A Gaivota Farragulha

    quinta-feira, outubro 29, 2009

    A morte, para convencer a opinião pública


    (Jeff Zeleny. The New York Times)


    Na noite passada, entre as 11:44 da noite e as 04:45 da manhã, Barack Obama, actual Comandante Supremo das Forças Armadas norte-americanas, esteve na base aérea de Delaware para prestar homenagem a 18 soldados americanos caídos esta semana no Afeganistão. Durante cerca de 15 minutos, o novo Nobel da Paz permaneceu em continência, enfrentando o frio de uma noite outonal, enquanto decorria a cerimónia de transladação dos corpos para carrinhas funerárias, designada por 'dignified transfer'. Há apenas algumas semanas, porém, esta imagem não poderia ter sido registrada. Com efeito, a fotografia deve-se à recente revogação de uma lei, com mais de 18 anos, que proíbia a captação de fotografias de caixões de soldados americanos no regresso aos EUA. A lei agora em vigor, permite que os caixões sejam fotografados desde que as famílias dos soldados o permitam. Neste caso, das famílias dos 18 soldados mortos, apenas a do Sargento Dale R. Griffin, 29 anos, de Indiana, o consentiu. E assim, a imagem do seu caixão coberto por uma bandeira, chegou às capas de jornais em todo o mundo esta quinta-feira de manhã. Não porque o seu corpo seguia dentro do caixão, nem porque Outubro de 2009 foi o mês mais sangrento para as tropas americanas no Afeganistão desde o início da ofensiva em 2001.

    A verdade é que a fotografia serve um propósito valioso ao Presidente norte-americano: o de provar ao público americano que está consciente dos custos da guerra, numa altura em que estará prestes a anunciar o reforço do contingente no Afeganistão. A comprovar esta intrepretação, ficaram as palavras do assessor de imprensa de Obama, Robert Gibbs, um dos poucos funcionários da Casa Branca a acompanhá-lo nesta missão nocturna, que afirmou que o Presidente estaria a concluir a sua decisão sobre o envio de mais tropas para o Afeganistão. Mais tarde, adicionou: 'A tarefa mais dura que ele (Obama) tem de fazer em qualquer dia é assinar a carta de condolências para aquele que perdeu um filho, ou uma filha, um marido, ou uma mulher, no Iraque ou no Afeganistão, ou a servir o nosso país noutro qualquer local ultramarino.'


    segunda-feira, outubro 26, 2009

    O debate que incendiou a Inglaterra



    O programa Question Time da BBC é o Prós e Contras dos britânicos. Ou melhor, o Prós e Contras é o Question Time dos portugueses, uma vez que o programa britânico existe há mais de 20 anos (ilustrando bem o atraso do nosso país nestas andanças da democracia; até porque na versão britânica a própria audiência interpela os convidados, ao passo que em Portugal, a audiência, em casa e no auditório, continua sujeita à perspicácia e omnipotência de Fátima Campos Correia). Enquando estive em Inglaterra, o Question Time era uma presença incontornável das noites de quinta-feira. Admirava o jeito objectivo de David Dimbleby - o apresentador -, a diversidade da audiência, a genuinidade das perguntas, mas no fundo sabia que muitos poucos, cada vez menos, pensavam da mesma forma que eu. O programa encaminhava-se lentamente para a sessão derradeira, em que a política séria, das causas e das pessoas comuns daria lugar à política espectáculo.

    Na semana passada, enquanto andava às voltas com raízes cúbicas e geometria, tive a percepção de que algo de muito grave teria, ou estaria para se passar, no Question Time. Subitamente, o Question Time tornou-se o tema de TODOS os meios de comunicação britânicos, desde o The Sun ao The Guardian, e transbordou para alguns media internacionais. Em Portugal, os jornais fizeram apenas referência ao caso, geralmente divorciadas de qualquer clarificação sobre o programa, os intervenientes ou sobre o caso em si. Tratou-se do convite do programa a Nick Griffin, Presidente do British National Party (BNP). Para quem não conhece esta aberração política, o BNP é um partido que restringe a militânicia a membros dos grupos étnicos indígenas ao Reino Unido; acredita que existem diferenças biológicas entre raças que determinam as suas características e o seu comportamento, que a preferência e o orgulho pelo grupo étnico de cada um faz parte da natureza humana; defende que devem ser dados incentivos 'firmes' aos imigrantes e seus descendentes para que regressem 'a casa' e que assim se possa reconstruir a génese essencialmente 'branca' da sociedade britânica, tal como existia até 1948. A estes preceitos absurdos, o partido acumula um historial de abuso verbal e incitamento à violência contra as minorias que não fica em nada aquém das propostas de Hitler ou de Mussulini antes de chegarem ao poder.

    Julgar-se-ia que nos dias que correm, e depois dos brutais acontecimentos da história recente (dos quais o Reino Unido, principalmente o mais nacionalista e etnocêntrico, tanto se orgulho em ter participado), ninguém se sentiria atraído por tais ideias. Puro romantismo. Nicolau Maquiaveli acertou no centro nevrálgico da teoria política quando escreveu que 'o medo triunfa sobre todas as outras forças.' A ascenção do BNP na cena política britânica está-se a tornar num caso paradigmático. Deparando-se com uma crise económica voraz, um mal-estar social generalizado e uma classe política descredibilizada (ainda se lembram do escândalo dos gastos dos deputados na House of Commons? Não foi assim há tanto tempo...), os eleitores britânicos viraram à direita. À extrema-direita. Nas eleições europeias, o BNP elegeu dois deputados ao Parlamento Europeu (um dos quais é este senhor). Já em Setembro, Griffin gabou-se publicamente de o BNP ter, numa só noite, recrutado 3000 novos membros, um recorde histórico para o partido.

    Foi neste contexto que o Question Time anunciou a participação de Griffin no programa da semana passada. Os sectores mais liberais consideraram o convite como uma oportunidade para Griffin pregar a sua distorcida ideologia a uma audiência maior (pelos vistos, foi depois de uma aparição televisiva que Jean Marie Le Pen conseguiu destacar-se) e organizaram-se. Destacados membros do governo Trabalhista, como Lord Mandelson e Jack Straw, que participou no programa, alistaram-se contra o BNP - tendo em vista os seus próprios dividendos eleitorais, claro está. Mas não foram os únicos. Judeus, muçulmanos, gays e religiosos juntaram-se por uma única e inédita vez numa só voz contra Nick Griffin. Os resultados estão bem evidentes nestes dois vídeos: no primeiro, Griffin é distroçado em directo pelo paínel, pela audiência (o discurso do tipo que fala é espectacular) e até pelo próprio Dimblebly ('Are you laughing?'); no segundo, os manisfestantes anti-BNP geram o caos nos estúdios da BBC (quando foi a última vez que os portugueses tentaram invadir a televisão pública?). No entanto, e apesar desta onda de contestação contra o BNP, sondagens levadas a cabo após a emissão do programa revelaram que não só o número de pessoas que declara a intenção de voto no BNP é maior do que antes (3%), o número de eleitores que considera votar no BNP aumentou para 22%.

    Dados arrepiantes que denunciam que os temas que julgavamos estar mortos, e aos quais a história não regressaria jamais, estão vivos e revigorados. O pior é saber que pela transparência e o sensacionalismo do Reino Unido, que tende a repiscar e exponenciar todas as controvérsias públicas, este caso representa apenas a ponta do iceberg. A verdadeira ameaça está na Europa continental, onde Geert Wilders e outros avançam a passos largos para se afirmar. Preparem-se!

    quarta-feira, outubro 21, 2009

    Nobels de Ferro e Nobels de Plástico







    Caros leitores,

    Como sabem, não tenho tido oportunidade de publicar com regularidade no blog. Portanto, em primeiro lugar, e se pertencem ao grupo de pessoas que continua a visitar esta página mesmo sabendo que poderá não ter nada de novo: OBRIGADO! E já que estamos neste espírito de troca de palavras prazenteiras, li esta semana um artigo fantástico na melhor revista do mundo (confio que a este ponto todos saibam a qual me refiro) sobre a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Barack Obama, Presidente dos EUA. Decidi então transcrever o texto para o blog e oferecer-vos as palavras e a sabedoria de Hendrik Hertzberg (editor senior e escritor da revista) sobre um dos acontecimentos mais inesperados e avassaladores de dias tempos tão preenchidos e multifacetados como os nossos. Perdoem-me apenas, pois não resisti à tentação de rematar o texto com alguns comentários meus:



    If President Obama really had to get a gift postmarked Scandinavia this month, he would probably, on the whole, have preferred the Olympics. (Metáfora vívida e engenhosa: isto é o que se chama um excelente início). At least at the Olympics the judges wait till after the race to give you the gold medal. They don’t force it on you while you’re still waiting for the bus to take you to the stadium. They don’t give it to you in anticipation of possible feats of glory, like a signing bonus or an athletic scholarship. They don’t award it as a form of gentle encouragement, like a parent calling “Good job!” to a toddler who’s made it to the top rung of the monkey bars. It’s not a plastic, made-in-China “participation” trophy handed out to everyone in the class as part of a program to boost self-esteem. It’s not a door prize or a goody bag or a bowl of V.I.P. fruit courtesy of the hotel management. It’s not a gold star. It’s a gold medal. (Belisquem-se!)

