A Gaivota Farragulha

    domingo, fevereiro 28, 2010

    Dia 4 - Uma casinha em Batroun

    Da espontaneidade nasceu o momento. 
    Tínhamos acabado de entrar na vila pescatoria de Batroun, outro cabo a norte de Beirute, quando o Deen se lembrou de telefonar a sua dentista e senhoria (uma combinação que, de resto, me pareceu pouco recomendável). Tama, pertence à comunidade arménia do Líbano, e tem um pequeno apartamento em Batroun, para onde se retira quando o corre-corre de Beirute se torna insustentável. Para nossa sorte, calhou neste dia quente mas lacrimoso de fins de Fevereiro estar em Batroun e ter a amabilidade de nos convidar para um café em sua casa.
    A casa de Tama é um paraíso para os que, como eu, são eternamente atraídos pela vertigem longitudinal do mar. Localizada num edifício em pedra do centro histórico de Batroun, junto da igreja matriz da cidade, a casa beneficia de uma varanda generosa sobre as ruelas empedradas, mas sobretudo, sobre o mar que se insinua a distancia num azul profundo. A casa propriamente dita reteve os traços principais da arquitectura, nomeadamente três janelas de vidros coloridos (do género vitrais, porem os vidros são maiores) e as paredes em pedra que se encontram no tecto em arcos quebrados.
    Entretanto, chega o cafe e da conversa sobre a nossa passagem pelo Líbano, passamos rapidamente para a temperatura do mar, a comida levantina, e, finalmente, o almoço. Tinhamos planeado seguir para Tripoli, mas a varanda de Tama em Batroun revelou-se demasiado apetitosa. O almoço, gozado num restaurante um pouco mais abaixo, observado os peixinhos numa baia de águas turquesas, consistiu em atum cru com molho de sésamo e gengibre e durou o resto da tarde. Certamente, a não esquecer.

    sexta-feira, fevereiro 26, 2010

    Dia 3 - Byblos

    Byblos, ou Jbail em arabe, e uma cidade matreira e irão já perceber porquê.
    A cidade derrama-se pela extremidade de uma baia a norte de Beirute e entra-se nela vindo da auto-estrada, ou seja, do lado das montanhas em direcção ao mar. À primeira vista, Byblos é recente e feia, um pequeno aglomerado de edificios insensatos. Certamente, quem conhecer apenas esta perspectiva da cidade, desconhecera que no seio de tão inestetico mobiliario urbano se esconde uma gloria da historia da humanidade.
    Situado na ponta ocidental da cidade, estrategicamente colacado sobre um massico rochoso ladeado pelo mar, encontra-se o centro arqueologico de Byblos. Este nao é um mero museu ar ao livre; mas sim, o comprovativo in situ que Byblos é uma das mais antigas cidades continuamente habitadas pelos homens.
    Dentro do recinto, lado a lado, sobrepondo uns aos outros, os vestigios documentam a historia quotidiana da humanidade desde os tempos pré-historicos até a idade media. Por Byblos, passaram os Egipcios (que precisamente deram o nome a cidade, uma vez que aqui vinham comprar papirus), assirios, babilonios, gregos, romanos, arabes e cruzados. Byblos e um daqueles locais onde a esmagadora magnitude da historia confere um ambiente fantastico, como se o tempo se detivesse, ao nosso passeio pelo local. Tudo isto se desenrola, enquanto a agitada Beirute se ve atraves da neblina. Afinal, existe mesmo a maquina do tempo.

    quinta-feira, fevereiro 25, 2010

    Dia 2 - Rumo a Sul


    Seguimos para sul na auto-estrada que acompanha a orla marítima. Na berma da estrada, cartazes do Hezbollah rivalizam com anúncios de grandes empreendimentos turísticos. A estrada é surpreendentemente boa, o que tende a aliciar a velocidades pouco indicadas para o estilo imprevisível de condução libanesa.
    Após breve incursão pelo interior montanhoso para visitar o belo palácio druze de Beitedinne (literalmente, a ‘casa do destino’ ou a ‘casa de Deen), seguimos rumo a Saida (Sidon). A cidade reputada como o local de nascença do omnipresente ex-Primeiro Ministro Rafik Hariri, abriga hoje um dos maiores e mais violentos campos de refugiados palestinianos do Líbano, Ain el Helwe. O nosso anfitrião, Deen, diz que ainda na semana passada, facções opositoras dentro do campo arremessaram RPGs (rocket-propelled-granades) entre si. Nao precisaríamos de tanta informação para sentir o clima de tensão que se vive em Saida. Para alem de inúmeros postos de controlo na estrada - onde somos forcados a abrandar e a retirar os óculos escuros para mostrar a cara aos soldados libaneses - existe também um forte contingente militar na cidade. O campo propriamente dito assemelha-se a um gueto, cercado por altos muros de cimento e  arame farpado, isolado do resto do mundo na sua própria miséria e violência. 

    Continuamos para sul em direccao a cidade portuaria de Tir na mesma estrada, atraves de plantacoes de bananeiras., que mais tarde, descobririamos camuflaram militantes do Hezbollah durante a ultima guerra com Israel (segundo o Deen, os militantes escondiam-se entre as palmeiras para lancar misseis contra Israel e aqueciam-nas para nao serem detectados pelos radares de calor dos avioes israelitas). A medida que avancamos para Sul, a evidencia de dois conflictos torna-se cada vez mais clara: os Palestinianos Sunnis dentro dos campos e os Libaneses Shiitas fora deles. Os posters de Hassan Nasrallah (lider do Hezbollah) e de outros lideres Shiitas como o ja falecido Ayatollah Khomeyni, sucedem-se, assim como os postos de controlo militares e os tanques da UNIFIL (Forca Interina das Nacoes no Libano), da qual integra um contigente portugues.

