stopped moving


    problem w/ site pinpointed: webmaster says the Iranian govt is overloading us with requests to disable our site: "denial of service attack"


    My Father has a truck load of ballot boxes that were to be burned in the back of his truck.


    i eats some pills and wanna sleep and i scared that if they can find me ...i going...thx for your supports....



    typing as fastest as I can in bth English&Farsi,Still we need outside help,I really don't want to be captured by Ansar



    Once again I thank everyone in the world. No matter if Ahmadi stays or not, I'm proud to have clasped such supportive hands.




    URGENT JUST IN, there r TANKS in front of the interior ministry of tehran in valiasr st. & fatemi CAREFUL




    I can't find my friends on streets.



    Rasht, glass splinters on the streets, riot police not hesitating to beat men, women and even kids



    From Enghelab Sq friend just call me, Police & unknown forces beating everybody for no apparent reason!



    Correction, no bus burned, but three cars.



    dawn is breaking. can hear prayers from mosques.



    cousin in tehran is traumatized by the club and baton beatings on tehran streets. eyewitness report of a girl beaten to death.



    IRG's helicopter flying low on yousefabadad Amirabad Gisha right now creating a devastating sound and making windows shake



    sources from Tehran: ppl are killed, ppl are in blood, tehran is hell.



    We witnessed police spraying pepper gas into the eyes of peaceful female protesters



    We are here in the dark, all kinds of rumors fly by; nothing is sure.



    IRIB TV warned people seriously about going to tomorrow's rally, mobile network might be down for tomorrow's rally."

    quinta-feira, junho 11, 2009

    Shell assume mea culpa no assassínio de activistas nigerianos


    (Ken Saro-Wiwa fotografado com os dois filhos.)

    É uma história que poderia servir de guião à sequela ao filme 'O Fiel Jardineiro'. Esta semana, antecipando o início do julgamento em Nova Iorque, a Shell, gigante holandês do sector petrolífero, concordou pagar 15.5 milhões de dólares às famílias de nove activistas nigerianos mortos nos anos 90. O acordo marca o final de uma campanha pessoal de Ken Wiwa Jr., filho de Ken Saro-Wiwa, autor e líder do Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni (MOSOP), enforcado em 1995 pela ditadura militar nigeriana do General Sani Abacha.

    A história remonta a 1958, quando a Shell começou a explorar as reservas de petróleo na terra ancestral do povo Ogoni, a província de Ogoniland, no sul da Nigéria. No início do anos 90, Saro-Wiwa lançou e liderou o MOSOP, um movimento não-violento do povo Ogoni contra a acentuada degradação do meio ambiente, nomeadamente o despojamento de lixos tóxicos na terra e rios da região, provocada pela actividade da Shell. Em 1994, após o assassínio de quatro líderes tribais Ogoni favoráveis à presença da petrolífera na região, Saro-Wiwa e outros oito activistas foram presos e condenados à morte por um tribunal militar. Porém, no dia em que os crimes decorreram, as autoridades nigerianas não tinham permitido a entrada de Saro-Wiwa na província. As execuções geraram repúdio internacional contra o regime e a Shell foi acusada de fornecer veículos militares, barcos de patrulha e munições que foram usadas pelo exército nigeriano contra o povo Ogoni.

    A Shell negou sempre o seu envolvimento na execução de Saro-Wiwa, porém o acordo alcançado esta semana demonstra alguma reticência em submeter-se ao exame jurídico. No seu website, a companhia tenta 'salvar a face' ao afirmar que o acordo corresponde a um gesto humanitário a favor do povo Ogoni, uma vez que, parte do dinheiro (5 milhões), destinar-se-á à criação de um fundo para o desenvolvimento da região. Por sua vez, activistas dos direitos humanos no mundo inteiro celebraram este acordo como um passo importante na concretização da igualdade perante a lei e na implementação da responsabilidade social e ambiental de multinacionais.

    domingo, junho 07, 2009

    Putin põe na linha os oligarcas Russos

    A braços com uma das piores crises económicas mundiais, e as primeiras demonstrações de insatisfação popular, Vladimir Putin não está para brincadeiras. Esta semana, o Primeiro-Ministro Russo foi até à cidade industrial de Pikalevo, onde forçou o oligarca Oleg Deripaska a reiniciar a produção na fábrica. Aqui fica um curioso relato dos eventos desse dia.

    sexta-feira, junho 05, 2009

    A carta de demissao de James Purnell


    Nos dias que correm, as desavenças políticas são já por norma episódios públicos; contudo, raramente adquirem o carácter brutal da disputa que tem marcado a última semana do Governo Trabalhista de Gordon Brown. A publicação hoje (no 'The Times'!) da carta de demissão de James Purnell, Ministro do Trabalho e das Pensões, é um duro golpe no estômago político de qualquer administração: 'I am therefore calling you to stand aside to give our Party a fighting chance of winning. As such, I am resigning from Government.' É difícil perceber o que se está a passar dentro do Partido Trabalhista Britânico porém tudo aponta para que seja a ressurreição da velha contenda entre 'Blairites' e 'Brownites'. Infelizmente, será muito difícil a Brown resistir a mais este desafio.

    quinta-feira, junho 04, 2009

    A missão diplomática de Barack Obama no Médio Oriente




    (O Air Force One do Presidente aterra no Aeroporto Internacional King Khalid em Riade. Pablo Martinez Monsivais/AP)




    (Obama e a sua entourage - em que se pode encontrar Rahm Emanuel, o membro da comunidade judia americana mais próximo do Presidente - na corte do Rei Abdullah da Arábia Saudita. NY Times)



    (Bandeiras americanas hasteadas perto do minarete de uma mesquita em Riade. Hassan Ammar/AP)


    (Barack Obama nao acusa os quilómetros que o distanciam do solo americano. REUTERS/Larry Downing)





    (Palestinianos ouvem o discurso de Obama na Universidade do Cairo num café na Cisjordânia. Getty)


    (Cena de um café em Tel Aviv durante o discurso. AP Photo/Ariel Schalit)



    (Alunos da Universidade do Cairo ouvem o discurso. REUTERS/Larry Downing)



    (Obama descalca os sapatos para entrar na Mesquita do Sultao Hassan no Cairo. Pete Souza)



    (Incansáveis vendedores de souvenirs no Cairo nao perdem oportunidade de negócio... AFP/Getty)



    (Activistas Europeus e Americanos manifestam-se hoje no Cairo. Será que Obama os viu? REUTERS/Tarek Mostafa)

    segunda-feira, junho 01, 2009

    As razões do meu cepticismo em relação ao processo de paz no Médio Oriente:


    (A resposta de Netanyahu à proposta dos dois Estados. Steve Bell para The Guardian)



    As três premissas deste processo de paz referidas no post anterior parecem evidentes. Com efeito, a ideia de que a paz entre Israel e a Palestina é urgente, de que os Palestinianos precisam de um Estado e de que os Israelitas estão dispostos a fazer concessões em troca de segurança nacional são aceites por quase todos como dados adquiridos. No entanto, é importante distanciarmo-nos um pouco do conflicto e, sobretudo, da narrativa sobre o conflicto que permeia a grande maioria dos relatos da comunicação social para podermos avaliar o verdadeiro valor destas premissas.

