A Gaivota Farragulha

    segunda-feira, março 30, 2009

    Compreender o Paquistão



    (Guarda na Província da Fronteira Noroeste, primeira frente de batalha na luta contra o terrorismo. Tyler Hicks/The New York Times)


    O ataque de hoje a uma Academia de Polícia em Lahore, a mais tranquila e liberal das cidades paquistanesas, demonstra bem a gravidade dos desafios enfrentados pelo país e a comunidade internacional. Com efeito, o Paquistão é provavelmente a única região do mundo onde, todos os dias e quase simultaneamente, podem ocorrer ataques terroristas por movimentos nacionais de afirmação territorial e religiosa; operações por inúmeras guerrilhas e células de organizações ilegais internacionais; incursões militares agressivas dos EUA; escaramuças na frente de batalha com a Índia; violência sectária entre Shiitas e Sunitas; guerrilhas urbanas em Karachi e Islamabad; mutins nos campos de refugiados; manobras suspeitas de um exército desobediente na posse da bomba nuclear e demonstrações cabais da ineficácia ou inexistência do Estado. Por todos estes motivos, tem sido tão difícil escrever qualquer coisa sobre o Paquistão, país que verdadeiramente me apaixona. Na tentativa de ilustrar melhor o que se está a passar, decidi então fazer uma listagem de 10 PONTOS fundamentais sobre a história recente do Paquistão que talvez possam ajudar qualquer coisa:




    1 - O Paquistão tornou-se independente a 14 de Agosto de 1947. O movimento que levou a esse momento nasceu na Índia no final da década de 1920, aquando das primeiras 'efectivas' discussões sobre a eventual independência da Índia Britânica. Nas províncias em que os muçulmanos estavam em minoria, como no Uttar Pradesh e Maharastra, detinham uma posição social importante, constituíndo, de forma geral, uma burguesia comercial. Por isso, o advento de um regime democrático na Índia, no qual a maioria Hindu decidiria, representava uma afronta ao seu poderia e estatuto na sociedade. No entanto, o Paquistao veio a nascer não nas províncias em que os muculmanos estavam em minoria, mas precisamente naquelas em que os muculmanos estavam em maioria (nomeadamente, no Punjab, Sindh, Baluchistao, nas Províncias Pashtuns a norte e no Bengal Oriental), onde existia apenas apenas um apoio relativo pela criação de um Estado para os Muçulmanos do Sub-continente. Para os muçulmanos das províncias maioritárias, o elo mais importante de relações era a sua identificação étnica (essencialmente, linguística) com os seus vizinhos e não uma ideia vaga e abstracta de nacionalismo indiano-muculmano nascido poucos anos antes.




    (Mohamed Ali Jinnah, o 'pai' do Paquistao aparece na capa da revista Time em 1946)



    2 - De acordo com o plano de partição apresentado pelo Lord Mountbatten, algumas províncias da Índia Britânica teriam a oportunidade escolher entre a integração no território indiano ou paquistanês. Uma dessas províncias foi o principado de Jammu e Kashmir, governado por um Maharaja hindu, Hari Singh, mas predominantemente populada por muçulmanos (aproximadamente 77%). Inicialmente, o Maharaja inclinou-se para a integração do território com o Paquistão mas perante alguma impaciência e agressividade dos negociadores paquistaneses decidiu optar pela opção indiana. Nessa altura, o exército do recém-formado Paquistão decidiu invadir o território provocando um contra-ataque das forcas indianas que levou à primeira guerra pelo território de Kashmir entre 1947-48. O conflito levou à divisão do território pela chamada 'Line of Control' (LOC), em que aproximadamente um terço da província ficou em posse paquistanesa, e metade permaneceu indiano. O último terço do território, a nordeste, foi entretanto cedido pelos paquistaneses à República Popular da China que tinha vindo a enviar tropas para a região. Em 1948, uma resolução do Conselho de Seguranca da ONU recomendou a convocação de um referendo sobre o futuro de Jammu e Kashmir que até hoje ainda não foi marcado.



    (A Linha de Controlo em Kashmir)



    3 - A questão de Kashmir marcou tremendamente o futuro do Estado Paquistanês. Acima de tudo, a guerra levou à expansão e enobrecimento das forcas armadas paquistanesas dentro do aparelho de Estado. Logo em 1958, o General Ayub Khan assumiu as rédeas do país num golpe de estado que introduziu o país às ditaduras. Khan governou até 1969, quando foi substituído por outro general, Yahya Khan, que governou também em ditadura. Foi apenas em 1972, após uma viragem na história do país (que falaremos a seguir), que o Paquistao regressou à democracia com o governo de Zulfikar Ali Bhutto, pai de Benazir Bhutto. No entanto, sete anos mais tarde, em 1979, Bhutto foi deposto, condenado à morte e enforcado por um novo golpe de estado militar, desta feita liderado pelo General Zia ul-Haq. Zia governou por quase dez anos até 1988, quando morreu num misterioso acidente de avião. O Paquistão regressou então de novo ao universo das democracias com a eleição da primeira mulher Primeira-Ministra do país, Benazir Bhutto. Dentro e fora do país respirava-se finalmente a esperança de que o Paquistão estava a enveredar no caminho certo. Porém, apenas 20 meses mais tarde, Benazir Bhutto foi deposta sobre suspeitas de corrupção. Nos anos seguintes, o governo paquistanês foi intermitentemente ocupado por ela e pelo maior político da oposição, Nawaz Sharif, embora nunca por mandatos completos. Na verdade, foi durante a década de 90, o maior período contínuo de democracia no Paquistão, que se verificou a maior deterioração da estabilidade política e económica do país. Este período chegou abruptamente ao fim em 1999 com o golpe de estado liderado pelo General Pervez Musharraf. Este governou, também em ditadura, até 2008. Ao todo, desde da independência até hoje, o país passou 30 anos de democracia e 31 de ditadura militar.



    (Zulfikar Ali Bhutto cumprimenta Indira Gandhi, a 28 de Junho de 1972, numa tentativa de atenuar as relaccoes entre os dois países vizinhos, na presenca da filha Benazir)




    FIM DA PRIMEIRA PARTE

    quinta-feira, março 26, 2009

    A batalha pelo Índico e o novo colonialismo

    (Em Bruxelas também há nuvens... Photo: Alamy, The Guardian Online)

    As ilhas Mayotte pertencem ao arquipélago dos Comodoros, ancorado entre o norte de Moçambique e a ilha de Madagáscar. Nos guias turísticos assim como nas fotografias encontradas pela net, Mayotte bem poderia ser o paraíso na terra. Composto por uma ilha principal (Grand Terre ou Mahoré), uma mais pequena (Petit-Terre ou Pamanzi) e vários ilhéus em torno destas, Mayotte tem um clima tropical, um terreno rico de origem vulcânica e uma fauna e flora diversa. Porém, a sua beleza não se resume a aspectos estéticos e naturais. Mayotte atravessou a história da humanidade como um importante interposto comercial no Oceano Indico. Desta convergência de gentes e culturas resultou uma sociedade miscigenada entre povos Europeus (onde também deverá correr sangue português), Árabes, Africanos e Asiáticos.

    Após anos de letargia e esquecimento, Mayotte regressa este fim-de-semana aos anais da história. A questão remonta ao fim do domínio francês sobre as ilhas Comodoro (entre 1833-1974), em que os habitantes da ilha optaram, em referendo, por manter as ligações institucionais com a Franca ao revés da inclusão no território nacional das ilhas Comodoro. O resultado foi repudiado pelo recém-formado governo das Comodoro e, em 1976, uma resolução das Nações Unidas, apoiada por 11 dos 15 membros do Conselho de Segurança, reconheceu a soberania de facto da União das Ilhas Comodoro sobre o território. No entanto, a Franca, como membro permanente, vetou a resolução e o destino das ilhas permaneceu no limbo durante as próximas décadas.

    A disputa poderá todavia ficar resolvida este fim-de-semana com o referendo sobre a integração das ilhas no território ultramarino Francês. De acordo com as últimas sondagens, 70% da população irá votar a favor da proposta. A ideia parece-me desde logo uma forma mais sofisticada ('dare I say, afrancesada') de colonialismo. Ao contrário da experiência passada, o colonialismo do séc. XXI baseia-se nos princípios de sufrágio universal, liberdade de opção e democracia - por cá, não me importaria nada de ver Cabo Verde reintegrado no território português por referendo. Porém, resta saber se os resultados serão muito diferentes dos do passado (os habitantes de Guadalupe teriam certamente alguns conselhos a dar aos seus futuros compatriotas Mayottes).