    Tir, no entanto, revela-se uma pituresca, pequena cidade de pescadores. Somos os unicos no restaurante Le Petit Phoenician (a estrela da restauracao local), debrucado sobre o pequeno porto de pedra amarela, e o dono, um tipico habitante das margens do mediterraneo, serve-nos um manjar de saladas, humous e dourada. Deleitando da beleza e tranquilidade em nosso redor, o cliche e enfim inevitavel: a guerra nao assenta bem a este idilico local.  


    terça-feira, fevereiro 23, 2010

    Dia 1 - Beirute




    Beirute é uma cidade urgente. 
    A emergência enceta a manha ao timbre de persistentes buzinadas e pesadas marteladas. Pouco em breve, a sucessão de instrumentos cria empolgante cacofonia em anúncio de gente e vida. Dir-se-ia que tal urgência pertence aos grandes centros cosmopolitas do século XXI, como Londres, Nova Iorque, Tóquio ou o Rio. Porém, nesta cidade de um milhão de habitantes, alcovitada numa peninsula prazenteira do Mediterrâneo Oriental, a emergência suspeita-se.
    La fora, a cidade entra em plena ebulição. Os guindaste disputam os céus numa fúria edificadora, os carros de alta cilindrada desafiam-se entre semáforos e nas principais vias comerciais, muçulmanos singelas arrastam o olhar nas católicas destapadas. Sao como veias tensas estas ruas, povoadas por uma massa frenética de gente que entre e sai de lojas de marca, que negoceia múltiplos sacos de compras entre as mãos, que berra ao telemovel para se sobrepor aos rádios dos carros, que rema contra as filas de carros em cima de uma lambreta instável, que pára o transito para cumprimentar um amigo dentro de uma loja. Nas pequenas coisas como nas maiores, Beirute denuncia a sua vontade de viver aqui e agora.
    Ao almoço, o nosso anfitrião, Deen, ajuda-nos a compreender a alma da cidade. ‘In Beirut, everything can change from one moment to the next.’ Por outras palavras, a urgência de viver em Beirute é memória fresca de um terrível passado, recordada pela manutenção de edifícios esventrados pela guerra, mas sobretudo temor de um futuro sombrio. Nesta cidade, a emergência não é um estilo de vida; é um contigente de circunstancias extraordinárias. E, segundo o Deen, esse medo tem fundamento real nos rumores que correm a cidade sobre uma próxima batalha final entre Israel e o Hezbollah.
    Por tudo isto e porventura por muito mais que se esconde para lá dos vidros fumados dos jipes que atravessam as avenidas, Beirute e uma cidade com a urgência de quem um encontro marcado com o destino. Todavia, e principalmente no luxo explosivo da sua nova baixa urbana, encontra-se também uma heroína trágica, eternamente entregue às suas próprias ambições. Assim se descobre que, tanto quanto perseguida pelo seu destino, Beirute persegue também a glória. Desavergonhadamente e a todo o custo. Mesmo que dure apenas um dia.

    segunda-feira, fevereiro 22, 2010

    Uma viagem ao umbigo do mundo





    Parem a música, encandeiem os focos, aspirem o ar – eis, finalmente chegado o momento da anunciada revelação. Senhoras e senhores, este blog iniciará hoje uma viajem de mochila às costas pelos países do Levante. Como poderão apreciar no mapa acima transcrito (podem clicar nele para melhor examinar o trajecto), começarei este périplo pelo Líbano e seguirei depois rumo à Síria, Jordânia, Israel, com uma pequena incursão pelos Territórios Ocupados da Cisjordânia, vulgo Palestina, vulgo Margem Ocidental (West Bank, em inglês). Para dizer a verdade, não sei qual terminologia aplicar a este pedaço de terra tão conturbado quanto desejado. Serão precisamente questões como esta, mas também o sucesso da experiência multinacional do Líbano, a descoberta dos intactos cheiros e sabores da Síria, o reencontro com a modernidade na Jordânia do século XXI, e o contacto com israelitas e palestinos numa altura de impasse para o processo de paz, que procurarei responder.

    Auspiciosamente, o início desta aventura levantina ficou desde já marcado pela greve dos pilotos da Lufthansa, reflexo do período económico em que vivemos, que levou à antecipação da partida para o domingo, dia 21 de Fevereiro de 2010. Assim, a partir desta segunda-feira até domingo dia 28 de Março, proponho-me a escrever um diário de viagem com cerca de 300 palavras, feito de pequenos trechos, conversas e descrições daquilo que irei ver, cheirar e ouvir no Levante. Como estou certo que compreenderam, as parcas condições deste viajante, assim como a inospidade de alguns locais que pretendo visitar, condicionarão inevitáveis quebras de contacto e eventuais dificuldades de periodicidade. No entanto, comprometo-me aqui a publicar os textos relativos a todos os dias de viagem, mesmo que com três ou quatro dias de atraso. Por último, a parte mais importante para mim, mas também aquela que é mais intíma: nesta aventura terei o prazer, mas sobretudo a cumplícidade da companhia da minha namorada. 

    Espero que esta proposta vos interesse e que vos posso encontrar aqui amanha. Ate la,

    Ma salema,

    Indigo

    sábado, fevereiro 20, 2010

    O assassínio do líder militar do Hamas




    Os serviços secretos do Dubai divulgaram hoje este documentário com imagens das câmaras de segurança do episódio que o The New York Times já proclama 'the best spy thriller of the year'. Mahmoud al-Mabhoud, líder de operações militares do Hamas, foi assassinado no passado dia 20 de Janeiro no quarto 230 do Hotel Al Bustan Rotana, no Dubai. Dos assassinos, muito se especula, mas pouco se sabe. Vale a pena ver o vídeo (ou, se não tiverem tempo para assistir a tudo, vejam o que se passa a partir do minuto 20) para perceber e admirar o funcionamento de uma intrépida equipa de espiões no mundo real do século XXI. Mais informação e discussão sobre as repercussões do caso para o Médio Oriente, aqui.