    Sem dúvidas, a paz no Médio Oriente é necessária. Para além dos elevados custos humanos infligidos sobre ambas as partes, o conflicto tem sido o epicentro de vagas de instabilidade que assolaram o planeta nos últimos sessenta anos. Existe também a percepção, no Médio Oriente assim como na Europa e nos Estados Unidos, de que a disputa tem vindo a recrudescer ao longo dos anos e de que, caso não seja resolvida em breve, poderá estar na origem de um novo conflicto à escala mundial. Sem dúvidas, 'the stakes are high' e a paz tarda.

    Porém, a atenção dedicada ao conflicto parece um tanto ou quanto desproporcional quando comparada com outras situações potencialmente catastróficas, nomeadamente o conflicto entre duas potências nucleares em Kashmir (também desde 1947), a atitude militarista da Coreia do Norte (que, na semana passada, testou uma bomba nuclear na fronteira com a Coreia do Sul e lançou vários mísseis sobre o espaço aéreo do Japão) ou a aquisição de uma bomba nuclear pelo Irão (que hoje parece apenas ter relevância no contexto do conflicto Israelo-Árabe e não pelas suas implicações para a Rússia, a Índia, o Paquistão e a Arábia Saudita). Não se trata pois de um problema de quantidade de atenção, mas sim de uma questão do valor que essa atenção tem sobre as sociedades mundiais e, particularmente, sobre o Ocidente. Na realidade, o conflito Israelo-Árabe encontra-se hoje espantosamente politizado, ultrapassando muito além dos limites geográficos envolvidos, mas também além dos próprios tópicos em questão. Por todo o mundo, formaram-se definições sobre o que é estar “a favor de Israel ou da Palestina”, aliando-as frequentemente a preconceitos sobre identificações políticas que dizem mais respeito a realidades autóctones do que à própria disputa, e que têm, quase sempre, por base, um conhecimento medíocre ou inexistente sobre o conflito.

    Por este motivo, ouvimos tantas vezes dizer, na rua como também em debates de ditos especialistas, tantas incongruências e erros factuais sobre este conflito. O mesmo não se passa em relação a outros conflitos: afinal, julgo que o Bloco Esquerda não tem planeado nenhuma manifestação a favor da integração do Kashmir Indiano no Paquistão. O reverso desta moeda, o que aqui nos diz respeito, é que o empenho, ou pelo menos a declaração de empenho, em estabelecer a paz no Médio Oriente é amiúde um artífice, e não uma verdadeira declaração de intenções. Na realidade, sucessivos políticos têm manobrado esta questão apenas para demonstrar que estão a trabalhar pela paz mundial. Este aspecto está bem patente na história dos processos de paz no Médio Oriente, sobejamente em pomposas declarações e apertos de mão que levaram a pouco, e, acima de tudo, é evidente neste último ímpeto de paz, lançado por George W. Bush em 2007 para lavar as mãos depois do fiasco do Iraque. Sim, a paz é urgente e necessária, mas ela não será alcançada amanhã apenas porque serve ela serve as ambições de políticos externos – e também de alguns internos, diga-se. A paz chegará ou não quando Israelitas e Palestinianos estiverem realmente dispostos a dizer adeus às armas. Como é óbvio, esse momento pode nunca chegar, mas se hoje existe a crença de que a paz é possível no Médio Oriente, ela prende-se fundamentalmente com as premissas do processo de paz e não nos desejos da comunidade internacional.

    Este ponto leva-nos ao argumento central da minha crítica em relação ao presente processo de paz. Para não me alongar muito em explicações vou apenas focar aquela que, a meu ver, é a sua principal falácia: a solução dos dois Estados. Julgo que tais soluções, embora permitam algum desanuviamento na fase inicial, não auguram boas perspectivas no longo prazo. A história oferece-nos bons exemplos nesta linha de argumentação a começar pela divisão da Transjordânia em 1947 – da qual originou o conflito - mas também a fragmentação dos Balcãs após a queda do comunismo e a criação da Índia, do Paquistão e do Bangladesh na segunda metade do século. Acredito que este tipo de soluções visa um cessar rápido das hostilidades, mas não se dirige aos problemas fundamentais que opõem as duas populações que se debatem. Como defendi anteriormente, essas divergências devem ser acomodadas do ponto do Estado de Direito e nao através da segregacao das populacoes em dois Estados.


    (O mapa do Médio Oriente no futuro nao será muito diferente deste aqui apresentado.)

    Acresce a este ponto de vista, um argumento que se prende com as próprias circunstâncias do processo de paz e nomeadamente com a segunda e a terceira premissa referida no post anterior. Em concreto, a proposta de paz em negociação prevê a criação de um Estado Palestiniano que será certamente um Estado inviável: dividido em duas partes, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza; rodeado por um forte aparelho militar Israelita que não aliviará, a longo prazo, o sentimento de claustrofobia das populações Palestinianas; e desprovido de grande parte dos poderes, como o direito ao controlo do Espaço Aéreo, a livre entrada e saída de cidadãos que caracterizam o Estado moderno.