    Acima de tudo, o que está aqui em jogo é muito mais do que o direito dos Mayottes adquirirem ou não o passaporte francês, ou da instalação de mais um Club Med, mas sim uma importante demarcação estratégica do Estado Francês. O que está em jogo é a partilha do Índico. Na edição do mês passado da revista Foreign Affairs, o jornalista americano Robert D. Kaplan (por acaso, casado com uma portuguesa, Maria Cabral) escrevia que o Oceano Índico será o palco do século XXI. Lá estão as áreas de influência geográfica dos poderes emergentes, a China e a Índia, as maiores reservas do cada-vez-mais-escasso petróleo (na península Arábica, no Irão, no Kuwait e no Iraque); lá estão os grupos terroristas mais activos em todo o mundo e as disputas territoriais mais importantes do planeta - à excepção do conflito israelo-árabe; lá estao alguns dos centros económicos mais importantes do novo mundo, como Mumbai; e por lá passa a maior parte do comércio mundial.

    O referendo vem trinta anos depois da independência, mas apenas um mês depois do Presidente Iraniano Mahmoud Ahmadinejad visitar o arquipélago (conseguem imaginar o Senhor Ahmadinejad a passear de chinelos na mão, debaixo dos coqueiros?). A crescente influência iraniana sobre a região é notória na quantidade de escolas e mesquitas financiadas por capitais iranianos e pelo facto de o próprio presidente do país, Ahmed Abdallah Mohamed Sambi, ter estudado no Irão. Portanto, e para parafrasear alguém com propensão natural para repetir clichés, não há coincidências...

    quarta-feira, março 25, 2009

    O julgamento do assassínio de Anna Politkovskaya


    (ITAR-TASS)


    Aos interessados em literatura, cinema, jornalismo, policiais, thrillers, casos de espionagem, direitos-humanos, justica, liberdade de imprensa, geopolítica, assuntos contemporâneos, na Russia, na Russia de Putin, na Guerra na Chechenia ou apenas por Anna Politkovskaya, a jornalista russa assassinada em 2006 ao entrar no elevador do seu prédio em Moscovo, este é um texto imperdível. Na minha opiniao, diria que esta é a melhor reportagem que li até hoje sobre um julgamento (em inglês diria que esta é, 'the ultimate trial story'). Escrito por Keith Gessen, crítico literário, editor e escritor (o seu primeiro livro, 'All the Sad Young Literary Men' - que agora serei forcado a ler - foi publicado no ano passado) americano de origem judia russa, o artigo foi publicado na revista New Yorker da semana passada. A qualidade do texto, o rocambulesco suspense da trama e a perspicaz visao sobre a Russia mantiveram-me esta noite acordado até às 2.30 da manha. No intuito de partilhar esta maravilha com todos vós, proponho-me entao a serializar o texto quase intregalmente nas próximas quartas-feiras. Caso tenham dificuldades em acompanhar a reportagem no blog, sugiro que a imprimam para ler à noite. Aqui fica a primeira parte, 'for your eyes only':



    The first day I tried to attend the trial of the men accused of organising and abetting the murder of the journalist Anna Politkovskaya, my papers weren't in order and I didn't get in. I walked across the street to a Starbucks and for the rest of the day read a tall stack of printouts I'd made about the case from the Web site of Novaya Gazeta, Politkovskaya's old paper. While I sat there, a young human-rights lawyer was shot in the back of the head right outside the subway stop I'd got out of that morning. He was accompanied by a twenty-five-year-old Novaya Gazeta freelancer. The assassin shot and killer her, too, before ducking into the subway and getting away. The next day, I was allowed into the trial.

    Anna Politkovskaya was murdered as she came home with some groceries on a Saturday afternoon, October 7, 2006, Vladimir Putin's birthday. The killer waited inside her entryway and shot her when she got into the elevator. He shot her three times from outside the elevator, and then, when she fell from the impact, stepped into the elevator and shot her two more times. Politkovskaya was forty-eight years old, and very thin. In photographs, as a younger woman, she is attractive but plain; in middle age, with her dark features and short, gray hair, she had become striking. On the day of the murder, she wore black pants and a black vest. At the trial, the prosecutors handed around the bullets recovered from her body and showed a large colour photograph of Politkovskaya crumpled on the elevator floor, blood seeping from the wounds in her head, the murder weapon with its long black silencer next to her right hand, which still clutched a plastic bag full of groceries.

    It was hard to know who would have had more cause to kill Politkovskaya: Putin and his Federal Security Bureau (F.S.B.) cohort, which she'd mercilessly critized; the pro-Kremlin Administration of Chechnya, which she excoriated; or elements of the Russian military in Chechnya, some of whom Politkovskaya had helped put in jail. And why would the murder have happened on Putin's birthday? Cornered a few days later while on a trip to Germany, Putin had reacted defensively. Politkovskaya's death, he said, would do more harm to Russia than her reporting ever did. When, three weeks afterward, an F.S.B. defector was poisoned in London by a rare radioactive isotope, one opposition journalist even took it to be a demonstration of sorts, a way of saying, Here's what a government-sponsored killing actually looks like.

    By all accounts, Putin wanted the Politkovskaya killers found, and the investigators were not without clues. Politkovskaya's entryway had a video camera, and her building was next door to the Moscow headquarters of VTB, the country's second-largest bank; all told, there were eight video cameras in the vicinity of the crime. In the days before the killing, they had captured a beat-up green Lada station wagon circling Politkovskaya's building. On October 7th, they recorded the Lada parking around the corner at 2:24 P.M. After an hour and a half, a man emerges from it, walks towards Politkovskaya's building with a jacket wrapped around his left hand, and then enters. The man is thin and wears a baseball cap that shields his face. A few minutes later, a camera shows Politkovskaya approaching the building with her grocery bag, rummaging in her purse for her keys, and going in. Less than a minute later, the man in the baseball cap walks out.


    (NTV/AFP/Getty Images - Imagens do principal suspeito gravadas pelas câmaras de seguranca)


    Investigators were able to determine that the owner of the Lada was a native of Chechnya named Rustam Makhmudov. He was the nephew of a well-known mobster and had been wanted by federal authorities since 1997 for kidnapping; for most of that time, he lived in Moscow under an assumed name. Despite being on the run, Makhmudov had interesting friends - in particular, an F.S.B. agent and a former police detective with a federal brief (the equivalent of an F.B.I. agent). At this point, the investigators seemed to catch a break: a colleague of the detective came forward to testify that in the fall of 2006, just weeks before Politkovskaya was killed, the former detective had offered to forgive a large debt that the colleague owed if he carried out surveillance on her.

    In August, 2007, ten months after the murder, the arrests began: Rustam Makhmudov had disappeared, but police arrested the F.S.B. agent, the former police detective, and nine others, including three of Rustam's brothers. The Russian prosecutor general held a press conference at which he announced that the case had been solved. At first, investigators fingered the youngest of the Makhmudov brothers, Tamerland, as the shooter, but Tamerland was able to establish that he had been in Chechnya in the fall of 2006. But cell-phone records established that Rustam's two other brothers had been in the vicinity of the crime when it happened. What's more, the pattern of their calls was suspicious. Investigators knew from the bank cameras that the shooter had left the green Lada and entered Politkovskaya's building at 3:55 P.M. They now found that at 3:52 P.M. the two brothers had had a cell-phone conversation for a few seconds. The killer left the building at 4:07 P.M. Another short phone call between the brothers took place at 4:08 P.M. The investigators concluded that the shooter was Rustam, and that his two brothers served as his driver and lookout.

    That, anyway, was the story the prosecution took to court in mid-November, when the trial began. By then, seven of the original suspects had been released, leaving the two brothers, the former police agent, and the F.S.B. agent. (...) So for three months the two young Chechens and the two members of the law enforcement community sat together in a yellow steel cage.

    Final da Primeira Parte

    segunda-feira, março 23, 2009

    Incêndios de Marco

    Desde do dia 12 de Marco, a Autoridade Nacional de Proteccao Civil registrou um mínimo de 100 incêndios por dia. Ontem, da meia-noite às 18h, ocorreram 239 incêndios em Portugal continental. Na imagem do lado, retirada do website Earth Snapshop, podem identificar-se dois incêndios: um a leste do Porto e outro mais a norte, no Gerês (que viria a tornar-se num incêndio maior). A situacao é claramente anormal para esta época do ano.
    Sob pena de dizer alguma asneira sobre um assunto que nao domino, perfiro deixar o espaco aberto à reflexao e apenas enviar uma mensagem de solidariedade aos bombeiros portugueses. Eles sao verdadeiros heróis e merecem mais apreco da sociedade civil.

    quinta-feira, março 19, 2009

    O Papa e os Preservativos

    (BBC News)

    Tivessem sido dirigidas à Europa, as palavras do Papa Bento XVI sobre o uso de preservativos como forma de prevenção para o HIV teriam talvez despertado escárnio das gerações mais novas e comentadores da actualidade. No entanto, as afirmações chegaram no dia anterior ao início do périplo africano do sumo pontífice e, por esse motivo, revestem-se de uma gravidade acrescida. Basta olhar para algumas estatísticas para perceber a questão:

    Segundo a UNaids, dos 33 milhões de pessoas no mundo infectadas com o vírus da sida em 2007, 22 milhões habitam na África subsaariana. Destes, 12 milhões são mulheres com mais de 15 anos e 1 800 000 são crianças. Mormente, três quartos dos dois milhões de pessoas que morreram de doenças associadas ao vírus da sida em 2007 viviam na África subsaariana. Ontem, a agência da ONU voltou a afirmar que os preservativos são uma parte importante do combate contra o HIV, que infecta diariamente mais de 7000 pessoas.