    terça-feira, fevereiro 09, 2010

    A vitória do hutspa




    No sábado passado, o Expresso publicou um interessante e oportuno artigo do seu correspondente no Médio Oriente, Henrique Cymerman, sobre o sucesso de Israel na área das altas tecnologias. Numa altura em que o 'choque tecnológico' de José Sócrates se encaminha para um final insosso, e os portugueses perguntam o que poderá ser feito para sacudir, de uma vez por todas, a pobreza e atraso do país, vale a pena ler sobre este país, que é muito menor do que nosso, embrenhado em problemas existenciais incomensurávelmente mais graves do que os nossos e que, ao longo das suas seis décadas de existência, teve de lutar contra dificeis condições geográficas (falta de água, aridez dos solos, etc), sociais (sucessivas vagas de imigração) e políticas (instabilidade, radicalização de posições ideológicas, intervenções externas, etc) e que, apesar de tudo isto, está hoje na vanguarda de um dos sectores mais dinâmicos da economia munidal. É claro, não podemos deixar de notar que Cymerman 'se esquece' de referir que o milagre económico israelita beneficia do apoio e da relação estreita com altas patentes das comunidades ciêntíficas e económicas nos Estados Unidos da América, muitas das quais vêem a colocação de delegrações, institutos e laboratórios em Israel como uma forma de contribuição para o projecto sionista. Porém, a verdade é que muitos outros países também beneficiaram desse sustento e não foram capazes de retirar dele os proveitos que Israel consegue e conseguirá - portanto, há aqui uma (ou várias) lições a aprender e que dizem respeito não só a um povo, nem aos fiéis de determinada religião, mas sim a modelos de desenvolvimento universais. E assim, passo a palavra ao Senhor Cymerman:

    "O Presidente de Israel, Shimon Peres, costuma dizer que o maior contributo hebreu para o mundo é a insatisfação. Há uma palavra hebraica – hutspa – que descreve este espírito: algo entre o atrevimento e a insolência.
    ‘Um judeu nunca pode estar insatisfeito.’ Peres troça daqueles que, em Israel lamentam que Moisés não tenha conduzido as tribos para uma zona com petróleo. ‘O petróleo corrompe e contamina.’ A falta de recursos naturais é um dos factores-chave do desenvolvimento da alta tecnologia em Israel, um país com apenas 61 anos e um quinta da área de Portugal.
    Os investigadores norte-americanos Dan Senor e Saul Singer publicaram recentemente um livro, ‘Start-Up Nation’, em que sublinham que apesar das guerras, ou talvez por causa delas, o high tech israelita continua florescente. Um país em guerra semipermanente – com menos população que o estado de Nova Jérsia – tem mais empresas de alta tecnologia inscritas no Nasdaq do que a Europa, Japão, Coreia do Sul, Índia e China.
    Em 2008 os investimentos estrangeiros em capital de risco em Israel foram 2,5 maiores que os dos EUA, 30 vezes os da Europa e 80 vezes os da China. Num ano de crise mundial, estes investimentos representaram 2000 milhões de dólares (€1399 milhões), mais do que na Grã-Bretanha ou do que na França e Alemanha juntas. Segundo Senor e Singer, isso deve-se ao facto de grandes empresas como a Google, Intel, Motorola, Ebay ou Cisco considerarem as suas representações em Israel como os laboratórios mais avançados, ‘onde se resolvem os problemas tecnológicos considerados sem solução no estado-maior das empresas.’
    O director da empresa israelita de alta tecnologia Radcom, Adar Eyal, acredita que isto tem muito que ver com a falta de hierarquia reinante na sociedade israelita. ‘Quando levo estrangeiros a bases militares, ficam atónitos ao ver soldados e generais tratando-se por tu e servindo-se café, sem distinção de patentes. Em muitos aspectos continuamos a ser uma espécie de kibbutz, para o bom e para o mau, e isso também se nota nas start-ups.”

    (…)

    “O visitante norte-americano reconheceu que um jovem de 25 anos em Israel é ‘muito mais maduro e experiente’ que noutros lugares do mundo, já que cumpriu um serviço militar de pelo menos três anos, durante o qual teve de tomar decisões difíceis e dominar temas muito avançados de informática.
    A impaciência israelita, salpicada, por vezes, por rudeza e a eternização do conflito com os palestinianos, podem ameaçar o milagre económico israelita. Cada vez que se vive alguma segurança, a economia floresce. Os investigadores dos EUA resumem: ‘Israel não é só um país, é também um estado de espírito. É a vitória do hutspa.’”

    quarta-feira, janeiro 27, 2010

    O futuro da Al-Qaeda - parte II



    (O 'Dunkerke' da Guerra contra o Terrorismo. Chris Hondros / Getty Images: Newsweek)


    Os atentados de 11 de Setembro de 2001 revolucionaram o terrorismo internacional. Em primeiro lugar, os ataques demonstraram que as novas tecnologias poderiam ser utilizadas com sucesso para conseguir comunicar com operacionais ocultos e distantes (no caso da Al-Qaeda, através da Al-Sahab, a sua equipa de produção multimédia); segundo, os atentados levaram a violência ao interior do ‘território inimigo’ como se se tratasse do ataque de um estado soberano sobre outro; e, por último, os ataques expuseram o poder corrosivo do mediatismo quando colocado ao serviço do terrorismo. Por estes três motivos, e tendo em conta a anterior decadência da organização, os ataques representaram um sucesso retumbante para a Al-Qaeda. Sem dúvidas, os atentados reivindicaram sentimentos que prevaleciam entre a população muçulmana nos últimos cinquenta anos - em primeiríssimo lugar, frutos da ‘nakba’ (catástrofe) palestiniana, mas também da criação de uma elite corrupta e fútil nos países do Golfo, do apoio conferido a regimes oligárquicos e autoritários através do contingente militar americano na região, e, de uma forma geral, da forma descartável e condescendente como os ocidentais trataram os povos árabes e os seus recursos naturais.


    Porém, como ficou provado por várias sondagens, a maioria muçulmana continuou a repudiar a Al-Qaeda e os seus métodos. Em particular, as sondagens demonstram que a vasta maioria dos muçulmanos despreza o assassínio indiscriminado de civis, seja qual for a religião das vítimas, seja qual for a causa (ver relatório de Fev. de 2009).  Muitos especialistas apontam tal rejeição como o principal motivo pela queda abrupta da popularidade do líder da Al-Qaeda, Osama Bin-Laden, no seio da comunidade muçulmana mundial. Em suma, os atentados de 11 de Setembro tiveram um maior impacto sobre os métodos praticados pelo terrorismo internacional (replicados por militantes de todo o mundo, desde da Chechenya ao Sri Lanka), do que sobre os aderentes à versão jihadista da Al-Qaeda.