    Na medida que estes elementos levantarao obstáculos ao quotidiano das populações palestinianas, elas terão também consequências sobre o bem-estar de Israel. Com efeito, acredito que após uma fase inicial em que haverá alguma satisfação com a terminação do conflicto 'oficial', existirá um reconhecimento de que a população em Gaza continuará estrangulada entre Israel e o mar, assim como na Cisjordânia sucederá inevitavelmente a desilusão geral com as consequências práticas da paz. A estas eventualidades deverá juntar-se a continuação de actividades ilegais por grupos terroristas como o Hamas contra o presente processo de paz, e consequentemente contra as populações Israelitas e Palestinianas. Deste modo, os Israelitas continuaram a estar vulneráveis a ataques terroristas por parte de grupos radicais Palestinianos. Por outras palavras, nem os Palestinianos terão o Estado que desejam (com a consequência eventual de gerar descrédito pela solução legalista do conflicto), nem os Israelitas terão a segurança nacional que ambicionam (também incitando a atitudes mais agressivas dentro de Israel, nomeadamente a ideia de que Israel deve ocupar por completo a Palestina para sobreviver). No fundo, acredito que, na tentativa de encontrar uma solução rápida para o conflicto que convenha à comunidade internacional, este processo de paz levará ao esvaziamento da margem de entendimento entre Israelitas e Palestinianos e a popularização de posições radicais em ambas as partes. Neste sentido, a solução dos dois Estados tornará ainda mais grave a situação no Médio Oriente.

    Assim, hoje, no dia em que Barack Obama inicia a sua visita ao Médio Oriente, julgo que o reconhecimento desta situação transpira nas declarações feitas por Benjamin Netanyahu e Mahmoud Abbas sobre o processo de paz. Resta saber se Barack Obama tem um coelho para tirar da cartola no último momento.

    END

    quinta-feira, maio 28, 2009

    A China é a solucao

    segunda-feira, maio 25, 2009

    Quando dois desbocados se juntaram em directo na TVI...

    O telejornal da TVI é péssimo. Nao o tolero. A Manuela Moura é, sem sombra de dúvidas, uma personagem que merece pouco o título de jornalista, sendo porventura mais uma comentadora do que uma relatora da realidade. No entanto, é também importante referir que este jornal ocupa um espaco particular dentro do panorama da comunicacao social portuguesa. Por sua vez, o Dr Marinho Pinto é também um homem que nao segura as palavras. Nao posso julgar o teor do seu trabalho (como advogado, nao como jornalista) pois desconheco por completo aquilo que ele representa ou defende. Tudo o que posso afirmar é que esta exibicao de arrogancia e mau-debate de ambas as partes nao beneficia ninguém, nem o público, nem o jornalismo. Espero por isso que este caso nao seja o início de um tendência crescente em Portugal..

    quinta-feira, maio 21, 2009

    As três premissas do processo de paz no Médio Oriente


    ('O Arquipélago da Palestina Oriental' caso fosse rodeada pelo mar e não por Israel. Julien Bousac via Le Monde Diplomatique)


    A presente proposta de paz no Médio Oriente assenta em três convicções:

    1. A paz no Médio Oriente é urgente e necessária. Segundo diversos analistas, e inclusivamente a Secretária de Estado Norte-Americana, Hillary Clinton, o fracasso deste processo de paz acarretará consequências catastróficas para a região e o mundo: logo de imediato, despoletaria uma terceira Intifada (‘rebelião popular’) que implicaria nova intervenção do exército israelitas nos territórios palestinianos; reforçaria também a posição do Hamas, o partido palestiniano da não-colaboração, e, eventualmente, aceleraria o eclipse do Fatah, o único parceiro palestiniano aceite pelos Israelitas; seria, assim, o ponto final, ou então o regresso ao início deste processo de paz; por outro lado, a intensificação do conflicto restabeleceria a soberania popular de grupos regionais como o Hezbollah no Líbano (que seria inevitavelmente o primeiro país a ecoar a violência) ou a Muslim Brotherhood no Egipto (onde a elite política enfrenta agora o dilema da sucessão de Hosni Mubarak) e de regimes sustentados pela oposição ao Sionismo e ao mundo ocidental como a Síria (silenciada por agora pela grave crise económica) e o Irão (a um passo de adquirir a bomba atómica e de incitar uma ‘corrida às armas’ na região). O problema do Irão é, pelo menos, bicéfalo: por um lado, existe o risco de uma disputa militar entre o Irão e Israel; por outro, resiste a contenda entre o Irão Shiita e os Árabes Sunitas que não vêem com bons olhos a afirmação de um velho inimigo. Daí, à destabilização da paz mundial, ao aumento do preço do petróleo e à crise social na Europa é um pequeno passo.

    2. Os Palestinianos precisam de um Estado. A Bósnia tem um, Timor-leste tem um, o Kosovo tem um e a Palestina continua à espera de ser reconhecida. A partir da Guerra dos Seis Dias em 1967, durante a qual Israel capturou a Margem Ocidental e a faixa de Gaza, os palestinianos perderam a sua autonomia nacional. A Autoridade Palestiniana, a organização que governa os territórios palestinianos num regime de quase partido único, é reconhecida no palco internacional meramente como uma representante interina e não como a legítima representante de um Estado autónomo e soberano. As suas competências resumem-se ao controlo de questões civis e de segurança numa pequena parcela do território. Na práctica, a situação traduz-se na impotência da Autoridade face à proliferação de colonatos israelitas nos territórios palestinianos, aos constantes postos de controlo militar israelitas e a muitas outras restrições da liberdade individual e colectiva das populações palestinianas. Acima de tudo, a nova administração Obama considera que a atribuição de um Estado Nacional aos Palestinianos é essencial para a segurança de Israel, da região e, em última análise, dos próprios Estados Unidos da América.


    3. Os Israelitas estão dispostos a aceitar a criação do Estado Palestiniano pela obtenção de segurança. Segundo sondagens recentes, a grande maioria dos Israelitas reconhece a necessidade de alcançar a paz com os Palestinianos para vencer diversos obstáculos nacionais, desde a recuperação do sector turístico, à estabilização do volúvel sistema político e, acima de tudo, à restituição da segurança pública. Os Israelitas estão hoje, mais do que nunca, prontos a aceitar o retorno da Margem Ocidental, da faixa de Gaza e, porventura, dos Montes Golans, em troca de uma paz abrangente com todos os países na região que já foi designada como a '57-state solution.' Nesta solução, os Israelitas estariam dispostos a abrir mão dos territórios conquistados em 1967, e mantidos desde então como moedas de negociação, por um acordo de paz que visaria não só a cessação de ataques terroristas pelos palestinianos, mas também a abertura de relações diplomáticas com os países da Liga Árabe e do levantamento de restrições de viagem na região. Deste modo, os Israelitas conseguiriam alcançar a grande ambição de resolver a questão da insegurança e ansiedade nacional ao abafar as vozes oficiais que ainda defendem a sua aniquilação territorial. Aquém de obter um reconhecimento unânime e geral, os Israelitas retirariam assim o apoio de Estados soberanos, com a excepção do Irão, aos grupos e indivíduos que planeiam a sua extinção. Seria, do ponto de vista Israelita, uma enorme conquista, sessenta anos depois da sua atribulada chegada à comunidade internacional.