    We can take it as a sign of what a lucky fellow our President is that winning the Nobel Peace Prize has been widely counted a bad break for him. (Adorei, embora só tenha compreendido a frase numa segunda leitura. Quer isto dizer que Obama é um tipo com tanta sorte que, quando ganha o Prémio Nobel da Paz, os comentadores acham que é azar.) Barack Obama has come very far very fast. Five years ago, not long after finishing a distant second for a Chicago congressional nomination, he was still one of the hundred and seventy-seven members of the Illinois state legislature. Four years ago, he took his seat in the United States Senate, ushered there not only by his own undoubted talents, but also by the serial self-destruction of his opponents. One year ago, he won the Presidency with a margin of victory – nine and a half million votes – that was the largest since 1984; absent the tailwind provided by his predecessor’s abysmal record, however, that margin would have been far smaller, possibly even non-existent. (Talvez exagerado: acredito que o carisma natural de Obama impor-se-ia inevitavelmente nas urnas perante o cinzentismo de Clinton e McCain) He is certainly one of fortune’s favourites. He came into office on a tide of euphoria. Lately, though, his supporters have been experiencing a vague sense of disappointment. He may have saved the world from a second Great Depression and all that, but the jobless rate keeps on climbing, the planet keep on heating up, Guantánamo keeps on not getting closed, and roadside bombs keep on exploding. He’s had eight whole months, and still hasn’t signed a comprehensive health-care bill. Given that his perceived political problem is exaggerated expectations, does he really need a Nobel Peace Prize before he has actually made any peace? (Muitos dos pontos referidos neste parágrafo correspondem aos mencionados por mim no post sobre a atribuição do Nobel a Obama. No entanto, julgo que Hertzberg enunciou aqui melhor o potencial prejuízo do Prémio Nobel para Obama neste momento: a última coisa que necessita o político que sofre de expectativas exageradas é de ganhar um galardão antes de atingir os objectivos propostos.)

    The award to Obama illustrates, among other things, the difference between the “hard” and the “soft” Nobels. The prizes for physics, chemistry, and medicine are never given for trying, only for succeeding. Also, there is no apparent attempt to achieve regional, national, or ethnic balance. (À primeira vista, esta frase parece perdida. Só depois percebi que ela se refere ao facto de, nessas três categorias, não existe, pelo menos aparentemente, uma tentativa de harmonização de quotas regionais, nacionais ou étnicas – os prémios são, pura e simplesmente, entregues aos melhores. De notar que Hertzberg ‘esquece-se’ de referir os géneros.) The same cannot be said of the literature prize, which frequently go to authors who write in languages that few if any of the judges –eighteen grandees of the Swedish Academy – can read. Anyhow, literature is a matter of taste, which is why, among American authors, Pearl S. Buck (Uma das favoritas da minha professora de História no secundário. Nobel de 1938) was deemed worthy of the honour while Henry James was not. (The rooster of literary losers, A to Z, also includes Auden, Borges, Conrad, Joyce, Kafka, Nabokov, Proust, Tolstoy, Twain and Zola.) (Esta é uma daquelas listas que aquelas pessoas que gostam de se passar por cultíssimas, devia, memorizar para depois debitar em conversas de jantar como se ditassem um receita de mousse de chocolate – glória garantida). As for the relatively new economics prize (full name: the Sveriges Risbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel), it is neither hard or soft, just kind of mushy (‘bonzinho’) – a Golden Globe, not an Oscar (cartoonmente falando, ‘Glup!’).

    The peace prize, first given in 1901, has always been the trickiest of the lot. For the first fifty years or so the judges, a five-member committee appointed by the Norwegian parliament, almost always honoured a person or an organisation devoted to working, in the words of Alfred Nobel’s will, “for fraternity between nations, for the abolition or reduction of standing armies and for the holding and promotion of peace congresses.” – a formula that excluded, for example, Mohandas Gandhi. (Fica assim esclarecida essa monumental lacuna assim como a curiosidade de, na época em que o Nobel da Paz foi criado, o conceito de paz consistir apenas no combate ao belicismo.) After the Second World War, the judges’ definition of peace grew more capacities, producing laureates like Martin Lurther King, Jr., Aung San Suu Kyi, and the Dalai Lama. But the choice has always been, as a former chairman of the judging committee wrote in 2001, “to put it bluntly, a political act.” (Novo ‘Glup!’)

    The chairman of the Republican National Committee would agree. He quickly fired off a fund-raising e-mail head “Nobel Peace Prize for Awesomeness,” calling the choice proof that “the Democrats and their international leftist allies want America made subservient to the agenda of global redistribution and control.” (Nada de novo.) A trifle overwrought? Perhaps. Still, to be fair to the chairman, there’s little doubt that for eight years the most prominent figure hovering over the Nobel Committee’s deliberations was not any of the nominees under consideration; it was George W. Bush (‘El Diablo’, parafraseando Chavez). Jimmy Carter richly deserved his belated prize – he is as responsible as were Anwar Sadat and Menachem Begin (Nobel de 1978) for the thirty years’ peace between Israel and Egypt – and Al Gore, who sounded the tocsin (‘sino’) on climate change, deserved his. But in neither case did the judges try very hard to hide their satisfaction in delivering a rebuke to Bush. This time their message was one of relief – and of hope and confidence, not just in Obama himself but in a United States that has reembraced, as the prize announcement put it, 2that international policy and those attitudes for which Obama is now the world’s leading spokesman.”

    A few hours after the news from Oslo, Obama, looking a little abashed (Não é verdade.), even a little comfortable (Também exagero.), stepped up to a portable podium in the Rose Garden and spoke of the honour that had come to him so soon – too soon, even many of his admirers admit (Hertzberg denuncia-se) – and so unexpectedly. “Let me be clear,” he said and went on, first acknowledging the obvious:

    “To be honest, I do not feel that I deserve to be in the company of so many of the transformative figures who’ve been honoured by this prize – men and women who’ve inspired me and the entire world through their courageous pursuit of peace. But I also know that this prize reflects the kind of world that those men and women and all Americans want to build, a world that gives life to the promise of our founding documents. And I know that throughout history the Nobel Peace Prize has not just been to honour specific achievement; it’s has also used as a mean to give momentum to a set of causes. And that is why I will accept this award as a call to action, a call for all nations to confront the common challenges of the twenty-first century.”

    After a few more sombre words, he turned and walked back into the West Wing, there to attend another in a series of meetings on the strategy that he soon must set for the war in Afghanistan. The prize is won, but the peace, as always is elusive.” (Afeganistão! O elefante cor-de-rosa faz uma entrada triunfal, no último parágrafo, no artigo. De um modo geral, a ideia que fica é que Hertzberg, tal como muitos de nós, não atribui valor significante aos Prémios Nobel. São títulos que se concedem, frequentemente por motivos políticos e circunstanciais, e que se traduzem em pouco na vida real. Por outros palavras, os mais de cem de história dos Prémios Nobel não impediram que algumas das maiores atrocidades (sendo que, em algumas casos, a honra se destinou directamente aos envolvidos, como Yasser Arafat) se tenham cometido ao longo desse preciso período. Em suma, a paz não se constrói com prémios.)
    in The New Yorker, Oct. 19, 2009

    quinta-feira, outubro 15, 2009

    Agustina


    (Agustina em 2006 por António Rito. Flickr)


    Faz hoje 87 anos que a melhor escritora portuguesa viva nasceu. Agustina Bessa Luís deu as primeiras bafejadas de ar em Vila Meã, Amarante, num domingo auspicioso de 1922. Ainda jovem, Agustina demonstrou interesse e vocação para a literatura, tendo passado grande parte da sua juventude a retratar o mundo rural do Minho e Douro. Foi, no entanto, por intervenção do marido, Alberto Luís (quem transcreveu à máquina os seus textos, eternamente escritos a letra azul e apertada em folhas de papel) que a sua primeira obra, Mundo Fechado, foi publicada em 1948. Desde então, Agustina - ou a Amarantina, como mais gosta de ser tratada - publicou uma vastíssima obra, ao ritmo de um livro por ano, da qual se destacam a Síbila, Fanny Owen, A Corte do Norte e inúmeros e exímios contos como O Javali. Seria um verdadeiro crime, para Portugal e os Portugueses, não celebrar esta figura incontornável da literatura portuguesa que, perenemente humilde e generosa, atravessou as décadas como uma ilustre desconhecida das artes nacionais. Acredito que é esta a estirpe de artista que mais merece enaltecer com prémios e louros: os que dão a alma sem presunção ou interesse. Por estes motivos mas também por muitos outros conhecidos apenas aos leitores de Agustina, o maior escritor português vivo abandona hoje o seu exílio numa ilha atlântica para lhe fazer uma homenagem pública na Casa Fernando Pessoa em Lisboa, por volta das 18h30. Caso fiquem tão desconsolados como eu por não poder assistir ao evento, deixo-vos então dois prémios de consolação: o primeiro, é um longa homenagem feita este ano pela revista LER a Agustina, com testemunhos de várias personalidades destacadas das artes e vida pública portuguesa como Lídia Jorge, Eduardo Lourenço e Diogo Freitas do Amaral (aqui); e um pequeno texto de Agustina sobre uma visita à Quinta das Lágrimas em Coimbra. Para vosso deleite:


    QUINTA DAS LÁGRIMAS


    Fui há muitos anos à Quinta das Lágrimas, onde se diz que Inês foi morta. Lembro-me que se transpunha o rio atravessando uma ponte de madeira cujas tábuas gemiam e ba­loiçavam. Parecia uma ponte militar, para assédio à cidade.

    A Quinta das Lágrimas esteve para ser comprada pelo meu pai quando ele veio do Brasil e se deixava sugestionar pelas lendaz históricas e coisas famigeradas de glória antiga. Havia uma enorme árvore da cânfora nos arredores da casa, que era como uma estufa, com muitos vidros e caixilhos descascados. Numa caleira de pedra corria a água. sobre um líquen vermelho. Dizia-se que era «o sangue de Inês». Como disse, a moradia era decepcionante, um pouco ao estilo dos chalés de Sintra em que veraneavam os banqueiros do século XIX e os ricos-homens dos cafezais de S. Tomé. Esta­vam na moda os jardins de Inverno, e nesse tipo de casas havia pavilhões envidraçados onde se tomava chá e bebia água de sifão. Mas não posso garantir que na Quinta das Lágrimas fosse assim.