    Acresce a esta situação, o facto da ofensiva americana no Afeganistão em 2001 ter limitado as linhas de contacto entre a liderança da Al-Qaeada e a sua nova base de apoio. Poucos meses após os atentados, os quadros da organização estavam entrincheirados nas montanhas de Tora Bora, presos numa luta mortal com as forças da operação ‘Enduring Freedom’ (OEF), privados de qualquer contacto com o mundo exterior. Enquanto Bin Laden e outros fiéis seguidores ficaram para trás, alguns operativos atravessaram a fronteira para o vizinho Paquistão na expectativa de mobilizar forças para novos ataques. A maior parte desses operativos, tal como o kuweitiano Khalid Sheikh Mohammed (referido como o alegado ‘arquitecto’ do 11 de Setembro), acabaram por ser capturados pelos Serviços Secretos Paquistaneses (ISI). O fim da Al-Qaeda parecia próximo. No seu testamento, entretanto encontrado pelos americanos, Bin Laden escreveu: ‘Allah ordenou-nos que, na hora da morte, façamos uma doação aos nossos pais e parentes e aos muçulmanos, em geral.’ No entanto, por motivos que uma Comissão do Senado Americano (‘Tora Bora Revisited: How We Failed to Get Bin Laden and Why It Matters Today’) não conseguiu descortinar, os generais americanos decidiram não investir com as forças terrestres, deixando assim Bin Laden escapar para as zonas tribais do Waziristão (Norte do Paquistão). É aqui, segundo as fontes mais fiáveis, que hoje permanece, juntamente com Ayman al-Zawihiri e duas dezenas de discíplicos.

    quinta-feira, janeiro 21, 2010

    A vitória da carrinha pick-up



    (Ele é o Scott e conduz uma pick-up. Huffington Post)


    Esta é uma estória americana. Scott conduz uma carrinha GMC Canyon da General Motors. Martha conduz um Jipe Nissan XTerra produzido no Japão. A carrinha de Scott tem 200,000 milhas no conta-quilómetros. No seu vídeo de campanha, Scott apresenta-se assim: ‘I’m Scott Brown. I’m from Wrentham. I drive a truck. And I’m nobody’s senator but yours.’ Martha começa o seu anúncio com as seguintes palavras: ‘One of the things I’ve learnt as District Attorney is problem solving. A good Attorney General needs to spot problems down the road, not wait until they end up on her desk.’ Scott distribuiu panfletos à porta do estádio dos Red Sox (equipa de baseball de Boston), em Fenway Park. Martha confundiu um dos mais lendários jogadores do clube, Curt Schilling, com um adepto dos New York Yankees (mais coisa menos coisa, como dizer que o João ‘prognósticos-só-no-fim’ Pinto é adepto do Benfica). Mais tarde, quando questionada sobre se estava a fazer tudo o que estava ao seu alcance pela vitória, Martha respondeu: ‘As opposed to standing outside Fenway Park? In the cold? Shaking hands?’ Quando andava na faculdade, Scott ganhou $1000 por posar à lá José Cid para a secção ‘America’s Sexiest Man’ da revista feminina Cosmopolitan. Martha gradou cum laude em Direito da elitista Williams College, eleita pelo ranking do U.S. News como a melhor escola de artes liberais da América. Scott contou ao longo da campanha com o apoio de duas celebridades: a mulher, Gail, pivot de uma rede televisiva local; e a filha, Ayla, semi-finalista da edição norte-americana dos Ídolos. Martha teve o apoio do Presidente dos Estados Unidos da América que, incidentalmente, é também o Prémio Nobel da Paz deste ano e uma das caras mais reconhecidas em todo o mundo. Nas acções de campanha, a mulher e as filhas de Scott clamaram: ‘He has truck’. Em defesa de Martha, Barack disse que ‘anyone can buy a truck’, e que os eleitores deveriam olhar por debaixo do capot. Logo de imediato, Scott rispostou: ‘Mr President, unfortunately in this economy, not everybody can buy a truck.’


    Ontem à noite, já informado sobre a sua vitória, Scott deferiu o golpe fatal sobre Barack, Martha e o seu Jipe Nissan: ‘I didn't mind when President Obama came here and criticized me - that happens in campaigns. But when he criticized my truck, that's where I draw the line.’ Esqueçam a reforma do sistema de saúde. A vitória do partido republicano em Massachusetts foi a vitória da carrinha pick-up americana. Uma miragem do que o movimento Tea Party terá para oferecer.


    sábado, janeiro 16, 2010

    O futuro da Al-Qaeda - parte I



    (Retrato de um homem solitário. DebateItOut)


    É talvez irónico que a geração que cresceu à procura de uma rapaz franzino, de óculos redondos e t-shirt às riscas vermelhas e brancas em livrinhos, seja também a que coincidirá no tempo com a persecução verídica de um homem franzino, de barbas triangulares e turbante branco chamado Osama Bin Laden. Com efeito, e apesar de entrar agora no seu nono ano (sendo já mais longa do que a Primeira ou a Segunda Guerra Mundial), a ‘guerra contra o terrorismo’ parece caminhar para um longo encore. Como ilustrado pela recente tentativa do nigeriano Umar Farouk Abdulmutalab, o terrorismo internacional permanece activo e com capacidade para esgueirar-se das mais apertadas medidas de segurança. No entanto, parece-me difícil estabelecer uma corrente de ligação entre Umar Farouk, o Iémen e a Al-Qaeda, tal como foi amplamente difundida pelos meios de comunicação mundiais. Sabemos apenas que Umar Farouk agiu sozinho; que visitou o Iémen poucos meses antes do ataque (curiosamente, para aprender árabe na escola que ficava na rua da minha casa); que Osama Bin Laden tem laços fortes com o país, uma vez que ambos o seu pai e a sua primeira mulher são iemenitas; e que o primeiro ataque atribuído à organização terrorista teve lugar em 1992, em Aden, nos Hotéis Movenpick e Gold Mohur (actual Sheraton Aden, onde, no ano passado, passei uma belíssima tarde). Porém, tais elementos não representam provas irrefutáveis de uma eventual trama transfronteiriça contra o Ocidente com sede no Iémen. Pelo contrário, eles sugerem que tal analogia tenha mais que ver com a nossa pueril atracção por grandes fugitivos.