    No próximo artigo: As razões do meu cepticismo em relação a este processo de paz.

    quarta-feira, maio 20, 2009

    O Julgamento do caso Politkovskaya - FINAL


    (Dzhabrail Makhmudov e o advogado Murad Musaev abandonam juntos o tribunal. AP Photo/Misha Japar)


    The jury took less than two hours to bring back a unanimous verdict of not guilty on the counts relating to the Politkovskaya killing, and, more surprisingly, not-guilty verdicts for Khadzhikurbanov and Ryaguzov on the travel agent case (The prosecution has exercised its right to appeal the verdict.) Ilya Politkovsky stood stonily as Dzhabrail and Ibragim were released from the cage. Dzhabrail came over and put out his hands. Reluctantly, Ilya took it. He listened to Dzhabrail express condolences for his loss and then merely said, 'Congratulations.' He said the same to the boy's mother. He continued to believe that the Makhmudovs knew something, even if, whatever they were doing whenever they were doing it, they hadn't meant any harm.

    That evening, I took the subway to Politkovskaya's old neighborhood. Her doorway is the last one before a pleasant residential area turns into a business district that's under radical reconstruction. Four fifteen-story office buildings are in varying stages of completion rights across the street; next to them, recently opened, is a ten-story Holiday Inn. The sidewalk has been torn up and replaced by wooden planks and a corrugated metal roof. The green Lada wouldn't be able to park around the corner now, because a construction median occupies the middle lane and an aboveground pipe runs along the street. There is a new entrance to the subway station, not two hundred feet from her house. And one more addition. Like the many plaques throughout the city, explaining that Pushkin or Bulgakov or Lenin lived or spoke at this address, there is a plaque next to Politkovskaya's doorway. It reads, 'In this building lived, and was cruelly murdered on October 7, 2006 Anna Politkovskaya.'

    On the day of the verdict, the courthouse was besieged by video cameras. When Karina Moskalenko came outside, she began to address them, twenty microphones gathered in a great bunch like flowers before her. 'Sit!' someone called to the microphone holders, and on commanded they crouched down so that the cameras behind them had a view. Moskalenko thanked the international press for paying attention to the killing and the trial; she pleaded with them to continue to pay attention; the real killers hadn't been caught, she said, much less put on trial, and the press and civil society had a responsibility to keep up the pressure. It was Moskalenko's moment. 'I've dreamed my whole life as a lawyer of a trial like this,' she had told the day before. 'The openness to the press, the adversarial process, before a jury, a judge who lets the sides express their opinions.' She didn't want it to end. Her next case would be another trial of Mikhail Khodorkovsky, and that one would be rigged.


    (Mesmo depois assassinada, Anna Politkovskaya continua a ser a principal voz da oposicao Russa. Yuri Kochetkov/EPA)

    FINAL...

    terça-feira, maio 19, 2009

    O Rei vai nu



    (Michael Martin simbolizava a ascensao social no Reino Unido moderno, tendo crescido no ambiente indústrial da Escócia dos anos 50. Getty via The Independent)



    A demissão do Presidente da Câmara dos Comuns do Parlamento Britânico, Michael Martin, irá certamente levantar algumas sobrancelhas para lá das praias do Reino Unido. Martin demite-se não por envolvimento pessoal no escândalo sobre os gastos dos deputados (apesar de existirem dados relativos a viagens de táxi por familiares seus), mas sim pela forma como lidou com o escândalo. Na opinião dos deputados que votaram na moção de censura, diga-se conservadores, liberais e também trabalhistas, Martin merece a pena máxima pela sua reticência em condenar os deputados envolvidos. Por outras palavras, a sua atitude poderá ter indiciado conivência com interesses estabelecidos. E pela mera existência dessa possibilidade, Martin perdeu o lugar.

    Aos olhos de grande parte dos comentadores 'continentais', a punição parece por isso desmedida. Porém, é necessário compreender o simbolismo catastrófico do escândalo dos gastos dos deputados para os cidadãos britânicos. Em primeiro lugar, não é de todo acessório à dimensão do escândalo o facto de estarmos hoje a atravessar a maior crise económica desde a Grande Depressão: que autoridade moral pode resistir em políticos que pedem aos eleitores para apertar os cintos e depois gastam o dinheiro público em estrume de cavalo, assentos de retretes e até tampões higiénicos (reclamados por um deputado masculino)? Nenhuma. No entanto, existe um motivo mais profundo no ódio popular que advém da própria relação que os Britânicos têm com os seus representantes políticos: o orgulho no sistema parlamentar bicameral.

    O sistema parlamentar bicameral é a contribuição Britânica para a História universal da democracia (veja-se a sua influência sobre organização política das antigas colónias britânicas, sobretudo dos EUA), o indispensável bastião da luta pela justiça e igualdade social nas ilhas britânicas e, acima de tudo, a origem de muita arrogância face a outros sistemas mais inseguros ou falíveis. No fundo, a suposta imaculabilidade da Câmara dos Comuns abriu caminho para que os Britânicos pudessem fazer chacota das inconsistências, ineficiências e espaços cinzentos dos outros sistemas políticos. O que o escândalo trouxe a público foi que tudo isto não passava de uma fantasia: de um para o outro, o sistema político passou de modelo a espectáculo deprimente. Ou, como dizia este fim-de-semana uma jornalista italiana, o escândalo desvendou ao mundo o elemento caracterizador da sociedade britânica: a hipocrisia.

