A Gaivota Farragulha

    quarta-feira, julho 21, 2010

    Uma espécie de final


    (Saiba-se que o norte da Síria foi onde um dos locais mais bonitos onde o autor já esteve. IndigoeoMar)

    Caros leitores,

    Como os poucos que visitam este blog terão eventualmente reparado, o ritmo de publicação tem vindo a abrandar nos últimos tempos, sendo que, desde a morte de José Saramago, nada mais foi publicado neste blog. Na realidade, estava a adiar o momento em que vos teria de dizer, mas sobretudo reconhecer para mim próprio, que o percurso de vida deste blog, o Indigo e o Mar, chegara ao fim.

    Vários motivos me levam a tomar esta decisão. Em primeiro lugar, a temática condutora a que os textos sempre regressavam - a situação política em Portugal - entrou numa fase de auto-repetição que serve mal de inspiração a quem escreve por gosto e missão auto-imposta. No fundo, e apesar das tristes transformações que hoje que se dão no nosso país, muito pouco se poderia acrescentar ao que já foi escrito sobre o actual Primeiro-ministro, o Governo, os partidos da oposição e a sociedade civil. Infelizmente, não consegui atingir o meu objectivo de usar esta plataforma para incitar a um debate fruitivo sobre a direcção estratégica do país. No melhor dos casos, as minhas palavras causaram algumas reacções vitriólicas que pouco ou nada contribuíram para o diálogo essencial que deveríamos ter.


    Por outro lado, a minha vida está também prestes a sofrer uma grande mudança, pelo que decido romper com aquilo que foi até agora. Como alguns de vocês sabem, vou começar uma nova vida ‘across the pond’, como os ingleses gostam de se familiarizar com o Atlântico, que certamente implicará uma adaptação a novos modos de pensar, ser e estar. Não vos pretendo entediar, como fiz outrora, com histórias da minha experiência numa nova sociedade; acima de tudo, porque este blog nunca foi sobre mim e sobre a minha vida, mas sobre o mundo e, de vez em quando, sobre as minhas ideias sobre ele. Por isso, deixo para mim próprio ou para aqueles que mantiverem o contacto comigo sobre a minha vida nos próximos meses.


    Por fim, e porque temos de ser sinceros, abandono este blog por não conseguir construir a base de leitores que ambicionava. Não raramente, sentia que apenas eu me lia a mim próprio. Inicialmente, não levantou objecções de consciência, mas à medida que os textos se foram tornando mais ambiciosos fui sentindo que o meu tempo era cada vez mais desperdiçado neste blog. Em nome de que fim, escrever sobre a política e as mudanças que deveriam ser tomadas se ninguém nos lê, e se ninguém nos contrapõe – para tal, guardo as ideias na segurança do meu pensamento que assim sempre as conjuro melhor para uso futuro. Reconheço que o problema seria meu: o estilo dos textos, o vocabulário empregado, o design do blog, se calhar até, a falta de uma linha objectiva e definidora do blog no seu todo. O Indigo e o Mar era um blog que se propunha publicar sobre a vida contemporânea mas que talvez se devesse dedicar em exclusivo a uma das suas várias facetas.


    Em suma, são estes os pontos de reflexão neste momento. São conclusões de um final, mas quem sabe talvez também ideias para um começo. A fonte não secou. Continua aqui, bem vivo, o desejo de escrever sobre nós e o mundo e de partilhar com todos vós os meus pensamentos. Simplesmente, hoje reconheço a necessidade de encontrar um veículo melhor para as minhas ambições. E é disso que se trata este adeus. De um período de avaliação e regeneração.

    Obrigado por me acompanharem!

    Indigo

    terça-feira, junho 22, 2010

    Retrato de um português enquanto escritor



    (Simplesmente, José Saramago. Miopia)


    José Saramago, escritor maior da língua portuguesa, morreu sexta-feira passada aos 87 anos na sua casa em Lanzarote.

    Curiosamente, não é a obra do homem que mais nos ocupa neste momento da sua morte. São os prémios que alcançou, as controvérsias que protagonizou, a longa e tumultuosa vida que levou e, agora até, as personalidades que ao seu funeral acudiram. Por minha parte, preferiria recordar Saramago sem Nobel nem polémicas - ambos apenas o vulgarizaram nas bocas do mundo – mas reconheço que não existe opção. Saramago será sempre os livros mas também o Nobel, o exílio de Portugal, o comunismo, o ateísmo, o anticlericalismo, o iberismo e outros ismos que foram afixando a cada palavra sua. Para os outros talvez possa ser apenas o escritor, mas não para nós, portugueses, falantes da língua que enalteceu com luzidias palavras - Saramago será sempre obra e vida.

    Da excelência dos seus escritos, pouco resta dizer. Para mim, Saramago seria menos ‘operário da palavra’, como tanto gostava de se definir, do que trapezista da trama, cada livro seu tão surpreendente como intrincado na elaboração de universos equidistantes habitados por personagens aparentemente vulgares e certamente familiares ao leitor português. Quem acusava, e ainda acusa o escritor de ‘não gostar do seu país’, ignora com certeza o carinho com que apontava o carácter nacional: esta afectividade langorosa entre homens, mulheres e animais, esta honestidade singela, estes renitentes usos, costumes e tradições. Insistiam em situá-lo na escola sul-americana do realismo mágico, na tradição de Gabriel García Marquéz, Jorge Amado e Jorge Luis Borges; porém, Saramago distinguia-se. A miscigenação entre fantástico e terreno nos seus livros ia além do estritamente harmonioso e bolinava a rajadas bruscas entre o surrealismo ibérico e a lusitana propensão para o trágico. Sentia-se seguro, consciencioso, simples e escrevia por longas alíneas que espavoriam leitores, não sabendo que esta é voz de quem desafia a idade, uma espécie de chave mística para uma espécie de longevidade. Por transbordar sabedoria humana em avassaladoras composições, Saramago detinha singularidade no mundo da literatura mundial e merece a nossa adoração, com ou sem Nobel.

    Sobre a sua vida enquanto homem público é-me mais difícil qualificar. Por dois motivos: primeiro, porque não vivi, nem sofro forte emoção, sobre o período mais conturbado da sua existência, ou seja, o período pós-revolucionário; segundo, porque nunca tive oportunidade de conhecer o homem em causa. Ainda este ano, por altura da homenagem a Agustina Bessa-Luís na Fundação Fernando Pessoa, pensei em ir a Lisboa para ouvir ao vivo o melhor escritor português contemporâneo falar sobre a melhor escritora portuguesa de sempre. Saramago estava já muito doente e não compareceu. Será sempre uma pena minha ter perdido todas as oportunidades de o ver e ouvir em pessoa. Mas segui com atenção as suas comunicações públicas na televisão, na imprensa e no seu blog, O Carderno de Saramago. Destas ficou a impressão de um homem marcado pelos revezes do início da sua vida, revoltado contra a homogeneidade do senso comum e de um guerreiro indefectível por uma moralidade pessoal que professava religiosamente. Aliás, só um homem profundamente convicto numa qualquer fé poderia ter dedicado tanto tempo e papel a rejeitar uma outra religião, neste caso a Igreja Católica. Nesta luta de titãs existia tanto ódio que só poderia haver uma sombra de amor olvidada no passado. Seja como for, impõe-se demandar se numa sociedade dita religiosamente livre, não haveria lugar no dealbar do século XXI para um crítico da Igreja? Não é essa tolerância que, afinal, nos distingue dos 'fundamentalistas árabes'?