    Conseguiríamos porventura compreender as declarações do Papa, se habitássemos um mundo ideal em que todos tivéssemos acesso às mesmas condições de educação, serviços de saúde e fossemos mesmo capazes de conter os nossos impulsos mais instintivos. Mas, felizmente ou infelizmente, o nosso mundo é tremendamente imperfeito. Principalmente em África, onde o uso do preservativo é uma questão de vida ou morte. Por isso, as palavras do Papa suscitam dúvidas se ele partilha da mesma realidade ou reside numa redoma de perfeição em que a pobreza, a ignorância e a injustiça são meros conceitos. Manter-se nessa última posicao, prejudica nao só o Papado e a Igreja Católica, mas todos aqueles que se mantém fiéis à sua doutrina. Sendo líder espíritual de uma comunidade de crentes, o Papa deveria mostrar-se mais a par da realidade humana quando desejar intervir em assuntos materiais.


    P.S.: Numa nota mais light, escolhi esta fotografia porque nela aparece a Primeira-dama dos Camarões, Chantal Byia, conhecida pelos seus elaborados penteados como bem ilustra a fotografia. Não deixa de ser irónico que critiquemos o Papa sem criticar também aqueles que fazem do poder em África um veículo de extravagâncias.

    terça-feira, março 17, 2009

    A Revolucao DIY


    Caso os vossos pais não vos tenham ensinado a pregar um prego, a arranjar um cano roto ou a endireitar uma porta empenada, então os vossos filhos encarregar-se-ão da tarefa. No futuro, todos nós teremos que, e iremos conhecer melhor os segredos da canalização, da carpintaria e da pichelaria doméstica, o chamado D-I-Y ('Do It Yourself') nos países de expressão inglesa. Essa imposição será o resultado do encarecimento de certos serviços elementares, do envelhecimento da população europeia e do aumento do nível escolar da população mundial. Hoje, porém, com a queda do sistema 'ready-made', esse movimento alarga-se para abranger também áreas não tradicionalmente associadas a este tipo de actividades, como a realização caseira de filmes (na sequência do post publicado à poucos dias sobre o 'mumblecore'), a gravação de vídeos de música 'impromtu' (como na Blogotheque) a produção e optimização das energias renováveis (instalação de painéis solares individuais), e a publicação de vinhetas de opinião e imprensa como este blog. Andy Warhol disse que 'no século XX todos nós seriamos famosos por 15 minutos'; eu digo agora que no séc. XXI, todos nós passaremos de meros consumidores a produtores.

    Uma pequena busca no google com as palavras 'DIY' ou 'DIY fest' demonstra que na América do Norte e na Europa Central existe já uma multiplicidade de festivais direccionados para a produção caseira de todo o tipo de bens. Nesses festivais apresentam-se não só os primeiros resultados do DIY, como também se organizam workshops para ensinar a audiência a fazer o upload de um vídeo para o Youtube; a reciclar um computador ou a construir um painel solar caseiro.

    Para quem ainda não estiver convencido, a revista 'TIME' desta semana aponta as 'survival-stores' como uma das 10 ideias que estão a mudar o mudar o mundo neste momento (
    http://www.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,1884779_1884782_1884768,00.html). Apesar do nome um tanto-ou-quanto ambíguo (com efeito, no google as 'survival-stores' são ainda uma reserva do midwest americano, armazéns onde se vendem bunkers nucleares, armas para combater aliens e arcas para sobreviver dilúvios), as survival-stores respondem aos desejos éticos, económicos e estéticos dos consumidores do futuro. Mais do que grandes superfícies onde se vendem mobiliário e instrumentos DIY, como a BRICO ou o IKEA, as survival-stores irão possuir também workshops de yoga, culinária saudável ou informática, centros especializados em ciclismo e desportos de aventura, consultas de medicina alternativa e, claro, uma secção com topo o tipo de apetrechos de tecnologia ecológica. No fundo, as survival-stores serão os novos centros-comerciais do bem-estar DIY. Mal posso esperar por ver essa reconversão no Norte Shopping...

    segunda-feira, março 16, 2009

    O difícil caminho para a paz

    O Primeiro-Ministro Israelita eleito, Benjamin Netanyahu, escolheu ontem o partido de extrema-direita Israel Beitenou (em português, 'Israel é a nossa casa') para formar o novo governo de coligacao. O partido, liderado pelo controverso Avigdor Lieberman - retratado ao lado, foi o grande vencedor das eleicoes no passado mês de Fevereiro, tendo emergido como terceira forca política em Israel. Segundo a imprensa local, Israel Beitenou poderá ter assegurado as pastas dos Negócios Estrangeiros (para o próprio Lieberman), da Seguranca Interna, do Turismo, das Infra-estructuras e da Imigracao.


    A decisao aponta para o endurecimento, já esperado, da postura de Israel face aos Palestinianos e ao processo de paz. A posicao defendida por Lieberman, que nasceu na Russia e chegou a ser porteiro de uma discoteca, poderia ser sumarizada como uma 'purificacao étnica' do Estado de Israel. Neste sentido, as duas propostas principais da sua campanha eleitoral foram:


    • O estabelecimento de um juramento de fidelidade ao Estado de Israel, incluindo a disponibilidade para integrar as forcas militares, por todos os Israelitas (incluindo os Israelitas Árabes que representam 15 a 20%) como condicao para a cidadania;

    • A troca dos territórios Israelitas mais habitados por Israelitas Árabes pelos colonatos nos territórios ocupados da Cisjordânia - terras essas que nao possuem, necessariamente, a mesma qualidade agricola.

    As consequências deste desenvolvimento poderao, de facto, ser trágicas para o Médio Oriente. Porém, a possibilidade continua a existir de, na eventualidade de haver negocioes sobre o 'end game', os políticos da direita israelita se demonstrarem mais preparados para tomar as díficeis decisoes do que os seus parceiros no centro. Tudo depende de como, nos primeiros meses, o novo governo Israelita se demonstrar perante o processo de paz e a nova administracao americana. Caso contrário, caso as nossas piores suspeitas sobre os senhores Netanyahu e Lieberman se vierem a confirmar, o processo de paz estará terminado.

    sábado, março 14, 2009

    Filmes para a geração Youtube


    (IFC - New York Times)



    'You're about twenty-five years old, and you're no more than, shall we say, intermittently employed so you spend a great deal of time talking with friends about trivial things or about love affairs that ended or never quite happened; and sometimes, if you're lucky, you fall into bed, or almost fall into bed and just enjoy the flirtation, with someone in the group.' Assim começa o artigo de David Denby no New Yorker da semana passada sobre um novo género cinematográfico, o chamado 'mumblecore'.

    Levando mais além a ideia de cinema independente, os filmes ‘mumblecore’ são micro-produções caseiras em que um grupo de actores, geralmente amadores, representa situações embaraçosas da vida privada. A denominação ‘mumblecore’, inventada em 2005 pelo técnico de som Eric Masunaga durante o South by Southwest Film Festival (SXSW) para descrever um filme em que tinha trabalhado, refere-se aos balbucios das personagens e captura o humor dividido entre a frustração e a expectativa dos jovens pós-universitários nos dias de hoje. A liderar o movimento encontra-se um pequeno grupo de realizadores, inseridos na mesma faixa etária, que já ganhou notoriedade para além das fronteiras do youtube e da blogoesfera. São eles: em primeiro lugar, Joe Swanberg (‘Hanna Takes the Stairs’; o explícito ‘Young American Bodies’ em que participou com a sua mulher; e 'Alexander the last', filme que será lançado esta semana); Andrew Bujalski (‘Mutual Appreciation’; ‘Funny Ha Ha’); Aaron Katz (‘Quiet City’ e ‘Dance Party USA’); e os irmãos Jay and Mark Duplass (‘The Puffy Chair’ e ‘Baghead’). Como seria de esperar a maior parte destes filmes pode ser encontrado na Internet para download (www.ifc.com) – na verdade, alguns dos realizadores pirateiam as suas próprias obras em sites.