    De uma forma ou de outra, os Britânicos sentiram-se desiludidos, traídos e humilhados e olharam para o porta-voz desta instituição em busca de qualquer conforto ou redenção. Porém, tudo o que encontraram foi um homem que não tinha nada a dizer. O Rei estava nu. E, no meio da revolta, das acusações e recriminações, os Britânicos fizeram exactamente o que se esperava deles: arranjaram um bode expiatório que os restituísse à sua posição natural: a de quem aponta o dedo. How predictable!?!

    segunda-feira, maio 18, 2009

    'Pakistan is a victim of what is happening in Afghanistan'

    Fareed Zakaria mais uma vez consegue a GRANDE entrevista da semana ao entrevistar este fim-de-semana, o ex-Presidente e ex-Chefe do Estado Maior Paquistanês, Pervez Musharraf. Do meu ponto vista, este discurso é uma bela manobra de retórica política que acaba por evitar o verdadeiro problema do Paquistao: a corrupcao que atravessa quase todos os sectores da sociedade.

    quinta-feira, maio 14, 2009

    Aterragem no Porto


    (Fotografia igrigorik via Flickr)


    O capitão anuncia que estamos a sobrevoar as Astúrias, que o tempo no Porto está bom, que chegaremos antes da hora prevista. As crianças na terceira fila ainda nem tiveram tempo de amainar e já estamos a dez minutos do final da viagem. Na fila de trás, o senhor do chapéu já fez tudo o que havia para fazer: já avaliou a Miss Ryanair na revista da companhia (deve ter gostado porque à saída do avião trás a cópia enfiada debaixo do braço), já pediu, pagou e engoliu uma ciabatta de proscciuto, já foi duas vezes à casa de banho, já esticou um olho até às fotografias da Princesa Letizia na Hola! da vizinha do lado, já comprou um perfume qualquer de mulher no serviço de vendas e já tentou a sua sorte ('With Ryanair, you can be a Millionaire') na raspadinha mais descarada do mundo.

    A hospedeira loirinha que percorre o corredor em pesadas passadas que estremecem os bancos mais do que as próprias rajadas do Golfo de Biscaia, apaga pequenos fogos com a determinação orgulhosa de quem atribui maior importância ao seu trabalho do que o comum dos mortais. A senhora da linha da frente, sentada no lugar do corredor, sacode as últimas migalhas das páginas virgens de um romance policial situado algures na América Latina. Aqui ao lado, numa das primeiras filas do avião – onde me sento sempre por acreditar piamente que na parte da frente faz menos turbulência – mãe e filho alternam entre o português e o francês. Ela fala mais português do que ele, quem se demonstra desinteressado por tudo, mesmo nas primeiras nesgas do verde Minho, para além dos confins de uma revista flamenga sobre engenharia.

    O avião socalca de nuvem em nuvem até alcançar as margens do rio Douro. Cruza-o algures entre o Freixo e a Ponte de Don Luís I, proporcionando aos passageiros do lado direito uma fabulosa perspectiva da cidade, e sobretudo, da mítica etapa derradeira deste rio. No ar, a tripulação agita-se em antecipação da aterragem, recolhendo lixos, distribuindo ordens ('Return to your seats!'; 'Remain seated!'; 'Turn off ALL your electronic devises!' e, mais recentemente, 'Take off your headphones!') e, de modo geral, movimentando-se de forma mais brusca e embrutecida. Detenho-me a pensar quando as hospedeiras deixaram de parecer meninas da meteorologia para adoptarem a subtileza dos seguranças que resolvem tudo ao empurrão. Giramos agora sobre o Monte da Virgem, a Antena da RTP mirando-nos como um punhal afiado, e, por instantes, o avião parece estagnar dos céus. Depois, retomamos a posição original e seguimos em linha recta para o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, cruzando de novo o rio Douro já perto da Ponte da Arrábida. Uma voz chama: 'Captain, crew; Captain, crew: five minutes for landing.'

    Afundo-me do banco. O medo, o pavor tremendo de que tudo poderá correr mal no último momento, é apaziguado pelo reencontro com os marcos do meu Porto: a orla branca do mar, a avenida do Brasil ceifando a massa urbana, os cargueiros no porto de Leixões, as torres vermelhas e brancas da Sacor. O avião desafia a pista, acelera, trava, resvala de um lado para o outro, mantém a marcha de descida até aos picos dos pinheiros. O rubor da multidão silencia-se, a respiração suspende-se em previsão do impacto, as mentes encontram-se numa só vontade. Vemos a pista, a pista e o avião ainda não poisa no pavimento, será demasiado tarde?

    De súbito, o avião assenta na pista, rolando violenta, mas confiantemente sobre o alcatrão. Nenhuma voz resiste dentro da cabine. De súbito, a mulher sentada ao meu lado, exclama em português: 'Então, não batem palmas? ' Como que planeado, a multidão irrompe então num clamor de palmas. O filho da mulher ao meu lado rola os olhos nas órbitas, a senhora que vai no outro lado do corredor faz-me um sorriso cúmplice de condescendência e a excursão atrás de mim urra em regozijo. Fazem chacota dos velhos, dos que ainda não estão habituados a andar de avião, dos que temem aterrar no nosso pequeno e pacato Porto. Julgam-os parolos, pacóvios, pobres provincianos portugueses. Eu, contudo, compreendo bem aqueles que têm medo de aterrar no nosso Porto. Não é por falta de hábito nas lides aéreas, mas sim por júbilo e satisfação de regressar são e salvo a casa que eles batem palmas. As palmas são condição 'sine qua non' do sentimento de retorno ao nosso lar. Mas até isso, a sociedade do 'querer bem-parecer', da vergonha mesquinha, da condenação do humilde e do sincero, quer obliterar.

    Por isso, quando abandonei o avião, em último porque os meus companheiros entretanto tinham-se atropelado uns aos outros à saída (sabe lá o motivo de urgência), decidi bater as palmas da próxima vez que aterrar no Porto. Terá que assim ser, até porque, ninguém bate palmas na viagem de regresso.


    quarta-feira, maio 13, 2009

    O julgamento do caso Politkovskaya - VIII

    Continuamos hoje com a serializacao do artigo de Keith Gessen sobre o julgamento do assassínio de Anna Politkovskaya, publicado na edicao de 23 Marco da revista New Yorker:

    (A equipa de defesa prepara-se para alegacoes finais. AP)


    In the last stages of the trial, the prosecution made a few final attempts to salvage the indictment. The junior prosecutor announced that the cell-phone company MegaPhone had been asked if it could give a more precise location for Dzhabrail on the afternoon of October 7th, and MegaPhone, somehow triangulating among the cell towers that had transmitted the calls, had come back with a map that put Dzhabrail exactly in front of Politkovskaya's door. Musaev was immediately on his feet, claiming that this degree of precision was technically impossible.