    Não posso oferecer a resposta, mas acho que Saramago gostava que pensassemos sobre estas questões. Pois, acima de tudo, Saramago gostava de provocar e, diz quem o conheceu, adorava discutir. Sempre que aparecia em público vinha armado de uma frase cirurgicamente manobrada para despoletar a indignação nacional. Infelizmente, Portugal não aprecia provocações. Obriga-o a pensar, a explicar aspectos da sua existência que considera melhor arrumados no fundo armário da memória nacional, por baixo de todos os grandes êxitos e delitos menores. E, em todas as grandes controversas que protagonizou, sejam elas sobre a religião, a sobrevivência do Estado ou a direcção política do país, Saramago foi retaliado com acusações e insultos mas apenas raramente com argumentos. Acredito que sofresse com esta nossa natureza, mas também que se divertisse. Fazia-o parte de nós. Uma parte hostil, distante, mas, ainda assim, um parceiro incontornável do debate português. Saramago era, afinal, um irmão difícil que, se não em vida, abraçaremos em morte. Até sempre.

    quarta-feira, junho 09, 2010

    Quem tramou Helen Thomas?




    Quem seguiu as notícias nos últimos dias terá certamente notado o alarido sobre a reforma de uma correspondente da Casa Branca de 89 anos, chamada Helen Thomas. Expectável? Para os que conhecem a carreira desta intrépida jornalista que, desde os tempos de JF Kennedy, detinha lugar cativo na primeira fila das conferências de imprensa na Casa Branca a notícia é pelo menos desconcertante. Helen Thomas estava tão perto do Olimpo quanto será alguma vez permitido a um vulgar jornalista estar (mais informação e fotografias sobre o percurso de Helen Thomas no site do The New York Times). O seu afastamento foi especialmente perturbador pelas condições em que teve lugar.

    Helen Thomas foi traída por um meio que não sendo da sua época, ela fez seu contemporâneo: o vídeo instantâneo. Há algumas semanas atrás, o rabbi David Nesenoff de Long Island e o seu filho visitaram a Casa Branca por motivo de um evento de comemoração da história Judia. Nos jardins do local, deparam-se de súbito com a legendária correspondente e o rabbi decidiu colocar-lhe uma pergunta para a câmara: que conselho daria aos Israelitas? A resposta de Thomas, que poderão observar acima, foi prolificamente difundida na internet, gerando uma onda de condenação que acabaria por forçar o seu afastamento. E, assim, acabaria a carreira da mulher que desafiou todos os estereótipos do meio em que se movia e que até Fidel Castro fez tremer.

    As declarações de Helen Thomas são, de facto, reprováveis. Vários colegas da senhora acorreram a lembrar que os seus pais eram Libaneses e que, no fundo, Helen nunca conseguiu ultrapassar o ressentimento familiar contra os Israelitas. Mais concretamente, insinuar que a Palestina não é ‘a casa’ dos Israelitas é uma declaração incendiária e até insultuosa que ignora os muitos judeus que sempre viveram na região. Para além do mais, Thomas negligência também o facto de os judeus terem sido forçados, através de actos brutais e inenarráveis, a abandonar as supostas ‘casas’ na Alemanha e na Polónia. De novo, este tipo de retórica não contribui para que ambos os lados, Israelitas e Palestinianos, possam confiar nas intenções um do outro e para que assim possam chegar a um consenso sobre a terra que ambos ocupam.

    Por outro lado, a reacção que o vídeo provocou assim como a consequência que causou - a reforma de Helen Thomas - parecem desproporcionais à gravidade do delito. Todos os dias, jornalistas, comentadores e políticos americanos proferem afrontas à dignidade e condição do povo árabe. Chama-lhes ‘atrasados’, ‘sanguinários’, ‘desonestos’, amalgamam-nos numa só categoria, confundindo-os uns com os outros, desejam o seu declínio e conspiram publicamente para alcançar esse fim. Porém, nenhum deste é forçado a pedir a demissão ou a reforma. Esse ponto de vista, infelizmente, é aceite na América dos dias de hoje. Mais a mais, Helen Thomas não ocupa nenhum cargo de Estado e não frustrou as expectativas que um grupo de eleitores depositou nela. Helen Thomas é uma jornalista, aliás comentadora era o seu título oficial, que foi interpelada na rua para dar uma opinião pessoal sobre um tema. Proferi-la não representa nenhum crime. Pelo contrário, forçar a sua reforma como consequência da sua opinião, representa um grave atentado à liberdade de expressão.

    terça-feira, maio 11, 2010

    Morrer na praia


    (Figuras de cera ou políticos reais? The Guardian)



    Desde do momento em que foi eleito líder inesperado do Partido Conservador, David Cameron pautou-se pela relação ambígua com a ideologia do partido. Por um lado, Cameron definia-se como o 'change-maker' que abriria o partido às mulheres e às minorias étnicas e traria para a esfera política temas progressistas como o ambiente e a coesão social. Antevia-se o nascimento de um novo tipo de conservador, o conservador do século XXI, mais aberto às sensibilidades do tempo em que vivemos. Devo confessar que fiquei verdadeiramente impressionado quando ouvi a minha colega Shiobana Khan, filha de mãe Colombiana e pai Paquistanês e nata em Putnam, subúrbio da classe média baixa do sul de Londres, proclamar que iria votar Cameron nas próximas eleições - ou seja, estas que decorreram no princípio deste mês de Maio de 2010 (twenty-ten). 

    Por outro lado, Cameron piscava o olho ao conservadorismo radical, colocando-se na ala dos eurocépticos, dos neo-liberais, dos anti-sindicalistas e dos que perigosamente defendiam que alguma coisa deveria ser feita acerca dos polacos, portugueses e húngaros que todos os dias roubavam empregos a bons e genuínos britânicos. Deste modo, surgiu a ideia que sobre aquela capa de compaixão e modernidade, escondia-se um 'tory da pior espécie', que iria destruir o Estado Social Britânico e polarizar a sociedade. A comprová-lo estava o seu percurso académico: Cameron estudou em Eton e mais tarde, enquanto estudante em Oxford, pertenceu ao Bullingdon Club - um clube elitista de jantares de estudantes, conhecido pela riqueza e mau comportamento dos seus membros (do qual também fazia parte o seu futuro Chanceller, George Osborne). À medida que os anos passaram sobre a eleição do 'leader-in-waiting', a mudança do clima económico assim como a necessidade de combater a crescente popularidade do BNP (British National Party), trabalharam para sedimentar a convicção que Cameron seria 'at heart' mais conservador do que progressista. Em suma, Cameron seria o reflexo masculino de Margaret Thatcher - porém, como reflexo e não fonte original, Cameron seria mais fraco politicamente e menos talentoso individualmente do que o seu arquétipo. E dessa imagem, nunca mais se conseguiu libertar.

    Ontem ficamos a saber que Gordon Brown apresentou a sua demissão para viabilizar uma aliança entre Trabalhistas - Labour - e Liberais-Democratas - Lib-Dem. Hoje, ficamos a saber que tal demissão aponta também para o falhanço das negociações entre os Tories e os Lib-Dem. Na verdade, nem Labour, nem Lib-Dem, têm facilidade, ou antes estão interessados, em extender a mão através do fosso ideológico que separa o centro e o centro-esquerda da direita britânica sobre jugo de David Cameron - e o fantasma imortal de Thatcher. Como vários comentadores ingleses lembraram, tal coligação seria um defraudar das expectativas dos que, apesar da decepção, votaram Labour ou Lib-Dem nestas eleições. E se querem saber a minha opinião, foi precisamente esse o aspecto que mais determinou o resultado eleitoral: os britânicos queriam mudar de Gordon Brown, mas não queriam entregar o poder de bandeja a David Cameron. Entre os dois e o utopismo de Nick Clegg, acabaram por se dissipar. Não quer isto dizer que Cameron não chegará ao número 10 de Downing Street; continua a ser o cenário mais provável. No entanto, o que esta situação antecipa é a necessidade de novas lideranças e de novas eleições. Onde é que eu já vi este filme...