    Sobre o potencial destes filmes para deixar uma marca profunda no panorama cinematográfico, o artigo da New Yorker deixa um grande ponto de interrogação. Devo confessar que também eu fiquei um pouco confuso depois de ver os primeiros ‘trailers’ no Youtube, mas se calhar é preciso ver um filme inteiro para conseguir apreciar o género. Em última análise, parece-me que a ideia, talvez não complemente inesperada, consegue assimilar a realidade da vida contemporânea e nesse sentido merece a nossa curiosidade. Até porque a expressão 'cinema em casa' reveste-se cada vez mais de um novo significado.

    quinta-feira, março 12, 2009

    Funny Face Yoga

    Mais uma exímia representação do já famoso blgblgblgblgblg.

    quarta-feira, março 11, 2009

    A Conferência da Década

    Esta semana, o encontro de 2000 ambientalistas ('climate scientists') em Copenhagen foi largamente ignorado pela imprensa internacional. O evento, organizado fora de qualquer agenda política, teve um duplo signficado para o nosso futuro. Em primeiro lugar, foram apresentados dados sobre a alteracao climatérica num ambiente de liberdade e honestidade ciêntifíca que porventura nao seria possível caso estivessem presentes dignatários políticos. Assim surgiu, por exemplo, a revelacao de que o nível das águas do mar está a subir a uma velocidade mais acelarada do que antes esperado. Em segundo lugar, o congresso, que se insere no programa da futura Conferência Internacional sobre a Alteracao Climatérica em Dezembro de 2009, veio preparar trabalho para esse momento definidor . O empenho de Barack Obama em liderar a revolucao ecológica do séc. XXI tem levado vários comentadores a anticipar para o final do ano o renascimento do Tratado de Kyoto, talvez num novo enquadramento, mais forte e completo. Por isso, convido-os a manter em vista o site da conferência (http://en.cop15.dk/), o blog (http://copenhagenclimateagreement.blogactiv.eu/) e já agora que estamos neste tema, a vossa pegada de carbono (http://footprint.wwf.org.uk/).

    segunda-feira, março 09, 2009

    O Efeito Wonder

    Agora que Stevie Wonder se tornou oficialmente no cantor do regime Obama (depois de, na semana passada, ter recebido o Gershwin Award for Lifetime Achievement numa cerimónia na Casa Branca transmitida em directo pela televisão), também eu decidi testar os truques do Presidente mais 'cool' desde JFK e fui a correr fazer o download de todos os 'Best of' de Stevie Wonder.

    O teste de forcas para o senhor Wonder foi logo na passada noite de quinta-feira, no jantar de desaceleração semanal com a minha madame. A música serviu de banda sonora a um caril de peixe (que quase ficou pelo caminho devido a uma falha da electricidade) e um vinho 'especial' que comprei para a ocasião. As canções lá foram tocando e devo confessar que, no começo, ambos ficamos um pouco desconfortáveis com a musicalidade lamechas, estilo balada 'à lá' anos oitenta, de temas como 'My Cherie Amour,' 'For Your Love' e 'I was made to love her'. Porém, à medida que a noite foi progredindo e a garrafa de vinho foi esvaziando, o som de Wonder ocupou a sala e cozinhou o ambiente para um belíssima noite a dois em casa.

    Alentado pelo sucesso da minha selecção musical, decidi copiar as canções para o meu Ipod e trazer a música para a rua. Aqui, é importante explicar que, na caminhada diária até ao emprego, andar com os auscultadores nos ouvidos é o equivalente a estar dentro dos reluzentes BWMs e Minis que passam ao meu lado na rua, de vidros fechados, a ouvir música no máximo volume. Há dias em que a escolha musical pende para o Brasil, geralmente com o Seu Jorge ou a Elis Regina; outros em que se concentra no rock, a Icky Thump dos White Stripes são um most nos dias de chuva ou no final de um mau dia; e outros ainda que são para a palhaçada, em que o shuffle tanto pára no Pavarotti como nos Heróis do Mar. Mas, desde que comecei a ouvir o Senhor Maravilha, a minha viagem mudou.

    O hino das 9.00 da manha é dado pelos sons combativos de 'Higher Ground'. Se passarem por mim a essa hora são capazes de encontrar um maluquinho de guarda-chuva em riste a cantar aos berros: 'People keep on learning, soldiers keep on warring, world keep on turning - cause it won't be too long.' Infelizmente, o efeito Wonder não se fica só pela cantoria, e lá para a terceira canção há fantasias de que, qual Shaft, acabo de sair das ruas perigosas do Porto para fazer justiça no Parlamento Europeu, e três shaftettes na minha cabeça sussurram o slogan: 'Diogo is his name. Diogo is his game.' Pior, aos primeiros acordes de 'Master Blaster', com a sua batida cálida de reagge, há mesmo um bater de perna, mesmo que esteja na passadeira à espera que caía o verde para peões, rodeado por outros transeuntes que também caminham para o emprego. Mas a música está tão forte que eu, indiferente a olhares um tanto ou quanto assustados, sigo pela rua num gingar desajeitado que rivaliza com o Ministry of Silly Walks de John Cleese e chego aos píncaros da alegria matinal com o compasso ritmado de 'Part-time Lover.'

    A viagem está quase a acabar mas ainda há tempo para mais uma música, a última para ficar pronto e empacotado para mais um dia de trabalho e não há dúvidas que esse tempo de antena, esse derradeiro momento de good-feeling, pertence a uma só música: 'Signed, Sealed, Delivered, I'm Yours.' E assim lá vou eu, na subida para a porta do Parlamento, a quebrar a atmosfera sisuda de Bruxelas, dos que encaram a manha de segunda-feira com o pescoço curvado e os olhos no chão, com um sorriso enorme da cara e a festa do efeito Wonder a 'bombar' dentro a minha cabeça. Não tenho dúvidas que quem se cruze comigo me considere um tudo-nada deslocado da realidade, mas esse pequeno sacrifício da imagem é inteiramente justificado por um melhor início da semana. Enfim, acho que basta ler as duas primeiras estrofes de 'Master Blaster' para perceberem de que estou a falar:

    'Everyone's feeling pretty
    It's hotter than July
    Though the world's full of problems
    They couldn't touch us even if they tried
    From the park I hear rhythms
    Marley's hot on the box
    Tonight there will be a party
    On the corner at the end of the block

    Didn't know you
    Would be jammin' until the break of dawn
    I bet nobody ever told you that you
    would be jammin' until the break of dawn
    You would be jammin' and jammin' and jammin', jam on''

    Boa semana!

    sábado, março 07, 2009

    Passou-se ontem no Parlamento Europeu

    Hillary Clinton deu ontem um enorme 'boost' ao Parlamento Europeu ao escolher fazer lá a sua primeira aparição na Europa como Secretária de Estado Norte-Americana. Foi numa sessão chamada 'The Next Generation' em que participaram 800 jovens de toda a Europa. Eu não estava nesta sala - apenas convidados - mas não andava longe. Este foi talvez o momento mais curioso de toda a conferência: a sessão de perguntas já tinha acabado, mas Hillary decidiu dar a palavra a um rapaz que dizia na t-shirt 'I love Hillary'. Eis senão quando reparo que uma compatriota nossa estava sentada ou lado dele - Joana diz-lhe que os Portugueses estão aqui!

    sexta-feira, março 06, 2009

    A Crise Californiana e a Revolucao Ecológica


    A revelação, esta semana, de que a economia americana continuou a deteriorar-se nos meses de Janeiro e Fevereiro, lembrou-me imediatamente deste mapa com as taxas de desemprego nos EUA. O que mais me impressionou nele foi a evidência de que a crise nao afecta os EUA como um todo, mas sim alguns 'pockets', nomeadamente na costa ocidental, no sudoeste e à volta de Detroit, em Michigan. Na verdade, ao longo das últimas semanas tenho vindo a ler mais e mais notícias acerca das consequências da crise na California, a oitava maior economia mundial.


    O sucesso do estado era largamente atribuído a quatro sectores: a indústria cinematográfica; a agricultura; a investigacao tecnológica; e o investimento imobiliário. Neste sentido, é compreensivo que a explosao da bolha do mercado imobiliário tenha acarretado consigo consequências trágicas para a economia da California. Um artigo que li na revista 'Newsweek' da semana passada chamava ao estado: 'Foreclosure Lane.' Porém, o artigo dizia também que o estado assumia agora a linha da frente do investimento nas novas energias. Por exemplo, por cada dollar do PIB, a California emite já menos 20% gases do que alguns dos países mais ecológicos do mundo como a Alemanha. Tendo em conta que a nova administracao americana definiu a obtencao de uma economia verde como o ponto central do seu plano de recuperacao, podemos antever que o trajecto passará, desde logo, pela revitalizacao da California. Para além do mais, um dos pontos mais interessantes da conferência que assisti na semana passada, em que estava presente o representante da Arábia Saudita na OPEC, foi que a actual quebra no preco de petróleo será certamente sucedida por uma explosao sem precedentes nesse preco. Por outras palavras: 'Nao se iludam com estes precos, porque o petróleo caro irá ter a sua vinganca no futuro'.