    Era numa tarde muito quente, em Maio. O calor de Maio, em Coimbra, traz no coração o perfume da tília em flor; desde o alto do Jardim da Sereia ele abate-se até ao fundo da cidade como um lenço abafante e suave. É um calor e um perfume que deprimem. Acompanham os estudantes quando eles revêem a matéria, fumando com gesto irritado e deixando o olhar parar nas varandas da frente onde outros estudantes mourejam nas páginas das sebentas.
    Mas, voltando à Quinta, que está num vale sem horizontes, que seriam dantes os fecundos campos de regadio, com manantes a visitar-lhe os muros para roubar capôes e melancias: estranhei-a, de tão deserta. Não havia um só visitante, ou um morador; e não vi também guardião. Só um cãozito sujo, de pêlo em que a lama secara, me lançava de longe alguns ladridos curtos, sem cólera, por simples obrigação.

    A casa não tinha cortinas nem vestígios de ser habitada. Havia, em volta, alguns canteiros onde crescera a beldroega e umas açucenas tão altas que podiam chamar-se o bordão de S. José. Na parede, uma mancha de água que se infiltrara pelo telhado parecia a sombra de uma mulher; uma mulher alta e corpulenta, que risse, os ombros deitados para trás. Ouvi, ou pareceu-me, um arrastar de passas, mas durou pouco; tudo ficou silencioso outra vez. Porém, quando eu já me afastava vi, sentada numa velha cadeira de verga, uma senhora ainda nova, com uns óculos na mão direita e que olhava para mim com uma frieza condescendente. Se era a dona da casa era uma excêntrica, porque estava vestida com uma saia cor de ferrugem, tendo por cima um vestido verde, aberto, e um cinto dourado. Os cabelos usava-os soltos e eram de um belo loiro carregado com reflexos mais claros sobre as orelhas. O rosto era rosado, mas notava-se que usava carmim, muito fino e brilhante. Estendeu as pernas com um movimento preguiçoso; estavam nuas e eram tão brancas como o ventre das trutas. Até certo ponto parecia muito uma lavradeira abastada, dessas do Alto-Minho que se descalçam ao fim das tardes de Verão para ir regar, [...]

    AGUSTINA BESSA LUIS, “Adivinhas de Pedro e Inês”,
    GUIMARÃES & C.a, EDITORES, 1983, pp. 7, 8

    sexta-feira, outubro 09, 2009

    Obama é fixe, mas nem tanto, ainda...



    (Antes de ser Presidente, Obama foi captado pelo fantástico fotógrafo (pornógrafo?) Terry 'T-bone' Richardson. Mais aqui.)



    Em primeiro lugar uma palavra de contrição a todos os leitores pela falta de comentários nos últimos dias. A verdade é que tenho andado muito ocupado com as candidaturas ao doutoramento e a actividade de bloggista ocupa mais tempo e disponibilidade das que posso sensatamente despender neste momento. Deverei continuar neste ritmo até ao início de Novembro, pelo que poderão contar com uma terrível escassez de comentários. Não me esqueci também da segunda parte do artigo sobre o 'caso das escutas': já está quase escrito, só preciso de limar algumas arestas. Acontece que, por vezes, a vida pública quotidiana toma caminhos inesperados que nos resgatam da apatia e nos atiram para a frente do ecrã do computador cliquando sofregamente em letra após letra.

    A atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2009 a Barack Obama é um desses momentos. Parece-me precipitado. Não duvido que Obama o merecesse: a sua chegada à Presidência dos EUA representa uma retumbante vitória na longa caminhada do movimento dos direitos civis dos afro-americanos que não pode ser dissociada do homem que a concretizou; o discurso de Barack Obama na Universidade do Cairo assim como as várias entrevistas e declarações que tem concedido a televisões árabes tem contribuído incomensuravelmente para apaziguar as tensões interculturais que marcaram a primeira década do século XXI; e, por fim, a sua insistência no papel da ONU e em especial num enquadramento mais inclusivo das relações internacionais são passos no sentido certo que certamente terão efeitos frutivos no futuro. No entanto, a nível concreto na política externa, Barack Obama ainda não atingiu nada de substancial: o exército dos EUA continua envolvido em duas operações militares (se uma continua no mesmo estado em que estava quando Bush abandonou a Presidência, a outra está cada vez pior); a prisão de Guantanamo ainda não foi totalmente desmantelada; o Irão e a Coreia do Norte continuam a procurar armas nucleares, deitando por terra o argumento de que Barack Obama tem impulsionado o movimento anti-nuclear (já diz o ditado que ‘de boas intenções, está o inferno cheio’); e o acordo de paz no Médio Oriente parece cada vez mais distante. A verdade é que ao longo do primeiro ano da sua Presidência, Obama concentrou-se, e bem, em encontrar uma solução para a crise económica americana e global. Está portanto ainda por avaliar, com pleno conhecimento dos seus sucessos e fracassos, a forma como Obama conduzirá a política externa americana: até por que a guerra em AfPak ameaça tornar-se num novo Vietname (não sou eu que o digo, é o próprio Richard Holbrooke, representante especial de Obama para a região). Curiosamente, Obama é já o quarto Presidente Americano a ganhar o Nobel da Paz, embora o menos 'accomplished' no momento da atribuição: o primeiro foi Ted Roosevelt em 1906 pela celebração do acordo de paz entre a Russia e o Japão; o segundo foi Woodrow Wilson pelo esforço de paz no final da primeira Guerra Mundial; e o terceiro foi Jimmy Carter em 2002, já depois de ter abandonado o cargo, pelo empenho pessoal na solução de conflitos internacionais e nas causas da democracia e dos direitos humanos.

    Poderia também ser dito que a Comité Norueguês decidiu premiar o povo americano pela escolha de um Presidente mais ajuizado do que o seu antecessor. Porém, ser melhor Presidente dos EUA do que George W. Bush não justifica em si só a atribuição do Prémio Nobel da Paz (gostaria de saber o que pensa Bill Clinton, agora Gore e Obama são ambos Prémios Nobeís). Em última análise, temo que a atribuição do Prémio Nobel ao Presidente Obama no primeiro ano de mandato possa ser mais prejudicial do que benéfico: por um lado, reacende expectativas exageradas sobre o possível papel do Presidente dos EUA para ‘fazer o bem como um messias’ – prendendo-as ao imperativo de justificar o Nobel, o que poderá desequilibrar artificialmente o status quo em favor da parte mais forte (ou seja, a posição dos EUA no Iraque, no Irão, na Coreia, no Afeganistão, no Paquistão, na Palestina, em Israel, etc); e, por outro lado, poderá dar azo a leituras conspirativas sobre a fantástica ascensão de Obama no palco mundial (aliadas a alguma inveja, é certo) que poderão minorar, na percepção pública, os sucessos da actual administração americana assim como o próprio Prémio Nobel da Paz.

    sexta-feira, setembro 18, 2009

    Homens entram na luta...

    "E ao 3.o dia Deus deu-nos humor como deve ser: mal--comportado", Rui Zink. Os outros que se acautelem...

    sexta-feira, setembro 04, 2009

    That sinking feeling...



    ("De Espanha, nem bons ventos... nem bons casamentos" já rezava o ditado)




    Foi precisamente às 12h43 de quinta-feira, 3 de Setembro de 2009. José Sócrates perdeu as eleições legislativas. Foi pois nesse exacto instante que Portugal ficou a saber, através da edição online do Público, que a Prisa, grupo espanhol administrador da Media Capital, suspendeu o Jornal Nacional da TVI de sexta-feira. A decisão levou à demissão em bloco da direcção de informação, cuja subdirectora era a pivot desse telejornal, a controversíssima Manuela Moura Guedes. Ao longo de ontem e da manhã de hoje, seguiram-se especulações e revelações, assim como declarações de vários intervenientes públicos. Uns dizem que é testemunho à práctica de ‘asfixia democrática’ pelo governo, outros que “é um acto socialista, com um aliado socialista que é a Prisa”, outros que é “um escândalo do ponto de vista político, empresarial e da liberdade de expressão”, que é “estúpido e inoportuno”, “absolutamente inaceitável” ou que é “difícil perceber a inteligência desta decisão.” Uma coisa é certa: o grande lesado desta história é José Sócrates.

    A pouco mais de vinte dias das importantes eleições, será já muito difícil afastar a imagem de falta de seriedade e respeito por princípios básicos da democracia do Primeiro-Ministro – uma ideia que aliás tinha sido escolhida (por brilhante sentido estratégico ou por mera sorte) pelo principal partido da oposição como a ideia central da sua campanha contra o governo. Num país que guarda bem viva a memória da ditadura, cuja manifestações mais evidentes eram exactamente a censura e a PIDE, atropelos sobre a liberdade da expressão provocam (e ainda bem) repugnância e ultraje geral. Neste caso, a mera aparência basta - José Sócrates tinha inclinado o caldo quando acusou, no dia 21 de Abril, o Jornal Nacional de "jornalismo travestido." A esta situação dramática acresce ainda que as três peças sobre o caso Freeport, que Manuela Moura Guedes pretendia apresentar no jornal de sexta e que alguns consideraram a origem da decisão da Prisa, ainda não foram apresentadas*. Cada dia que passa sem essas peças virem a público aumenta exponencialmente a percepção de que algo está a ser escondido dos Portugueses e de que o Governo e o PS estão de qualquer modo relacionados com esse mistério. Mais, caso essas peças venham agora a público, todos nós, mesmo aqueles que não viam e eram críticos dos telejornais apresentados por Manuela Moura Guedes, dispor-se-ão a assistir a essa tal “investigação de Verão.” Não tenho dúvidas que será o pico do timeshare em Setembro. Porém, mesmo que a qualidade e o teor das revelações seja exíguo, a todos nos relembrará que o actual Primeiro-Ministro, candidato a um novo mandato, está envolvido num processo grave de corrupção. Por muito menos do que isto, perderam-se eleições no passado deste país…

    * Escrevi este texto ao início da tarde, mas entretanto tive que sair. Fiquei agora a saber que as tais peças sobre o Freeport farão parte do telejornal de hoje da TVI. Fico contente, pois acho importante para a clarificação dos cidadãos antes das eleições e incito-os a todos a vê-las também.