    terça-feira, maio 04, 2010

    Finalmente, o Gordon que faltava



    Fiasco atrás de fiasco: não há melhor forma de descrever a campanha eleitoral de 2010 de Gordon Brown. É pena, pois dos três candidatos, Brown parece-me ser o que está melhor informado e o que tem uma opinião mais equilibrada sobre os diferentes dossiers. Faltou-lhe sobretudo talento político: um sorriso grande estampado na cara, carisma, respostas prontas e faro para saber quando poderia ou não falar. No quadrante político, Brown foi mesmo míseravel, lembrando-me uma política portuguesa que, apesar de estar do lado da razão, não conseguiu convencer o eleitoral. Hoje, porém, Gordon Brown mostrou o que poderia ter sido a campanha, se tivesse mantido uma postura mais competitiva. Infelizmente, hoje é tarde de mais...

    segunda-feira, abril 19, 2010

    É só um bocadinho



    (Pst, pst. Huffington Post)


    Enquanto não recupero os meus apontamentos para acabar o diário da viagem ao Médio Oriente, ficam aqui duas fotografias inevitavelmente cómicas. Aconteceu durante uma missa em Malta no fim-de-semana passado. Esta história da pedofilia na Igreja Católica deve andar a roubar o sono ao Papa...ou talvez o Papa estava apenas a cumprir parte da experiência católica - adormecer durante a missa.

    quarta-feira, abril 07, 2010

    Dia 26 - Este 'país' não é para velhos


    (Do outro lado. IndigoeoMar)

    As coordenadas eram simples: encontrar-nos-íamos a meio da manhã na Al-Manara Square no centro de Ramallah. Chegar lá, era connosco. Para mim, que passei os últimos anos a ler sobre guerrilhas nas ruas da cidade, procurar um contacto em Ramallah soava-me a aventura, pelo que disse logo que sim, que lá estaríamos. Assim foi.

    Para chegar a Ramallah é necessário ir até à Porta de Damasco em Jerusalém e apanhar o autocarro 18. Logo ali, numa rua fechada ao trânsito por detrás do mercado, sente-me o ambiente tenso de uma zona de guerra: mulheres de cabeça coberta percorrem a rua com sacos de plástico nas mãos sob o olhar de militares empunhando metralhadoras. Após um pequeno compasso de espera para completar os lugares do autocarro (ou não fosse este um veículo árabe), partimos em silêncio e de cortinas quase fechadas em direcção ao check-point de Qalandia. Pouco depois, e sem qualquer tipo de interregno, atravessamos a enorme barreira que divide os dois territórios. Entrávamos na Palestina.


    Os nossos contactos eram Rawda e Issa Khouriya, um casal católico palestiniano que se lançou recentemente no negócio do turismo para financiar a construção de uma moradia de quatro pisos. Receberam-nos com notória inquietação – estavam preocupados com a limitação do tempo. Olhamos para o relógio e pensamos que os nossos anfitriões deveriam estar loucos: ainda não eram 11 da manhã e todos os locais que pretendíamos visitar ficavam a escassos quilómetros uns dos outros. Mal imaginávamos nós que nem teríamos tempo de engolir uma sanduíche.

    As deslocações de automóvel na Palestina são infindáveis torturas que ziguezagueiam entre colinas e depressões, pincham de lomba em lomba e estagnam ocasionalmente em submissão aos jovens israelitas que patrulham a região. Nenhum dos que vi aparentava ser tão velho quanto eu. Para completar o quadro, o nosso condutor demonstrava uma cabal falta de aptidão para a tarefa que lhe competia; acima de tudo, uma enorme dificuldade em detectar passeios, lombas e tudo mais que não se apresentasse no raio de um metro a contar em linha recta a partir dos seus olhos. Portanto, parte da pressa era dificuldade em deslocar-se.

    A outra parte era medo do escuro. Este sábado, dia de oração, coincidia também com um dos primeiros fins-de-semana depois de novo cul-de-sac no processo de paz. A segunda intifada começou assim. Será que a terceira começaria hoje? ‘Se a terceira intifada começar, vamo-nos embora,’ disse-nos a Rawda. ‘Halas, vamos embora!’ Grupos de crianças e pré-adolescentes claramente em busca de perigo começaram a ocupar as ruas. Fazia-se tarde e o Issa queria voltar a casa antes de anoitecer. Porém, o lençol da noite alcançou-nos a meio do caminho.

    Não nos deixamos apoquentar. Em breve, estaríamos em casa a digirir as histórias e as imagens que vimos num só de dia. De repente, ouvimos um disparo na berma da estrada, vemos um jovem esconder-se para lá de um pneu a arder e o Issa põe o pé no acelerador. ‘What the hell was that!?!’, perguntamos estremonhados, ainda a recuperar do susto. ‘Rubber bullets, no problem. Now you’ve had your little adventure in Palestine.’ Felizmente, a noite acabaria rapidamente para nós, mas, pelo aspecto da coisa à entrada de Ramallah, as guerrilhas voltariam nessa noite.

    terça-feira, abril 06, 2010

    Dia 25 - Yad Vashem



    (Yad Vashem ou o Museu do Holocausto em Jerusalém. IndigoeoMar)


    A história deveria começar aqui.

    O nome veio de um versículo do Antigo Testamento: "E a eles darei a minha casa e dentro dos meus muros um memorial e um nome (Yad Vashem) que não será arrancado." (Isaías 56:5.)” O propósito veio da memória recente: Yad Vasem é o museu e memorial para “Recordação dos Mártires e Heróis do Holocausto.” O espírito preenche a lacuna entre o caos e a realidade: a perseguição do povo judeu.

    À entrada (gratuita, assim como o shuttle que nos leva através de um bosque desde da estrada principal até às portas do memorial), uma senhora pergunta-nos de onde somos. Surpresa! Somos do país de um grande homem, um homem que arriscou a vida para salvar milhares de judeus, um homem chamado Aristides de Sousa Mendes. Diz-nos para acorrermos ao memorial das crianças vítimas do Holocausto, e procurar no jardim dos ‘Justos entre as Nações’, do lado direito uma árvore com o seu nome – é a apropriada homenagem que o povo judeu lhe concede. Mais informação no site do memorial, aqui.
    É também, felizmente, a única referência ao nosso país no museu inteiro. Pois, o Yad Vashem não se confina às brutalidades cometidas pelos Nazis na primeira metade do século vinte; ao longo de onze primorosas salas, o Yad Vashem narra a história de segregação e violentação do povo do judeu e da qual quase ninguém, nem mesmo os EUA, sai incólume (no capítulo da Inquisição, fala-se da Espanha e não de Portugal). O museu dedica particular atenção aos antecedentes europeus do nazismo, nomeadamente o aumento do nacionalismo e episódios como o affair Dreyfus, e estabelece uma lógica e sensata ligação entre o geral e o particular – afinal, o Nazismo não foi uma excepção. Entre outras curiosidades do museu, existe um filme sobre profissões tipicamente desempenhadas por judeus antes do nazismo e a recriação da sala de estar de uma família judia abastada.

    Mais do que impressionar pelas atrocidades, as salas dedicadas aos Holocausto procuram abranger a variedade de experiências judias durante este período negra da história. Fala-se dos campos de extermínio e das câmaras de gás, mas também dos campos de trabalho, dos judeus que fugiram para outros países, dos que viveram ocultos sobre ocupação alemã, dos que foram forçados a longas caminhadas no final da guerra (marchas da morte), dos que se revoltaram, dos viveram nos guetos, dos idosos e dos doentes, dos que foram salvos por oficiais alemães, dos que morreram e sobreviveram, entre muitas outras realidades. No fundo, fica-se com a sensação de que o Holocausto não foi o episódio monolítico como é frequentemente retratado pela imprensa: o povo judeu estava sob ameaça iminente em todo e qualquer lugar.