    Destes elementos podemos talvez retirar duas ilacoes: a primeira é de que a economia californiana é fundamental para o bem-estar económico do planeta e assim, o sucesso da revolucao ecológica no estado é essencial para que esta também triunfe no resto do mundo; a segunda conclusao é que, partilhando com a California algumas características, climatéricas e até económicas, Portugal deve acompanhar este desenvolvimento com atencao. A estratégia de investimento nas novas energias tem dado a Portugal uma vantagem estratégica no mercado que poderá traduzir-se num boom económico para o país quando a California, e o mundo, sair da crise. No entanto, os portugueses nao devem ficar à espera que o Estado faca essa reconversao por eles, mas devem tirar partido dos incentivos agora concedidos pelo Governo e pela Uniao Europeia para adoptar a sua vida à era verde. Com efeito, estes elementos levam-nos a crer que os investimentos nesta área, por muito pequenos que sejam (como a instalacao de paineis fotovoltaicos nas nossas casas ou prédios), serao recompensados no futuro.
    Por fim, aproveito esta ocasiao para fazer publicidade ao evento Earth Hour, que terá lugar no Sábado, dia 28 de Marco, entre as 8.30 e as 9.30 da noite. Ao desligar as luzes durante essa hora, cada um de nós terá a oportunidade de votar por um empenho maior no combate ao aquecimento global. Mais informacao no site: www.earthhour.org

    quinta-feira, março 05, 2009

    Por uma unha negra

    Bem, isto é que é ter sorte! Aconteceu esta semana na Turquia.

    terça-feira, março 03, 2009

    Um Karma para o Século XXI


    John Maeda estava ainda a fazer o doutoramento em Web Design no MIT quando se apercebeu que a procura pela simplicidade estava a mudar a nossa vida. Como o próprio explica no prefácio deste livro curioso, The Laws of Simplicity, a vantagem do Ipod em relacao a outros MP3 Players mais baratos e com mais funcoes era o seu mecanismo simples e acessivel a todos. Essa simplicidade está patente em muitas outras histórias de sucesso da nossa era como o Google e as sucessivas versoes do Windows. Desde modo, o autor decidiu estabelecer as 10 regras de simplicidade que devem nao só orientar investimentos nas novas tecnologias, mas também a nossa vida quotidiana. Aqui ficam essas 10 regras assim como o link para o seu blog: www.lawsofsimplicity.com:

    1 - Reduce: The simplest way to achieve simplicity is through thoughtful reduction.

    2 - Organize: Organisation makes a system of many appear few.

    3 - Time: Savings in time feel like simplicity.

    4 - Learn: Knowledge makes everything simpler.

    5 - Differences: Simplicity and complexity need each other.

    6 - Context: What lies in the periphery of simplicity is definitely not peripheral.

    7 - Emotion: More emotions are less than none.

    8 - Trust: In simplicity we trust.

    9 - Failure: Some things can never be made simple.

    10 - The One: Simplicity is about subtracting the obvious and adding the meaningful.

    quinta-feira, fevereiro 26, 2009

    O Caozinho Feio

    Lembro-me de pensar que o Cao de Água Português era sinceramente feio. Logo à primeira vista, o animal tinha uma embaracosa parecenca com o Caniche, Poodle ou ainda Rei dos Caes Tenebrosamente Horríveis Adquiridos por Pessoas de Gosto Dúvidoso com Ambicoes Sociais Optimistas - agora destronado pelo Chihuhuahua (a ideia deixou de ser: 'a minha casa é tao linda que ate tem uma sanita de mármore com um belíssimo assento de pelúcia', para ser: 'estar acompanhado de um animal tao feio, faz-me parecer bonito(a)'. Antes fosse que esse tipo de projeccoes influenciasse a forma as mulheres escolhem um homem do que um cao... mas enfim, representacoes do animal enquanto extensao capilar das próprias donas prejudicou fatalmente a minha opiniao sobre o dito bicho. Mais a mais, essa semelhanca física nao era suficientemente próxima para revelar algum digno grau de parentesco entre as duas racas, de modo que o Cao de Água Português se apresentava quase sempre como a versao rasca do segundo, como o primo mal-vestido e mal-educado, filho DAQUELA tia que se infiltrou na família, e que geralmente fica sentado a um canto nos casamentos. Acima de tudo, o Cao de Água Português sofria dessa grande mal que era ser Português, facto que, para pior dos males, nao podia esconder visto constar do seu próprio nome, e que o tornava indesejável aos olhos de muitas boas e nobres famílias.
    Porém, tudo isso mudou esta manha quando foi finalmente revelado que o First Dog escolhido por 'Sasha e Malia' era nada mais, nada menos, do que Cao de Água Português. Aos poucos, enquanto lia as descricoes do bichinho no site BBC News, no New York Times e no El País (a notícia foi dada pela Primeira Dama numa entrevista à revista People e saí hoje na capa), comecei a descubrir a sua beleza salgada. Aparentemente, o animal tem um espírito determinado, é corajoso e incansável e até Ted Kennedy, o último bastiao dessa dinastia de bom gosto e rectidao moral, tem dois. Bem, no final disto tudo, já achava o cao um animal brilhante e, devo confessar, queria um também. Nao o preto, mas um de cor diferente, talvez houvesse já uma mutacao em cor de vinho proveniente de um lugar qualquer no Canadá. Em Portugal, estou já a imaginar as manchetes dos jornais da tarde na televisao: 'Sasha e Malia já escolheram e o Primeiro Cao vai mesmo ser Português (exclui-se a parte 'Cao de Água')', seguindo depois a reportagem com o criador nos Azores que teve uma ninhada e vai enviar um deles para o Presidente dentro de uma garrafa , e depois uma entrevista com duas meninas na Covilha que também têm um cao da mesma raca e que o baptizaram de 'Obama', mas que é mais conhecido na rua como o 'Preto'.

    Moral desta digressao aparentemente lunática sobre um tema absolutamente supérfluo: hoje é o Cao de Água, ontem foi o Ronaldo, o Mourinho, o Pedro Pinto, a Paula Rego, o vinho do Porto - os portugueses ainda precisam da aceitacao exterior para aprovar e admirar o que é seu. Apenas porque foi votado ao abandono, é que o Cao de Água Português, um animal que carrega o legado da cultura pescatória portuguesa, se tornou no objecto de mau gosto de pessoas em outros locais do mundo. Pessoas essas que, apesar de tudo, o amaram e preservaram a raca. É por isso que sinto uma certa revolta quando os meios de comunicacao Portugueses se vanglorizam agora com o facto do Cao de Água Português ser o First Dog da era Obama.

    segunda-feira, fevereiro 23, 2009

    Taking the Slum out of 'Slumdog'


    Agora que o filme foi finalmente consagrado com oito (!) Oscars, podemos concentrarmos-nos na temática e controvérsia gerada em torno do mesmo. Neste artigo, publicado ontem no The New York Times, Matias Echanove and Rahul Srivastava, membros da organizacao 'Partners for Urban Knowledge Action and Research', escrevem sobre o que entendem ser uma perspectiva ocidental sobre uma realidade intrinsicamente oriental. Na verdade, mais do que representar uma tragédia humana como muitos ocidentais insistem, os 'subúrbios' de Bombaim sao, para muitos Indianos (e falo de experiência própria pois, já em 2005 quando estive na India, ouvi estas ideias) exemplos da 'Indian Beauty'. Talvez será mais fácil compreender esta ideia se nos lembrarmos das divertidas descricoes de Jorge Amado sobre as favelas do Brasil, tao repletas de vida como geniais do ponto de vista urbano. Ou como canta Seu Jorge: 'A favela, nunca foi reduto de marginal':