    Importa remontar às origens da Al-Qaeda e definir o que entendemos hoje por Al-Qaeda para perceber a questão. Pensa-se que a organização terá sido fundada em 1988 por um grupo de militantes internacionais no Paquistão com o objectivo de unificar as centenas de brigadas que combatiam a invasão Soviética do Afeganistão. A liderança do grupo era constituída por cerca de 20 ou 30 combatentes, entre os quais o saudita Osama Bin Laden (o financiador), o cirurgião egípcio Ayman Al-Zawahiri (considerado por muitos o ‘cérebro’ das operações e, reputadamente, o actual líder da organização), o iraquiano Abu Ayoub al-Iraqi (o primeiro chefe de operações da organização), os egípcios Abdullah Azzam, Abu Ubaidah al-Banshiri, Mohammed Atef, Saif al-Adel e Sayeed al-Masri (todos eles sucessivos líderes da organização). Desde então, esse grupo foi sofrendo sucessivas baixas e divisões até que no final dos anos 90 a Al-Qaeda tinha exausto os seus recursos financeiros e estava perto da dissolução, tendo falhado o seu objectivo inicial de centralizar a liderança dos militantes sunitas. Nesse mesmo período, outros grupos, nomeadamente o paquistanês Lashkar-e-Taiba e o palestiniano Hamas, tinham assumido uma posição de destaque junto da população muçulmana. Confrontrado com este panorâma, Osama Bin Laden – por agora, já perseguido e refugiado Afeganistão – assumiu o comando da organização. Porém, a Al-Qaeda estava longe de ser o portento dentro e fora do Afeganistão que um dia os seus líderes sonharam fundar. Por outro lado, ele próprio não era a figura popular e influente que outros escolheriam para a liderar o movimento jihadista internacional. Porém, Bin Laden tinha em mente uma estratégia para reverter as fortunas da Al-Qaeda.




    terça-feira, janeiro 12, 2010

    Sem inspiração



    (Acontece aos melhores... We Blog Cartoons)



    Pois é, meus caros, ando sem inspiração. Acho que deixei de escrever de português há suficiente tempo para lhe esquecer o travo. Há que retomar, que reavivar a chama – disso tenho eu a certeza, mas não consigo encontrar tema. Do Sócrates, do PSD e do país já disse tudo o que poderia dizer e, de qualquer forma, a minha opinião poderia resumir-se a duas simples palavras – estou frustrado. Da vida, dos dias que se seguem uns aos outros com a monotonia da inevitabilidade, pouco mais há que falar do que do tempo: do vento, da chuva, da neve. Podia dizer-vos que todos os dias me apoquento pela sobrevivência das azáleas que alcovitei na terra em Outubro, que gostaria de convencer alguém que existe um elo directo entre as nossas desnecessárias deslocações de automóvel e os temporais dos últimos dias, que fiquei indignado quando um Secretário de Estado da Segurança Interna afirmou que a culpa das pessoas que ficaram presas durante horas nas estradas geladas de Portugal era delas próprias. Afinal, estamos no país, onde a culpa é uma solteirona irremediável. Pensando melhor, está na altura de imiscuir-me no espírito da terra e dizer que, a bem ver, a culpa da falta de inspiração não é minha; é da frugalidade deste Janeiro de 2010. Paciência!

    quarta-feira, janeiro 06, 2010

    A Contra-Revolução Americana



    (Imagem da Tea Party em Washington D.C. este ano. Free Republic)


    Para a sua primeira crónica do ano de 2010, o super-influente colunista do New York Times, David Brooks, escolheu discutir o tema da década que se segue (recomendo vivamente a leitura integral do texto). Segundo ele, os ‘tenies’ serão marcados por um movimento que nasceu em reacção à eleição de Barack Obama para a Casa Branca: o Tea Party Movement.


    Como o próprio nome indica, o movimento reclama para as suas origens nada mais, nada menos do que o protesto que marcou o início da cruzada norte-americana pela independência: o Boston Tea Party. No entanto, em comum com os eventos de 1773, o Tea Party Movement contemporâneo tem apenas a essência, não a substância. Ou seja, os Tea Party-goers moderno não se revoltam contra o preço do chá nos supermercados ou nas lojas, mas sim contra a suposta subida dos impostos da administração Obama. Desse modo, o anteriormente objectivo conceito ‘Tea’, transformou-se hoje no slogan T-E-A: ‘Taxed Enough Already’. Para além dos impostos, nas Tea Parties manifesta-se contra o aumento do aparelho de Estado, nomeadamente a reforma do sistema de saúde proposta por Obama; o pacote de estímulo conta a recessão; a político colaboracionista no plano internacional; e o deficit do Governo central norte-americano. As Tea Parties, organizadas através de sites (o mais conhecido Tea Party Express), blogs, contas de Twitter, e grupos no Facebook, ocorrem simultaneamente em várias cidades dos EUA. A mais popular teve lugar no dia 15 de Abril de 2009, planeada para coincidir com o último dia para a entrega das declarações de impostos, e contou com protestos em mais de 750 cidades, e uma alegada adesão de meio milhão de americanos (de acordo com os dados referidos pelo Christian Science Monitor). No dia seguinte, uma sondagem da agência Rasmussen revelou que 51% do povo americano considerava os protestantes ‘favoravelmente.’ E estes valores, note-se, no primeiro ano de actividade do movimento.


    Afinal, quem são os participantes destas Tea Parties? Como refere Brooks, as Tea Parties atraem os americanos que abominam qualquer ideia associada com as ‘classes educadas’: o aquecimento global; uma postura internacionalista; o direito ao aborto; a necessidade de controlar a venda de armas; e outras causas afins. No fundo, estamos de volta ao terreno da velha divisão entre o norte e o sul, entre as costas e o centro, entre o redbelt e o bluebelt norte-americano, entre os que se sentiam acalentados por ver as botas texas de Bush sobre a secretária da sala Oval e os que se sentiam repugnados pelas constantes baboseiras proferidas pelo antigo Presidente dos EUA.