    Perceber isto é perceber porque os judeus querem um Estado só para eles. É perceber também porque os Judeus atribuem um valor tão alto à segurança dos judeus, enquanto indivíduos e enquanto povo. É começar a perceber a história do conflito israelo-árabe. Ainda bem porque no dia seguinte partiríamos para a Palestina. Estávamos preparados.

    quinta-feira, abril 01, 2010

    Dia 24 - Valsa com Bashir



    (Soldados em Akko, no norte de Israel. IndigoeoMar) 


    ‘Which place did you like the most, so far?’ Noutra situação, a pergunta marcaria o inicio de um pacífico serão. Porém aqui, sentado da sala de estar de três militares israelitas que conhecemos dois dias antes através do site couchsurfing.com, a pergunta soa-me a convite para passear num campo de minas*. Optamos pela sinceridade: ‘Balbeek, in Lebanon.’ Pedem-nos para explicar. ‘Oh, it’s amazing! The size of the temples, the state of conservation and the atmosphere, it’s really special. It’s in a valley, surrounded by huge mountains and the peaks are still covered in snow. Shame we couldn’t stay for longer because it became dark and we had to leave.’

    ‘I was in Balbeek once,’ diz o Doron, o nosso contacto do couchsurfing. ‘It was dark too and there was a lot of fireworks. And I was shitting myself.’ Afinal, a conversa sempre era um campo de minas.

    A partir deste ponto, o nosso interlocutor transforma-se: desapareceu o jovem vibrante, criado num kibbutz no norte do país, voraz defensor dos ideais comunistas e surgiu um adulto ansioso, tremulo de mãos e de cara, e possuidor de olhar frio e lancinante. Diz-nos que o exército israelita decide, com base em exames físicos e psicologias, em que divisão cada jovem do sexo masculino cumpre os três anos do serviço militar obrigatório. No caso dele, coube-lhe uma divisão de elite. ‘I’m a good shooter. What can I do?’ Diz-nos também que tinha 18 anos e fez o que lhe pediram porque tinha medo – não pretende falar sobre o que fez (eu sei, eu perguntei). Diz-nos que duas vezes por ano é chamado para treinar no exército, para se manter em forma, e que, em caso de guerra, como em 2006 com o Líbano, deve apresentar-se ao serviço. Mais tarde, e já em forma de desabafo, diz-nos: ‘So much fighting for land! They want the land, they can take it!’ Pensei com os meus botões: passa-se qualquer coisa de errado.

    No dia seguinte, estávamos de novo reunidos na sala - eu, a minha namorada, o Leor e um amigo deste, o Aviv. Mal a minha namorada se retirou para o quarto, o Aviv disparou na minha direcção: ‘What do they say about Israel in Lebanon and Syria? What do they think about us?’ Era a pergunta que eu mais temia. Porém, tal como na noite anterior, quem começou a tremer foi o meu interlocutor. Da minha resposta pouco quis ouvir. Olhando com os olhos mais sérios com que jamais me olharam, e para os quais não encontro outra associação senão os da testemunha de acontecimentos tremendos, disse-me qe não estava a favor daquilo que os israelitas faziam com os povos árabes. Mas logo depois disse que considerava estranho que os palestinianos na Jordânia não gostassem de Israel (contei-lhe a conversa com um motorista), tendo em conta os acontecimentos de Setembro de 1970 – quando o Rei Hussein da Jordânia esmagou brutalmente a resistência palestiniana e obrigou-os a partir para o Líbano. Pediu-me, várias vezes, para o confirmar na Internet, até que lhe prometi que o veria amanhã (aqui está). A sua obstinação lembrou-me a indeferença dos loucos perante o que os outros pensam e dizem – ele projectava em mim próprio um julgamento moral sobre aquilo que ele e o país dele fazem (mesmo depois de lhe ter dito que tinha partido nesta viagem de mente aberta sobre o conflito e por isso tinha visitado estes países).

    Lembrou-me também o filme israelita ‘Valsa com Bashir’, nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira no ano passado (se ainda não viram, recomendo). Curiosamente, quando estávamos no Líbano, o filme veio à baila. Os meus amigos que lá vivem disseram que não apreciaram o filme por o achar condescendente com os soldados israelitas. Discordei na altura, e depois destas duas últimas noites, discordo com ainda mais convicção. Os soldados israelitas podem ser a mão que segura a pistola mas não são o cérebro que decide disparar. É necessário e humano reconhecer que também para eles, tão novos e tão manobrados, a guerra é uma violência. Negá-lo é outra forma de extremismo.




    * Acresce a este aspecto, o facto de os Israelitas não poderem viajar para a Síria e para o Líbano, sendo por isso compreensível a sua curiosidade por estes países.

    terça-feira, março 30, 2010

    Dia 23 - Briga de Familia














    (Separados à nascença? À esquerda, mercado em Damasco; à direita, mercado em Jerusalém. IndigoeoMar)

    Reza a sapiência popular que quanto maior o grau de afinidade, mais feia é a briga. Assim acontece entre famílias e assim acontece entre árabes e judeus.

    De passeio pelas ruas do casco antigo de Jerusalém fica bem patente a convivência milenar entre estes dois povos. O parentesco revela-se primeiro na linguagem – na semelhança lexical entre as duas línguas e no facto de ambas lerem no sentido da direita para a esquerda. Nos locais santos, os judeus, tal como os árabes, separam homens e mulheres - a quem exigem que cubram a cabeça (e os homens devem usar a kippa, uma espécie de pequena taça de pano colocada ao contrário na nuca).

    No muro das lamentações, os judeus inclinam-se insistentemente contra a parede; um movimento que ecoa os rituais dos muçulmanos nas mesquitas. Da mesma forma, no túmulo de David, a devoção das crianças perante uma caixa coberta por um grosso pano verde, por sua vez encapotado por um plástico de protecção, remontam-nos à devoção dos supostos restos mortais de São João Baptista (também adorado por estes últimos) na Grande Mesquita em Damasco.

    As semelhanças entre judeus e árabes não se limitam a aspectos linguísticos e religiosos. Elas atravessam todo o panorama social e cultural, desde a alimentação (a prevalência do húmus, dos falafels, do pão Pitta, entre outros) ao impaciente estilo de condução e à centralidade dos mercados de rua (souks, em ambos países) na vida comercial. Afinal de contas, judeus e árabes são como dois irmãos desavindos, sendo que os cristãos desempenham o confuso papel de irmão do meio.

    sexta-feira, março 26, 2010

    Dia 22 - O dia mais longo

    Pela quarta vez consecutiva, acordamos antes das seis horas da matina. Tomamos o pequeno-almoco numa rocha com vista para os tres desertos (rosa, branco e amarelo) e partimos de camelo, agora sim, para a aldeia de Wadi Rum. Devo dizer que a experiencia ficou aquem das nossas expectativas e, sobre ela, nao restaria memoria nao fosse por um caricato incidente. Estamos a meio do caminho quando uma companheira francesa se comecou a queixar que a sela escorregava pela traseira do camelo. Perante a iminencia do desastre, o guia, um sudanes chamado Mohammed, saltou da sua arisca camela e acorreu ao camelo da francesa, chegando mesmo a tempo de a amparar na queda. Porem, assustada com esta agitacao, a camela do sudanes desatou a galopar pelo deserto, levando atras os outros camelos e nos em cima deles. Uma cena! Felizmente, nao foi muito longe e em poucos minutos o nosso Mohammed conseguiu por tudo em ordem e de volta ao caminho.

    Da aldeia de Wadi Rum seguimos para Aqaba num taxi partilhado com um casal suis generis: ele, suico de origem argelina, vive agora em Beirute; ela, turca, mas de educacao suica, trabalha no Suica. Em Aqaba estivemos apenas o tempo necessario para cumprir tres urgencias: fazer uma muito ansiada visita a casa de banho (as do deserto desafiavam definicoes); almocar; cortar o cabelo e fazer a barba (o objectivo era parecer 'menos arabe'). Findas estas tarefas e sem tempo a perder, enfiamos as mochilas na mala de um taxi e gritamos ao motorista: 'To the Israeli border!' Devia ser por volta da uma da tarde e fazia um calor de desfalecer. Foi pelo menos essa a sensacao que tivemos enquanto atravessamos a 'no man's land' entre a Jordania e Israel.