    IT does not take much to galvanize protest against a movie in India, but few thought the word “slumdog” would cause so much anger — especially as hundreds of Bollywood titles translate into much worse slurs. We had to pay attention, though, when friends from Mumbai’s sprawling Dharavi area joined hands with those demonstrating against the Oscar-nominated film “Slumdog Millionaire.” The Indian media widely reported that the outrage was over the word “dog.” But what we heard from Manju Keny, a college student living in Dharavi, was something else. She was upset at the word “slum.” We could not agree more.
    In truth, the movie never claims to be a portrait of Dharavi, though some of the most spectacular scenes were shot there, including depictions of the anti-Muslim riots of 1992. The director, Danny Boyle, constructs a cinematic slum out of many pockets around Mumbai. The opening sequence has children playing near the airport, being chased by policemen and ending up — in a moment of pure Hollywood magic — a few miles away in Dharavi.
    The imagery represents what most middle-class residents of Mumbai (and now all over the world) imagine Dharavi to be. The urban legend of its squalor has taken root because few Mumbaikers have ever been there — just as most Manhattanites still avoid stepping anywhere near Bedford-Stuyvesant, that beautiful neighborhood in Brooklyn. Times may have changed since the mid-’70s, when the community worker Barry Stein described Bed-Stuy as the “largest ghetto in the country,” but prejudices die hard, in New York and India.
    Its depiction as a slum does little justice to the reality of Dharavi. Well over a million “eyes on the street,” to use Jane Jacobs’s phrase, keep Dharavi perhaps safer than most American cities. Yet Dharavi’s extreme population density doesn’t translate into oppressiveness. The crowd is efficiently absorbed by the thousands of tiny streets branching off bustling commercial arteries. Also, you won’t be chased by beggars or see hopeless people loitering — Dharavi is probably the most active and lively part of an incredibly industrious city. People have learned to respond in creative ways to the indifference of the state — including having set up a highly functional recycling industry that serves the whole city.
    Dharavi is all about such resourcefulness. Over 60 years ago, it started off as a small village in the marshlands and grew, with no government support, to become a million-dollar economic miracle providing food to Mumbai and exporting crafts and manufactured goods to places as far away as Sweden.
    No master plan, urban design, zoning ordinance, construction law or expert knowledge can claim any stake in the prosperity of Dharavi. It was built entirely by successive waves of immigrants fleeing rural poverty, political oppression and natural disasters. They have created a place that is far from perfect but has proved to be amazingly resilient and able to upgrade itself. In the words of Bhau Korde, a social worker who lives there, “Dharavi is an economic success story that the world must pay attention to during these times of global depression.”
    Understanding such a place solely by the generic term “slum” ignores its complexity and dynamism. Dharavi’s messy appearance is nothing but an expression of intense social and economic processes at work. Most homes double as work spaces: when morning comes, mattresses are folded, and tens of thousands of units form a decentralized production network rivaling the most ruthless of Chinese sweatshops in efficiency. Mixed-use habitats have often shaped urban histories. Look at large parts of Tokyo. Its low-rise, high-density mixed-use cityscape and intricate street network have emerged through a similar Dharaviesque logic. The only difference is that people’s involvement in local development in Tokyo was seen as legitimate.
    Building on what exists, rather than clearing it for redevelopment, may preserve not only the character of a place but also its economic vibrancy. In Dharavi, it would allow all residents to leverage their most precious asset: a place to live and work. Slum-rehabilitation projects in Mumbai often end up creating new slums elsewhere as they increase real-estate value in the places they redevelop.
    In the movie, when the protagonists return to their childhood haunts, they find that multistoried apartments have replaced the old decrepit structures, giving the impression of urban mobility and transformation. What the camera doesn’t reveal are the enormous shantytowns hidden behind those glistening towers, waiting to be redeveloped all over again.
    In many ways, Dharavi is the ultimate user-generated city. Each of its 80-plus neighborhoods has been incrementally developed by generations of residents updating their shelters and businesses according to needs and means. As Ramesh Misra, a lawyer and lifelong resident, puts it: “We have always improved Dharavi by ourselves. All we want is permission and support to keep doing it. Is that asking for too much?”




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    terça-feira, fevereiro 17, 2009

    Afogar as mágoas japanese-way

    O ministro da economia japonês foi hoje forcado a apresentar a demissao apos a suspeita de que estaria bebado na conferência de imprensa da reuniao do G7. Embora Shoichi Nakagawa tivesse admitido que o seu estado fosse improprio para a ocasiao, manteve que nao se deveu ao consumo de alcool. Segundo o propio, terao sido os varios comprimidos que consumiu nessa manha os responsaveis pela 'oura'. De uma maneira ou de outra, ficamos com uma ideia bem tremida do que terao sido as discussoes sobre a crise economica...

    domingo, fevereiro 15, 2009

    (Nearly) nothing to fear but fear itself, por Olivier Blanchard

    Num artigo publicado há duas semanas na revista The Economist, o distinguido professor de macro-economia do MIT e economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, oferece-nos um visão clara e pertinente sobre a presente crise económica:


    CRISES feed uncertainty. And uncertainty affects behaviour, which feeds the crisis. Were a magic wand to remove uncertainty, the next few quarters would still be tough (some of the damage cannot be undone), but the crisis would largely go away.


    From the Vix index of stockmarket volatility (see chart), to the dispersion of growth forecasts, even to the frequency of the word “uncertain” in the press, all the indicators of uncertainty are at or near all-time highs. What is at work is not only objective, but also subjective uncertainty, or what economists, following Chicago economist Frank Knight’s early 20th-century work, call “Knightian uncertainty”. Objective uncertainty is about what Donald Rumsfeld (in a different context) referred to as the “known unknowns”. Subjective uncertainty is about the “unknown unknowns”. When, as today, the unknown unknowns dominate, and the economic environment is so complex as to appear nearly incomprehensible, the result is extreme prudence, if not outright paralysis, on the part of investors, consumers and firms. And this behaviour, in turn, feeds the crisis.

    It affects portfolio decisions. It has led to a dramatic shift away from risky assets to riskless assets, or at least assets perceived as riskless. It sometimes looks as if investors around the world only want to hold American Treasury bills. Why? At the start was the realisation that many of the new complex assets were in fact much riskier than they had seemed. This realisation has now morphed into a general worry about nearly all risky assets, and about the balance-sheets of the institutions that hold them. “Better safe than sorry” is the motto. Unfortunately, while the motto may make sense for individual investors, it is having catastrophic macroeconomic consequences for the world. It is triggering enormous spreads on risky assets, a credit crunch in advanced economies, and major capital outflows from emerging countries.


    It affects consumption and investment decisions, and is largely behind the dramatic collapse in demand we have observed over the last three months. Sure, consumers have lost a good part of their wealth, and this is reason enough for them to retrench. But there is more at work. If you think that another Depression might be around the corner, better to be careful and save more. Better to wait and see how things turn out. Buying a new house, a new car or a new laptop can surely be delayed a few months. The same goes for firms: given the uncertainty, why build a new plant or introduce a new product now? Better to pause until the smoke clears. This is perfectly understandable behaviour on the part of consumers and firms—but behaviour which has led to a collapse of demand, a collapse of output and the deep recession we are now in.





    So what are policymakers to do? First and foremost, reduce uncertainty. Do so by removing tail risks, and the perception of tail risks. On the portfolio side, establish a price, or at least a floor on the price, of the troubled assets. Ring-fence them or take them off bank balance-sheets. On the consumption side, commit to do whatever it will take to avoid a Depression, from fiscal stimulus to quantitative easing. Commit to do more in the future if necessary. Above all, adopt clear policies and act decisively. Do too much rather than too little. Delays in financial packages have cost a lot already. Further rounds of debate will stoke uncertainty and make things worse.



    Second, undo the effects of uncertainty on the portfolio side, and help recycle the funds towards risky assets. The standard advice here is to return the private financial sector to health through recapitalisation. That is absolutely right, but easier said than done. And, while damage is slowly repaired, it makes sense for states to recycle part of the funds themselves. To caricature: if the world loves American Treasury bills but the funds would be more useful elsewhere, then the government should issue the bills, and use the proceeds to channel the funds where they are needed. It should buy some of the riskier assets, and return some of these funds back to emerging-market countries to offset capital outflows. This is indeed close to what America’s Federal Reserve is now doing with quantitative easing at home and swap lines to foreign central banks. The only difference is that the Fed issues money rather than treasury bills in exchange for its purchases. It would make more sense for the Treasury to be involved, and to separate more clearly the role of fiscal and monetary policy, but, in the current state of play, this is a minor wrinkle. Either will do.



    Retail therapy
    Third, undo the effects of the wait-and-see attitudes of consumers and firms on the demand side. Get them to spend more, and have the state do some of the spending itself. Offer incentives to buy now rather than later; for example, temporary subsidies to consumers who turn in a clunker and buy a new car, a measure adopted in France. Increase spending on public infrastructure, a central component of President Barack Obama’s programme. Both types of measures are indeed present in the fiscal programmes more and more countries are putting in place. If tailored and communicated well, these programmes cannot only stimulate and replace private demand, but also convince consumers and firms that they are not in for another Depression. This will ensure that they stop waiting and start spending again.



    Coherent financial, fiscal and monetary measures are all needed. All three will have direct effects on demand. But, as importantly, they will help reduce uncertainty, lower risk spreads, and get consumers and firms spending again. If policymakers act decisively, private demand will recover sooner rather than later. And, within a year or less, we can be on the path to recovery.
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    quarta-feira, fevereiro 11, 2009

    Ou a Paz pela Guerra (Segunda Parte)

    Este artigo, que sucede o post publicado em Janeiro sobre a ofensiva Israelita sobre Gaza (pode ser encontrado nos arquivos), foi escrito há mais de duas semanas atrás. Hoje, quando os primeiros resultados (ainda não totalmente certos) dão a vitória a Tzipi Livni nas urnas Israelitas, parece-me mais actual do que nunca uma leitura do conflicto israelo-árabe sobre o prisma político.




    Segunda Parte:


    Sobre a luz desta teoria, podemos agora olhar com maior claridade para a história da região nos últimos meses. Na verdade, o presente conflito tem mais que ver com a evolução da política interna em Israel e nos Territórios Palestinianos do que com considerações geopolíticas do século XXI. Comecemos então com Israel. Em Julho do ano passado, após a revelação pública do envolvimento de Ehud Olmert, actual Primeiro-Ministro, num processo de corrupção, são convocadas novas eleições para a liderança do partido centrista Kadima. Em Setembro de 2008, a Ministra dos Negócios Estrangeiros, Tzipi Livni ganha as eleições internas do Kadima por uns meros 431 votos (1%) e começa negociações tendo em vista a renovação da coligação de governo. Porém, os partidos mais conservadores, nomeadamente o Shas, Meretz-Yachad e o Judaísmo Unido da Torah, decidem abandonar a coligação e alinhar com o Likud, agora liderado por Benjamin Netanyahu. Deparando-se então com um impasse político, o Presidente do Estado de Israel, Shimon Peres, convoca eleições legislativas para Fevereiro de 2009.