    domingo, agosto 23, 2009

    O país que vai a eleições



    (As demolições sucederam a tragédia na praia Maria Luísa. Região Sul)


    A pouco mais de um mês para as importantes eleições legislativas de 2009, o país continua imerso em marés de água fria e insolação trans-ozonal. Os políticos, os partidos e os programas eleitorais permanecem preocupações distantes, acotovelando espaço nas conversas só depois da temperatura do mar, da pré-temporada futebolística, do último burburinho social e da tragédia da vizinha, quer da de lá de casa ou desta da ‘casa’ de férias. A situação ficou bem à vista com o acidente da Praia Maria Luísa na semana passada. Para quem não está a par da história, cinco pessoas (um casal do Porto e duas filhas assim como uma jovem mulher de Coimbra) morreram soterradas na praia, vítimas da derrocada de um rochedo cénico, daqueles que polvilham os postais do barlavento algarvio. Segundo os jornais, desde de 2007 que especialistas da Universidade do Algarve vinham assinalando o local como ‘de risco muito elevado de derrocada’. De igual modo, o comandante do Porto de Faro declarou que ‘esta era uma das situações mais graves’ na costa algarvia, sendo que ‘havia um risco de derrocada a ponto de levar a Autoridade Marítima a colocar avisos.’ No entanto, as obras de prevenção na praia Maria Luísa não estavam nem sequer contempladas no Plano de Acção do Litoral 2007-2013. Assim, e poucas horas depois da tragédia, o Primeiro-Ministro, José Sócrates, teria a tranquilidade para enviar as suas condolências às famílias das vítimas e afirmar que ‘a situação não tinha sido detectada como perigo eminente.’

    A responsabilidade, claro está, não é o do Primeiro-Ministro. Não lhe competia acompanhar e supervisionar a situação das arribas algarvias, muito menos a reacção dos veraneantes perante os sinais de prevenção. Porém, o que a situação penosamente ilustra é o enraizamento da cultura de irresponsabilidade no país que vai a eleições. Se a culpa não morreu solteira, foi porque virou viúva logo na noite de núpcias.

    No dia seguinte, esperava eu que houvessem perguntas. Porque não estaria a praia Maria Luísa incluída no Plano de Acção do Litoral 2007-2012? Porque não teriam tomado ainda as devidas medidas de precaução, nomeadamente a betonização de arribas e a colocação de fitas de interdição, nesta e noutras praias em situações semelhantes? Seria por medo das consequências para o turismo algarvio ou por falta de fundos? Acima de tudo, a quem cabia a responsabilidade de tomar todas estas decisões e porque não as teria tomado? Contudo, não houve perguntas. Pior, não houve quem as perguntasse. Os jornais da tarde dos canais televisivos, começaram por transmitir em directo da praia Maria Luísa, onde acorreram ‘centenas de banhistas e curiosos para prestar homenagem às vítimas do acidente.’ Como pano de fundo, desenrolava-se o ritual dos tais ‘banhistas e curiosos’ que se aproximavam das rochas – algumas ainda por desabar - armados com os respectivos telemóveis 3G para registrar o local da tragédia. Nos breves minutos em que decorreu o directo, houve até quem alinhasse a criançada junto às pedras para fazer a foto. Na SIC, o directo foi sucedido por uma reportagem gravada na praia ao longo da manhã com os ‘banhistas’ que teimavam em desafiar as leis de Newton e estender as toalhas mesmo por baixo destas arribas, alguns em cima delas. A avó com os netinhos regressava essa manhã ao seu recanto na praia, sombreado por um rochedo a meio do areal, com a fé de que ‘a tragédia não ia acontecer igual em dois dias seguidos’. O pai de família falava com autoridade de geólogo de água doce, afirmando que ‘já tinha estado ali a analisar as rochas e, apesar de uma ou duas fendas, não parecia apresentar perigo. Penso eu!’. O grupo de jovens não estava preocupado. Ponto final.

    Da responsabilidade, do respeito pelo próprio e pelos próximos que deveria impedir as pessoas de se deitar por baixo das arribas (pelo menos depois da derrocada), como também da responsabilidade das autoridades públicas em tomar medidas de precaução, e impor obstáculos à irresponsabilidade das pessoas, nem os primeiros raios. O que interessava, aos ‘banhistas’, às autoridades e aos canais de televisão, era esgotar o tema Tragédia. E assim, mais à frente no jornal da tarde, a correspondente da SIC conseguiu um daqueles instantes preciosos que acontecem raramente e apenas em directo: uma senhora de chapéu e óculos escuros chegou ao pé das rochas, pegou numa pedra e veio embora. A jornalista foi atrás dela e disse-lhe:
    - ‘Boa tarde, estamos em directo para o Jornal da Tarde da SIC, foi ali buscar uma pedra?’
    - ‘Sim, sim.’
    - ‘Mas essa pedra tem algum significado para si?’
    - ‘Sim, é que eu sou de Guimarães e gostava de levar uma coisa p’ra casa para me lembrar do que se passou aqui, para manter estas pessoas sempre perto de mim.’
    - ‘Conhecia alguma das vítimas?’
    - ‘Não, mas agora é como se conhecesse.’

    Só depois, apareceu uma senhora com uma farta de cabeleira castanha e discurso imperceptível, traços que lhe conferiam o ar da autoridade, que recitou algumas frases sobre ‘o andamento dos trabalhos’ (de repente, estava tudo a trabalhar nas arribas algarvias) e visitou a praia para demonstrar o zelo e celeridade com que as autoridades estavam a lidar com a situação. O primeiro-ministro selou o caso com as declarações acima transcritas e que vieram salvaguardar todos aqueles que poderiam ter qualquer responsabilidade na tragédia, de que não haveria culpados. Por outras palavras, foi um acaso infeliz que poderia acontecer a qualquer um de nós, a qualquer hora. A mesma lógica aplica-se ao país que vai a eleições: a crise económica é um acaso infeliz cujos responsáveis são célebres anónimos e distantes (mas ninguém tem interesse em falar sobre a a crise nacional, aquela que antecedeu, acompanhou, e sobreviveu a recessão global) e, no fundo, no fundo, apenas uma minoria está verdadeiramente interessada em descobrir as origens da crise e resolvê-la. Preocupam-se sim com a tragédia da vizinha. Este é o país que vai a eleições.

    2ª Fotografia: Imagem do que restava da rocha depois da derrocada e antes da demolição completa da autoria de José Pedro Castanheira.

    quinta-feira, agosto 06, 2009

    Uma 'Paragem' nas ilhas da Morabeza


    Parto hoje de férias! Não tenho muito tempo para escrever mas como não os queria deixar a olhar para as tristes notícias deste escândalo aqui abaixo, remeto-os para um post que escrevi no ano passado e que vos poderá ilucidar sobre o local onde passarei os próximos dez dias (assim, como a razão pela qual regresso hoje). Desta vez, a palavra 'paragem' tem um novo sentido, e por isso a escrevi com letra capítal, pois estas férias serão interregno antes de um período mais activo. Deste modo, prometo que a reentré do ano, será vigorosa com uma cobertura assídua dos futuros desenvolvimentos políticos em Portugal. Até lá, tenham umas boas férias, ou caso estejam a trabalhar, uns bons fins-de-semana de Agosto!




    P.S.: Morabeza significa Amizade.

    sexta-feira, julho 31, 2009

    Isto sim, é um escândalo!




    Fátima Felgueiras foi ontem absolvida de todos os crimes de que era acusada no chamado "caso do Futebol." As acusações remontam a um segundo processo judicial, sendo que no primeiro, o famigerado "caso do Saco Azul", Felgueiras tinha já sido condenada a três anos e três meses de pena suspensa. Quer isto dizer que, ao final de cinco anos de acusações e deliberações, Fátima Felgueiras acaba por não passar um único dia na prisão. Não podendo especular sobre a sua culpabilidade nos processos judiciais em que foram já julgados em tribunal - e cumpre-nos o dever de ter fé na imparcialidade e mérito deliberativo deste - podemos apenas perguntar-nos como é possível que alguém que fugiu, tão cabal e publicamente, à justiça, possa evitar a prisão? Pelo menos um crime ela cometeu. Será que a memória é curta? Ou será que persiste neste país a máxima feudal de que a justiça não se aplica a todos?

    Os casos semelhantes são demasiado numerosos para contabilizarmos. Ainda ontem vi na televisão, um Vale e Azevedo gordo e sorridente a saltar para dentro de um black cab londrino depois de conseguir mais um adiamento da sua extradição para Portugal. Acima de tudo, fica um sabor muito amargo sobre o futuro dos processos da Casa Pia, do BCP, do BPN, BPP e do Freeport. Tal como o caso da ex-autarca, estes processos irão certamente arrastar-se nos tribunais até que se dilua a memória pública do crime e se invente uma forma de contornar ou manipular a lei. O que se passa a seguir é bem sabido: os réus são todos absolvidos e o crime, esse que resiste sempre às marés do tempo como uma cicatriz inapagável, morre órfão. Mas nem sequer nisto há interesse: a absolvição de Fátima Felgueiras ontem não integrou o leque de notícias que abriram os telejornais; e os governos, quer do PS ou do PSD, evitam falar sobre a urgentíssima reforma da justiça portuguesa. Isto sim, é um escândalo.

    sexta-feira, julho 24, 2009

    O regresso de Alice ao Mundo das Maravilhas segundo Tim Burton



    Podemos finalmente ver as primeiras imagens do último filme de Tim Burton - ‘Alice no País das Maravilhas’, com data de lançamento em Portugal marcada para Março de 2010. A história do filme é baseada no conto original de Lewis Caroll, mas segue uma linha narrativa diferente, sendo que, neste caso, Alice está mais velha e regressa ao País das Maravilhas. Porém, não se recorda de lá ter estado. Para além dos magníficos cenários (ou não se esperaria outra coisa de Burton), o filme conta também com um elenco de luxo: Johnny Depp interpreta o Chapeleiro Louco; Helena Boham Carter é a malvada Rainha de Copas; Mia Wasikowska, da série de televisão In Treatment, encarna a Alice; Anne Hathaway, a mesma do Diabo Veste Prada, é a Rainha Branca; e o genial Matt Lucas, da não menos brilhante comédia britânica Little Britain, desempenha os papéis dos gémeos Tweddle-Dee e Tweddle-Dum. Esperamos ansiosamente o seu lançamento nas salas de cinema em 3D.

    quarta-feira, julho 22, 2009

    Os 'organizadores'


    (A realidade imita a ficção? TV Guide)


    Esta vai para a rifa de Verão*: qual é o elo de ligação entre Barack Obama, a Casa Branca, a indústria cinematográfica de Hollywood e a revigorante sitcom da HBO, Entourage? Bem, diriam vocês, há vários pontos de ligação a começar pela atitude cool, o sucesso, a juventude e o guarda-roupa irrepreensível das personagens em ambos os cenários. Não obstante a plausibilidade destas semelhanças, elas são porém insuficientes para estabelecer uma conexão directa entre os quatro pontos. Também não é o facto de o Entourage, como foi recentemente noticiado pelo blog Politico, ser o programa de televisão favorito do Sr. Presidente. Como bem sabemos, e as audiências comprovam, os seguidores assíduos da série são muitos e variados. Qual é então o ponto de ligação que associa directamente e exclusivamente Obama ao show Entourage?