    He turned to Khadzhikurbanov. 'Tell me, did you ever have occasion to use this kinds of services?'
    'A hundred times,' Khadzhikurbanov said. 'Though I never slapped together anything as clumsy as this.'
    And, when the defense finally played the video of a bulky Rustam covered in mud, the junior prosecutor held the phone up in the air in response and said, 'But there's another video in here, of a thin man.' She brought the phone to Dzhabrail in his cage. 'Tell me. Who's this?'
    'Actually, that's me,' Dzhabrail said.

    Musaev's final statement, which up took up nearly two hours, conveyed his fervent belief in the innocence of the accused. More than that, he was defending two young men, and he himself was young. He sensed that, at some level, everyone was proud of him. The Judge, though often irritated that Musaev never stopped arguing, was proud of him; the jurors, eight of whom were middle-aged women, old enough to be his mother, were proud of him; and the young journalists, who were proud of their contemporary, claimed that they sometimes even caught the prosecutors looking proud of him. Maybe it was tinctured by paternal benevolence toward an upstanding member of a 'problem' minority. In any case, Musaev concluded by playing on this feeling of pride. 'I'm speaking today before you, but I have two more jurors that everyone else,' he said, and went on:

    'I have two more jurors, because when I first took on this case the first to
    object were my parents. My own mother said to me, 'How can you be on the other
    side of the barricades? This woman did so much for the people of our country.
    She saved so many crippled lives.' And then I said to her, 'Mom, I'm not on the
    other side of the barricades from Anna Politkovskaya or her children. I'm on the
    other side of the barricades from the Investigative Committee of the Russian
    Federation, which pretends to solve crimes and wants to call the innocent
    guilty. And this is not something lawyers in our country need any getting used
    to - we are always on that side of the barricades.' And this is precisely why
    today I have two extra jurors, because today I invited my father and my mother,
    so that could hear just how little this indictment is worth, so they could judge
    between myself and the state accusers just as you are judging, honourable
    members of the jury. That's all.'



    Khadzhikurbanov's lawyer gave a short closing statement that included the argument that Khadzhikurbanov could not possibly have organised the killing on October 7th, because it was his mother's birthday. The most intricate closing statement was Moskalenko's. In sixty minutes, it expressed all the ambiguity and difficulty of the trial. She was a defender of human rights, but in this case, in defending the rights of the victims, she was supposed to be allied with the prosecution. This was not a role she enjoyed, especially in a trial where the prosecution was working with an untenable indictment.


    (Karinna Moskalenko, principal advogada de acusacao, acompanhada pelos dois filhos de Anna Politkovskaya, Ilya e Vera. AP)


    Now she went through the evidence against the Makhmudov brothers. She expressed doubt that they couldn't remember October 7th. But she certainly wasn't prepared to accuse them of murder. She pointed out that Anna Politkovskaya had spent most of her last years standing up for the rights of the poor Chechen families, families like the Makhmudovs. 'We do not accuse,' Moskalenko said. 'We categorically do not accuse. We are on the side of the victims.'

    She moved on to Khadzhikurbanov and Ryaguzov with much greater zeal. The evidence against them was thin to nonexistent: Moskalenko knew that. And yet she also knew that they were guilty. They were guilty of collaborating with a terrible regime. Moskalenko now produced a compilation of Politkovskaya's writtings, published two years ago by Novaya Gazeta - 'For What' it was called - and began to read from her description of Russian war criminals in Chechnya. 'Who could have hated Anna for these articles?’ Moskalenko asked. 'Those who were responsible for what happened.' Were Khadhzikurbanov and Ryaguzov involved in her murder? 'At the very least, their view of the world in no way contradicted the view of Anna taken by the authorities.' Of Khadhzikurbanov and Ryaguzov alleged beating of the travel agent, she said, 'I cannot accuse a person without first accusing the system that conditioned him to think that it was acceptable to do these things.' And this was the essential problem with the case - what Sergei Sokolov called 'the total interdependence of the criminal world and the system of law enforcement.' If you believe the cell-phone records furnished by the authorities, why not believe their testimony? They had photographs of the people following Politkovskaya; those people were nowhere to be found. The defendants in the dock were like the ones the authorities could spare.

    Most of the defendants spoke briefly in their final statements. Khadhzikurbanov, who had in the wake of Moskalenko's speech fallen into a state of deep petulance, thanked the jury for spending its time 'looking at a monster like me.' But in Ryaguzov, the F.S.B. agent, one sensed some of the underlying ideological realities surrounding the trial. He thanked everyone for coming. He thanked the jury: 'You have been plunged into the passions of real life, not a TV show. Whether you like it not, you will leave parts of your souls here.' He thanked the side of the victims for its courage. He thanked the Judge for being a model of impartiality. He thanked the defense, of course, and he even thanked the prosecution - 'who was just carrying out orders, like I used to do.' Ryaguzov had spent three months working on crossword puzzles. It turned out, at the end, that we were all just visitors at his place.



    (O tribunal encerra para deliberacoes. AP)


    He had earned the right of home court because he'd defended us all in the war on terror: 'Yes, it's true, we went to some restaurants, we drank coffee, sometimes we drank vodka. But no one remembers that for half a year we drank vodka out of aluminium cups and ate food out of cans.'

    'People have spent a lot of time here talking about some networks of agents,' he went on. 'In all the world, and in all time, no one has invented a way of procuring intelligence, and counter-intelligence, other than through such a network. People know all about the terrible terrorist attacks that happened in our country. They don't know anything about the terrorist attacks that didn't happen - on the sixtieth anniversary of Victory Day, for one. Not long ago, we were afraid to go into our entryways, or when we saw a backpack on the subway. It's not like that anymore. Do you think that happened by itself? It didn't. As for my wishes, I have just one. Next week is February 23rd, and everyone is going to go home, and raise a glass to the defenders of the fatherland. Spare a thought for us.'

    The courtroom was momentarily silent. Ryaguzov told the truth: even amid the financial crisis, Russia is a safer, more prosperous place than it was ten, or even five, years ago. The war in Chechnya is over, even as its aftershocks, in the form of the mutant regime of Ramzan Kadyriv, continue. And in the new Russia if you mind your own business, drive to and from your work, hire a babysitter, and eat out - all as they do in the West, it is said - then you really can feel safe entering and exiting your entryway at four in the morning and four in the afternoon.