    Nas semanas seguintes, as sondagens revelam a sucessiva perda de popularidade de Livni face à ascensão de Netanyahu, descortinando uma eventual reviravolta nas altas esferas políticas de Israel. As consequências desse desfecho para o processo de paz adivinhavam-se catastróficas. Com efeito, não é a primeira vez que tal cenário se apresenta. Entre 1996 e 1999, Benjamin Netanyahu foi Primeiro-Ministro de Israel, sendo hoje considerado como o mais conservador que alguma vez ocupou o cargo. A sua posição face aos Palestinianos ficou conhecida como a postura dos “três nãos: não à retirada dos Montes Golans; não às negociações sobre Jerusalém; e não às negociações com pré-condições.” Nas memórias de Dennis Ross, o assessor de Bill Clinton para o Médio Oriente, Netanyahu surge não só como uma personagem ‘intratável’, mas como o grande culpado pelo impasse em que caíram as negociações no final dos anos 90. A provável reeleição de Netanyahu como Primeiro-Ministro em Fevereiro de 2009 certamente acarretaria consigo semelhantes, ou porventura piores, efeitos para o processo. Isto porque já não estamos nos anos 90 e a conjuntura internacional, nomeadamente no Médio Oriente, sofreu uma grave deterioração.


    Entretanto, o Hamas, envolto na velha contenda com a Fatah pelos ‘hearts and minds’ dos palestinianos, decide não renovar o cessar-fogo celebrado com Israel em Junho de 2008. Deste modo, o Hamas pretende alcançar dois objectivos. Por um lado, declara o final do mandato de Mahmoud Abbas e reclama a convocação imediata de eleições nos territórios palestinianos, acreditando que poderá tomar o governo não só na faixa de Gaza, mas também na Cisjordânia. A chegada do Hamas ao poder significaria, desde logo, um regresso do processo de paz ao ponto inicial. Com efeito, o movimento não subscreve a Declaração de Princípios de 1993, na qual Arafat (Fatah) reconheceu o direito de Israel existir no território. Pelo contrário, o Hamas define-se pela reclamação do estado Palestiniano em todo o espaço hoje ocupado por ambos Israel e pela Autoridade Palestiniana.



    Porém, e acima de tudo, o lançamento sucessivo de rockets e mísseis contra o sul de Israel destinaram-se a enfraquecer a posição da recém-eleita Livni e do ‘campo de paz’ no país vizinho. O sucesso da estratégia é ilustrado pela mobilização da opinião pública israelita contra a tolerância do governo face ao ‘terrorismo’ palestiniano e a um processo de paz errático. Ao mesmo tempo, a táctica do Hamas fortalece a posição de Netanyahu nas sondagens e aproxima o final do processo de paz. É certo que não passou também despercebido ao Hamas o final de mandato de George W. Bush, o grande promotor desta iniciativa de paz. A chegada à Casa Branca de um novo líder que prometia um ‘mudança’ na forma da América se relacionar com o mundo (leia-se, uma transformação nas relações com o Irão e possivelmente também com o Hamas) incitava à antecipação da rotura com o actual processo de paz e a uma reformulação das posições no Médio Oriente.


    Perante esta conjuntura, restam apenas duas alternativas a Tzipi Livni: tentar renegociar com o Hamas o cessar-fogo, sobre elevadas probabilidades de falhar e eventualmente perder as eleições em Israel; ou fazer uma demonstração de forças em Gaza para provar ao Hamas (e também aos Iranianos) que está atenta, mas sobretudo para reconquistar a confiança do povo Israelita. Entre as duas, optou pela última. Desde de então, os eventos desenrolaram-se perante nós com uma cadência dramática que, julgo eu, apanhou de surpresa Palestinianos e Israelitas. Nos jornais e nas televisões, comentaristas das mais diversas origens denunciaram Israel, acusaram o Hamas e dissertaram sobre a ‘insolvência do problema’. Até porque, em larga medida, a estratégia jogou contra os interesses dos que defendem o processo de paz: a opinião pública mundial tornou-se contra Israel e a sua cara mais visível, Tzipi Livni; o Hamas não foi exterminado, mas pelo contrário, afirmou-se como o genuíno defensor da causa palestiniana; e um re-enegrecimento das relações entre as populações da faixa de Israel, Gaza e da Cisjordânia.


    Porém, no objectivo a que se propôs atingir, a estratégia está perto de alcançar sucesso. Foi esse o propósito de manter o Kadima no poder e assim salvar o processo de paz. Uma sondagem realizada recentemente mostra que Netanyahu mantém a liderança nas sondagens (com 29 lugares dos 120 no Parlamento Israelita), mas demonstra que Livni está agora mais perto da vitória (25 lugares). De qualquer forma, uma margem pequena entre os dois partidos possibilita não só a entrada de um partido mais conciliatório numa eventual coligação de governo, como também a formação de uma maioria governante pelo Kadima e porventura os Trabalhistas. Logo, as próximas duas semanas, as últimas antes das eleições, serão decisivas para o futuro do Médio Oriente. Contudo, em última análise, queda a pergunta se os fins, mesmo para alcançar um bem tão prezado como a Paz, justificam os meios, nomeadamente a morte de inocentes. Eu prefiro pensar que não, mas compreendo os que pensam que sim.


    Texto e fotografia: Diogo Lemos

    segunda-feira, fevereiro 09, 2009

    F.C.Porto 1 - 1 Benfica: Portistas seguram liderança com um penálti falso

    O título não é meu. É do 'Público online' às 21:37 de ontem, pouco depois do final da partida (presumivelmente estará hoje na edição impressa do jornal). O autor do artigo, publicado como 'notícia', é o jornalista Bruno Prata, que pouco deixa a adivinhar sobre a sua afiliação clubística: desde 'Pedro Proença (o árbitro) não fez jus ao antigo cartão de sócio', ao 'símbolo do Benfica demasiado pequeno e desproporcionado' nos ecrãs do estádio que não teve correspondência no campo, até à 'facilidade insultante' com que o Benfica controlou o jogo. É verdade, não percebo muito de futebol; mas posso afirmar com confiança que este relatório não ilustra o jogo que vi na televisão. Acima de tudo, parece incrível que um jornal que se refere 'de qualidade' tenha a prepotência ou a falta de bom-senso para publicar um artigo incrivelmente parcial. Por esse motivo, deixei o meu comentário no site do jornal, convido-os a fazer o mesmo:

    quinta-feira, fevereiro 05, 2009

    A Natureza como Arte

    ('The Loss of the Lisbon Rhinoceros', 2008, Walton Ford)

    O New Yorker da semana passada apresenta o pintor Walton Ford, a nova coqueluche da arte Norte-Americana. Segundo o artigo, o tríptico acima exibido, entitulado 'The Loss of the Lisbon Rhinoceros', terá sido o centro das atenções da sua última exposição, na Paul Kasmin Gallery de Chelsea. O quadro inspira-se em relatos da viagem em 1915 da embaixada do Rei Don Manuel II de Portugal ao Papa Leão X. Reza a história que uma das naus, onde incidentalmente seguia este animal, o primeiro rinoceronte visto em toda a Europa desde o tempo dos Romanos, naufragou ao largo de Genova. Ford ilustra a tragédia do ponto de vista do animal que ergue a cabeça para desvendar os primeiros contornos de terra firme, sabendo que não a poderá alcançar pois está agrilhoado ao mastro do navio. No fundo, e como nos leva a crer o New Yorker, toda a obra de Ford se concentra no sofrimento provocado pela acção do Homem sobre a natureza. A técnica usada é a aguarela, seguindo a tradição dos gravuristas da vida animal, nomeadamente John James Audubon, o primeiro a contextualizar os sujeitos com uma narrativa:

    ('Pinned Grous', J.J. Audubon)

    O resultado final de Ford, e a sua contribuição para a História da Arte, é alcançado através da harmonização destas gravuras com o dramatismo operático do pintor neo-clássico françês, Theodore Géricault:

    ('The Raft of the Medusa', Theodore Géricault)

    O resultado parece-me muito interessante, não só pela contemporâneadade do tema mas sobretudo pelo meu próprio fascínio pela vida animal. Tal como Ford que passou a infância a observar as gravuras de Audubon, também eu passei a minha acompanhado do Fábulas de La Fontaine que o meu avô me ofereceu. Esse fascínio pela magia da natureza reencontra-se agora com estas imagens.