    Nada mais, nada menos do que a história de sucesso de uma família judia. Tudo começou com o encontro, nos anos 50 em Chicago, entre o pediatra Benjamin M. Emanuel e a activista social, Mascha Smulevitz. Pouco depois casaram e tiveram três filhos: Ezekiel J. Emanuel; Rahm Emanuel; e Ari Emanuel (mais tarde, os pais adoptaram uma rapariga). Sobre o pulso firme da mãe, que tanto os obrigava a ir a aulas de ballet como a participar em manifestações, os três rapazes frequentaram a Bernard Zell Anshe Emet Day School, uma escola conservadora judia, e seguiram carreiras diferentes: Ezekiel ('Zeke') tornou-se médico oncologista; Rahm estudou comunicação e mais tarde envolveu-se na política; e Ari, que entretanto foi diagnosticado com hiperactividade e dislexia, começou a trabalhar no mundo do espectáculo.


    (Ezekiel, Rahm e Ari fizeram dos Emanuel uma das famílias mais poderosas dos EUA. Getty Images)


    Não demorou muito até que os três alcançassem sucesso incomparável nas respectivas áreas de ocupação: Ezekiel doutorou-se em Harvard e hoje é o Director do Departamento de Bioética do National Institutes of Health e um dos conselheiros mais próximos de Obama em matéria de saúde pública; Rahm afirmou-se como estratega político, foi assessor político de Bill Clinton durante a sua presidência e hoje é o Chief of Staff de Barack Obama (cuja importância e poder mereceram-lhe o cognome de ‘the Gatekeeper’ pela revista New Yorker – basicamente ele decide o que Barack faz e com quem ele fala); e, finalmente, Ari fundou a agência de talentos Endeveour Agency e hoje é o dono da WME Entertainment, que gera receitas anuais entre 275 e 300 milhões de dólares e representa, entre outros artistas, Martin Scorsese, Charlize Theron, Jude Law, Matt Damon e Sacha Baron Cohen. Juntos eles recriam o mito do American Dream, como noutros tempos recriaram os Kennedy e os Rockfellers.


    O twist final nesta história é que a personagem de Ari Gold na série Entourage é claramente inspirada em Ari Emanuel, irmão do famoso médico e do poderosíssimo assessor de Obama. Para além das claras evidências físicas e de estilo (sim, Ari ‘o verdadeiro’, é também conhecido pelo abrangente emprego do seu vasto lexico sobre a injúria), mas também pelo facto de ambos, representarem na série e na vida real, Vin Diesel e Larry, e, mais significativamente, Mark Wahlberg, o produtor da série. Dizem os rumores que foi o próprio Ari Emanuel que escolheu Jeremy Piven para o papel, alegando que não aceitaria que mais ninguém o representasse na ficção. Afinal, por aquilo que se escreve das reuniões entre os três irmãos, bem se pode imaginar Ari ‘o verdadeiro’ exclamar para qualquer um dos outros: ‘Let’s hug it out, bitch!’





    * Uma vez que vivemos dias de crise, a rifa não oferece mais do que uma boleia e um gelado na praia caso se encontrem na minha área de captação. Caso contrário, vão ter com o senhor dos gelados e digam que fui eu que mandei. Pode ser que resulte!

    terça-feira, julho 14, 2009

    Balochistão - o conflicto invisível


    (O Baluquistao é o ponto de ligacao entre o Paquistao, o Irao e o Afeganistao. Al Jazeera)

    Em 1962, numa visita oficial ao Paquistão, Henry Kissinger, quando questionado sobre a rebelião armada no Balochistão respondeu: 'I wouldn't recognize the Balochistan problem, (even) if it hit me in the face.'

    Hoje, essas palavras reclamam desforra. A questão do Balochistão ainda não atingiu os EUA directamente na face, mas está cada vez mais perto disso, tendo já, por diversas vezes, tido oportunidade de deferir golpes indirectos sobre a política da região. Como foi referido anteriormente neste blog, o povo do Baluchistão, os Baloches, identificam-se como um grupo étnico (na sua larga maioria, Sunis Muçulmanos), que demanda, no mínimo, um estatuto especial dentro do República Islâmica do Paquistão e, no máximo, um território nacional autónomo. O sentimento generalizado da população face ao estado central foi resumido nas palavras de um dos líderes históricos do movimento, Nawab Akbar Bugti Khan: 'I have been a Baloch for several centuries. I have been a Muslim for 1,400 years. I have been a Pakistani for just over fifty.'

    Na verdade, os Baluches nunca quiseram fazer parte do Paquistão. Assim, desde a criação do estado paquistanês, os Baluches organizaram já cinco rebeliões armadas contra este: 1948 (logo a seguir à fundação do Paquistão); 1958-59; 1963-69; 1973-77; 2004-até hoje. Existem diversos factores que alimentam o nacionalismo Baluch: a homogeneidade linguística, o sistema tribal elaborado, a extrema pobreza da população mesmo em comparação com o resto do Paquistão (por exemplo, apenas 20% da população tem acesso a água potável contra 86% a nível nacional) e, curiosamente, uma enorme riqueza em minérios. Especialistas acreditam que no Balochistão se situam as maiores reservas mundiais de cobre (matéria-prima para maquinaria militar) e o estado é também rico em gás natural e ouro.

    Hoje, porém, a disputa adquire novos contornos de acrescida importância para a política externa dos EUA naquela que é uma das regiões mais explosivas do mundo. Em primeiro lugar, o Baluchistão fica a meio caminho entre o coração do Paquistão; o problemático sul do Afeganistão; e o este do Irão. Instabilidade dentro do Balochistão significa também instabilidade em qualquer um destes países, o que em alguns casos pode até ser bem-vindo (Irão), mas noutros (Paquistão e Afeganistão) é absolutamente indesejável. A rebelião Baloches tem tentáculos em todos estes países, e ontem mesmo, foram executados no Irão 12 membros de um suposto grupo terrorista Baloche. Em segundo lugar, é exactamente na província do Baluchistão que se situa hoje a maior população de refugiados do mundo, Afegãos, na sua maioria Pashtuns. Esta situação tem vindo a contribuir não só para a deterioração dos problemas sociais e económicos da província, mas também para gerar um conflito de natureza étnica entre Baluches e Pashtuns - inquietante, no contexto fragmentado do Paquistão. Por fim, existe também o projecto de 2 biliões de dólares financiados por capital chinês no porto de Gwadar, estrategicamente situado no mar Arábico, que envolve também a construção de uma auto-estrada até o hub comercial do Paquistao, Karachi. Para além de ser foco de instabilidade entre a população Baloche (que vê a sua riqueza escoada para as províncias mais ricas do Paquistão, o Sindh e o Punjab), o projecto demonstra que os Chineses têm interesses no Baluchistão.

    Não, o problema do Baluchistão ainda não embateu na face dos EUA, mas tudo se encaminha para que um dia o faça.


    * O problema Baluchistão é tao remoto que foi impossível descobrir a forma correcta do nome da província em português. Em inglês, é Baluchistan. Em português, deveria ser Baluquistao. Todavia, os únicos hits que tive quando fiz uma procura no google.pt foi com o nome Baluchistao, portanto decidi usar essa terminologia. Caso conhecam a forma correcta de escrever este nome nao deixem de a partilhar. Obrigado!


    sábado, julho 11, 2009

    De um assassínio e dos entendidos que comentam no Público



    (Ilan Halimi assassinado no dia 13 de Fevereiro de 2006. AFP)


    Ilan Halimi, judeu de origem marroquina, era apenas alguns meses mais velho do que eu. Olhando para imagens dele, dir-se-ia que partilhamos até algumas parecenças físicas. Porém, ao contrário do meu, o futuro de Ilan foi violentamente roubado aos 23 anos de idade. No dia 20 de Janeiro de 2006, Ilan, até aí vendedor numa loja de telemóveis em Paris, foi aliciado até um apartamento no subúrbio de Bagneux por uma rapariga de origem iraniana chamada Yalda. Nesse apartamento, Ilan foi atacado por um gang juvenil, os auto-intitulados ‘Bárbaros’, e torturado ao longo de 24 terríveis dias. Os captores pediram à família de Ilan um resgate de 450,000 euros, mas à medida que se tornava cada vez mais evidente que a família de Ilan não conseguiria reunir esse dinheiro, o suplício de Ilan tornava-se pior: foi repetidamente espancado, esfaqueado e queimado, não só pelos membros do gang, mas também por outros membros da comunidade que acorreram ao apartamento para observar e participar no massacre. Finalmente, os ‘Bárbaros’, maioritariamente de origem muçulmana, decidiram despejar um líquido inflamável sobre Ilan e pegar fogo ao seu corpo. No dia 13 de Fevereiro, Ilan foi encontrado nu, amarrado a uma árvore junto a uma via-férrea dos arredores de Paris. Morreu a caminho do hospital.