    O tema foi claramente exposto por um artigo recente da revista New Yorker, em que se escrevia que Sarah Palin era a mais apta candidata do Partido Republicano contra Barack Obama por ser a sua mais perfeita nemesis: uma estrela Republicana contra uma estrela Democrática. No entanto, referia a revista, acrescia a esta simetria o facto do star appeal de Palin assentar na simplicidade da sua postura sobre a vida e a história, à sua aparente falta de ‘worldliness’ contra a erudição e o cosmopolitismo de Obama, antigo aluno da escola mais elitista dos EUA, a Harvard University, e professor na distinta Universidade de Chicago. Perguntava a New Yorker: ‘será talvez uma forma de socialismo desejar que um de nós, simples e ignorante cidadão, ocupe os mais altos cargos do Estado?’ Pois é, para choque e desconsolo de muitos Europeus, existe uma grande parte do povo americano (metade, quase poderíamos afirmar) que espera que os seus líderes sejam, ou pelo menos aparentem ser, tão estúpidos e ignorantes como eles.


    Porém, e numa nota final, a ascensão do Tea Party Movement representa um desafio não só para o Partido Democrático, mas também para o Partido Republicano. A verdade é que o próprio partido está dividido entre aqueles que desejam seguir esta via mais radical, e aqueles que pretendiam manter-se num registo mais ponderado – o próprio Brooks, assumidamente Republicano, declara-se preocupado com o movimento. Por todos estes motivos, começam a surgir rumores do aparecimento de uma terceira força política nos EUA. Onde será que já vi este filme?

    Ataque cibernauta ao blog





    Caros leitores,


    Como já puderam comprovar, o meu blog Indigo e o Mar está a ser alvo de um ataque cibernauta que automaticamente dirige os leitores para outro site - Smashing Feeds. Existe uma forma de contornar este programar que é clicar na tecla stop na barra de ferramentas do vosso internet explorer mal entrem no blog. No entanto, esta solução não poderá ser permanente. Vou tentar resolver, ou então esperar alguns dias para ver se o blogger corrige este bug, se não terei que encontrar uma nova casa para o Indigo e o Mar. Mas não vou desaparecer.

    Até à próxima,

    Diogo

    terça-feira, dezembro 29, 2009

    A palavra portuguesa do ano


    (Em 2009, a paranóia regressou a Portugal. Tado)



    Todos os anos, nos dias que antecedem a alteração do calendário, os medias internacionais entretém-nos com listas de tudo o que foi mais e menos dos últimos 360 dias: as melhores músicas, os piores filmes, os vídeos mais visualizados no Youtube, as fotografias mais marcantes, as mais vergonhosas calinadas políticas, os mais esquecíveis momentos do desporto e as mais aniquiladoras catástrofes naturais, entre os possíveis tops 10 de utilidade e critério duvidosos. No fundo no fundo, o que importa é ser mais original e mais arrojado para não desapontar o apetite voraz dos consumidores por mais informação a menos sacrifício – ora pois, nas listas de fim de ano, os acontecimentos vêm já devidamente acondicionados em saquinhos herméticos e hierárquicos, respectivamente rotulados por uma sumária narração da história que compraz na plenitude o diminuto espaço cerebral dedicado ao armazenamento e laboração de informação inter-pessoal do homos contemporaneus. Este ano, o potencial para a elaboração das mais mirabolantes e magnânimas listas é particularmente prodigioso visto tratar-se este também de uma mudança de década o que, cronologicamente falando, corresponde à travessia da zona desmilitarizada que separa a Coreia do Norte da do Sul.

    Navegando por este oceano de informação ‘prêt-à-manger’, o observador comum sente-se sempre cativado em excesso por uma ou outra categorização. No meu caso, é a eleição da palavra do ano*. O raciocínio é a improbabilidade de existir uma palavra para cada ano: primeiro, porque as palavras não aparecem do nada e, na maior parte dos casos, as palavras eleitas para cada ano já existiam nos anos precedentes; segundo, porque as palavras têm diferentes sentidos para indivíduos heterogéneos, sendo que não existe uma única palavra que abranja o mesmo significado para todos nós num determinado momento, mesmo que no espaço limitado de um ano; terceiro e derradeiro, porque existem demasiados acontecimentos e circunstâncias num ano para se compactar tudo numa só palavra. Mas já que estamos no reino da patetice, julgo-me sensato em aderir à melhor e mais desavergonhada parvoíce de entre todas as listas de ano novo: a lista da palavra do ano.

    Tanto quanto sei, a moda ainda não pegou em Portugal, país que ainda não se conseguiu olvidar por completo dos chavões da saudade, do fado, futebol e Fátima. Por isso, decidi escolher e anunciar em primeira mão aos meus leitores a palavra portuguesa do ano. Ao contrário das suas congéneres estrangeiras, a palavra portuguesa do ano tem pouco de progresso; pelo contrário, a palavra portuguesa do ano de 2009 assemelha-se mais a um regresso às origens. Não é uma palavra nova, nem sequer poderá ser conotada com um fenómeno inovador; a palavra portuguesa do ano pertence ao nosso léxico desde que dois portugueses se tornaram vizinhos e começaram a intrometer-se na vida um do outro. Meus amigos e minhas amigas, tenho a infelicidade de vos anunciar que a palavra portuguesa do ano de 2009 é escutas. No plural.

    O tema vinha de trás. Há dois anos andava tudo alarmado com a suspeita do Procurador-Geral da República de que o seu telefone estaria sob escuta. Este ano, porém, a problemática sobre as eventuais escutas a dignitários de cargos públicos e privados alcançou novas proporções. Em 2009 ficamos a saber que não só o Presidente da República suspeita que o Primeiro-Ministro o esteja a espiar, como as conversas do Primeiro-Ministro com o Vice-Presidente do maior banco privado português andaram a correr escritórios da PJ e do Ministério Público. Em 2009, tivemos duas eleições centrais para o curso do país que foram saqueadas pelo tema das escutas, cujo saldo final ainda iremos descobrir em 2010. Ficamos também a conhecer que existem em Portugal vários organismos que, à revelia da lei, escutam conversas e que o material para tal fim se compra facilmente na internet, ou então a espiões israelitas, americanos e russos que continuam a passear na linha de Cascais como no tempo da Segunda Guerra Mundial.