    segunda-feira, fevereiro 02, 2009

    As melhores notícias 'não-essenciais' desta segunda-feira

    (More than 1000 people lined up in Miami to apply for 35 open firefighter positions - 'NYTimes')

    'Children paying price for adults' pursuit of success, report says', The Guardian:
    http://www.guardian.co.uk/society/2009/feb/02/children-wellbeing-success

    'Telmo Moreira ganha prémio do público no Prix de Lausanne', Público:
    http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1358378

    'In Bolivia, a tight grip on the next big resource', New York Times:
    http://www.nytimes.com/2009/02/03/world/americas/03lithium.html?_r=1&hp

    'Sonntag: The Precocious Years', New York Times:
    http://www.nytimes.com/2009/02/01/books/review/Sante-t.html

    'A distania Reuters acabou, mas a agência continua a dar notícias, incluindo esta', Público:
    http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1358449

    quarta-feira, janeiro 28, 2009

    Velocidade global


    Ainda ontem publiquei um post sobre a reestruturação da política externa dos EUA por Barack Obama, nomeadamente através da abertura ao diálogo no Médio Oriente, e hoje chegam já os primeiros resultados. A impressão que fica é de resultados mistos: por um lado, a Russia anunciou a suspensão do plano para colocar mísseis no seu enclave de Kaliningrad, entre a Lituânia e a Polónia, face à boa vontade da nova administração em Washington; por outro lado, o Presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, aproveitou para fazer um rol de acusações contra os EUA e exigir um pedido oficial de desculpas pelos 'crimes' cometidos contra o povo iraniano. O correspondente da BBC em Teerão descreveu o discurso como um dos mais duros alguma vez proferidos pelo Presidente contra os EUA. No entanto, Ahmadinejad mostrou-se esperançoso com a possibilidade de mudança em Washington. Por isso, fica a dúvida se o discurso é realmente uma posição de forças em Teerão ou um mero espectáculo para agradar ao eleitorado iraniano que irá a eleições em Junho. Ficaremos atentos.

    terça-feira, janeiro 20, 2009

    Um dia na história


    Prince Estabrook era um escravo que no dia 19 de Abril de 1775 se tornou no primeiro homem negro à lutar pela independência americana. Tirei esta fotografia na pequena cidade de Lexinton, perto de Boston, em Massachusetts, onde exactamente começou a revolta das colónias norte-americanas contra o Império Britânico. No dia em que Barak Obama se torna no primeiro Presidente negro dos EUA, não posso deixar de pensar em todos aqueles que contribuíram para que se chegasse a este momento histórico. Mais do que encetar um novo começo, a 'inauguração' de Obama reinvindica a história. Porventura seja isso que mais nos inspira neste dia na história.

    terça-feira, janeiro 13, 2009

    A Guerra pela Paz

    Numa das últimas aulas que tive na LSE sobre o conflito israelo-árabe, o professor Sumantra Bose, director do departamento de Governo e autor de inúmeros livros sobre resolução de conflitos, disse-nos que o fracasso de processos de paz no Médio Oriente invariavelmente preconizava uma nova escalada de violência. Segundo essa lógica, o esgotamento da esperança na diplomacia abriria espaço para aqueles que promulgavam apenas a solução militar para o conflicto, ou até mesmo tiravam partido da manutenção do status quo para alcançar posições de comando em ambos os lados do conflito. Foi assim em 2001, quando Ariel Sharon aproveitou a quebra das negociações entre Yasser Arafat e Ehud Barak em Camp David para visitar o Monte do Templo em Jerusalém, epicentro do conflicto, incitando o início da segunda Intifada e conseguindo a sua eleição meses mais tarde como Primeiro-Ministro pelo partido da direita israelita, Likud.

    Hoje, enquanto a ofensiva israelita prossegue sobre a cidade de Gaza e o número de mortos palestinianos se encavalita sobre o milhar, parece-me que a memória desse fracasso está mais viva do que nunca entre o dito 'campo de paz'. Se é certo que a presente operação é descendente directa da guerra fria entre Tel Aviv (e Washington) e Terão e da desastrosa invasão do Líbano em 2006, é também indiscutível que a ofensiva de Gaza representa uma última tentativa de evitar o fracasso de mais um processo de paz. Lançada em 2007 na conferência de Annapolis por George W. Bush e Condolezza Rice, a iniciativa de paz tinha como objectivo a concretização da 'two-state solution' para o território: aos Palestinianos caberia a responsabilidade de respeitar o direito de Israel existir, ao passo que os Israelitas deveriam criar as condições necessárias para o estabelecimento de um Estado viável na Cisjordânia ('West Bank') e na Faixa de Gaza. Apesar das óbvias reticências de ambas as partes em relação ao plano, nomeadamente a dificuldade em imaginar a viabilidade de um estado palestiniano dividido em dois e cercado por um forte aparato militar, os desejos de alcançar a paz ou de transformar positivamente a tão antiga disputa, inspirava alguma esperança. Porém, o processo de paz padecia de uma fragilidade maior, na altura salientada por alguns comentadores e especialistas na região, nomeadamente pelo meu professor.

    Diriam estes que a paz não será alcançada sem o envolvimento de todas as partes, entre as quais se destacam as facções mais violentas e radicais do conflito, os ditos ‘terroristas’, nas negociações. Subentende-se, é claro, o respeito por alguns critérios mínimos para que esses grupos possam participar das negociações. Porém, a sua inclusão é essencial para o sucesso do processo, como nos demonstra o caso do IRA nas negociações de paz na Irlanda do Norte. Na teoria, esta posição tem por base três argumentos. Em primeiro lugar, salienta-se que o processo de paz visa geralmente a extinção das actividades dos chamados grupos ‘terroristas’ e não as das facções mais moderadas de cada lado. Por exemplo, no caso do conflito israelo-árabe, o processo de paz visa o fim dos ataques protagonizados pelos grupos mais radicais em Gaza e na Cisjordânia, nomeadamente pelo Hamas, e não daqueles que já aceitaram os princípios básicos de negociação – Fatah, vulgo ‘Autoridade Palestiniana.’ Em segundo lugar, a exclusão destes grupos do processo de paz irá apenas reforçar a sua motivação para continuar ou intensificar esses ataques como forma de retaliação. O já famoso desvio de fundos internacionais pelos dirigentes da Fatah justifica por si só, para a população em geral e para os excluídos em particular, a rejeição do processo. E por fim, no caso de delicados e prolongados processos de paz como é o caso do conflito israelo-árabe, de Caxemira ou do Sri-Lanka, grupos externos às negociações tendem a beneficiar, em termos de apoio popular, com o fracasso dos participantes nas negociações. Ora, estando o roteiro de paz repleto de momentos de vulnerabilidade, grupos externos irão certamente certificar-se de reduzir as hipóteses de sucesso do processo em cada um desses momentos.
    Fim da Primeira Parte
    Texto e Fotografia: Diogo Lemos

    quarta-feira, dezembro 10, 2008

    O Elogio da Memória

    Por vezes é fácil esquecer os grandes processos de transformação da história em revés de momentos explosivos, aparentemente herméticos no tempo e quase sempre estéreis de justificação em si só. Os Eventos, quantitativamente em ascensão na nossa era, carecem de apêndices complexos, de digressões por estórias obscuras e, frequentemente, incómodas, de vácuos expostos à interpretação. São evidências indiscutíveis, presenciadas identicamente por homens e mulheres em redor do planeta como se todos possuíssem livres de trânsito para o polémico espectáculo da matinée ou da soirée – dependendo do meridiano em que cada qual se encontra. Ignorando a história e desprezando o futuro, a audiência regozija com a tremenda honra de presenciar o evento, de fazer parte da própria história, de, ouvir-se-ia entre a multidão no final da sessão, ‘ver aquilo com os próprios olhos.’ Na altura, consolam-se muito com o sentimento extremo que o acontecimento desperta neles, porém daí a uns dias, por obra de uns artistas criativos, a sua atenção é capturada pela nova atracção no cartaz. Do Evento resta então apenas uma lápide fria, onde jaze esculpida uma data e um título, no estilo do lembrete que se deixa de um dia para o outro na porta do frigorífico, fazendo sombra no deserto gélido da memória humana.

    quarta-feira, dezembro 03, 2008

    There were five German bombers in the air...

    Estas imagens são fantásticas mesmo sem comentários. Mas acompanhadas de duas preciosas informações são ainda mais engrançadas. Em primeiro lugar, é preciso mencionar que este foi um jogo 'amigável' entre políticos britânicos e alemães. E em segundo que o tractor de cabeça loira é o actual e controverso Mayor de Londres, Boris Johnson. Porventura pouco conhecido para além das praias da Grã Bretanha, Johnson é membro do partido conservador, ex-editor da revista ultra-conservadora 'The Spectator'. Mais recentemente, Johnson atraiu atenções por dizer que o povo britânico tinha-se tornado demasiado sentimentalista na sequência de demonstrações públicas de solidariedade com um refém no Iraque. 'Nothing like the good ol' days of the blitz, hein!?!'