    Do outro lado, fomos recebidos por uma rapariga de uniforme que verificou os nossos passaportes e nos enviou para uma especie de pre-fabricado imaculadamente branco. Entrar aqui foi como que entrar num laboratorio da NASA instalado no meio do deserto. As portas deslizantes automaticas abriram-se e revelaram uma sala climatizada, adornado com uma fotobiografia de Yitzhak Rabin (Primeiro Ministro Israelita assassina em 1995 por um radical judeu oposto ao processo de paz). A guarda fronteirica era inteiramente constituida por raparigas e por momentos julguei-me perante um exercito de belas amazonas. Depositamos as malas na maquina de raio-x e avancamos para um detector de metais. Aqui, enquanto esperava para passar, uma das amazonas pegou no meu telemovel e analisou-o cuidadosamente como se procurasse algo.  As mochilas passaram sem problemas no raio-x mas a maquina fotografica, os livros e os papeis (nao faco minima ideia porque) regressaram tres vezes a maquina. 

    Passamos ao seguinte nivel de seguranca: controlo de passaportes. Primeiro, entrevistaram os dois: perguntaram-nos pela primeira vez em que ano tinhamos estado no Libano e na Siria, o que tinhamos feito la e o que vinhamos fazer a Israel.  Depois disto, mandaram-nos sentar num banquinho e levaram os nossos passaportes para dentro. Pouco depois, chamaram-me apenas a mim e fui de novo entrevistado. Perguntaram em que ano tinha estado no Libano e na Siria, o que tinha feito la e o que vinha fazer a Israel. Perguntaram-me tambem em que ano conheci a minha namorada, se conhecia alguem no Libano ou na Siria e pediram-me para escrever num papel o meu nome completo, o primeiro nome do meu pai, o primeiro nome do meu avo paterno, o nome do meu amigo no Libano, o meu numero de telefone de casa, o meu numero de telemovel e o meu e-mail. Mandaram-me sentar de novo. Cinco minutos depois, entregavam o passaporte a minha namorada.

    A partir dai, nunca mais ouvimos nada sobre o meu passaporte. Passaram varios grupos de australianos, americanos e alemaes e nada sobre o meu passaporte. Passou um grupo de pessoas que acampou connosco no deserto e que naquela manha fez um tour em Wadi Rum e nada sobre o meu passaporte. Finalmente, cerca de duas horas depois (e sem que mais ninguem tivesse ficado a espera, o que quer dizer que estiveram completamente ocupados com os meus dados), entregaram-me o passaporte: 'You can go now.' Pelo menos, nao me colocaram as duas perguntas que mais temia: se tinha estado em mais algum pais arabe, ao que teria de responder que sim e que tinha passado quase quatro meses no Iemen; e o que la tinha estado a fazer, ao que teria de responder que tinha estado a fazer um estagio na ONU e a aprender arabe (duas ocupacoes que nao caiem bem a Mossad). Tambem nao me pediram para ver as fotografias da maquina fotografica, onde teriam reparado que eu tinha acabado de mudar o meu visual para entrar em Israel. Tambem nao abriram as nossas mochilas e descobriram o iman do Hassan Nasrallah (lider do Hezbollah) que comprei no Libano como souvenir da viagem. Enfim, bem vistas as coisas, a travessia desta fronteira nem correu mal.

    Chegamos a Eilat (do outro lado da baia de Aqaba) mesmo a tempo de saber que tinhamos conseguido um local para ficar em Jerusalem (um couch surfing no centro moderno da cidade) e apanhar o autocarro para la. Seguiram-se cinco horas ao longo do deserto do Negev (que nao conseguimos ver porque entretanto anoiteceu) mais uma viagem de taxi ate ao centro de Jerusalem. Por fim, encontramos o nosso anfitriao e aterramos estafados, imundos e algo confusos na cama. Tinhamos chegado a Jerusalem.  


    quinta-feira, março 25, 2010

    Dia 21 - Wadi Rum


    Nova madrugada, nova pesarosa peregrinacao. Desta feita, rumamos a sul, em direccao a Wadi Rum, o deserto predilecto de T.E. Lawrence -  e, sobre desertos, ele percebia uma coisa ou outra.

    Devo confessar portanto que esta era, para mim, uma das paragens mais antecipadas da viagem. O acaso ditou, porem, que este dia fosse tambem o primeiro, e ate agora o unico dia, em que me senti indisposto - provavelmente, fruto de uma insolacao apanhada em Petra no dia anterior. Na pratica, este contratempo traduziu-se na subsitituicao do passeio de camelo (no estilo evocativo do El-Awrence) por um safari de jipe pelo deserto. Esta opcao teve, pelo menos, duas significativas vantangens: a primeira a nivel de custo, e a segunda a nivel do que podemos ver num unico dia.

    Como descrever Wadi Rum? Wadi Rum nao e um deserto no sentido classico da palavra. Aqui, a vastidao dos horizontes da lugar a naturais boulevards flaqueados por massicos rochosos entre o beige e o castanho profundo - dependendo da posicao do sol. Cruzando estas amplas avenidas, hoje como no tempo de Lawrencem, um sente-se constantemente observado como se desfilando perante solenes alas de gigantes dignatarios. Trata-se afinal de um Wadi - desfiladeiro formado por um rio extincto - a caracteristica dominante desta regiao (Amman, Petra e Jerusalem cresceram todas em torno de um ou mais wadis).

    A singularidade de Wadi Rum encontra-se na areia que polvilha esses antigos leitos: inicialmente rosa, ela deriva por vezes ate ao branco e o amarelo. Esta harmoniosa paleta em conjunto, e contra a rocha escura, forma um inesquecivel impacto visual que apenas podera sugerir uma obra de inspiracao divina - ou nao estivemos tao perto da terra santa.

    Por esse motivo, ou por qualquer, ao fim da tarde passou-me a indisposicao. Deitamos-nos sobre uma rocha quente, junto do acampamento onde passamos a noite, e despedimos-nos do dia no ritual silencioso do deserto. Pouco depois, o motorista do jipe ligava a bateria do carro a um radio (dai, as constantes dificuldades em ligar o motor ao longo do dia..) e encetava uma noite de saltos e rodopios em volta da fogueira. Mas era demais para nos que so queriamos apreciar os tons de Wadi Rum. Fui para cama pensar (era impossivel dormir) que os Beduinos nao tinham mudado assim tanto desde os tempos do Lawrence. Para o bem e para o mal!

    quarta-feira, março 24, 2010

    Dia 20 - Petra

    Dizer que Petra e um local turistico sera um eufemismo. Petra e hiper-turistico ou nao fosse, como os locais gostam de lembrar, uma das sete maravilhas do mundo ('elected in Portugal!'). Aqui, pela primeira vez desde o inicio desta viagem, deparamos-nos com uma fauna humana familiar: interminaveis grupos turisticos de senhores e senhoras de chapeu na cabeca, meias de desporto, sapatilhas e calcoes. Por vezes, somos tentados a perguntar se estamos num cruzeiro americano, russo ou italiano ou a passear pelo deserto - ambas as hipoteses sao plausiveis. 

    De modo a evitar estes enchentes, levantamos-nos antes das 6 da manha. Conseguimos percorrer o Siq (o caminho turtuoso entre as rochas, mais conhecido pela imagem do Indiano Jones em cima de um burro ou cavalo, ja nao me lembro) em relativa paz e ser uns dos primeiros a chegar ao Tesouro (o templo esculpido na rocha). Valeu a pena ao sacrificio.