    Para a semana: O desfecho do julgamento do assassínio de Anna Politkovskaya!

    segunda-feira, maio 11, 2009

    O momento da verdade para a paz no Médio Oriente

    (O Rei Abdullah II da Jordânia deposita as suas esperancas no novo habitante da Casa Branca. Reuters)

    Numa importante entrevista que faz hoje a capa do jornal britânico The Times, o Rei Abdullah II da Jordânia, reconhece que chegou a hora da verdade para o Médio Oriente (uma entrevista que, de resto, contrasta em absoluto com a concedida esta semana por Tony Blair ao Público). De acordo com o monarca jordano, e já agora com aquilo que escrevi à uns meses atrás, o que está em causa é uma ténue margem entre a paz ou a guerra: 'If we delay our peace negotiations, then there is going to be another conflict between Arabs or Muslims and Israel in the next 12-18 months.'

    Avancando mais alguns detalhes sobre o processo de paz em negociacao, Abdullah revela que já nao se trata mais de uma paz entre duas partes, Israelitas e Palestinianos, mas sim de uma solucao de 57 estados, em que se incluem estados Muculmanos como Marrocos e a Indonésia. No entanto, o The Times faz também alusao às enormes dificuldades encontradas pela administracao americana , principalmente na negociacao com o novo governo Israelita de Benjamin Netanyahu. Os capítulos que seguem nesta História sao por isso cruciais: o início hoje da visita do Rei Abdullah à Síria; ao encontro entre o Presidente Americana e o novo Primeiro-Minístro Israelita em Washington na próxima semana; e, finalmente, o muito antecipado discurso de Barack Obama ao mundo muculmano no mês que vem no Cairo.


    quinta-feira, maio 07, 2009

    AfPak: Será que eles conseguem?



    'The most dangerous place in the world': as palavras de Barack Obama denunciam a sua inquietação face ao crescente envolvimento norte-americano no Afeganistão e no Paquistão - o conflicto já inscrito nos anais das história como a Guerra em AfPak. Obama tem boas razoes para estar receoso: AfPak tem todos os elementos para se tornar na sua Baía dos Porcos, Vietname ou Iraque.

    Na semana em que as tropas americanas iniciam a transição do Iraque para o Afeganistão, Barack Obama certamente não poderá contar com o aconchego dos livros de história. Com efeito, num artigo publicado na edição de Novembro/Dezembro de 2001 do jornal Foreign Affairs, Milton Bearden, director da delegação da CIA no Paquistão entre 1986 e 1989, chama ao Afeganistão 'o cemitério de Impérios'. Foi aqui que o jovem Alexandre de 25 anos, após conquistar a Magna Grécia, o Egipto, o Levante, a Bactria, a Mesopotâmia e o Império Persa, foi ferido quase mortalmente por um arqueiro, marcando o início do final da sua campanha oriental. Foi também nesta região que Genghis Khan, depois de construir o maior império da História, se viu forcado a estabelecer alianças com os autóctones de forma a atravessar as suas estradas. Foi exactamente neste território que, como de resto já foi escrito no último capítulo da série 'Compreender o Paquistão', o avanço do Império Britânico pela Ásia do Sul foi detido no século XIX. Dos 16,500 soldados e civis que participaram da retirada britânica de Kabul em 1842, apenas um sobrevivente chegou ao seu destino (embora alguns dos capturados pelos Pashtuns tenham sido mais tarde libertados).

    Contudo, não são apenas os relatos históricos que nos suscitam cepticismo em relação ao envolvimento norte-americano em AfPak. O primeiro elemento a saber sobre a situação actual é que os americanos enfrentam, pelo menos, dois inimigos: os Taliban e a Al-Qaeda (ou os outros grupos terroristas que operam na região). Embora escasso e ambíguo, o nosso conhecimento sobre estes dois inimigos leva-nos a crer que eles têm objectivos díspares: os Talibans são constituídos pelo povo local, os Pashtuns, e pretendem reconquistar o poder no Afeganistão e talvez reforçar a sua posição dentro do Paquistão; pelo contrário, a Al-Qaeda, constituída em sentido lato por combatentes estrangeiros (maioritariamente provenientes da Arábia Saudita), pretendem usar o conflicto para atear a luta global pelo Pan-Islamismo e, mais especificamente, obter a bomba nuclear através do controlo do Paquistão.

    À partida, a administração Obama demonstra-se inclinada a estabelecer pactos com os Talibans no Paquistão e a combater ferozmente a Al-Qaeda no Afeganistão e Paquistão. No entanto, como demonstra o falhanço recente desta estratégia na Província da Fronteira Noroeste Paquistanesa, ninguém sabe ao certo qual a natureza das ligações entre estes dois grupos; por outras palavras, talvez será impossível dissociar um do outro no campo de batalha. Isto sem tomar em consideracao o autêntico pântano que é hoje o Paquistão, onde os Americanos continuam num quarto às escuras como que à procura da corda da persiana (por outras palavras, as faccoes em que podem confiar). Mormente, a necessária reversão de políticas humanistas - como a promoção dos direitos das mulheres - para a negociação com os Talibans, poderá acarretar avultadas consequências para o moral das tropas ocidentais na região ('afinal, estamos a lutar por quem e o quê?'), assim como dissolver uma das justificações fundamentais para o público americano: a missão dos EUA de promover os direitos humanos a nível global. Por último, e no momento em que comecam a chegar as primeiras imagens dos custos civis da intervencao norte-americana, podemos apenas imaginar o impacto interno e global para um Presidente como Barack Obama que baseou a sua campanha eleitoral na denúncia do militarismo republicano.

    Já este mês, na Foreign Affairs, John Mueller, Professor de Ciência Política da Universidade de Ohio, compara os motivos para a guerra de Obama com a procura de armas de destruição maciça no Iraque por George W. Bush. Na opinião do professor, a missão humanitária dos EUA em AfPak é mesmo a única justificação viável para a intervenção americana, uma vez que: primeiro, a chegada dos Talibans ao poder em Kabul é talvez inevitável (os próprios americanos encaram-na como uma solução provável); mesmo que os Talibans cheguem ao poder, existem bons motivos para acreditar que não irão resultar consequências de maior para os EUA, uma vez que estes estão mais preocupados com a administração internas do que questões de dimensão global; e, por fim, a Al-Qaeda, caso seja tão eficaz como os serviços de informação nos querem fazer crer (Mueller dúvida), é uma rede de agentes internacionais que comunicam entre si através da internet - daí, ser uma falácia a ideia de que a chegada dos Talibans a Kabul significará o restabelecimento de campos da Al-Qaeda no AfPak. No fundo, na opinião de Mueller, a Guerra em AfPak tem custos demasiados altos (nomeadamente, os 'knowns-unknowns' e os 'unknowns-unkowns' de uma possível derrota) para a sua justificação pública e os objectivos que se dispõe a cumprir.