    O caso chocou a França e levou o então Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, a acautelar contra o anti-semitismo na sociedade. Os ‘Bárbaros’ acabaram por ser encontrados e capturados e 27 indivíduos (incluindo um luso-descendente, Jérôme Ribeiro) foram constituídos arguidos. O julgamento chegou ao fim na passada sexta-feira, sendo que o cabecilha do grupo, Youssouf Fofana, foi sentenciado a prisão perpétua, o que em França significa um mínimo de 22 anos de enclausuramento.

    Agora, imaginem que tinham acabado de ler esta notícia no site do Público – ela foi publicada nas mesmas linhas que este artigo com o título - França: homem acusado de matar jovem judeu condenado à pena máxima – e o género de reacções que ela causaria em vocês. Choque? Repugnância? Revolta? Pesar?! Ora, depois de ler a notícia, o comentador identificado com o nome Abu da Lixa, decidiu escrever:

    “Tantos crimes hediondos cometem os judas e nenhum é condenado!...440 crianças assassinadas na Palestina por esses criminosos/assassinos!!!”

    Não lhe terá ocorrido que o ‘judas’ neste caso não era criminoso, nem assassino, muitos menos merecia ser condenado ao destino trágico que teve, mas sim a vítima de um crime hediondo. Ao ler este comentário, o leitor identificado com o nome TNT, predispor-se a vestir a capa de justiceiro:

    “NTN Abu: O teu comentario antisemita e racista esta poluir este site.”

    Porém, arranjou logo mais um inimigo porque dois minutos mais tarde, às 15h11 de uma pacata tarde de Sábado, o comentador Amadis de Setúbal escreveu:

    “TNT, NTN, pá , desde quando clamar por Justiça pela morte de centenas de crianças é anti-semitismo e racista? Tristeza de comentário o teu...não deves ter filhos.”

    A partir deste ponto já mais ninguém travou a discussão. O mais interessante é que estas discussões rapidamente adquirem o tom de discussão de café, como se Amadis, TNT e Abu fossem primeiros nomes perfeitamente normais em Portugal, e como se um estivesse atrás do balcão a contar os trocos e o outro estivesse sentado sozinho na mesa do canto, com o jornal de desporto aberto à sua frente. No entanto, temos dúvidas se os comentadores teriam coragem de fazer certas afirmações, caso estivessem confinadas no mesmo espaço e já se conhecessem ‘de ginjeira.’ Assim, às 15h45, a conversa rumou para águas mais agitadas com o seguinte comentário de Amadis:

    “o meu caso é clínico mas não cínico. Curem-se, virgens ofendidas. O Abu comentou. Por que motivo lhe chamam nomes? Lá vou ter de vos chamar socialistas-fascistas, não admitem opiniões contrárias, são de uma arrogância extrema ! Não passam de carneiros sem cérebro.”

    Entretanto, o nível da conversa estava tão elevado que os outros clientes, que entretanto chegaram ao café-virtual do Público, não resistiram a entrar na discussão. Por exemplo, às 16h58, o Hugo da Terra do(s) Luís(es) – não me perguntem de onde esta gente arranja a criatividade para conceber alcunhas e locais tão engraçados – demonstra perspicácia e acusa:

    “Abu eu com esse nome posso bem associar-te ao islão, e se tiver uma mentalidade retrógada como a tua, em que não consiga distinguir atitudes e pessoas, posso dizer que tu és um inimigo do ocidente, que não aceitas o nosso modo de vida e consideras-nos infiés, ao ponto de não te importares de nos matar, pois a nossa vida não vale nada. Se todos fossemos assim tão retrógados, qq muculmano seria morto e perseguido. A tua sorte é que para este exmplo que dei, sabemos que Islãonão é a violência que uns poucos malucos apregoam. É difícil para ti veres o mundo assim, como ele é??Cprs”


    (Os caminhos misteriosos da opinião pública... Cartoon de John Doyle)

    No ensejo de mediar a contenda, às 18h28, joaorapace chega a duas conclusões fundamentais: o Público não pesquisou bem a notícia e nenhum dos outros comentadores conhece o tema com a seriedade que merece. Decide então, no formato condensado de um comentário, dissertar sobre as falácias do artigo, as origens étnicas do anti-semitismo, o anti-semitismo de Hitler, os motivos do crime, o conflicto israelo-árabe, a identidade judaica contemporânea e ainda lhe resto espaço para fazer uma acusação aos restantes leitores:

    “Este artigo tem erros. Youssouf Fofana será árabe ou berber logo se é no primeiro caso não podemos estar a falar de antisemitismo porque também os árabes são descendentes de Sem tal como os judeus. Se é no segundo caso os berberes apesar de não serem ascendentes de Sem nos tempos pré islâmicos foram convertidos ao judaísmo e depois mais tarde converteram-se ao islão. Logo também não podemos falar de antisemitismo. Antisemitismo foi o que fez Hitler e os alemães que não sao povos semitas e aniquilaram como selvagens 6 milhões de inocentes. Quanto à questão palestiniana esta também é complexa e de difícil resolução. A Onu atirou o problema de cá para lá, lavando as mãos. O motivo de Youssouf era dinheiro 450 mil euros tem sentido porque mais uma vez a ideia é quase sempre a mesma, motivos monetários e não razões de crianças palestinianas que eu também lamento, claro. O pessoal que aqui escreve é que leva isto não sei para onde, conjecturando, afirmando quando as razões são tão óbvias. Quanto ao resto parece-me que os judeus ainda hoje são sinónimo de diferentes, quando a única diferença é o facto de serem uma minoria religiosa em relação a outras. Este pessoal inventa...”

    Pouco depois a Maria de Berlim, acusa o Público de ser pró-Israel, uma ideia tão absurda que era capaz de fazer o Ariel Sharon levantar-se da sua coma:

    “O publico é um jornal pro-israel, ou pelo menos o seu director é-o de uma maneira quase doentia (lembro-me bem do tipo de artigos de opinião que escreveu durante a guerra do Libano de 2006 e dos titulos tendenciosos escolhidos para as noticias).”

    Ás 18h45, o adr de Amesterdão conclui que os judeus ainda não foram suficientemente condenados e que é preciso abrir os olhos ao pessoal:

    “esta malta que esta no estrangeiro falam duma maneira que me da a ideia que nào sabem ainda onde estào.os maiores piratas sào os judeus.ja disse isso varias vezes esperiênçia propria. ......querem tudo so para eles.o hitler sabia o que eles era ou não fosse ele meio judeu imaginem se fosse judeu a 100%.abram os olhos.80%da população mundial esta a ser explorada por judeus.abram os olhos.e a maioria dos imigrantes que falam mal de portugal e dizem que em frança é que e'bom ou alemanha ou holanda ou belgica ou noutro lado qualquer essas pessoas são autenticos escravos.viva portugal.quanto a noticià sem comentarios.viva portugal.subscrevo-me adr.”

    Por fim, um leitor identificando-se como o Tono da Merdaleja (pensa-se que terá escolhido este nome de livre e espontânea vontade..) coloca-se do lado do bom-gosto e compara o Público ao jornal da TVI– ninguém lhe terá dito que no resto da Europa o caso tem sido amplamente discutido nos meios de comunicação:

    “Fica um bocadinho mal ao Publico escrever uma noticia destas... É que notoriamente so aparece aqui porque o assassiado era judeu. Se nao o fosse ja nao seria noticia. Estas tendências semitas é que poderão criar o anti-semitismo. Para mais quem escreve a noticia não consegue disfarçar a sua "tendencia". Nao consegue nem sequer ser minimamente profissional e escrever uma noticia de opinião neutra. Fez questão de mostrar a sua posição. Mais uma Manuela Moura Guedes... Ja disse e repito. Nao tarda muito e este jornal está pior que o 24horas.”

    Quer dizer, fosse isto há um século atrás e estes mesmos comentadores reprovariam a decisão do Público de publicar o caso de Dreyfus (um oficial do exército francês, de origem judia, acusado e injustamente condenado por crime de traição). Também a França se sentia ameaçada e também o anti-semitismo existira antes. Porém, o desagrado que o caso gerou não foi suficiente para travar um dos capítulos mais crúeis da história da Humanidade. Segundo a opinião destes senhores, observariamos impassíveis os sinais do tempo. Acima de tudo, são hipócritas que não têm qualquer tipo de vergonha em exibir imparcialidade quando exigem isso do próprio jornal de onde recebem informação. Enfim…depois de ler estes e outros comentários fica-se com uma imagem muito triste de Portugal.



    FINAL

    terça-feira, julho 07, 2009

    E se Ronaldo nao fosse Português...

    A apresentação de Cristiano Ronaldo no Real Madrid levou 80,000 adeptos ao Estádio de Santiago Bernadeu. Em Portugal, segundo li hoje no Público, os canais de televisão aproveitaram para dar uma injecção de Ronaldo ao público, o que lhes mereceu uma nota negativa do jornal. A verdade é que muitos Portugueses estão já pelos cabelos com o Cristiano, as suas 'Cristianitas' e o exército de discípulos com brinquinho na orelha e boné na cabeça. Recentemente, num jantar de portugueses e estrangeiros, a conversar adoptou um tom subitamente sério quando me perguntaram se gostava do Ronaldo: eu sentia que não, mas queria dizer que sim e, ao mesmo tempo, sentia que sim, mas queria dizer que não. Enfim, como diria o próprio Ronaldo no seu português nasalado: 'Não há palavras para explicar....' Vai daí, e perante a 'nossa' dificuldade em aceitar aquele que é de momento, o português mais reconhecido em todo o mundo, decidi fazer um exercício em transmutação de identidade e imaginar como reagiriam os outros povos caso o Ronaldo fosse um deles.