    No entanto, a medida que continuamos a explorar as ruinas sinto-me cada vez mais inclinado a pensar porque razao Petra atrai tanta gente. Sim, os templos na rochas sao impressionantes, mas na ilha de Elefanta, na baia de Bombaim (infelizmente, bombardeada pelos Portugueses), existem os templos tem mais para ver. Sim, as cores das pedras sao deslumbrantes, mas o nosso amigo alemao diz que ja viu (tambem na India) um massico rochoso do mesmo genero maior e menos explorado. Sim, as ruinas dos Nabateus (que habitavam a cidade) sao interessantes, mas carecem a explicacao de um especialista, sem o qual fazem uma palida comparacao com as ruinas de Balbeek, Palmyra ou Bosra. Em suma, o que e que Petra tem?

    Podera dizer que e a beleza natural do local. Passamos o resto da tarde a subir as montanhas, por escarpas apertas, a descobrir novos tumulos e novas vistas. Fora do percurso turistico, Petra e realmente fascinante. Podera tambem dizer-se que Petra combina estas varias facetas: sitio arqueologica, beleza natural, interesse historico. Mas podera tambem dizer-se, sobretudo em vista da quantidade de turistas americanos, que Petra fara parte do pacote de paz entre a Jordania, Israel e os EUA. Imagino o Rei Hussein a negociar treguas com os Americanos em troca de tornar este um destino imperdivel do turismo mundial - num pais ocupado pelo deserto, Petra e o seu turismo fazem toda a diferenca.

    terça-feira, março 23, 2010

    Dia 19 - Petra no horizonte

    Em primeiro lugar, gostaria de apresentar as minhas sinceras desculpas por este interregno. Nas ultimas semanas, a frentenica sucessao dos eventos, assim como o meu proprio cansaco e a falta de acesso a computadores, impediram a assiduidade do relato. Espero, no entanto, poder compensa-los com a boa noticia que recebi nas ultimas semanas: fui aceite no doutoramento da George Washington University nos EUA. Portanto, ha um futuro a minha espera quando regressar. Parecendo que nao, esta noticia transformou muitas coisas esta viagem (a comecar pelo o sorriso que agora trago no rosto). Dito isto, e sem mais demoras, retomo entao o relato desta aventura no local onde vos deixei: em Amman.

    No dia em que pretendiamos chegar e visitar Petra, os contratempos comecaram no momento em que saimos do Bdeiwi Hostel. O primeiro taxista levou-nos para um estacao de onde nao partiam autocarros para Petra. O segundo teve mais artimanha. Mal entramos no taxi, inicou uma lenga-lenga sobre a sua integridade de catolico em contraste com a desonestidade dos muculmanos (ou seja, todos os outros taxistas). Segundo ele, estes muculmanos nao tinham Deus o suficiente. Foi uma longa viagem a volta de Amman que ficou marcada por uma ameaca de abandono do taxi e sucessivos pedidos, directos e frontais, para que se calasse e nos deixasse pensar o que quissessemos sobre a sinceridade de muculmanos e cristaos. No final, pagamos menos do que marcava no taximetro tal era a nossa revolta com o homem. 

    La fomos nos, entre suor e nervos (e ainda nem eram dez da manha), ate ao autocarro que, certo como nos tinham dito, seguia para Petra. Porem, a dita maquina nao arrancava enquanto nao estivesse cheio, pelo que ficamos ali um bom bocado a espera que os passageiros tomassem os lugares. Sorte nossa que logo a chegada fizemos um amigo alemao, cumplice desconhecido de viagens pelo mundo, e que nos ajudou a passar o tempo. Finalmente, partimos - de janelas abertas para furar o ar fetido.

    Porem, nem uma hora depois, estavamos a encostar na berma da estrada. Hora do chi-chi, nao queriamos crer. Sendo sexta-feira, tratava-se da hora da reza, em que quase todos os homens que seguiam viagem connosco acorreram a uma mesquita ali perto. Ficamos entao ali, nos os tres mais umas quantas mulheres a fumar cigarros dentro do autocarro, a curir o solzinho do deserto. Quando nos fizemos pela terceira vez a estrada, ja sabiamos que Petra nao seria para aquele dia.

    No caminho, tivemos ainda oportunidade de ver os helicopetros onde seguiam o Vice-Presidente dos EUA, Joe Biden, e a sua mulher, que tinham nesse dia visitado Petra (curiosamente, o recinto esteve encerrado nesse dia e, por isso, mesmo que tivessemos chegado a tempo, nao poderiamos ter visitado). Falta dizer que nessa altura ja marcava as noticias o fracasso das negociacoes entre os EUA e Israel sobre a expansao dos colonatos e, o resto da viagem, prometia a esse nivel.

    Chegamos a Petra pouco antes do por do sol. Felizmente, conseguimos quarto num sitio muito simpatico (o recepcionista quase que nos impunha um cha com ele sempre que entravamos ou saiamos), por um preco que deixou os nosso amigos invejosos (entretanto, conhecemos um belga e uma francesa).

    Preparamos-nos para o dia que viria.

    quarta-feira, março 17, 2010

    Dia 18 - Confronto

    Fomos visitar os chamados 'Castelos do Deserto', a este de Amman, na estrada em direccao ao Iraque e a Arabia Saudita. Houve tres motivos que me despertaram interesses nestes castelos. O primeiro foi o facto de estarem ainda fora do percurso turistico da Jordania. Segundo, a oportunidade de apreciar construcoes arabes autenticas e originais, algo novo nesta viagem. Com efeito, numa regiao maioritariamente habitada por nomadas do deserto, a construcao de estruturas permanentes tende a ser uma raridade. Para alem do mais, a maior parte dos edificios da antiguidade que visitamos no Libano e na Siria pertencem, em natureza e disposicao, a outros povos e civilizacoes (egipcios, persas, gregos, romanos, bizantinos, etc). Por ultimo, o motivo da minha curiosidade por estes castelos deve-se a sua contemporaneadade com a invasao moura de Portugal. Por outras palavras, nestes castelos viveram os senhores que planearam e governaram quinhentos anos de historia arabe portuguesa. Curiosamente, num dos castelos encontramos uma inscricao datada de Novembro de 710 - ou seja, alguns meses antes da invasao comandada por Tarik ibn Ziyad.

    Porem, com tanto tempo de viagem atraves do meu querido deserto (por incrivel que pareca, o deserto ou mar sao os meus espacos predilectos), os meus pensamentos tiveram horizonte para regressar ate a imagem do dia anterior nas margens do rio Jordao. Pensava eu sobre o conflito entre Israel e os Arabes, que a medida que nos aproximamos do olho do furacao se torna mais visivel. Numa tentativa de sistematizar as ideias sobre o problema e de estabelecer um ponto de partida, estabeleci entao uma dicotomia sobre o assunto. Existem, na minha opiniao, duas formas de, sensatamente, pensar o conflito Israelo-arabe. 

    A primeira, que gostaria de chamar historica, funda-se na ideia de que as ocupacoes, as conquistas e os conflitos fazem parte da historia. Neste sentido, o conflito israelo-arabe prova a falacia da teoria de Fukuyama sobre o fim da historia - a historia nao acaba com o fim da Guerra Fria porque pertence a natureza dos homens cobicar o espaco, o poder ou os recursos de outros. A historia faz-se dessa cobica. O facto de Israel ter conquistado e ocupado a Palestina na segunda metade do seculo XX faz parte da historia da humanidade. O facto de os zionistas conseguirem esse territorio deve-se a sua superioridade, ao seu esforco e sacrificio e tambem isto e um facto da historia. Talvez um dia, voltarao a perder este territorio (pela terceira vez) e tambem ai sera um facto da historia. Mas enquanto a Palestina pertencer ao Israelitas temos que o aceitar como uma realidade porque eles a criaram. Por exemplo, os colonos britanicos expulsaram e ocuparam os territorios dos indios e dos aborigines, respectivamente, na America do Norte e na Australia. Embora esses povos tenham conseguido reenvidicar alguns direitos em tempos recentes, a colonizacao desses territorios por alienigenas e hoje aceite como um facto historico. Do mesmo modo, a expulsao dos arabes da Palestina e a ocupacao deste por israelitas, por muito tragica e brutal que foi, merece ser aceite como parte da historia. Afinal, que paises nao resultaram de episodios como este?