    Sobre tudo isto penso que será importante recordar a velha máxima de que não devemos abandonar o desafio em sede da sua dificuldade. Pelo contrário, é nos momentos de maior pressão que os homens, assim como os Impérios podem provar a sua resiliência e adquirir eternidade. Do ponto vista moral e humanitário, AkPak é a guerra certa - a guerra que os EUA precisam travar para recuperar a sua dignidade enquanto povo e Império. Porém, exactamente pelo enorme peso desta expectativa, a Guerra em AfPak poderá também ser a queda da cadeira do senhor fechado na sala oval. Esperemos que esteja ciente deste facto.

    FIM

    quarta-feira, maio 06, 2009

    O julgamento do caso Politkovskaya - VII

    Continuamos hoje com a serializacao do artigo de Keith Gessen sobre o julgamento do assassínio de Anna Politkovskaya, publicado na edicao de 23 Marco da revista New Yorker:


    (Os outros réus: o antigo agente do F.S.B., Pavel Ryaguzov (E), e o ex-polícia, Sergei Khadzhikurbanov (D). Novaya Gazeta.)


    One of the biggest problems with the case was that, for a contract killing, it didn't seem to have left a money trail. When, during closed-session testimony, Lom-Ali Gaitukayev, the Makhmudovs' mobster uncle, had been given a market estimate of two million dollars for such an assassination, he joked, 'That money doesn't seem to have reached my nephews.' Earlier, in one of the more contentious moments in the trial, Moskalenko had tried to figure out what Dzhabrail Makhmudov lived on. He was evasive, but it was evident that he was living cheaply, staying on people's couches, taking money from his older brothers. Moskalenko wanted to know how he managed to talk so much on the phone. 'That's expensive,' she said.

    'No, it is no,' Dzhabrail said. 'I had a tarif fixe. It cost three hundred rubles' - about eleven dollars - 'a month. And it still costs three hundred rubles a month! Forever. If I ever get out of here, that's how much it'll cost!' The prosecution also tried to find the money. Quite dramatically, it told the court that Pavel Ryaguzov had bought an eighty-thousand-dollar Land Rover in the fall of 2006. Ryaguzov shook his head and said he'd had to take a loan to buy the car.
    'For how long?' Judge Zubov grew interested.
    'Three years.'
    'Could you have managed that?'
    'Well, I traded in my BMW, so it wasn't as much.'
    'Oh,' the Judge said.

    Everyone in the court acted as if the prosecution had failed once again. 'That's nothing,' the veteran reporter said as we filed out for lunch. 'Show me those boys' - Ibragim and Dzhabrail - 'in a Land Rover, then it'll mean something.' The open secret of the trial as it touched on the F.S.B. and the police was that they were already incredibly corrupt. 'Friends,' Musaev said in his closing statement, 'has any of you ever visited Lubyanka Square in Moscow? Have you looked at the cars parked there? It goes Mercedes, Audi, BMW. Mercedes, Audi, BMW. Ryaguzov's Land Rover was probably the cheapest in the whole lot.' One evening, as I was wandering around the Arbat after a very long session, I happened to spot Judge Zubov eating dinner with a number of court employees in the Bosfor, a popular, mid-priced Turkish restaurant. And I thought of one of Khadzhikurbanov's outbursts when the prosecutor mentioned a dinner he'd had with Ryaguziv and a prominent Chechen businessman in the upscale Napoleon Restaurant, in late September of 2006. 'So what?' Khadzhikurbanov cried out. 'I ate dinner at nice restaurants all the time!'

    He was a former police officer with a wife and three young kids who had just got out of jail - and yet you believed that, even without participating in a high-priced contract killing, he had enough going on that he could eat out all he wanted. It was a world through which money circulated, and a world which, as it turned out, the Judge and the prosecutors didn't have access. They sounded like people who, when faced with the ways of the rich, immediately suspect a sinister plot. Of course, they were right: there is a plot. It just wasn't necessarily a plot to kill Politkovskaya. And so, in the court, the F.S.B. officer and the former police detective laughed at them.


    (O Juíz Zubov parecia frequentemente aborrecido pelo julgamento e foi apelidado pelos jornalistas russos como 'Winnie the Pooh'. AFP/Getty)


    On February 3rd, an elderly journalist in a suburb north of Moscow was apparently outside his house. Two days later, the editor-in-chief of the independent radio station Ekho Moskvy came home to find a log with an axe sticking out of it lying outside his door.

    At the Politkovskaya trial, once it became clear that the defendants were not guilty of the crimes of which they had been accused, the question became how a case so important could possibly have come to court with an indictment so obviously weak. Even the defendants had theories on this score. 'They've got what they wanted,' Ryaguzov said during one break. 'They got to announce on television that they'd arrested an F.S.B. agent. It doesn't matter what happens next. They've already said it, they've already won.'

    Musaev hypothesized that the government hadn't been counted on Musaev. 'These boys come from a poor family,' he said. 'They didn't have money to live on, much less for a lawyer.' (Musaev was working for free.) He asked if I'd seen Ibragim's court-appointed lawyer, 'the little one, with glasses.' He said, 'They'd have got lawyers like that, who sit quietly the whole trial. I'm not trying to brag, but a fact is a fact. Now at least there's some hope.'

    There was a further reason for the weakness of the case. On the day of the murder, the cameras at the Ramstore supermarket had captured two people, a man and a woman, who were clearly following Politkovskaya. This would explain how the shooter knew so precisely when Politkovskaya would get home. (It wasn't because Ibragim was standing on some street corner.) What's more, unlike the video of the shooter in front of Politkovskaya's building, the Ramstore video shows the suspect faces. According to Sergei Sokolov, of Novaya Gazeta, the investigation followed the trail of these people very aggressively at first, and then suddenly stopped. The suggestion was that the people in that video were untouchable.




    FIM