    Porém, pior do que as próprias escutas, é o clima que elas instauram no país: em 2009, regressamos ao Portugal das suspeitas, das paranóias e das perseguições. Um Portugal em que ninguém está a salvo de ser espiado, onde os indivíduos suspeitam um dos outros, onde os políticos disparam em praça pública aquilo que podia ser negociado em privado. De certa forma, parece que em 2009 se voltaram a despertar os mais tristes instintos na sociedade portuguesa do bufo, do delator e do perseguido. E as escutas, assim como os políticos e jornalistas que contribuíram para que elas dominassem a actualidade nacional, merecem ser responsabilizados por isso. Em última análise, ‘escutas’ é a palavra certa para descrever um ano mau para Portugal. Mais do que a economia, é o próprio tecido social que agora se deteriora. Esperemos que em 2010 haja uma palavra mais positiva para eleger aqui.

    Um bom ano novo a todos!





    * Este ano a palavra do ano na língua inglesa eleita pela editora de dicionários Merriam-Webster é 'unfriend': no sentido de desfazer-se de amigos no Facebook. Com o Nobel de Obama, a reforma do serviço de Saúde norte-americano, a morte do Rei da Pop, eleições por toda a parte, o fracasso das negociações do novo acordo para o clima, o recomeço da Guerra em Af-Pak, quem se lembraria das vicissitudes da amizade virtual? Ninguém, é aí que está a graça.

    quarta-feira, dezembro 16, 2009

    O abismo iemenita

    Afinal, os EUA não estão apenas envolvidos em duas operações militares além-fronteiras... um cheirinho do que vem aí:

    sexta-feira, dezembro 04, 2009

    O dia em que Bush convenceu Blair


    (Uma saudação às armas. Daily Telegraph)


    O começo do julgamento de Khalid Sheikh Mohammed, o suposto ‘mastermind’ dos atentados de 11 de Setembro de 2001, tem percorrido as páginas dos medias em todo o mundo sob o epítome de ‘o julgamento do século’. Porém, para além do folclore e do sentimento de vindicação que poderá provir às famílias das vítimas, pouco resultará do caso em termos de revelações sobres os incidentes dos últimos dez anos. Para além do mais, colocar o apelido ‘o julgamento do século’ a um caso que se refere ao primeiro ano do tal século parece-me precipitado. Quem sabe se não existirá um Nuremberga do século XXI?

    Curiosamente, ao mesmo tempo que se inicia este julgamento decorre no Reino Unido um inquérito histórico que tem sido, em larga medida, ignorado pelos medias – o inquérito oficial sobre a Guerra no Iraque (‘Iraq War Inquiry’). Este sim, o julgamento da década. Embora não o primeiro do género no Reino Unido, este inquérito irá investigar e revelar, pela primeira vez, o conteúdo de documentos classificados e interrogará também figuras capitais do Governo Britânico na caminhada para a Guerra do Iraque, entre as quais estarão Tony Blair e Gordon Brown (que serão chamados a depor no próximo ano).

    Na semana passada, o painel de investigadores interrogou Sir Christopher Meyer, embaixador britânico em Washington D.C. entre 1997 e 2003 (DC Confidential, livro de memórias publicado em 2005). Entre as várias revelações apresentadas sobre as relações transatlânticas no ante- e pós-invasão, Meyer confessou a sua suspeição pessoal de que a decisão de Blair foi tomada após uma reunião a dois com Bush no rancho de Crawford, no Texas, em Abril de 2002. Segundo o ex-embaixador, até então, Blair teria preferido avançar para a guerra com aval das Nações Unidas. No entanto, alguns dias depois do encontro, Blair assumiu publicamente, pela primeira vez, a hipótese de ‘regime change’ no Iraque. O que terá dito Bush a Blair para o convencer?

    Tal a obliquidade das informações que dispomos sobre a Guerra do Iraque apenas me recorda o caso do assassínio de Anna Politkovskaya: sabemos a hora exacta do crime, vimos o assassino a chegar e a abandonar o local crime, mas desconhecemos como decorreu ao certo o crime. Porém, neste caso, o ‘missing link’ seguirá provavelmente os dois protagonistas para debaixo de terra.


    Caso estejam interessados em saber mais sobre este inquérito, poderão encontrar um Q&A no site da BBC News. E também aqui um reportagem em vídeo.

    quarta-feira, dezembro 02, 2009

    Uma festa cigana


    (Pelos menos, escolheram azul para a Torre de Belém. AFP)


    Lembram-se da cerimónia de assinatura do laxativamente-apadrinhado Tratado de Lisboa no Mosteiro de Belém, da Dulce Pontes a berrar ao microfone hits de tempos passados, do ar enfadado de Sarkozy enfiado entre os muitos efusivos Sócrates e Barroso, do passeio de 100 metros dos chefes de estados no metro de superfície, dos apupos da multidão em frente ao Palácio de Belém, da tão badalada ausência de Gordon Brown? Pois bem, tudo isso não foi mais do que um austero ensaio para a festa carnavalesca com que ontem se celebrou a entrada em vigor do Tratado de Lisboa.

    Quer dizer, festejou-se no dia em que se assinou o papel e volta-se a festejar no dia em que o tratado entrou em vigor. Por este andar, pode ser que se proclame feriado no dia em que o Tratado de Lisboa for revogado. O que vale é que das gentes que importam, categoria que não inclui os VIPs porque esses acudiram em massa, estavam apenas três Primeiros-Ministros (o nosso, o da Espanha e o da Suécia – note-se que a presença deste último se deve ao facto de o seu país deter a Presidência da UE), um Presidente da República (o nosso) e três figuras de destaque da hierarquia da UE (o nosso, o Belga e o Polaco). Qualquer dia, passo a eleger políticos na medida dos que vão a estes Eventos e dos que têm assuntos mais prementes para resolver…tipo Governar um país!

    terça-feira, novembro 24, 2009

    Brasil descola na cena diplomática


    (Dois presidentes, uma bomba nuclear: a próxima novela brasileira? El País)