    Por outro lado, existe uma perspectiva que se prende com o contexto especifico da criacao de Israel que gostaria de chamar perspectiva humanista. O Estado de Israel, tal como existe hoje, nao e fruto de uma epoca em que a violencia e a morte eram aceites como meios legitimos para chegar a um fim, como era por exemplo no tempo de Alexandre ou na Idade Media. O Estado de Israel foi criado numa epoca em que existiam ja os 'Direitos Humanos' e o 'Direito Internacional'. Porem, desde da sua fundacao, o Estado de Israel tem agido em violacao de ambos. A evolucao humana, para a qual o povo judeu muito tem contribuido, nao nos permite aceitar a expulsao sistematica de individuos baseados na sua identidade etnica e religiosa (muculmanos e cristaos) da palestina, nao nos permite aceitar as intervencoes unilaterais e desastrosas de Israel nos paises vizinhos (nomeadamente, no Libano) e nao nos permite aceitar as actuais condicoes de vida nos territorios ocupados da Cisjordania e da Faixa de Gaza. A criacao do Estado de Israel nao e indissociavel do tempo em que vivemos e, principalmente, do momento historicos que levou a sua concretizacao. Falo, em particular, do nacionalismo na Europa nos finais do seculo XIX e inicios do seculo XX - da ideia de que cada povo teria direito a um territorio nacional. A experiencia demonstrou-nos que tal visao nao e benefica ao futuro dos homens. Por este motivo, hoje na Europa, embora com alguma dificuldade, tentamos procurar um caminho comunitario onde nos podemos encontrar para alem da nossa religiao, raca ou qualquer que seja a nossa identidade. A capacidade dos homens em encontrar solucoes para paradoxos complexos e ver os beneficios a longo prazo e precisamente o que nos distingue dos animais. Por isso, a insistencia de Israel em manter um estado nacional numa era em que caminhamos para a internacionalizacao dos povos parece um passo em sentido contrario em relacao a evolucao. Acima de tudo, e uma brutal violacao do que foi conquistado nos ultimos seculos pelo movimento em defesa da dignidade humana.

    Sao estas, de um modo geral, as duas perspectivas sobre o conflito. Confesso que, eu proprio, estou um pouco dividido entre elas e nao espero encontrar uma solucao que torne o assunto preto e branco. Mas talvez descubra uma terceira via. Como que um oasis no meio do deserto.

    Dia 17 - O monstro


    Apos varias semanas de viagem pelo Medio Oriente, subita e inesperadamente, deparamos-nos perante o monstro.

    Aconteceu em Betania, o local apontado como o lugar do baptismo de Jesus Cristo, nas margens do rio Jordao, um dos pontos mais baixos da terra. Estava quente e humido e sentiamos-nos como que atonados num caldeirao de agua a ferver, temperado com tomilho e alecrim. Integraram-nos num grupo de visita (na bilheteira disseram-nos que nao podiamos visitar sozinhos, de modo que o jipe e o guia estavam ja incluidos no preco do bilhete), com quem encetamos amena cavaqueira sobre experiencias passadas e conselhos futuros. Era, em suma, uma pueril manha de verao, tao leviana que quase nos distraimos do motivo que nos levou ate ali. Na verdade, nenhum de nos pareceu particularmente inspirado com o lugar do baptismo de Jesus. Entre a cova com um nico de agua amarelada e o mosaico que ilustra a visita de Joao Paulo II ao local (num carrinho de golfe, o Rei Abdullah a conduzir com o Papa curvado ao lado e uma distante Rania no banco de tras), sera porventura a reaccao natural.

    Seguiamos entao o nosso guia por caminhos de macadame sem mais proposito do que manter-nos a par da conversa. Depois de visitar uma igreja ortodoxa, que devera ter sido uma das estruturas mais recentes que visitamos nesta viagem, o guia apontou para umas escadas e disse: 'That way to Jordan River.' Mas nao nos avisou que, para la do arco de canaviais, o monstro nos esperava.

    O monstro tem a cara de dezenas de adolescentes e o som do recreio de uma escola. O monstro tem a cor azul e branca e o cheiro da terra. O monstro estava sentado a beira rio, a escassos metros de nos - uma distancia tao pequena que poderia ser atravessada em poucas bracadas. O monstro estava rodeado por homens vestidos de verde, empunhando metralhadoras e observando todos os nossos passos. O monstro quer comunicar connosco e, sem proferir palavra, acena-nos do outro lado do rio. A minha namorada decide responder-lhe e acena-lhe tambem. 'Don't wave at them! Don't wave at israelitas,' ordena o guia. Olhamos para tras e descobrimos finalmente que o monstro esta deste lado do rio tambem. O monstro nao e Israel, nem os Arabes. O monstro e o odio entre dois vizinhos.

    Passamos o resto do dia a dirigir esta imagem nas margens do Mar Morto.

    sábado, março 13, 2010

    Dia 16 - Na estrada para Amman


    Os dias em que atravessamos fronteiras sao invariavelmente os mais arduos. Este, embora nao tao cansativo como aquele dia em que cruzamos a fronteira entre o Libano e a Siria, nao fugiu a regra.

    Partimos de Damasco de manha cedo num taxi com destino a estacao de autocarros. Pelo caminho, encetamos conversa sobre politica com o taxista, por sinal um muculmano casado com uma crista. Diz-nos que na Siria apenas os Israelitas nao sao bem vindos (uma ideia, alias, ecoada por todos os locais pelos quais passamos ate agora). Talvez mais curioso foi partilhar connosco que nao existe nenhuma diferenca entre Bush e Obama. Perguntei-lhe se nao tinha ficado impressionado pelo discurso de Obama no Cairo. 'Nao. Ele continua a defender os interesses das mesmas pessoas.'

    Entretanto, entramos numa especie de via rapida e, em pleno movimento, comecamos a receber propostas de taxistas para nos levar para Amma ou Beirute. O primeiro quer demasiado dinheiro, o segundo aceita levar-nos ate Amman, com paragem no Teatro Romano de Bosra, por uma quantia razoavel. Aceitamos. Fazemos a transicao de veiculos ali mesmo na estrada. Uma hora mais tarde, estamos a porta do teatro. Pela primeira vez, desde do inicio da nossa viagem, somos recebidos por um bafo estival. Porem, o Teatro de Bosra vale cada gota de suor que escorremos. Acima de tudo, a dimensao e o extraordinario estado de conservacao do local deixam-nos esmagados.

    Uma hora depois, seguimos viagem. Entre o meu limitado arabe e o ingles inexistente do condutor descubrimos que e palestiniano e que nasceu num campo de refugiados em Beirute, perto do aeroporto. Pelo ar com que me conta isto, temo que seja Sabra ou Shatilla (onde, em 1982, decorreram terriveis massacres que forcaram a intervencao de forcas internacionais) e termino a conversa.

    A fronteira propriamente dita foi um episodio longo e intediante. Aqui, tal como na anterior fronteira, existem na realidade duas barreiras: uma para sair da Siria (em que tambem se paga) e uma para entrar na Jordania. Nesta ultima, o grau de controlo e bastante mais elevado, consistindo de numa revisao completa dos veiculos (durante a qual, um militar desce a um buraco na estrada para verificar a parte de baixo), das malas (as nossas, talvez por sorte, nao foram abertas) e dos passageiros (controlo demorado dos passaportes).