    Se Ronaldo fosse Inglês: A sua apresentação ontem no Real Madrid teria aberto o noticiário da ITV, do Channel 4 e prefiguraria num lugar de destaque no noticiário da BBC; o 'The Sun' traria hoje estampado na capa uma fotografia dele a fugir dos adeptos que invadiram o relvado, sobre o título: 'Get your hands off our boy'; o 'The Guardian' dedicaria grande parte da secção do desporto ao percurso do futebolista e contaria com uma coluna de Kevin McCarra ('Ronaldo may well be the best player in the world, but he still has a lot to learn') e de Russell Brand ('Ronaldo's departure to Spain means more ladies for me!').

    Se Ronaldo fosse Espanhol: Os Reis de Espanha estariam presentes ontem no Estádio de Santiago Bernabéu; a revista Hola! apresentaria na capa uma entrevista com a irmã de Ronaldo, por essa altura já estrela de pop consolidada no mercado nacional e na América Latina, com o título: 'Liliana Cátia, 'La Ronalda', muy ilusionada con el regresso de su hermano'; nas ruas de Barcelona, queimar-se-iam imagens de Ronaldo e mais tarde haveriam confrontos entre adeptos de futebol e as forcas policiais; no programa Aquí hay tomate da Telecinco uma 'amiga pessoal' do jogador revelaria em directo que ele a teria pedido em casamento na noite de domingo.

    Se Ronaldo fosse Brasileiro: o Estádio de Santiago Bernadeu estaria vestido de verde e amarelo e haveria tambores em vez de cornetas; Ronaldo acabaria o discurso a agradecer a Jesus, Yemenjá e a Alá; o Ministro brasileiro da cultura seria ofuscado pela rapariga loira sentada ao seu lado; nos meios de comunicação internacionais, a notícia seria alternada com imagens da infância pobre do menino numa favela do Rio de Janeiro, flashes de sambistas e lances de futebol; Dunga causaria apreensão ao afirmar que o lugar de Ronaldo na próxima 'Copa do Mundo' não estaria assegurado'; uma miúda de sete anos no Estado de São Paulo teria batido o recorde do Guiness ao cozer a maior camisola de futebol, com o número de Ronaldo no Real Madrid, feita inteiramente de trapos.

    Se Ronaldo fosse Marroquino: a entrada no Estádio estaria interdita a não-sócios; nos subúrbios a norte de Paris começaria uma guerrilha urbana; por todo o Médio Oriente colar-se-iam imagens de Ronaldo nos vidros dos carros, nas entradas dos restaurantes, hotéis e lojas, nos postes de electricidade e nas paredes das casas; as Nações Unidas fariam dele um Embaixador da Boa Vontade para o mundo de expressão árabe; os mullahs no Afeganistão pronunciariam uma fatwa sobre o jogador acusando-o de participar num jogo blasfemo, de estar rodeado por infiéis e de ser um mau exemplo para a juventude; Ronaldo já estaria casado e teria cinco filhos.

    Se Ronaldo fosse Alemao: ninguém em Espanha iria ao Estádio e ninguém na Alemanha ligaria muito à notícia - para além dos portugueses, isto é!

    segunda-feira, julho 06, 2009

    Uma dieta para o Parlamento Europeu



    (Política à moda Europeia segundo Khalid Bendib.)


    Os sintomas são inequívocos: o Parlamento Europeu está doente. Perdeu vigor, passa o dia sonolento e deixou escapar a vivacidade que tinha quando era jovem e toda a gente lhe achava muita piada. Até os melhores amigos o abandonaram e agora pode apenas contar com os poucos que precisam do seu bom-nome para atingir misteriosos fins. Nos últimos anos, vários foram os médicos que o observaram e encolheram os ombros em desistência. Os males são muitos e os tratamentos escassos e espinhosos. Porém, este clínico, que desde Fevereiro deste ano acompanhou de perto o paciente, acredita ter chegado a um diagnóstico conclusivo: a doença não é fatal, mas requer cuidados imediatos. Com efeito, o Parlamento Europeu padece de um caso de obesidade galopante que poderá em breve degenerar em graves impedimentos ao seu funcionamento 'normal'. As camadas adiposas que se têm vindo a acumular, nomeadamente na zona lombar e nos glúteos, exigem hoje uma dieta rigorosa que deverá acompanhar por um programa abrangente de exercício físico. Ficam então aqui as quatro regras essenciais do regime que o Parlamento Europeu deverá seguir:
    1. Redução do número dos deputados no Parlamento Europeu para metade: a nova sessão parlamentar deverá contar com 736 eurodeputados (passaram a ser 751 deputados caso o Tratado de Lisboa entre finalmente em vigor) – um número altamente inflacionado quando comparado com os actuais poderes e funções de cada um deles. Basta uma visita ao website do Parlamento Europeu (http://www.europarl.eu/) para se perceber que mais esforços foram gastos à procura de comissões e delegações para tantos representantes do que na criação de um website acessível que ajude os cidadãos a compreender o que anda tanta gente a fazer entre Bruxelas e Estrasburgo. A título de exemplo, na Casa dos Representantes dos EUA existem apenas 435 deputados.

    2. Estabelecimento de um sistema de supervisao e acompanhamento das actividades dos eurodeputados: Quando os políticos e analistas se perguntam porque os cidadãos europeus não acorreram às urnas, amiúde se esquecem que muito poucos sabem quem são os seus eurodeputados, quem são e como funcionam os partidos políticos europeus e, muito menos sabem quais são as suas precisas funções. Com efeito, remendar o tão discutido 'deficit democrático' das instituições europeias passa por informar os cidadãos das funções específicas de cada deputado. Para além do mais, atenuaria a actual atitude de isenção e irresponsabilidade de alguns (muitos!) deputados que aproveitam o mandato para viajar (à custa do contribuinte europeu...) e não para estudar e propor novos projectos legislativos. Casos como o de um eurodeputado italiano que tem o escritório no Parlamento Europeu absolutamente vazio (nem sequer uma mesa tem, lá dentro) porque nunca vem a Bruxelas nao sao raros – no entanto, podem reclamar o ordenado como eurodeputado, os salários dos seus assistentes (não existentes) e subsídios de viagem. Como foi sugerido recentemente na rubrica Charlemagne do The Economist, esse novo sistema poderia passar por uma conciliação entre os membros do Parlamento Europeu e os membros dos respectivos Parlamentos nacionais, por exemplo pela obrigatoriedade da apresentação de relatórios mensais dos eurodeputados nas assembleias nacionais. Resta mencionar que o modelo actualmente empregado de avaliação dos Eurodeputados, através da contabilização das suas intervenções no Parlamento, não toma em conta a qualidade dessas intervenções – um deputado pode intervir muitas vezes no Parlamento, sem, no entanto, fazer qualquer substantiva contribuição. Entre os meus colegas gregos é bem conhecido o caso de um Eurodeputado prolixo que intervinha para sugerir que a sede do Parlamento se mudasse para Atenas (uma ideia, de resto, muito popular entre o público grego).

    3. Reforma do sistema de despesas dos eurodeputados: Este é o ponto central da dieta prescrita para o Parlamento Europeu, uma vez que ataca muito os depósitos sebáceos que se concentram na zona das coxas e dos glúteos. Até agora os membros do Parlamento Europeu eram pagos de acordo com os salários das respectivas câmaras baixas dos seus países, mas o novo estatuto dos eurodeputados (que deverá entrar em vigor no final deste ano) estipula um salário igual para todos os eurodeputados de €92,000. O problema aqui não é tanto o valor dos ordenados, como o montante em despesas que os eurodeputados podem reclamar: em viagens, em secretariado; em manutenção dos escritórios; em subsídios de deslocação; etc. Na sequência do escândalo das despesas no Reino Unido, parece extraordinário que ninguém tenha se lembrado de fazer uma investigação do género no Parlamento Europeu; a verdade é que o estatuto dos Eurodeputados, de novo ratificado no Parlamento Europeu em Marco de 2009, permite-os manter em segredo as suas despesas. No entanto, existem alguns rumores de que os eurodeputados conseguem acumular até 2 milhões de euros em salários e despesas: como foi noticiado este ano pela BBC de acordo com um estudo do Tax Payer's Alliance (TPA); no artigo 'How to make a million in five years (become a Euro MP)'; e por própria admissão de Nigel Farage, líder do partido eurocéptico britânico, UKIP, de que teria reclamado 2 milhões de libras (dá para perceber que os ingleses têm queda para este tipo de investigações). Uma práctica muito em voga neste momento entre os Eurodeputados é aproveitar apenas parte dos estipêndios para assistentes parlamentos e guardar para si ou direccionar o resto do montante para os seus respectivos partidos políticos.

    4. Abandono do assento do Parlamento Europeu em Estrasburgo: Um facto vastamente desconhecido entre os cidadãos europeus é que apesar das despesas em trazer 785 eurodeputados para Bruxelas todas as semanas + os seus assistentes, muitas vezes quatro ou cinco + os funcionários permanentes do Parlamento Europeu em Bruxelas, desde segurança, a tradutores, a representações permanentes de cada país – o Parlamento Europeu não se reúne em plenário, isto é, todos juntos, nesta cidade. Em Bruxelas têm apenas lugar as reuniões das diferentes comissões e algumas sessões parlamentares (geralmente meramente formais, como a presença de um chefe de estado). Essas sessões plenárias tomam apenas lugar 12 vezes por ano, geralmente uma em cada mês, no hemiciclo em Estrasburgo. Em cada uma delas, os Eurodeputados e, em geral, um dos seus assistentes mudam-se de malas e bagagens para Estrasburgo num TGV especialmente requisitado para o propósito. Esta operação custa uns módicos 203 milhões de euros anuais aos contribuintes europeus. Porém, não desesperem! Existe um motivo para esta peregrinação mensal: Estrasburgo situa-se na Alsácia, na fronteira entre a Franca e a Alemanha, e o assento do Parlamento Europeu na cidade justifica-se pelo seu simbolismo no plano da paz e da unificação europeia. Numa altura de crise, em que os eurodeputados se apressaram a convidar os seus eleitores a apertar os cintos, parece curioso que ninguém se tenha lembrado também de abandonar simbolismos frívolos na União Europeia.