    O discutível Presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, começou ontem um périplo pela América Latina com paragens óbvias na Venezuela e na Bolívia e menos óbvias no Brasil. Antes de chegar, a presença do carrasco da paz mundial no país do samba já havia gerado consternação, dentro e fora de fronteiras. Sob o cabeçalho 'Vergonha de ser brasileiro’, Sérgio Malbergier, editor da secção Dinheiro da Folha de São Paulo e membro da numerosa comunidade judaica brasileira, escreveu: "O presidente brasileiro, genuinamente humanista, parece ter sido enrolado pelo terceiro-mundismo que domina os seus antecessores e o Itamaraty." Por sua vez, o Representante Democrata Eliot l. Engel comentou ao The New York Times que "esta visita é um erro enorme, um terrível erro. (...) Ele (Ahmadinejad) é ilegítimo perante o seu próprio povo, e agora o Brasil irá dar-lhe o ar de legitimidade numa altura em que mundo está à tentar evitar que obtenha armas nucleares. Não me faz sentido nenhum e, francamente, prejudica a imagem do Brasil." Na ocasião propriamente dita, o Presidente Lula defendeu o direito do Irão ao enriquecimento de urânio para ‘fins pacíficos’ e o Presidente Ahmadinejad expressou o desejo de ver o Brasil envolvido no processo de paz no Médio Oriente.

    À primeira vista, a reunião parece fruto de um encontro simétrico de interesses. Lula dá legitimidade ao regime de Terão e Ahmadinejad “abençoa” a entrada do Brasil no pequeno palco das grandes decisões mundiais (aliás, o Presidente Iraniano apoiou também a inclusão do Brasil como permanente do Conselho de Segurança da ONU). Porém, nem tudo o que parece é; e no Médio Oriente, parecer é frequentemente mais relevante do que ser. Pois, parece que na fotografia está Ahmadinejad e Lula, mas, na verdade, está lá Ahmadinejad e Barack Obama. Perdoem-me o cepticismo, mas não creio que Lula da Silva, a quem Obama chamou ‘my favourite guy’, tomasse a iniciativa de receber o Presidente Iraniano sem aval de Washington. Por outro lado, Lula apresenta aos dois lados a oportunidade de prosseguir as negociações sem danificar a sua imagem interna: Barack Obama não necessita de ceder perante os caprichos de Ahmadinejad; e este mantém a linha dura diante ao Ocidente. Finalmente, Lula recebe o bónus de afirmar o Brasil no plano diplomático internacional sob um alto custo e maior risco. O custo é adquirir magnetismo às críticas. O risco é poder cair dentro do caldeirão do Médio Oriente. Mas o esforço e a coragem são sempre meritórios. Na minha plebeia opinião.

    sexta-feira, novembro 20, 2009

    Addio, Adieu, Auf Wiedersehen, Goodbye


    (Os noivos no dia do casamento. AP)


    Deve ser da neblina que paira sobre Bruxelas. Obstrui a reflexão, confunde as ideias e retorce a realidade. Esta é a explicação mais plausível que encontro para o auto-flagelismo recente da União Europeia. Como exclamava esta manhã o antigo Primeiro-Ministro francês, Michel Rocard: “A Europa política está morta; com efeito, ela já sofreu cinco assassínios, todos eles mortais.” O resto da imprensa europeia está de acordo:

    - Teresa de Sousa do Público escreve que “A Europa perdeu a primeira grande oportunidade de provar que falava a sério quando afirmava que o Tratado de Lisboa (…) Não poderia haver uma figura mais apagada e sem história que a sua (Herman Van Rompuy).”

    - Michael White do The Guardian escreve: "Shaming and dreadful" is how one prominent colleague privately put it half an hour ago. (…) I'm struggling to be positive here. Ashton's never been elected; (…)Much more important, she is still a relative novice in trade issues – having taken over from Peter Mandelson barely a year ago – let alone the dangerous, devious world of international diplomacy.” Mais tarde, White conclui que, com estas nomeações, as ambições federalistas da Europa confirmam-se a ilusão que muitos têm postulado nos últimos 15 anos.

    - O Frankfürter Allgemeine Zeitung escreve: “Será que estas duas personagens poderão encarnar o élan prometido por aqueles que nos governam? O Tratado de Lisboa é a versão light daquela que à partida foi baptizada como ‘Constituição da EU’. O termo provou ser demasiado grande para as ambições dos Europeus. Os títulos de Ministro dos Negócios Estrangeiros e de Presidente da UE passam agora também a ser demasiado grandes.”

    - O El País ‘puxa a brasa à sua sardinha’ (afinal, Filipe Gonzáles chegou a ser proposto por Sarkozy como alternativa) e afirma: “La elección de Ashton sorprendió mucho más por su inexperiencia en asuntos diplomáticos. Fuentes comunitarias comentaban con cierta sorna que "los británicos querían liquidar el servicio exterior y lo han conseguido". Otros comentarios más críticos subrayaban la contradicción que supone "elegir a una persona con menos conocimientos y experiencia que Solana para un cargo con más competencias que el que actualmente desempeña Solana".

    - Por sua vez, Quentin Peel para o Financial Times, escreve: “The immediate reaction in Washington on Thursday was one of shock and disappointment. (…)It shows that the advent of the Lisbon treaty has done nothing to make the distribution of jobs between 27 member states any easier.”

    terça-feira, novembro 17, 2009

    Sarah Palin Soma e Segue

    (A capa da Newsweek desta semana. Huffington Post)


    Sarah Palin finalmente chegou à capa da Newsweek, a revista generalista global de inclinação esquerdista. Todavia, a fotografia escolhida não foi bem aquela que a ex-Governadora do Alasca, ex-candidata a Vice-Presidente e concorrente virtual das eleições de 2012, teria elegido. Na realidade, a fotografia foi registrada anteriormente, quando Palin ainda exercia funções no Alasca, e integrava uma reportagem para a revista Runner's World - daí os shortes, como diriam os nossos irmãos brasileiros. Enfim, Palin não gostou da brincadeira e ripostou na sua página do Facebook (faz me lembrar alguém...):
    "The choice of photo for the cover of this week's Newsweek is unfortunate. When it comes to Sarah Palin, this "news" magazine has relished focusing on the irrelevant rather than the relevant. The Runner's World magazine one-page profile for which this photo was taken was all about health and fitness - a subject to which I am devoted and which is critically important to this nation. The out-of-context Newsweek approach is sexist and oh-so-expected by now. If anyone can learn anything from it: it shows why you shouldn't judge a book by its cover, gender, or color of skin. The media will do anything to draw attention - even if out of context."