    Finalmente, entramos na Jordania. A primeira impressao e de enorme contraste com a Siria: temperatura mais alta, paisagem mais arida e amarela e menos imagens do chefe de Estado. Ajuda tambem que o Rei Abdullah II tenha um ar bem mais simpatico do que infezado Presidente da Siria, Bashir Al-Assad.

    quinta-feira, março 11, 2010

    Dia 15 - Os primeiros sinais de cansaco


    Ao decimo-quinto dia, precisamente o meio termo da viagem, comecamos a acusar o desgaste. Ha umas noites atras dei o meu grito de Ipiranga quando, segundo me contou a minha namorada, acordei a protestar com os muezzins (os chamamentos para as rezas). Dizia eu: 'Eu nao acredito! Eu nao acredito! Quero dormir e estes gajos querem rezar! Tu acreditas-te nisto?' 

    A verdade e que os Arabes (perdoem-me a generalizacao, mas depois de conhecer o Egipto, o Iemen, o Libano, a Siria e a Jordania penso que ja tenho direito a algumas) sao perfeitamente indiferentes a poluicao sonora. Aqui, tudo parece funcionar segundo uma ingovernavel hierarquia do som: no transito como na musica, no mercado como na mesquita, o escalao de importancia parece aumentar com o grau do som.  Ha uns dias atras, a minha namorada ficou bastante impressionada quando, num restaurante em Aleppo, os clientes e os musicas permaneceram impavidos com o chiar de um microfone que necessitava de calibracao. Nao pareceu uma anormalidade. Tivemos uma situacao semelhante na ultima noite em Damasco, quando fomos jantar a um restaurante situado no patio de uma antiga casa Otomana. Estava uma noite quente de primavera, pelo que podiamos apreciar as estrelas apenas levantando a cabeca das iguarias sobre a mesa.  Enfim, um ambiente ideal para um jantar a dois. Porem, sendo esse tal restaurante popular entre os damascenos, celebravam-se tambem varios aniversarios. Talvez, por esse motivo, e como nota de cortesia, o manager convidou um cantor e um pianista de orgao para entreter os clientes. Foi a desgraca de nos e do nosso jantar. O homem e o acompanhante musical formavam um dueto insurdecedor de sons agudos e metalicos, proximos do heavy metal, que nos impediu de qualquer conversa ao longo do jantar. Este sim, um retumbante fiasco!

    De igual modo, na Mesquita Omaida e no Palacio de Azem (governador Otomano da provincia da Siria), principais atraccoes da cidade de Damasco, sentimos-nos defraudados pela quantidade e, acima de tudo, sonoridade, dos nossos companheiros visitantes. E, no minimo, estranho que obrigem as ocidentais (mesmo que usando camisola e lenco na cabeca. Ah, e ja agora, obrigam os turistas a pagar para entrar num local sagrado) a trajar longas vestes, quando no interior nos deparamos com criancas a atravessar o patio em histeria, algumas descalcas, e uma delas ate mesmo, de patins em linha. No harem do Palacio de Azem, um espaco supostamente de tranquilidade, projectado com o fim de proteger a vida familiar do Pasha, tornou-se num campo de batalha, onde criancas e adultos se acotovelam de sala em sala, sem nada ler, nem nada ver, com uma voracidade glutona. Infelizmente, dou por mim a observar os poucos ocidentais que se encontram por perto como seres civilizados numa selva anarquica. Preferia nao pensar assim. Deve ser do cansaco.

    Dia 14 - Dedicacao


    Damasco. Agora compreendo.

    Percorro as tuas ruas em comocao; descubro; identifico as fontes que brotaram civilazao. Provo-te, beliscas-me - esta tudo aqui, diante dos meus aqui. Como pudera eu saber, sem nunca ter estado em Damasco?

    Damasco. Conhecer-te e penetrar o coracao da humanidade. E uma voluptuosa expedicao ate a cratera de um vulcao activo. Entusiasmo-me ao constatar que ainda estao vivas as fontes, as que brotaram sangue e alma aos homens da Terra.

    Damasco. Tua dimensao e vertical, atravessa as pedras da historia. Substrato sobre substrato. Apenas tu poderias conceber uma mesquita*, onde outrora fora uma basilica de Sao Joao Baptista, onde antes fora templo romano ao Deus Jupiter, e onde ainda primeiro fora um templo pagao dos Arameus. Como partida ou eterna recordacao da efemeridade humana, deixaste-se vestigios de cada uma destas transicoes. Mas que delicia!

    Damasco. Mais nao conseguiria escrever sem ferir a tua dignidade. Resta-me apenas o contento de um dia, tao cedo, ter-te conhecido e percebido mais qualquer coisa sobre a vida. Obrigado.


    * Mesquita Omaida (construida pelos Omaidas, os primeiros califas depois de Maome e os conquistadores da Peninsula Iberica em 711).

    terça-feira, março 09, 2010

    Dia 13 - Palmyra, a gloriosa


    Palmyra, a que nao merece ser enfiada num saco ao desbarato, funciona da seguinte maneira: os turistas levantam-se por volta das sete da manha (mais cedo, se pretenderem ver o nascer do sol nas ruinas) para tomar banho e pequeno-almoco. La para as oito, comecam a reunir-se a porta do Museu Nacional de Palmyra, uns dentro dos auto-pullman, outros na rua a negociar precos com os taxistas. Convergem aqui para comprar o bilhete que da acesso ao vale dos tumulos (nome que, imagino, sera inspirado no primo egipcio). Depois disto, um guarda sai do museu com um imenso molhe de chaves e entra dentro de um dos auto-pullman. Ele e a figura central neste cortejo, uma vez que lhe cabe a funcao de abrir dois tumulos entre as 8:30 e as 9:30 da manha. Finalmente, partimos em direccao ao deserto.

    A primeira paragem e precisamente no dito vale dos tumulos. Apesar de despojados do recheio, os tumulos continuam a estimular o Indiana Jones dentro de quem os visita, principalmente devido a mestria da construcao. Existem dois tipos de tumulos: os primeiros constituem torres de pedra com ou tres andares e ate pequenas varandas; os segundos sao escavados no deserto ao estilo dos tumulos egipcios.

    Visto isto, seguimos para um castelo mouro do sec. XVII, encrustado no cume de um monte que domina toda a planicie do deserto desde a cidade ate as palmeiras do oasis. Aqui, pretendemos nao visitar o castelo (alias, estava fechado), mas sim apreciar a extensao das ruinas. Vale a pena o desvio: vista daqui, Palmyra, a resgatada, torna-se numa perfeita maqueta de uma prospera cidade romana.

    Por fim, descemos em direccao as ruinas e vamos directos ao Templo de Bel. Damos uma voltinha por ali sem grande emocao pois constituem uma palida comparacao com os templos de Balbeek no Libano. Comecamos a pensar que ja vimos demasiadas ruinas romanas numa so viagem. Porem, logo em seguida, somos obrigados a reconsiderar o pensamento – saindo do templo, deparamos-nos com as ruinas de Palmyra, a cidade romana. A nossa frente, temos um enorme arco que inicia uma via delimitada por enormes colunas. Cada uma destas colunas, tem um pequeno pedestal onde, em tempos, estiveram as estatuas dos notaveis da cidade (curiosamente, uma das colunas ainda tem a estatua). O caminho entre as colunas esta em terra tal como o original (os romanos optaram por deixa-lo em terra para que os camelos o podessem atrevessar), mas nos lados exteriores das colunas existem ainda as lajes que formavam as vias pietonais. Enfim, Palmyra, a gloriosa, esta repleta de pequenos pormenores com este. Passamos la o resto da manha, mas podiamos ter la estado dois dias.

    A tarde, partimos em direccao a Damasco.