    5. Dieta rigorosa para as despesas de funcionamento do aparelho de Bruxelas: Numa instituição com a dimensão do Parlamento Europeu, o desaproveitamento de fundos é provavelmente uma inevitabilidade. Não duvido que o mesmo se passe nas outras grandes instituições democráticas do mundo. Porém, julgo que existe um limite para tudo e esse limite no Parlamento Europeu já foi ultrapassado. Um dos casos a mencionar são as vernissages e os cocktails que decorrem no Parlamento ao fim da tarde: julgo que o princípio para estes eventos foi conceder aos estados membros e às suas populações uma plataforma para divulgar a sua cultura. Todavia, essa ideia tem sido agora levada ao extremo com vários eventos a decorrer no edifício do Parlamento no mesmo dia, frequentemente competindo entre si pelo público volátil (assistentes parlamentares) que oscila entre a banda mais sonora, a maior oferta de vinhos e os canapés mais exóticos. Por vezes, os eventos começam antes das seis e meia, hora oficial da conclusão das actividades parlamentares; outras vezes, eles acabam em desgraça devido à ganância dos presentes. Outro caso gritante de desperdício e falta de planeamento foi também o da merchandising das Eleições Europeias de 2009: caixas e caixotes 'Made in China' aterraram nos corredores do Parlamento Europeu apenas duas semanas antes do fim-de-semana das eleições. Conclusão, a grande maioria da merchandising acabou por nunca chegar às mãos dos eleitores e hoje está aqui, empilhada em caixas até ao tecto, dentro dos escritórios dos eurodeputados (fomos obrigados a retirá-las dos corredores porque impediam a passagem). Num caso como no outro, mais do que o desgasto dos fundos europeus, o problema é sobretudo a cultura que estas situações nutrem nos funcionários europeus. Se até os mais magros se tornarem obesos, o Parlamento Europeu terá grandes dificuldades em alguma vez curar-se dos males que sofre.

    sábado, julho 04, 2009

    Porque se retira Sarah Palin?

    A demissão de Sarah Palin como Governadora do Alaska apanhou todos de surpresa. Da mesma forma que irrompeu na cena política americana em Setembro do ano passado, a 'hockey mum' parece agora convencida a correr a cortina e abandonar o palco. No comunicado da demissão, Palin, no seu melhor estilo, falou sobre tudo, desde do baseball aos desafios energéticos do século XXI, excepto sobre os motivos concretos que a levaram a tomar a decisão. Porém, nas entrelinhas do discurso poderia entender-se que a Governadora desejava responsabilizar os meios de comunicação pela decisão.

    De qualquer forma, ninguém acredita que a pressão dos media fosse suficiente para derrubar Palin. Assim, poucos minutos após a revelação da decisão, a comunidade online estava povoada por rumores sobre os possíveis motivos da retirada inesperado de Palin. O mais quente era que Palin teria se demitido para preparar a candidatura presidencial pelo Partido Republicano em 2012. No entanto, vários comentadores políticos lembraram que a demissão de Palin poderia ser mais prejudicial do que benéfica para as suas aspirações presidenciais, uma vez que poderia servir de fundamento a críticas de oportunismo e incoerência. Outro rumor na Internet é que Sarah Palin recebeu uma ‘proposta que não poderia recusar’ da Fox News para apresentar um programa: alguns comentadores disseram que, depois da campanha presidencial de 2008, o Alasca tinha-se tornado demasiado pequeno para Palin, que agora pretendia começar uma carreira à escala nacional. Para a antiga Miss, um programa de televisão poderia ser também um excelente ponto de partida para uma posição política de destaque. Por fim, foi também mencionado que Palin abandonou o cargo para travar as novas investigações sobre o caso ‘Troppergate’ em que Palin e o seu marido eram ambos acusados de abuso de poder por forçarem a demissão do ex-marido da irmã da Governadora. Numa altura em que os seus ratings de popularidade atingiam os níveis mais baixos, Palin poderá ter tomado a opção política de estancar a corrente negativa neste ponto e iniciar uma nova fase.

    Seja qual for o motivo, podemos ter a certeza que (infelizmente, a meu ver) esta não será esta a última vez que ouviremos o nome de Sarah Palin.



    quinta-feira, julho 02, 2009

    BBC aplaude política anti-drogas em Portugal

    A publicacao destes resultados já nao é nova. Desta feita, é o site BBC News que aplaude os resultados positicos da política anti-drogas comecada durante o governo de António Guterres. O jornalista é Mark Easton.

    terça-feira, junho 30, 2009

    A morte do Rei


    (Michael Jackson visto pelo artista norte-americano Jeff Koons. Uma retrospectiva do artista será inaugurada amanha na Serpentine Gallery em Londres)


    Michael Jackson morreu na semana passada aos 50 anos de idade. Autor, produtor, actor, cantor e sobretudo dançarino, Jackson foi o Rei da Pop mas será também para sempre o retrato mais bizarro do 'American Dream'.

    Nascido em 1958 nos subúrbios industriais de Chicago, Jackson actuou pela primeira vez em público com apenas cinco anos num recital de Natal. Desde de então, nas produções familiares do pai - os Jackson Brothers, os Jackson Five e The Jacksons - ou a solo, Jackson nunca mais abandonou a esfera pública. Observando antigas gravações do Ed Sullivan Show é impossível não ficar cativado por aquele menino simpático, de olhos vivos e sorriso gigante, que gira sobre si próprio como um pião, estica braços e pernas como se fossem de plasticina e canta com a genuidade e harmonia que escasseiam em muitas estrelas adultas.






    Mais tarde, quando quis cortar os laços com o pai, figura aterradora ao longo dos primeiros anos de vida, para criar uma carreira à sua medida, Jackson inspirou-se na única certeza que porventura detinha sobre si próprio - a sua singularidade. Criou então a imagem de ser supra-natural. Primeiro foi a participação no filme E.T., depois o vídeo Thriller em que se transformava num monstro, os passos de dança que desafiavam a gravidade (o mais conhecido, apropriadamente intitulado 'moonwalk'), as sucessivas cirurgias plásticas, a amizade com macacos e crianças, o embranquecimento da sua pele, os rumores de que dormia numa câmara de oxigénio, a extravagância do rancho de Neverland, as cada vez mais fugazes e misteriosas aparições públicas.

    Os dois primeiros discos, Off the Wall e Thriller, lançados em 1979 e 1982 respectivamente, fizeram história musical. O som de Jackson, elaborado em parceria com o lendário produtor Quincy Jones, correspondia a uma mescla entre o passado, o presente e o futuro (como mais tarde ele apelidou um dos seus álbuns), entre o R&B, o Disco e o Rock, entre a música negra e a branca. Na medida em que fundiu estas tendências num só estilo e tornou-o acessível ao público em geral, Michael Jackson popularizou a MTV e transformou a música Pop para sempre.

    Porém, o âmago do mediatismo de Jackson, a particularidade que cultivava para sua si próprio, seria também a origem da sua decadência. Nos anos 90, Jackson foi acusado de abuso sexual de um menor e hoje diz-se que deverá ter sido por volta desta altura que começou a tomar comprimidos. A este caso sucedeu-se o casamento um tanto ou quanto opaco com a filha do outro Rei, Lisa Marie Presley. Pouco depois, Jackson apanhou todos de surpresa ao anunciar a gravidez da dermatologista e enfermeira Deborah Rowe. Juntos tiveram dois filhos: Michael Joseph Jackson Jr. e Paris Michael Katherine Jackson. Aos poucos, o Peter Pan dos anos 80 tornava-se no 'Wacko Jacko' da segunda metade dos anos 90.







    Em 2001, Jackson lançou o seu último álbum, Invincible, e o seu último single 'You Rock My World' não alcançou o sucesso esperado. Jackson parecia incapaz de transformar a sua imagem e adaptá-la ao público do novo milénio. Na primeira década do novo século, sucederam-se os eventos bizarros como quando baloiçou o terceiro filho (Prince Michael Jackson II) da varanda de um hotel em Berlim ou o documentário com Martin Bashir, Living with Michael Jackson. Por fim, veio a desastrosa segunda acusação de abuso sexual de um menor. Forçado a comparecer em tribunal, Jackson demonstrava-se cada vez mais excêntrico e débil. Absolvido, Jackson continuou a ocupar os escaparates dos jornais e revistas internacionais, sobretudo devido aos seus problemas económicos. Em 2006, foi forçado a fechar o rancho de Neverland. Recentemente, preparava-se para fazer um antecipado retorno aos palcos, com uma agenda marcada para 50 concertos sucessivos em Londres.

    Muito já se escreveu sobre a morte de Michael Jackson: que foi vítima do sensacionalismo da imprensa; que foi vítima dos abusos que sofreu enquanto criança; que foi vítima do seu próprio sucesso. A meu ver, Jackson personificou como ninguém os anseios das massas na segunda metade do século XX: ele estimulou a nossa fome, ou pelo menos a nossa curiosidade moderna, pelo híbrido: entre o Homem e a Mulher; entre o Preto e o Branco; e, acima de tudo, entre o Humano e o Extraterrestre. Michael Jackson não queria apenas ser o Rei da Pop; ele ambicionava tornar-se num Deus. Fez tudo, ou quase tudo, para atingir esse fim. Porém, os Deuses (ou outros!) tinham uma última rasteira reservada para ele quando o mataram aos 50 anos com um ataque cardíaco fulminante em casa. Imagino que essa seria a última morte que quereria para si. No final, Michael Jackson não foi Deus, mas apenas o Rei da Pop. Adeus!



    END